segunda-feira, 27 de outubro de 2025

João Filho: Chega de passar pano para o golpismo e as ameaças dos filhos de Bolsonaro

Para a surpresa de ninguém, a Comissão de Ética da Câmara, de maioria bolsonarista, arquivou o pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, pela sua atuação nos Estados Unidos contra as instituições brasileiras.

Para o relator do caso e amigo de Eduardo, o delegado Marcelo Freitas, do União Brasil de Minas Gerais, não houve quebra de decoro pois as ações de Eduardo estão dentro do exercício da liberdade de expressão parlamentar. Essa imensa cara de pau também foi compartilhada pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, que deixou claro que irá “proteger o mandato de Eduardo Bolsonaro até o fim”.

O filho do ex-presidente chegou a confessar que abandonou o mandato e foi para os EUA com um único objetivo: conseguir apoio de Donald Trump para pressionar as instituições brasileiras e livrar o papai Jair da cadeia. “Eu abri mão do meu mandato. Estou aqui nos Estados Unidos exclusivamente para essa pauta”, admitiu Eduardo, em agosto.

Mesmo diante de tantas provas e até de uma confissão, a Comissão de Ética se fez de sonsa mais uma vez. Em menos de 24 horas, a Câmara livrou a cara de Eduardo, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, cometeu mais um crime de lesa-pátria, honrando a tradição da família.

O secretário de Guerra dos EUA, Peter Hegseth, anunciou mais um ataque ilegal do exército estadunidense a um barco que supostamente transportava drogas no oceano pacífico. Flávio se emocionou com tamanha demonstração de poder e correu balançando o rabinho para o Tio Sam.

Em resposta ao secretário americano no X, o senador escreveu, em inglês: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”.

Lembremos que Flávio é considerado o melhorzinho entre os Bolsonaros. Ele seria o mais pragmático, o mais moderado, o mais equilibrado entre eles. A fala é repugnante e mostra um grau de vassalagem que talvez não haja em nenhuma outra extrema direita do mundo. O patriotismo dos ultranacionalistas brasileiros é bastante peculiar, como se sabe. 

É preciso tratar a fala com a gravidade que ela merece. Desde que o bolsonarismo ascendeu na política brasileira, o debate político nacional foi soterrado com uma quantidade tão grande de absurdos que acabamos por ficar anestesiados. Não é possível que mais um ataque contra a soberania nacional fique impune mais uma vez. 

Sob pretexto de combater o tráfico de drogas no estado pelo qual foi eleito, um senador da República pede publicamente a uma autoridade dos EUA que faça uma intervenção militar para matar traficantes. Esse homem preocupado com a segurança pública no Rio de Janeiro é o mesmo que, até sete anos atrás, empregava em seu gabinete a mãe e a esposa do chefão do Escritório do Crime — uma milícia carioca.

Flávio pede ajuda estrangeira como se não fosse do grupo político que, há anos, é responsável pela segurança pública do Rio de Janeiro. Tanto o atual governador, Cláudio Castro, quanto o anterior, Wilson Witzel, são crias legítimas do bolsonarismo.

O senador está com inveja do quê, exatamente? Das execuções sumárias feitas de forma extrajudicial, sem apresentar provas de que os assassinados eram traficantes? Ora, isso a polícia do Rio de Janeiro já faz com excelência há muito tempo. A milícia também, como muito bem sabe o senador.

Nenhum país pode usar força letal em águas internacionais sem base legal adequada. Mesmo que todos os mortos sejam comprovadamente traficantes, os EUA cometem um crime ao violar o direito internacional do mar. Já foram mais de 30 mortos em ações do exército estadunidense e, em nenhuma delas, ficou comprovado que eram traficantes.

Para se ter ideia, em um dos ataques na costa da Venezuela, um equatoriano sobreviveu, foi repatriado, mas liberado em seguida no Equador por falta de provas. Os que morreram foram tratados como “narcoterroristas” sem direito à defesa.

É fácil explicar a inveja do senador com a desenvoltura que a “polícia do mundo” mata – um mundo em que suspeitos podem ser fuzilados sem leis e instituições democráticas para encher o saco é o mundo dos sonhos dos bolsonaristas.

A autocracia que Trump está construindo para si é a mesma que Bolsonaro tentou construir no Brasil. Perguntado se pediria aprovação do congresso dos EUA para declarar guerra contra os cartéis do narcotráfico, Trump nem tentou disfarçar o seu profundo desprezo pelos ritos democráticos: “Não acho que vamos pedir uma declaração de guerra. Acho que vamos simplesmente matar as pessoas que trazem drogas para o nosso país. Certo? Vamos matá-las. Elas vão ficar, tipo, mortas”.

No Brasil, prendemos o ex-presidente que conspirou contra a democracia. Nos EUA, o golpista foi absolvido e eleito em seguida. Mas ainda há muito o que ser feito por aqui. Os golpistas e traidores da nação ainda conspiram e contam com algum apoio popular — ainda que cada vez menos.

Por isso, as ameaças de guerra dos filhos de Bolsonaro não podem passar impunes. Não é razoável que falas criminosas como as de Flávio e Eduardo continuem sendo encaradas como meros arroubos de políticos falastrões. Não se tratam de bravatas, mas de gravíssimas ameaças contra a ordem democrática e a soberania do país.

E não esqueçamos dos currículos dos portadores dessas ameaças. Os Bolsonaros são uma família de golpistas que cresceu na política coligada com o crime organizado. Bolsonaro está preso e continuará por muitos anos, mas seus filhos seguem soltos e munidos de imunidade parlamentar para atormentar a democracia.

Por sorte, os interesses econômicos dos EUA fizeram Trump pisar fofo com o Brasil. Não fosse isso, o sonho da família Bolsonaro poderia estar muito perto de acontecer. Se os ataques na Baía de Guanabara acontecessem, Flávio viajaria para o Texas para, junto de Eduardo, assistir de longe cidadãos brasileiros sendo fuzilados sem direito à defesa.

Ou o país pune esses apátridas com rigor, ou continuaremos a vê-los ameaçando a nossa soberania e enfiando a faca no pescoço da democracia.

•        Avisem o marciano: a velha direita e o novo fascismo estão sem líder. Por Moisés Mendes

A extrema direita brasileira desmoralizou até a história do marciano que chega à Terra e pede para conhecer o líder. No Brasil, o marciano chegaria com uma curiosidade específica e pediria para ser levado não ao líder do país, porque ele já conhece Lula há décadas.

Pediria para conhecer o líder da direita. Nikolas Ferreira o encaminharia a Sóstenes Cavalcante. Sóstenes? Sim, foi o que sobrou, porque não há líderes nem no bolsonarismo nem na velha direita brasileira.

O antigo líder por quatro anos, da velha e da nova direita, está preso em casa à espera da decisão do STF sobre o lugar em que ficará encarcerado. Sóstenes é seu substituto.

Flávio Bolsonaro explicaria que Sóstenes é o único que tem líder antes do nome na direita, por ser líder da bancada do PL na Câmara. O resto não lidera nada. Direita e extrema direita estão sem líder no Brasil.

O marciano, tentando ser esperto, perguntaria por Aécio, Zema, Temer, Caiado, Eduardo Cunha, Ciro Gomes. Nikolas, sempre o mais falante, diria que Ciro está de volta para liderar um projeto desenvolvimentista. Mas não é líder, há muito tempo é apenas um meme.

Até Malafaia tentou ser líder e se cacifar como candidato a presidente, mas não foi levado a sério nem pelos evangélicos. Michelle é influencer sob as ordens de Deus, mas não é líder. Eduardo é apenas um trapalhão.

Se Trump decidir falar com o líder da direita brasileira, depois de se livrar de Eduardo, terá que se entender com Sóstenes. Não tem saída.

Nem Ciro Nogueira, nem Valdemar Costa Neto, nem Gilberto Kassab, nenhum deles é líder. São operadores da direita, chefes de rebanhos, mobilizadores de quadros médios e de ações da direita, mas não são líderes.

Ninguém sabe quem é Ciro Nogueira em Cacequi. Nunca ouviram falar de Kassab em Pacajus. Nunca ficarão sabendo quem pode vir a ser Valdemar em Joselândia.

O marciano, mais ou menos informado, perguntaria então, como quem não quer nada, por Tarcísio de Freitas. E ficaria sabendo que esse não emplacou como líder. Por ser fraco, por fazer piada infantil com Coca-Cola e por ter medo de enfrentar Lula.

Os participantes da reunião com o marciano, que gostariam de não ser identificados, passariam a falar mal de Tarcísio e admitir: ele não tem condições.

Tarcísio quer ser um tocador de obras, de parcerias do público com o privado, e mandar matar bandido pobre e negro. Só pensa em parcerias. Não é um líder. Se fosse, já teria convencido Bolsonaro e a direita de que tem condições de sucedê-lo.

O marciano diria que não quer se meter em questões internas do Brasil, mas deixaria uma sugestão. Se Lula é o grande líder brasileiro e se a direita não tem quem rivalize com ele, que a direita se fortaleça como time, que tente se organizar pelo coletivo em torno de uma ideia.

E o marciano pediria então uma boa ideia, uma só, que pudesse juntar o centrão e o fascismo em torno do antilulismo. E a resposta seria essa: a única ideia é voltar a tentar um golpe.

O marciano iria embora na sua nave da Starship de Elon Musk (o que seria a surpresa da visita), e a cena final teria Sóstenes acenando para um facho de luz no céu ao lado de Nikolas.

•        Ofensiva de Eduardo Bolsonaro fracassa e Trump percebe suas mentiras, diz Gleisi

A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República, Gleisi Hoffmann, afirmou, em entrevista ao Flow Podcast, transmitida pelo YouTube, que as tentativas do deputado federal Eduardo Bolsonaro de isolar o Brasil diante dos Estados Unidos fracassaram. Ela destacou que o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, passou a reconhecer a importância do Brasil e a notar as mentiras bolsonaristas.

Gleisi afirmou na entrevista que a manutenção do mandato de Eduardo Bolsonaro pela Câmara é inaceitável e marca um ponto de divergência significativo entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a Casa Baixa.

"Não tem conversa com alguns congressistas, mas temos projetos importantes que até eles votam, como a taxação das bets em 24%, que o próprio PL disse que vai apoiar, mas uma parte do Centrão não vai. Alguns temas podemos ter apoio, mas o posicionamento político é muito ruim, temos muitas divergências. Agora a Comissão de Ética livrou o Eduardo Bolsonaro. Isso não é sério. Como que tem um cara lá, com sua estrutura de gabinete custando ao Brasil, fazendo ações contra o Brasil, para taxar o Brasil? Isso é muito ruim para a Câmara, e temos divergência absoluta", disse a ministra.

Gleisi também negou, ao ser questionada, que Eduardo Bolsonaro tenha o 'cacife político' para reverter a reaproximação entre Washington e Brasília, "tanto que Trump recuou e disse que tem uma química com Lula e já marcou uma conversa para o dia 26".

"Eles [os EUA] estavam com informações erradas, tentaram vender isso, influenciaram e Trump aproveitou para impor suas taxas, com aquele papo de que não tinha democracia e de que [o ex-presidente] Jair Bolsonaro era perseguido. Depois ele viu que não era bem assim, que aquele pessoal estava mentindo, e de fato estavam mentindo, porque o processo judicial foi correto contra o Bolsonaro, com o devido processo legal. Eles viram que não tinha condições. O Brasil teve uma resposta muito boa a toda essa situação. Não foi sorte. Lula disse que negocia qualquer coisa do ponto de vista comercial, não a soberania, a justiça e o processo político interno", acrescentou.

De acordo com a ministra, Trump "sentiu" que o Brasil do presidente Lula negociaria de igual para igual com os EUA para reduzir o tarifaço de 50% aplicado contra produtos brasileiros. "Trump sentiu isso, que não podia romper com um país com o peso como o do Brasil", disse.

•        Flávio Bolsonaro e o navio da bancada cristã. Por Ricardo Nêggo Tom

Sigo em recuperação de uma cirurgia, mas os roteiristas da história política brasileira não me deixam descansar. Eu gostaria apenas de dizer que um homem recém operado não quer guerra com ninguém, mas preciso interromper o meu repouso relativo para falar sobre dois fatos que me chegam e que não podem me fazer adormecer a minha indignação, tal qual a anestesia raqui me fez adormecer da cintura para baixo durante o processo cirúrgico. Começarei pela “Bancada Cristã”, o início da condenação do país ao inferno evangélico na terra. E não foi por falta de aviso que estamos começando a ser devorados pela política diabólica neopentecostal e o seu projeto de poder social, econômico e cultural.

Há muito tempo venho escrevendo sobre as articulações políticas envolvendo a teologia do domínio, e suas ramificações dentro da nossa sociedade. A falsa ideia de um avivamento evangélico e de um chamado à conversão em “Cristo Jesus” que estaria contagiando os brasileiros, é uma ode à inteligência de Malafaia, digo, de Satanás. Nada se encaixa melhor no tal do “matar, roubar e destruir” atribuído ao diabo, do que o plano imperialista evangélico de dominação no Brasil. As igrejas viraram “churchs”, os pastores viram “coachs”, e Jesus virou uma espécie de eminência parda que legitima autoridades religiosas e políticas para fazer a “sua vontade” e lhe garantir a propriedade privada da antiga terra de Santa Cruz. O Jesus colonizador não é inédito na história deste país, mas a sua nova face neoliberal e teoricamente salvadora, é o que mais promove a adesão ao seu reino.

A bancada cristã terá uma estrutura de governança específica para o grupo, incluindo uma coordenação geral e três vices-coordenadorias. O projeto foi aprovado em regime de urgência com 398 votos a favor, dos quais 56 foram de deputados do PT. Uma prova que não basta ser de esquerda para defender a laicidade do Estado, algo que já me faz criticar o diálogo submisso do governo Lula com os evangélicos, sabendo que isto apenas ampliaria os seus poderes políticos. E parece que eu não estava errado. E vou além: Todo aquele que tem uma divindade como salvadora da humanidade, não respeita o Estado Democrático de Direito, porque a coloca acima de tudo e de todos. E o que eu falo não tem a ver com fé religiosa das pessoas - que merece todo respeito - mas com o sentido que é dado a esta fé no convívio com os demais em sociedade, e no respeito aos direitos individuais de cada um.

Se o deus que eu creio é o único digno de credibilidade, eu irei querer submeter aqueles que não creem no mesmo deus que eu ao meu julgo. E se eu tenho poder político para impor tal submissão, eu transformo o parlamento num tribunal de exceção em nome do meu deus, e passo a legislar em causa própria. E fica quase impossível não haver avivamento e conversão desta forma. Vale lembrar ainda que o texto do projeto propõe que o líder cristão participe e tenha direito a voto nas reuniões que definem a agenda de votação da Casa. Ou seja, em breve, estaremos ouvindo parlamentares dizendo que Jesus os mandou votar contra ou a favor de tal pauta ou projeto, e não caberá questionamentos.  O Congresso dará lugar a uma “Church Nacional” que decidirá os destinos de todos os cidadãos através de representantes de “Deus”, e não do povo, que promoverão um verdadeiro inferno cristão no país.

Na outra ponta do inferno que se avizinha, vejo Flávio Bolsonaro sugerir que os EUA bombardeiem navios supostamente cheios de drogas e traficantes, que costumam trafegar pela Baía da Guanabara. E isto também poderia ser feito com o apoio da bancada cristã, cujo alguns membros possuem estreitas ligações com a terra do tio Trump. A questão é saber se a destruição de algumas armas e drogas que abastecem comunidades geridas em conjunto pelo tráfico, pela milícia e pela igreja evangélica, não teriam prejuízos. Eu não sei se Jesus seria consultado nesta questão, mas acredito que ele aprovaria que os EUA bombardeassem algumas igrejas e ajudassem o Brasil a combater criminosos “do jeito certo”, como apelou o Senador bolsonarista. Afinal, já está aprovado que não combater a proliferação das empresas da fé no país, é incentivar a bandidagem.

Eu poderia falar sobre um possível processo de cassação do Senador Flávio Bolsonaro, mas seria escrever em vão. E já que o faço pelo celular, em meio ao meu repouso relativo, prefiro não me desgastar à toa ao lembrar que o Conselho de Ética da Church, digo, da Câmara dos Deputados acabou de arquivar o processo de cassação de Eduardo Bolsonaro - irmão do referido Senador - que está há alguns meses exercendo o seu mandato nos EUA conspirando contra o seu próprio país. Alguma dúvida de que a bancada cristã salvaria o mandato do seu irmão em Cristo Flávio Bolsonaro? Talvez a solução seja colocá-los dentro de um navio desses que Flávio diz que trafegam pela Baía de Guanabara, e deixar que eles se virem para explicar aos EUA como foram parar lá. Quem sabe cantando a “Melô do Marinheiro” dos Paralamas do Sucesso, ele convence a artilharia estadunidense de que entrou de gaiato no navio, e que tudo não passou de um engano?

Se não der certo, que eles fiquem por lá descascando batata e fritando hambúrguer no porão do navio, como castigo por sua traição à soberania do próprio país. O meu receio, na verdade, é que o Brasil se transforme num navio alvo de um ataque imperialista estadunidense, em função das diversas “bancadas” políticas e religiosas que vêm atuando para entregá-lo nas mãos dos interesses norte-americanos, acusando de serem “criminosos” aqueles que não se rendem ao projeto de domínio estabelecido como a salvação do país. Um projeto que tem céu e inferno muito bem definidos, assim como os habitantes que devem ocupar ambos os lugares. Oremos!

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

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