Como
as ferrovias foram 'destruídas' no Brasil
O dia
27 de setembro de 1825 marca o que é, até hoje, considerado o nascimento da era
ferroviária moderna.
Há 200
anos, foi inaugurada na Inglaterra a ferrovia Stockton and Darlington Railway
(S&DR), que ligava o Condado de Durham e a cidade portuária de Stockton.
Ela não
foi a primeira linha férrea a existir, mas foi pioneira no uso de muitos
recursos que se tornariam padrão no mundo todo, entre eles a utilização de
locomotivas a vapor para o transporte de carga e passageiros.
No
Brasil, a primeira ferrovia só seria inaugurada em 1854: a Estrada de Ferro
Mauá, no Rio de Janeiro.
Desde
então, a malha ferroviária no país passou por diversos contratempos.
Atualmente, conforme os dados do Anuário Estatístico de Transportes, tem 32,3
mil km.
A BBC
News Brasil perguntou a especialistas em história e engenharia ferroviária o
porquê dessas dificuldades - sintetizado, a seguir, em quatro momentos.
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1. A crise do café
O café
é elemento central nos primeiros capítulos da história das ferrovias no Brasil
- tanto na ascensão quanto na decadência, como explica Eduardo Romero de
Oliveira, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
É a
razão para a construção das primeiras estradas de ferro no século 19: a
primeira delas, a Estrada de Ferro Mauá, que começou a operar em 1854, levava
em suas locomotivas a vapor a commodity do Vale do Paraíba ao porto de Magé, na
baixada fluminense, que, de lá, seguia de barco até a cidade do Rio. Nessa
época, o café representava quase 50% das exportações brasileiras.
A malha
ferroviária foi aumentando com a expansão da atividade cafeeira e passou a
deslocar também passageiros, que até então só conseguiam viajar longas
distâncias com transportes movidos por tração animal, como as charretes puxadas
por cavalos.
"Durante
muito tempo, as ferrovias foram praticamente a única via de transporte de
cargas e pessoas no país", destaca Oliveira, um dos pesquisadores do
projeto Memória Ferroviária.
E foi
nesse contexto que a malha chegou a quase 30 mil km de extensão na década de
1920, quando veio o baque da crise de 1929. O crash da bolsa nos Estados
Unidos, na época o maior comprador de café brasileiro, e a grande depressão que
se seguiu tiveram impacto direto sobre o Brasil.
Em um
curto espaço de tempo, as exportações da mercadoria despencaram, assim como os
preços. As ferrovias, que eram administradas pelo setor privado sob regime de
concessão, passaram a transportar cada vez menos carga e viram sua
rentabilidade despencar.
Tem
início, nesse momento, um período lento de decadência que culminaria na
estatização das estradas de ferro mais de duas décadas depois.
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2. JK e o nascimento da indústria automobilística
Antes,
contudo, outros dois fatores importantes entram em cena: o crescimento das
cidades e a popularização do automóvel.
O país
vive uma grande transformação depois de 1940. Até então baseada quase
exclusivamente na agricultura, a economia brasileira se volta cada vez mais
para a indústria. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale do Rio Doce,
então empresas estatais, são fundadas nessa época, em 1940 e 1942,
respectivamente, no último período do governo de Getúlio Vargas, a ditadura do
Estado Novo.
Essa
mudança na matriz de crescimento, por sua vez, catalisa um processo de migração
das populações de áreas rurais para as cidades. As capitais ganham uma nova
escala, vão inchando, um processo que tem como efeito colateral a diminuição da
demanda por trens de passageiros em alguns trechos menores, entre cidades
próximas.
"As
fábricas estão nas cidades", pontua Oliveira.
A
política de industrialização continua com o presidente Juscelino Kubitschek,
que assume em 1956 e elege a indústria automobilística como catalisador de seu
plano de desenvolvimento.
O Plano
de Metas de JK, que ganhou o slogan "50 anos em 5", é frequentemente
apontado como o início do chamado "rodoviarismo" no Brasil. Um
movimento cheio de nuanças e explicado por uma combinação de fatores, diz o
professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ Hostílio Xavier Ratton
Neto.
Um
deles é a própria natureza da indústria automotiva, que tem uma cadeia de
produção longa, com efeito multiplicador na economia, e emprega uma mão de obra
qualificada que até então não existia no país.
"É
nessa época que se cria a classe do operário especializado, com maior poder
aquisitivo", afirma.
Em
paralelo, a construção das rodovias era menos custosa que as estradas de ferro
e o petróleo usado para produzir combustível ainda era muito barato.
No pano
de fundo, a Guerra Fria estreitava as relações entre Brasil e Estados Unidos.
Na tentativa de barrar a expansão da influência da União Soviética no
continente, os americanos firmaram acordos de cooperação técnica e de
financiamento para investimentos com diversos países da América Latina.
Assim,
ainda em 1956 foi criado o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA),
sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Lúcio Meira.
O
Brasil, que até então só montava veículos, passaria a fabricar carros,
caminhões e jipes, tendo como principal polo a região do ABC paulista. São
desse período dois modelos que fizeram história no país: o Fusca e a Kombi,
ambos da linha de montagem da Volkswagen em São Bernardo do Campo.
Com a
produção de veículos nacionais, multiplicaram-se os quilômetros de rodovias. Só
nos cinco anos de gestão JK, a malha rodoviária federal pavimentada foi
multiplicada por três, de 2,9 mil km para 9,5 mil km.
As
ferrovias, por sua vez, entravam os anos 1950 sucateadas.
Além da
redução da demanda de carga e passageiros, um outro fator contribuiu para o
"estado bastante acentuado de degradação física das estradas de
ferro": "Muitas concessões já estavam no final, próximo da devolução,
e não havia cláusula nos contratos que obrigassem as concessionárias a fazer
investimentos ou devolver as ferrovias no estado em que as pegaram", diz
Ratton Neto, que tem larga experiência no planejamento, construção, operação e
gestão de sistemas de transporte metroviário e ferroviário.
É nesse
contexto que, em 1957, surge a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), estatal que
passou a administrar as ferrovias que até então estavam nas mãos de diferentes
empresas privadas.
Inicialmente,
diz o historiador Welber Luiz dos Santos, do Núcleo de Estudos Oeste de Minas
da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, a intenção não era
"destruir" as ferrovias.
"Os
primeiros relatórios da empresa demonstram que o projeto era de modernização e
unificação administrativa para facilitar a integração entre os diferentes meios
de transporte", afirma o pesquisador.
"Os
investimentos rodoviários do Plano de Metas de JK não eram uma ameaça ao
sistema ferroviário", avalia.
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3. A extinção das linhas de passageiros
Os
projetos de recuperação e melhoria, contudo, incluíam a desativação de uma
série de linhas e "ramais" (jargão do setor para os trechos
secundários) considerados deficitários.
A
lógica, diz o historiador Eduardo Romero de Oliveira, é que o mundo de meados
do século 20 era completamente diferente daquele que, muitas décadas antes,
havia norteado a construção de parte das ferrovias.
"Houve
uma mudança no negócio", diz o professor da Unesp. "As estradas de
ferro da música do Milton Nascimento eram de outra época, para pensar o
transporte de café, de açúcar, em um período em que nem a legislação
trabalhista existia."
O
químico Ralph Mennucci Giesbrecht, um "fanático por ferrovias" que há
mais de duas décadas pesquisa sobre elas, especialmente sobre as estações,
coleciona diversas histórias desse período turbulento.
"Nos
anos 60 e 70 sumiram praticamente todas as ferrovias menores, aquelas
consideradas deficitárias", diz ele, autor do livro O Desmanche das
Ferrovias Paulistas.
Os
conflitos aparecem em histórias como a da desativação do trecho entre as
cidades paulistas de São Pedro e Piracicaba, concluída em 1966. O prefeito de
São Pedro na época chegou a enviar um telegrama incisivo ao governador, Laudo
Natel, questionando o critério da baixa rentabilidade usado para justificar a
extinção do ramal.
"Déficit,
se não levarmos em conta o bem coletivo, também dá a polícia, dão as escolas e
todas as repartições mantidas pelo Estado. O déficit do ramal é muito relativo,
pois, não levando em conta o movimento das estações de Barão de Rezende, Costa
Pinto, Recreio e Paraisolândia, a estação de São Pedro despachou este ano mais
de 40.000 toneladas de cana. Finalizando, aqui deixo minha desilusão por tudo e
por todos", dizia a mensagem, conforme reportagem do jornal O Estado de
S.Paulo de 30 de outubro de 1966 encontrada por Giesbrecht.
Aos
poucos, as linhas de passageiros foram desaparecendo, permanecendo, em alguns
casos, aquelas que cruzavam as regiões metropolitanas das grandes cidades,
usadas até hoje.
Com o
avanço da indústria automobilística e a entrada do avião em cena, as ferrovias
entraram em crise, em maior ou menor medida, em todo o ocidente. Nos países em
que foram mantidas para transporte de passageiros, o serviço, na maioria dos
casos, passou às mãos do Estado.
É o
caso, por exemplo, dos Estados Unidos. A estatal Amtrak foi fundada em 1971 e
faz até hoje a gestão das linhas de passageiros no país. Também são estatais a
alemã Deutsche Bahn, a espanhola Renfe e a francesa Société Nationale des
Chemins de fer Français (SNCF).
4. A
estagnação e o corredor de commodities
Do lado
do transporte ferroviário de carga, parte dos investimentos vislumbrados no
período JK não saíram do papel, diz o historiador Welber Santos.
Em sua
visão, a ditadura militar mudou o foco da política de transportes, que passou a
ser mais voltada para as rodovias, com a aposta em grandes obras de engenharia,
como a ponte Rio-Niterói, e alguns investimentos questionáveis, como a
Transamazônica, que nunca foi concluída.
A
Ferrovia do Aço, ele diz, um dos projetos ferroviários que chegou a sair do
papel nesse período, começou a ser construída em 1973 com a promessa de ser
entregue em mil dias, mas só foi inaugurada em 1992, e com um porte muito mais
modesto do que o projeto inicial.
Para
Ratton Neto, da Coppe/UFRJ, um dos principais obstáculos à realização dos
investimentos necessários à malha ferroviária do país naquela época foi a crise
do petróleo de 1973 e o período turbulento que se seguiu.
"Depois
daquele choque na economia mundial, o Brasil, que até então tinha acesso fácil
a crédito, passou a ser visto como país de alto risco. A partir daí, teve
início uma crise que impediu que os planos nacionais de desenvolvimento
pudessem ter sequência. Deixamos de planejar para apagar incêndio praticamente
até os anos 90", diz ele.
Nos
anos 1990, em um contexto de baixo crescimento econômico, inflação elevada e
alto nível de endividamento público, a RFFSA foi liquidada e as ferrovias foram
novamente concedidas à iniciativa privada, por meio do Plano Nacional de
Desestatização (PND).
A
partir daí, elas passam a funcionar majoritariamente como corredores de
transporte de commodities para exportação, diz o professor da Coppe/UFRJ.
Como os
contratos de concessão não preveem a realização de investimentos e melhorias,
boa parte da malha segue como foi construída no segundo império, com a chamada
bitola métrica, ultrapassada, bem mais estreita que a bitola internacional,
hoje usada como padrão.
O
modelo atual de exploração das ferrovias, na avaliação do especialista,
subaproveita o potencial do país e deixa o Brasil refém das rodovias -
consequentemente, mais suscetível a greves de caminhoneiros como a de 2018, que
gerou caos e desabastecimento.
As
estradas de ferro poderiam ser mais utilizadas para transporte de bens
industriais, ele exemplifica, de bobinas de ferro e cimento a automóveis,
inclusive em trechos curtos, nos moldes das "short lines" dos Estados
Unidos.
"Também
poderiam ser usadas para transportar contêineres, uma tendência nova e muito
rentável", acrescenta.
Fonte:
BBC News Brasil

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