Carlos
Wagner: A imprensa, os financiadores dos garimpos na Amazônia e as pesquisas
eleitorais
Em
números redondos, na lida de repórter, há uns 40 anos ando rodando pelos
rincões do Brasil e de países vizinhos em busca de histórias para contar.
Aprendi muito sobre a arte da reportagem nas estradas, por onde passei deixei
muitas fontes que me mantêm atualizado sobre os acontecimentos.
É
importante para o repórter ter alguém para quem ligar quando as coisas
acontecem. Contei essa historinha em razão das notícias de que garimpeiros em
busca do ouro estão tentando voltar para a Reserva Indígena Yanomani, uma gleba
de 9,6 milhões de hectares na fronteira entre Roraima e a Venezuela. De onde
foram expulsos em 2023 pelo governo federal.
A
imprensa aponta como um dos motivos da tentativa de retorno dos garimpeiros à
área a valorização de 60% nas cotações do ouro nos mercados internacionais em
2025.
A
disparada é resultado da fuga de bancos centrais e investidores para ativos de
proteção diante das incertezas econômicas e políticas mundiais, principalmente
a guerra tarifária iniciada no começo do ano pelo governo do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos.
Esta
tentativa da volta dos garimpeiros às terras indígenas é um problema pontual
que será resolvido pelas agências de fiscalização do governo federal, que tem
recursos e pessoal para lidar com o assunto. No ano passado, por outro motivo,
também houve uma tentativa de retorno dos garimpeiros às reservas indígenas.
Vamos conversar sobre o assunto.
O
motivo pela qual os financiadores dos garimpos na Floresta Amazônica voltaram a
investir na atividade foi o fato de que as pesquisas eleitorais mostravam que a
popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, estava em
decadência, com um índice de desaprovação maior que o de aprovação – os dados
podem serem encontrados na internet.
Esse
quadro comprometeria a sua reeleição em 2026. Portanto, aumentaria a chance de
ser eleito o candidato que será indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL), 70 anos. Bolsonaro não pode concorrer por ter sido considerado inelegível
até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E porque atualmente cumpre
prisão domiciliar enquanto aguarda transitar em julgado a sentença de 27 anos
de cadeia decretada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por
sua condenação em cinco crimes, um deles ser chefe de uma organização criminosa
que tentou dar um golpe de estado.
No
início de 2025, Lula começou a recuperar sua popularidade, graças ao tarifaço
de 50% aplicado pelo governo Trump aos produtos brasileiros exportados para os
Estados Unidos.
Nas
duas últimas semanas de outubro, as chances de Lula se reeleger são reais, seja
lá quem for o indicado por Bolsonaro. Falta um ano para as eleições e, neste
período, os financiadores dos garimpos vão ficar de olho nas pesquisas
eleitorais para a Presidência da República. Por quê?
As suas
principais atividades ilegais na Amazônia, como o garimpo (ouro e bauxita), a
derrubada de árvores nobres e a pesca, são fiscalizadas e controladas pelos
serviços públicos federais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas
(Funai) e outros.
Aprendi
o seguinte. Caso o candidato eleito tenha o compromisso de preservar a
floresta, significa que vai investir em recursos materiais e humanos para os
serviços de fiscalização. Neste caso, os financiadores desmontam as suas bases
e armazenam no mato a produção que restou (ouro, bauxita e madeira). Este
material será retirado de maneira discreta e vendido aos receptadores.
Caso o
eleito não tenha compromisso com a preservação da floresta, os saqueadores
expandem suas atividades, porque os serviços federais de fiscalização serão
desmontados. Esta expansão inclui a invasão de novas áreas.
Comentei
sobre o assunto no post (02/2023) Ouro e toras da Amazônia foram escondidos até
as coisas esfriarem. Lembro que em 2018, quando as pesquisas eleitorais
apontavam Bolsonaro como candidato preferido dos eleitores, aconteceram várias
invasões de garimpeiros a áreas indígenas e o desmatamento se acelerou.
Bolsonaro
ganhou as eleições e realmente desmontou o aparato de fiscalização ambiental.
Na eleição seguinte, em 2022, concorreu à reeleição e perdeu para Lula numa
disputa muito acirrada. O nome do vencedor só foi conhecido ao final da
apuração do segundo turno. Lula venceu por com 50,9% dos votos contra 49,1% de
Bolsonaro, uma diferença de apenas 2,13 milhões de votos.
Na
ocasião, a maioria dos financiadores da exploração ilegal da Floresta Amazônica
apostava na vitória de Bolsonaro e manteve funcionando os seus garimpos. A
consequência foi que não conseguiram desativar a tempo a maioria dos
equipamentos e se tornaram presas fáceis para o aparato de fiscalização do
governo federal, que colocou fogo em máquinas, aviões e outros veículos.
Antes
de seguir a conversa, quero fazer um pequeno comentário que julgo relevante.
Liguei para várias fontes que tenho na região, principalmente entre os pilotos
de garimpo, e ouvi que, caso o indicado pelo ex-presidente ganhe as eleições,
ele terá o compromisso de desativar a fiscalização ambiental.
Voltando
a nossa conversa. A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre
Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA), no próximo mês, chama a atenção do
mundo para a Floresta Amazônica. O que isso significa?
Problemas
para os financiadores da destruição da floresta. Mas qual é o tamanho do
problema? Seja qual for, o dano que causará entre os financiadores não os
destruirá porque a estrutura criminosa que montaram é muito sólida. São
verdadeiras organizações, nas quais existem os gerentes que lidam com grupos
que operam em campo, os legalizadores do ouro e da madeira, e têm contatos nos
mercados ao redor do mundo.
Vejam
bem. No final dos anos 80, quando comecei a viajar fazendo reportagens na
região, os garimpeiros eram aventureiros que se embrenhavam mato adentro na
procura de ouro. Foi assim que nasceram os famosos garimpos de Serra Pelada
(1980 – 1986), no Pará, o do Peixoto (1970 –1987), no Mato Grosso (MT), e de
diamantes, em 2000, ainda ativo na reserva indígena dos índios Cinta Larga, uma
gleba de 2,7 milhões de hectares na divisa de Mato Grosso e Rondônia.
Estive
na região fazendo matérias sobre um conflito que aconteceu em 2004, quando 19
garimpeiros foram mortos pelos índios. Naquela época, os garimpeiros usavam
armas velhas nos enfrentamentos com os índios. Nos dias atuais, estão equipados
com fuzis fornecidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, que
se tornou um dos investidores.
Os
jornalistas precisam dar uma parada e repensar a cobertura sobre os saqueadores
da natureza. Há muito tempo deixaram de ser amadores, ou simplesmente um grupo
de aventureiros, me chamou a atenção um delegado da PF. Eles se organizam para
financiar a atividade ilegal do garimpo e dos madeireiros.
Olhando
a questão sob a “letra fria da lei”, como se dizia nos tempos das máquinas de
escrever na redação, podem ser enquadrados no crime da formação de organização
criminosa.
O
delegado, em tom professoral, explica: “Wagner, tu e os teus colegas escrevem
que a presença do PCC significa que o crime organizado chegou aos garimpos.
Não, o crime organizado chegou quando os financiadores locais se organizaram”.
É simples assim, como os jornalistas colocam um ponto final em uma conversa na
mesa dos botecos.
• Vozes indígenas e quilombolas seguem à
margem da cobertura antes da COP-30. Por Bruna Einecke Cabreira e Claudia Herte
de Moraes
Cerca
de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas,
estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações,
secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e
indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna,
de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de
vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando
falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.
Essa
questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última
semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um
termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a
21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67
delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas
centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação
aos eventos climáticos extremos.
Além
das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da
sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a
conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na
segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil,
em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação
das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação
do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades
quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.
Mas,
ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia
brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de
notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações
durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando
principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em
segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras
indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de
S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente
na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria
se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações
diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.
Por
outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal
Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na
Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade
civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da
Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da
ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A
cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que
essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.
A pouca
atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às
comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e
perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em
especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz
necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas
comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas
mais eficazes para todos nós.
Fonte:
Observatório da Imprensa

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