terça-feira, 21 de outubro de 2025

Aldo Fornazieri: A reconfiguração da conjuntura favorece Lula

Desde o início de julho, quando o presidente Trump decretou o tarifaço de 50% contra produtos brasileiros e enviou uma carta a Lula com argumentos puramente políticos para justificar as medidas, a conjuntura começou a mudar. A marca da mudança se evidencia no crescimento das avaliações positivas do governo e do desempenho nas simulações eleitorais de Lula e na queda das negativas.

A mudança da conjuntura se deve a alguns acontecimentos casuais (imprevistos, ação da Fortuna) e outros causais, definidos por ações positivas do governo e do presidente Lula. Os principais eventos casuais se referem à ação anti-Brasil de Eduardo Bolsonaro e dos bolsonaristas, que resultaram no tarifaço e na punição de ministros do STF, particularmente de Alexandre de Moraes.

Esses eventos foram acompanhados por declarações desastrosas de lideranças bolsonaristas no Congresso, a exemplo de Sóstenes Cavalcante, e do governador Tarcísio de Freitas. Ao se posicionar de forma que parecia estar aprovando as ações de Trump, o governador sofreu forte abalo na pretensão de ser candidato a presidente.

O desastre não ficou por aí. A tentativa de aprovar a PEC da blindagem foi o maior presente que o governo Lula recebeu do bolsonarismo, em que pese deputados governistas, incluindo 12 do PT, terem votado na proposta. A reação da opinião pública foi de indignação, resultando nas significativas manifestações de rua em 21 de setembro.

Os protestos, resultantes da indignação contra a PEC — uma circunstância casual em relação ao governo — representaram uma transição para um ambiente de ações causais propiciadoras de mudanças conjunturais favoráveis ao campo governista. O tamanho das manifestações ativou os ânimos para um maior engajamento e ativismo político em favor do governo e de combate ao bolsonarismo e ao Congresso.

Dentre os principais eventos causais está a aprovação do projeto de isenção do imposto de renda. A Câmara dos Deputados, pressionada pela opinião pública, viu-se constrangida a aprovar por unanimidade o projeto. Outros programas sociais, a exemplo do Pé de Meia e do financiamento de imóveis para a casa própria, também contribuem para melhorar o humor do eleitorado. Com alto emprego e sinais de que a inflação parece ceder, a percepção sobre a economia começa a mudar.

Mas no plano político as coisas também mudaram. O tarifaço e o encontro e conversas de Lula com Trump proporcionaram um duplo ganho. De um lado, Lula ganhou por defender a soberania e os interesses do Brasil. Esse discurso agrada mais os setores progressistas. Mas a relação com Trump proporcionou ganhos em outros setores. Os segmentos de centro e setores produtivos viram que Lula e o governo não são obstáculo ao diálogo com o governo norte-americano. A mútua simpatia entre Trump e Lula desarmou o discurso bolsonarista e bloqueou, ao menos em parte, as ações deletérias de Eduardo Bolsonaro contra o Brasil.

Lula passou a se valer de discursos ambivalentes para abordar a complexidade do tema envolvendo tarifaço, soberania e diálogo com Trump. Ao discursar no Rio de Janeiro, na comemoração do Dia dos Professores, na presença de Hugo Motta (presidente da Câmara dos Deputados) e do prefeito Eduardo Paes, Lula declarou que, na conversa com Trump, “não pintou uma química, mas uma indústria petroquímica”. Já em São Bernardo do Campo, ao discursar para estudantes secundaristas, disse que “nunca mais um presidente de outro país ouse falar grosso com o Brasil”.

Uma das principais qualidades que o bom orador deve ter consiste em adaptar a linguagem conforme o público. Lula não pode usar a mesma linguagem num encontro com estudantes e numa plateia de empresários. Os discursos ambivalentes não expressam conciliação ou confusão. Representam diferentes aspectos de uma estratégia discursiva que tem objetivos e metas a alcançar.

Nos últimos tempos, o governo calibrou melhor a comunicação e Lula calibrou melhor seus discursos. Lula está mais onde nunca deveria ter se afastado: junto ao povo e aos movimentos sociais. Esses movimentos fortalecem a popularidade de Lula, o que o faz contrabalançar melhor o poder em relação ao Congresso.

Não por acaso, na última semana o governo demitiu aliados de deputados que votaram contra a Medida Provisória 1303, que provisionava recursos para equilibrar as contas públicas. Quanto mais o governo melhorar o seu desempenho na avaliação popular e quanto mais Lula melhorar sua avaliação e liderança nas pesquisas, mais força terá para contrabalançar o poder em relação ao Congresso. Aumentará seu poder para conter a oposição e para atrair aliados.

Pela primeira vez desde o início do terceiro mandato de Lula, o campo governista está na ofensiva política, com maior ocupação das ruas e das redes sociais. O tarifaço e a PEC da blindagem colocaram o bolsonarismo e setores do centrão na defensiva política e moral. O tarifaço coloca os bolsonaristas sob a bandeira da traição ao Brasil. A PEC os empurra para a condição de albergadores de interesses do crime organizado. Com isso, a proposta de anistia aos golpistas também entrou na defensiva e tende a não prosperar.

Esses avanços nas avaliações do governo e de Lula, e o crescimento do ativismo político, no entanto, ainda não configuraram uma conjuntura de tranquilidade e não indicam, ainda, um cenário em que se possa dizer que a batalha de 2026 está vencida. As avaliações negativas do governo e de Lula ainda são maiores que as positivas. Essas curvas precisam mudar.

Apesar de cambaleante, o bolsonarismo não está morto. Mantém considerável força política e eleitoral. O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 tende a ser altamente polarizado. Nem o governo nem os ativistas podem baixar a guarda. É preciso aproveitar o momento político favorável para extrair o máximo de dividendos.

Para continuar melhorando o desempenho do governo e de Lula, é necessário enfrentar e superar alguns desafios. No plano externo, as negociações com o governo americano precisam alcançar alguns êxitos relativos às tarifas, à suspensão das punições a membros do STF, à exploração das terras raras, à regulamentação das big techs. As investidas americanas contra a Venezuela e a Colômbia também precisam entrar na mesa de negociações, com uma clara posição do Brasil contra intervenções militares. Na COP30, o Brasil precisa reafirmar sua liderança e protagonismo na luta ambiental, com proposições efetivas no enfrentamento dos problemas globais.

No Congresso, o governo tem alguns desafios importantes, com destaque para a busca de uma saída para o buraco fiscal, a PEC da Segurança Pública, o PL dos cortes dos incentivos fiscais, a reforma da Previdência dos militares, o PL dos cortes dos supersalários, a escala 6x1 e a regulamentação das big techs e da IA. O governo precisa, ao menos, de êxitos parciais importantes nessa agenda. Tudo somado, o governo e Lula precisam continuar aumentando suas avaliações positivas e reduzindo as negativas. Manter-se na ofensiva e estimular o ativismo e a mobilização das bases sociais são condições.

•        Bom momento de Lula preocupa bolsonaristas

As conversas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vêm repercutindo no cenário político brasileiro. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, até mesmo aliados de Jair Bolsonaro (PL) reconhecem que Lula tem colhido dividendos políticos com a aproximação diplomática.

A avaliação entre governistas e oposicionistas é de que há chances concretas de redução das tarifas impostas a produtos brasileiros, como o café. Mesmo sem medidas imediatas, a reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, realizada em Washington na última quinta-feira (16), foi vista como um marco para negociações mais profundas em torno das sobretaxas. Esse foi o primeiro encontro de alto nível após Lula e Trump iniciarem contatos diretos no mês passado.

<><> Crescente pressão sobre o bolsonarismo

O fortalecimento da agenda internacional de Lula, somado aos bons números em pesquisas, tem acentuado a pressão sobre a direita e sobre o entorno de Bolsonaro para a definição de um sucessor. Inelegível e condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão por liderar a tentativa de golpe de 2022, o ex-presidente cumpre prisão domiciliar desde 4 de agosto.

Empresários que dialogam com líderes partidários afirmam que, sem a consolidação de um nome competitivo até o fim do ano, será difícil conter a vantagem de Lula. Para esse grupo, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desponta como alternativa mais viável, embora ele negue intenção de disputar a Presidência.

<><> Estratégia de protelação e desgaste interno

Aliados de Bolsonaro têm buscado conter a pressão para que o anúncio de um sucessor ocorra em 2025. O argumento é de que um movimento antecipado reforçaria a sensação de abandono dentro do clã Bolsonaro, além de desgastar a base nas redes sociais.

Outro fator é a instabilidade jurídica: Bolsonaro aguarda julgamento de recursos no STF e observa de perto a tramitação do projeto de anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. Parlamentares admitem que, se aprovado, o texto deve suavizar penas, mas dificilmente extinguirá as condenações.

<><> Saúde frágil e isolamento político

A situação pessoal de Bolsonaro também pesa. Visitantes autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes relatam um ex-presidente abatido, com crises constantes de soluço e saúde debilitada. Apesar disso, ele mantém conversas políticas em ritmo mais lento, recebendo pré-candidatos ao Senado, como Esperidião Amin (PP-SC), Carol de Toni (PL-SC) e Márcio Bittar (PL-AC).

O tema da sucessão presidencial, no entanto, continua cercado de cautela. Em visita recente, Tarcísio tratou apenas de candidaturas ao Senado em São Paulo, mantendo distância das especulações sobre 2026.

<><> Futuro indefinido

Se antes o prazo interno para a escolha de um nome de consenso no bolsonarismo era dezembro, agora aliados falam em fevereiro, março ou até abril, coincidindo com o fechamento da janela partidária. Há, porém, quem aposte que Bolsonaro insistirá em manter sua própria pré-candidatura, mesmo inelegível, até o limite do registro no Tribunal Superior Eleitoral no próximo ano.

•        Faria Lima já assimila vitória de Lula no primeiro turno, aponta Guilherme Amado

 A percepção sobre o cenário político brasileiro mudou de forma significativa no principal centro financeiro do país. Segundo informações do jornalista Guilherme Amado, no site PlatôBR, a chamada Faria Lima já discute abertamente a possibilidade de reeleição do presidente Lula no primeiro turno, impulsionada pelo desgaste do bolsonarismo, por vitórias estratégicas no campo internacional e por movimentos de aproximação com setores historicamente resistentes ao governo, como os evangélicos.

A queda de popularidade e a crise interna do bolsonarismo têm influenciado diretamente o ambiente financeiro, que até meses atrás demonstrava entusiasmo com a hipótese de uma candidatura viável da direita. Hoje, esse cenário mudou. A avaliação predominante entre banqueiros e investidores é que Lula não apenas lidera com folga, mas que já existem condições políticas para um possível desfecho eleitoral no primeiro turno.

<><> Relações internacionais e recuo de Trump

O movimento de recuperação da imagem do governo no exterior é visto como um dos pilares dessa mudança. Em meio à crise com os Estados Unidos, Lula adotou um discurso de soberania nacional que repercutiu positivamente em organismos internacionais e reforçou sua liderança política interna.

Na Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter “química excelente” com Lula. Segundo PlatôBR, os dois chegaram a conversar por telefone e alinharam um encontro entre chanceleres. Além disso, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, recebeu o chanceler Mauro Vieira em Washington em uma reunião considerada cordial — um gesto visto como sinal de trégua.

Apesar disso, as tarifas impostas pelos EUA ao Brasil ainda não foram retiradas, e o ministro Alexandre de Moraes segue enquadrado na Lei Magnitsky. Mesmo assim, o recuo retórico de Trump e a diminuição das tensões são lidas como avanços importantes.

<><> Avanço sobre o eleitorado evangélico

Outro movimento acompanhado de perto pela Faria Lima é a aproximação do governo com lideranças evangélicas. Lula recebeu integrantes da bancada evangélica no Palácio do Planalto e foi fotografado orando com eles e com o advogado-geral da União, Jorge Messias, cotado para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Caso a indicação se confirme, será a primeira vez que um ministro evangélico integrará a Corte, quebrando a exclusividade simbólica construída por Jair Bolsonaro. Esse gesto é interpretado como uma tentativa concreta de Lula de reduzir resistências religiosas ao seu governo.

<><> Direita fragmentada e perda de protagonismo

Enquanto Lula avança, a direita vive um momento de desorganização. Eduardo Bolsonaro, apontado como articulador das sanções internacionais que atingiram o Brasil, enfrenta isolamento político. Jair Bolsonaro, condenado e com risco de prisão, não consegue unificar a oposição.

Figuras antes cotadas como alternativas, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, demonstram desânimo com a disputa presidencial. Ratinho Júnior, do Paraná, começa a ser testado como possível nome do Centrão. A fragmentação e a ausência de um projeto viável reforçam a percepção de favoritismo de Lula.

A conjugação de fatores — crise do bolsonarismo, reaproximação internacional, diálogo com evangélicos e desorganização da direita — consolidou a visão na Faria Lima de que Lula pode, pela primeira vez, vencer uma eleição já no primeiro turno. O movimento, antes visto como improvável, agora faz parte das conversas entre investidores e analistas do mercado financeiro.

 

Fonte: Brasil 247

 

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