terça-feira, 26 de agosto de 2025

Jorge Santana: ‘Trump - a nova velha história e a supremacia branca’

A história é uma arena de disputas, principalmente quando é operada no campo ideológico e político. Tradicionalmente, uma das principais disputas ocorre no campo político. O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, tem fama de faltar com a verdade em alguns de seus discursos e em suas redes sociais. Contudo, agora, ele tem como um dos seus objetivos reescrever ou escrever uma nova velha história oficial dos Estados Unidos.

Em 13 de agosto de 2025, a Casa Branca publicou uma carta em seu site em que comunicou ao Smithsonian (órgão que administra os museus americanos) o desejo de que as instituições museais apresentem "unidade, o progresso e os valores duradouros que definem a história americana". Em outro trecho, a carta defende "restauração da verdade e da sanidade à história americana".

A carta faz uso de termos genéricos e que não são, definitivamente, nítidos para um público mais amplo. Entretanto, para museólogos, historiadores, filósofos, sociólogos e ativistas, a intenção é límpida: a defesa de um revisionismo da história americana a ser apresentada nos museus. O revisionismo histórico é um processo de reescrita da história a partir de novos documentos, perspectivas, metodologias, entre outros. Em suma, é uma nova interpretação de fatos e eventos históricos, de maneira crítica à interpretação até então hegemônica.

Dessa forma, o que o presidente Trump busca ao revisar a história estadunidense com tal medida? Alguns atos do presidente republicano no campo dos esportes indicam evidências da linha que adota no processo revisionista da história norte-americana. Nos últimos meses, Trump tem se engajado em uma ofensiva contra dois times, um de baseball, o Cleveland Guardians, e um de football americano, o Washington Commanders. A ofensiva é para que essas franquias voltem atrás em suas decisões, quando mudaram seus nomes, devido às reivindicações dos povos originários.

O Washington Commanders, time da NFL, sediado na capital norte-americana, usava o nome Washington Redskins (Washington Peles Vermelhas) e um logo com a imagem estereotipada de um nativo norte-americano. A expressão "pele vermelha" é considerada pejorativa, estigmatizante e repleta de preconceito pelos povos originários da América do Norte. Por décadas, os indígenas reivindicavam que o time mudasse seu nome e sua logo, mas eram sumariamente ignorados pelo dono do time. Após as revoltas de 2020, capitaneadas pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), o time alterou o seu nome e sua logo. Caso similar ocorreu com o time Cleveland Indians (Cleveland Índios), que alterou seu nome para Cleveland Guardians.

Esses dois casos expressam a intenção da Casa Branca de como vai intervir nos museus federais. Algumas das instituições que serão afetadas pelo revisionismo "romântico" são museus como, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana e o Museu Nacional do Índio Americano. Esses espaços apresentam exposições críticas à narrativa histórica dos Estados Unidos, que excluiu e apagou a contribuição dos povos nativos e dos afro-americanos na construção da nação. E ainda: são críticos aos processos de escravidão, genocídio, segregação racial, políticas eugenistas e de morticínio desses povos, operadas pela nação americana tanto em governos republicanos quanto democratas.

Ainda não sabemos qual será o fim dessa empreitada do governo republicano em relação aos museus, mas sabemos o que está por trás dela. É parte de uma agenda que pretende fazer uso dos museus como aparelhos de propaganda ideológica, no contexto do 250° aniversário dos Estados Unidos. País que nasceu como nação da liberdade em 1776, mas negando a liberdade aos escravizados africanos, vitimando milhões de nativos e distribuindo suas terras aos brancos.

Impor aos museus "uma restauração da história norte-americana" é, na prática, apagar uma história plural, multicultural, crítica, para, em troca, produzir uma narrativa idealizada da América do Norte que em nada condiz com a "verdade". Na prática, é nova velha história, carregada de supremacia branca.

¨      O mundo dos oligarcas. Por André Gustavo Stumpf 

O governo do presidente Lula, neste momento, faz esforço hercúleo para superar as enormes dificuldades que surgiram à sua frente. A atuação errática e sinuosa de Donald Trump indica que o presidente dos Estados Unidos não hesita em abrir novas frentes de combate para estar sempre nas manchetes. Quando as negociações com Vladimir Putin não caminham tão bem quanto gostaria, ele envia navios de guerra para o Caribe e fala, de maneira genérica, em intervir para liquidar com a ação dos grupos narcotraficantes na região. 

É outra possibilidade de conflito bélico, desta vez na América Central, o que oferece a oportunidade de troca de posições. Os russos estão estabelecidos na Venezuela. Podem negociar essa posição com alguma vantagem na Ucrânia. Nesse caso, Nicolás Maduro seria apenas uma moeda de troca. Baixo valor. Mas o presidente Lula manteve até agora a altivez na sua relação com Washington. Talvez esteja falando mais do que deveria, mas, efetivamente, não cedeu aos caprichos do presidente alaranjado. Após a saraivada de tarifas, quem está perdendo cada vez mais é a turma dos Bolsonaro.

As pesquisas de opinião indicam que a população já percebeu que os filhos do ex-presidente trabalham a favor de seus interesses. O slogan Deus, pátria e família ficou reduzido ao último item. A família deles. Deus e pátria são subsidiários nessa equação política. Eles se tratam aos palavrões. Até o missionário adota palavreado chulo. As mesmas pesquisas indicam que o governo está conseguindo recuperar a popularidade, embora a maioria ainda seja crítica à ação do Palácio do Planalto. Mas a distância entre posição favorável e desfavorável reduziu-se a pouco mais de dois pontos. Recuperação impressionante.

No terreno das pesquisas, sim. Na política, não. O governo sofreu pesada derrota na instalação da CPMI do INSS. Opositores foram eleitos para a presidência e a relatoria da comissão, os dois postos mais importantes. O Palácio do Planalto apostava em nomes alinhados ao Executivo para travar as investigações e evitar desgastes. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), de oposição, foi eleito com 17 votos, contra 13 dados a Omar Aziz (PSD-AM), que era considerado favorito e contava com o apoio de Lula e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O presidente indicou um relator de oposição, que será o deputado Alfredo Gaspar (União-AL). O nome apoiado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), era o do deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO). Derrota significativa para o dispositivo político do Palácio do Planalto. 

Esse resultado indica que o segundo semestre será flamejante, inclusive, pela possibilidade de o irmão do presidente Lula, dirigente partidário, ser convocado para prestar esclarecimento ao plenário raivoso da CPMI. Momentos de glória de alguns parlamentares, um pesadelo previsível para o governo. A crise política vai aproveitar a elevação da temperatura porque os norte-americanos não dão sinais de que vão reduzir a pressão. No início de setembro, o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus principais correligionários serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes estará lá para verbalizar suas razões e determinar a prisão ou a libertação dos acusados. O governo de Washington, que mantém Brasília sob severa vigilância, fará o possível para tumultuar o ambiente. 

O governo de Washington possui a capacidade de intervir quando quiser e como quiser em qualquer país do planeta. Até agora, recuou apenas diante da monumentalidade do poder dos chineses, capazes de produzir grandes estragos tanto na esfera da guerra propriamente dita quanto nas relações comerciais. A paixão de Trump pela Rússia é caso antigo. O país tem Produto Interno Bruto (PIB) inferior ao do Brasil, mas possui bombas atômicas e mísseis equipados com ogivas nucleares capazes de destruir boa parte do mundo. Esse detalhe explica a cerimônia com que autoridades de Moscou são tratados em Washington. Na realidade, não há planos objetivos para acabar com a guerra na Ucrânia. 

O que intimida os oligarcas é a capacidade nuclear. A Coreia do Norte é bom exemplo. Seu governo envia armas, munições e soldados para a guerra na Ucrânia, porém não foi atingida pelas tarifas de Trump. O país tem a bomba. Nesse caminho, não será impossível que, em pouco tempo, Japão, Austrália, Alemanha, Canadá também detonem seus artefatos atômicos. O ponto fora da curva é a Índia, que tem bomba e foi punida pelo tarifaço. Mas, é a economia que mais cresce no mundo. Precisa ser contida. O Brasil sabe fazer a bomba. Os desafios do novo mundo dos oligarcas vão além da imaginação. No momento, é possível apenas enxergar uma eleição tumultuada em 2026.

¨      A América não tem dono. Por Phillippe Rubini

Nos últimos dias, vivemos mais um capítulo intenso da geopolítica global. Sob os holofotes estão Brasil e Estados Unidos. De um lado, um país frequentemente rotulado como "emergente" ou "terceiro mundo"; do outro, a autodeclarada potência máxima, coroada imperadora do Ocidente — os Estados Unidos.

Um império que dita regras unilaterais ao mundo, define barreiras comerciais a seu bel-prazer e impõe sua vontade às empresas estrangeiras, estejam ou não em solo americano. E o mais irônico: esse país se denomina simplesmente "América". Ora, os portugueses chegaram aqui em 1.500 e apenas em 1620 o Mayflower com os primeiros colonos aportou em Plymouth, Massachusetts.

O chamado tarifaço, proposto pela gestão norte-americana, especialmente sob o discurso do presidente Donald Trump, transformou-se em arma geopolítica. Um verdadeiro jogo de pôquer, em que quem blefa mais alto parece dominar as cartas — e o mundo. Com discursos autoritários e jogadas agressivas, os Estados Unidos têm promovido conflitos diplomáticos, constrangimentos públicos e, em muitos casos, um silêncio humilhante das demais potências.

Enquanto guerras continuam a destruir vidas entre Rússia e Ucrânia, Israel e Palestina, o mesmo país que assume o papel de "guardião da ordem global" adota uma política externa baseada em interesses ideológicos e econômicos próprios. O critério agora é claro: quem pensa como Trump é amigo; quem deseja ser independente será punido.

O mais intrigante é como tantos países — inclusive, os mais ricos — aceitam tamanha humilhação diplomática. Por que não se impõem? Por que aceitam os blefes de um jogador que já demonstrou desprezo pelas regras multilaterais e pelos tratados históricos que construíram o comércio e a diplomacia moderna e que aposta tudo na lei do mais forte?

Como observou o diplomata e escritor Marcos Troyjo, estamos vivendo tempos de trumpulência. E o termo é perfeito. Negócios gigantescos estão sendo abandonados em nome de alianças voláteis e populistas.

A ironia é que esse mesmo modelo autoritário que os Estados Unidos criticam em países vizinhos agora mira o Brasil, condenando ações internas de nossas instituições, como se houvesse um monopólio moral sobre o que é democracia ou abuso de poder. É fato: nosso Judiciário tem, sim, ultrapassado limites, inclusive, constitucionais, muitas vezes tomando decisões monocráticas, questionáveis, afetando empresas estrangeiras — um comportamento que já extrapolou as fronteiras do aceitável. Não há consenso sequer dentro da própria estrutura judiciária sobre esses desmandos, demonstrando o tamanho da confusão.

Mas a correção de rumo deve vir de dentro. É responsabilidade nossa, como nação soberana, enfrentar os excessos institucionais com coragem e legalidade. Não cabe a outros países, por mais poderosos que se considerem, nos impor sanções ou interferências seletivas sob o pretexto de defender a democracia, quando, na prática, o que vemos é a instrumentalização política de princípios universais.

Algumas características do Brasil são esquecidas ou, até mesmo, ignoradas. Mais de 1,5 bilhão de pessoas são alimentadas, direta ou indiretamente, pelas exportações agrícolas brasileiras; o país detém 98% das reservas conhecidas de nióbio no mundo — mineral essencial para ligas metálicas de alta tecnologia; nossa matriz energética é mais de 85% renovável, uma das mais limpas e sustentáveis do planeta; somos a quarta maior democracia do mundo, com um mercado consumidor de 215 milhões de habitantes e papel central nas discussões sobre clima, segurança alimentar e transição energética; somos uma terra abençoada, capaz de combater o maior flagelo da humanidade: a fome.

Enquanto isso, países que se alinham ideologicamente com os EUA são privilegiados — mesmo que não respeitem princípios básicos de liberdade ou direitos humanos. Isso revela a hipocrisia de um autoritarismo que condena outros autoritarismos de acordo com a sua conveniência.

O Brasil é protagonista global, e não coadjuvante. Não devemos aceitar rótulos impostos por quem teme nosso potencial. Devemos sentar à mesa, participar das decisões, liderar pela diplomacia e pelo exemplo. Porque, no final, todos — inclusive, os grandes jogadores — querem o mesmo: prosperidade, dignidade e paz.

O futuro da humanidade passa pelo Brasil e seus recursos naturais. E nunca é demais lembrar que a América é grande demais para ter um só dono.

¨      Momento crítico para a liberdade de expressão e a independência judicial: Por César Muños Acebes e Deborah Brown

O Brasil precisa de um debate aberto, democrático e informado sobre liberdade de expressão e regulamentação das redes sociais. No entanto, a flagrante incoerência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à liberdade de expressão e suas inaceitáveis medidas para tentar coagir o Supremo Tribunal Federal (STF) a beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro contaminam essa importantíssima discussão. 

Nos últimos anos, o Brasil tem sido assolado por desinformação, incluindo alegações infundadas de fraude eleitoral e ataques às instituições democráticas. O STF precisou atuar em meio à inércia das plataformas de redes sociais e do Congresso. Como parte de sua resposta, o ministro Alexandre de Moraes e o plenário do Supremo tomaram decisões problemáticas, como a suspensão de perfis em redes sociais sem a transparência adequada; mudanças no regime de responsabilização, que poderiam incentivar as plataformas de redes sociais a censurar opiniões legítimas; e proibições excessivamente amplas do uso de redes sociais, em alguns casos.

No entanto, os brasileiros que valorizam o papel do STF, mas discordam de algumas dessas decisões, muitas vezes hesitam em expressar críticas por medo de que sejam indevidamente apropriadas por apoiadores do Bolsonaro como munição em seu ataque à independência do judiciário. 

O STF tornou-se um importante freio às tendências autoritárias de Bolsonaro quando ele era presidente. Até hoje, seus apoiadores que participaram ou aplaudiram a invasão do STF em 8 de janeiro de 2023 parecem determinados a substituir seus ministros por aliados complacentes. Eles focam seus ataques no ministro Alexandre de Moraes, que é o relator do julgamento contra Bolsonaro por uma suposta conspiração para impedir que Luiz Inácio Lula da Silva assumisse o cargo em 2023, que incluía um plano para assassinar Lula, Alexandre de Moraes e o vice-presidente, Geraldo Alckmin. Em 4 de agosto, o STF decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro e proibiu o uso de seu telefone celular por supostamente violar medidas cautelares.

Trump tem sido receptivo aos apelos de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente e deputado federal, para tentar influenciar o STF a decidir a favor de seu pai. Ao revogar em 18 de julho os vistos para os EUA de Alexandre de Moraes, de "seus aliados no tribunal" e de seus familiares, o seu governo enviou uma mensagem clara: se um ministro votar contra Bolsonaro, corre o risco de ser sancionado por Trump. 

Ao anunciar tarifas de 50% ao Brasil, o governo dos EUA sequer fingiu uma motivação econômica. A ordem argumentava que o Brasil merecia ser punido por perseguir Bolsonaro e por violações à liberdade de expressão, incluindo ações que supostamente prejudicariam empresas estadunidenses. O governo dos EUA também deturpou a Lei Magnitsky — criada para punir autoridades responsáveis por corrupção, tortura, assassinato e outras graves violações de direitos humanos — ao usá-la contra Moraes. 

Ao contrário do que Trump argumenta, o julgamento contra Bolsonaro se baseia em provas substanciais. Na verdade, são as ações de Trump que têm motivação política, ao proteger aliados em vez de defender a justiça. Isso inclui sancionar funcionários do Tribunal Penal Internacional, que emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro e um ex-ministro da Defesa de Israel.

Além disso, a alegação de Trump de defender a liberdade de expressão soa vazia quando seu governo arbitrariamente detém pessoas sem a nacionalidade estadunidense, além de sancionar uma relatora de direitos humanos da ONU, tudo isso para retaliar aqueles que estão defendendo os direitos humanos na Palestina. Além disso, Trump e seus aliados políticos, que incluem líderes de algumas das principais empresas de tecnologia, têm rotulado como censura qualquer tentativa de moderação nas redes ou responsabilização das empresas por suas ações.

Sem dúvida, as decisões do STF afetaram a liberdade de expressão. Mas um país estrangeiro usar sanções para pressionar ministros a mudarem suas decisões corrói o direito a um Judiciário independente e à igualdade perante a lei. Brasileiras e brasileiros merecem o direito de debater quais devem ser os limites razoáveis da liberdade de expressão e como garantir que as redes sociais sejam espaços seguros para todos. Eles devem poder concordar ou discordar das decisões do STF ou dos projetos de lei no Congresso sem medo de que suas opiniões sejam mal utilizadas e exploradas por aqueles que querem desmantelar as instituições democráticas.

Isso fortaleceria a democracia brasileira.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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