Washington
Araújo: Silvério dos Reis continua assombrando a sociedade brasileira
Imagine
um parlamentar brasileiro, em uma sala discreta de Washington, dialogando com
um alto oficial americano: “Imponham sanções econômicas ao meu país, revoguem
vistos de nossos juízes, apliquem tarifas de 50% nas exportações. Em troca,
garantam impunidade para mim e minha família perante o STF.” Sem pestanejar,
ignora os danos a 216 milhões de brasileiros, como perdas bilionárias na
agricultura e mineração.
Esse
ato, que fere a soberania nacional, encontra eco no Código Penal Brasileiro
(Decreto-Lei nº 2.848/1940), que define, na Parte Especial, Título I, Capítulo
I (Dos Crimes Contra a Segurança Nacional), condutas como traição à pátria. O
Artigo 355, por exemplo, criminaliza “levantar-se em armas ou praticar atos de
hostilidade contra o Brasil, com o objetivo de submetê-lo ao domínio ou
soberania de outro país”.
Dante
Alighieri, na Divina Comédia, reservou o círculo mais profundo do Inferno aos
traidores, simbolizando o abismo moral de quem vende a própria terra por ganho
pessoal. Maquiavel, em O Príncipe, via a astúcia e a traição como ferramentas
para conquistar o poder, mas advertia sobre suas consequências devastadoras
para a estabilidade estatal. Essa negociação fictícia, inspirada em fatos
reais, expõe a traição à pátria como uma falha de caráter profunda, que negocia
soberania por salvação pessoal, configurando-se como um delito grave previsto
na Constituição Federal do Brasil e no Código Penal Brasileiro.
Grandes
pensadores condenaram esse delito como uma ferida que corrói o tecido social.
Cícero alertava que uma nação resiste a tolos e inimigos externos, mas sucumbe
à perfídia interna, que dissolve a confiança e os laços de lealdade. A traição
não é apenas um ato; é a negação da ética coletiva, um veneno que fragiliza a
nação, especialmente quando atenta contra a segurança nacional.
Joaquim
Silvério dos Reis encarna essa infâmia histórica. Mergulhemos um pouco mais na
história: no século XVIII, durante a Inconfidência Mineira, o coronel
endividado delatou conspiradores como Tiradentes à Coroa portuguesa, frustrando
sonhos de independência por favores fiscais. Sua escolha, movida por egoísmo,
não foi erro, mas crime de lesa-pátria, sacrificando a soberania nascente sem
medir o impacto no povo — uma conduta que, hoje, poderia ser enquadrada no tipo
penal já mencionado.
Nessas
últimas semanas, traidores modernos, sob o véu de ideologias extremistas,
articulam abertamente com potências estrangeiras, vangloriando-se em lives nas
redes sociais. Eles barganham instituições judiciárias e econômicas, expondo o
país a sanções devastadoras por impunidade pessoal, em ações que podem ser
interpretadas como crimes contra a segurança nacional, Silvério exemplifica o
oportunista calculista: sua delação em 1789 selou o enforcamento de Tiradentes,
ignorando o bem comum. Relatórios da Transparência Internacional apontam que
medo e vaidade movem traidores, priorizando autopreservação e fragilizando
nações.
No
mundo globalizado, ideologias radicais mascaram essas ações. Traidores aliam-se
a rivais estrangeiros, fomentando divisões e sabotando a confiança no estado
democrático, em práticas que desafiam a soberania do país
Mas o
que separa o patriotismo que eleva daquele outro que corrompe? O patriotismo
sectário, inflamado por ódio e superioridade, transforma amor à pátria em arma
contra o “outro”, erguendo barreiras e alimentando conflitos. Já o patriotismo
saudável é inclusivo, voluntário, nutrido por valores éticos que promovem
justiça social e respeito mútuo, rejeitando xenofobia e ufanismo cego.
Freud
diria que o traidor sucumbe ao ego, sacrificando o superego ético. Falhas
educacionais, como aponta a UNESCO, nutrem esse individualismo radical,
amplificado pelas Big Tech, que burlam legislações em nome da lei da selva.
Viktor Yanukovych, ex-presidente ucraniano, fugiu para a Rússia em 2014,
alegando pró-eslavismo. Negociou com Moscou para escapar de acusações de
corrupção, pavimentando intervenções militares e expondo seu povo a conflitos
infindáveis.
No
Brasil atual, um parlamentar de oposição, movido por extremismo de direita,
articula sanções americanas contra o judiciário, pressionando por revogação de
vistos de juízes do STF e tarifas de 50% em exportações, sob o pretexto de
combater “autoritarismo”. Busca proteção contra processos por desinformação,
beneficiando familiares, enquanto fomenta instabilidade que ameaça bilhões em
perdas econômicas. Ele alega patriotismo, mas age com delinquência, vendendo
soberania por salvação pessoal, como Silvério, ignorando danos coletivos
irreparáveis
Traição
é a antítese da paixão que edifica nações. Heróis como Tiradentes inspiram
integridade contra delações. Jornalistas e ativistas desmascaram traidores,
preservando narrativas autênticas. Se o planeta fosse uma única pátria, o
patriotismo saudável seria a corrente que une a humanidade, promovendo
sustentabilidade, direitos universais e paz coletiva. Longe de supremacias,
esse patriotismo, que chamo de são, inspiraria responsabilidade global,
conectando povos num compromisso ético com um futuro harmonioso e sustentável.
Voltemos
rapidamente a este momento da história: o Brasil rejeita novos Silvérios.
Precisa de Tiradentes para unir pela soberania. Rejeitemos barganhas que vendem
o futuro nacional por impunidade. Esse é, a meu ver, a maneira racional de
pararmos de cavar o abismo que pode se alargar diante dos nossos pés.
¨
JOAQUINS SILVÉRIO DOS REIS: A figura de Joaquim Silvério
não morreu. Ela mudou de rosto. Por Maurício Carvalho
Em
1789, enquanto a Inconfidência Mineira articulava a independência e o fim do
regime de opressão fiscal imposto por Portugal, houve um homem que fez a
escolha na direção contrária. Joaquim Silvério dos Reis, movido por benefícios
individuais, bateu “a melhor das continências” à bandeira imperial e entregou
seus companheiros às autoridades coloniais. Em troca da traição, exigiu perdão
de dívidas, cargos públicos e ouro. Não fosse o Brasil tão desconectado de seu
próprio passado, ali teria nascido, no imaginário popular, o arquétipo do
“Traidor a serviço do Império”.
A
figura do Joaquim Silvério não morreu. Ela se espalhou, mudou de rosto e de
discurso e passou a habitar os bastidores da política brasileira como uma
sombra teimosa. Ela aparece toda vez que alguém troca o interesse coletivo por
um privilégio pessoal, toda vez que um aliado se curva ao inimigo histórico em
nome de uma conveniência eleitoral sem benefícios claros ao coletivo; toda vez
que um político abandona a luta do povo para proteger apenas a si ou a seus
próprios negócios; toda vez que uma liderança popular se cala diante de
injustiças para manter suas benesses.
A
traição aqui não é só uma questão moral, é um método de funcionamento, um
mecanismo que sustenta privilégios e desigualdades. Tampouco é uma prerrogativa
de extremistas e quase nunca se assume como traição. Muitas vezes vem
travestida de moderação, de bom senso, de patriotismo. Vem com palavras
bonitas, com discursos técnicos, com sorrisos em jantares e promessas bem
ensaiadas. E, às vezes, também, vem escancarada em bonés com slogans de
mandatários estrangeiros que ameaçam a nossa soberania.
Enquanto
os inconfidentes sonhavam com uma república, Silvério arquitetava sua promoção
dentro do Império. Hoje não é diferente. Enquanto a população parece sonhar com
justiça, com mais direitos, com soberania, sempre há alguém negociando no
escuro, entregando o projeto nacional em troca de anistias, isenção para
pequenos grupos ou afagos de poderes externos.
A
traição no Brasil circula por gabinetes, ocupa palácios, posa para fotos, faz
vídeo selfies e jura amor à democracia enquanto a apunhala - e a todos nós,
brasileiros, não importa se de direita, de esquerda ou de centro. Por isso é
preciso recuperar a figura de Joaquim Silvério não como personagem isolado, mas
como um mito negativo, um espelho incômodo que nos ajude a entender quem somos.
Ele é o avesso de Tiradentes e da gigantesca maioria do povo brasileiro. Ele é
o fantasma que ronda os corredores do poder e abre as portas ao inimigo toda
vez que o povo se mobiliza nas trincheiras de luta.
Naquela
época, Tiradentes foi enforcado e Silvério viveu como herói do Império. Agora,
o povo está de olho. Não há narrativa que esconda um acordo imoral, nem
marketing que transforme traição em patriotismo.
Por
isso, mais do que nunca, revela-se a urgência de recuperar nossa memória
coletiva. O nosso país foi colônia, mas não precisa mais agir como se ainda
fosse. A traição é uma construção simbólica que precisa ser desvendada, exposta
e desmontada em nome do Brasil, dos brasileiros e da liberdade. Ainda que
tardia.
¨
Militares pressionam Lula a encerrar a crise com os EUA.
Por Denise Assis
Estava
demorando. Como foi amplamente divulgado, na época da intentona de 8 de janeiro
de 2023, uma parte do Alto Comando das Forças Armadas queria aderir ao golpe, a
outra banda ouviu os alertas do governo de Joe Biden, trazidos pelo Conselheiro
de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, e o Assessor Especial
do presidente americano, Juan González.
O
recado era o de que estavam vendo com preocupação a democracia brasileira, mas
acreditando que as Forças Armadas não participaram do golpe. Dito e feito.
Diante de tal pressão, os militares recuaram, para preservar o que a crise de
agora, a do “tarifaço”, ameaça colocar a perder.
Segundo
o site Defesa Net, toda a caserna está em pânico e pressiona o governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo avanço nas conversas com os EUA. O
motivo é o mesmo que os levou a ficar fora do golpe: “temem as sanções e um
eventual rompimento com os norte-americanos, o que pode gerar um colapso
logístico e operacional em todo o sistema de defesa nacional, atingindo
Exército, Marinha e Força Aérea”, diz o site.
Com a
linguagem de sempre, a que conhecem, que é espalhar o medo, enviam ao governo
do presidente Lula, recados preocupantes: “sem a tecnologia americana, o Brasil
pode ficar cego, surdo e vulnerável”, é o que dizem. De posse desse argumento,
as Forças Armadas pressionam Lula por diplomacia com os EUA e avisam: “o tempo
está se esgotando para evitar um apagão militar.” Não soa ao tom de Trump?
A
matéria é assinada por Noel Budeguer e foi publicada hoje (22/07),
coincidentemente, no mesmo dia em que a polêmica sobre a instalação de uma
tornozeleira em Bolsonaro escalou, a ponto de uns e outros considerarem que ele
poderia ser preso – risco, aliás, que se mostrou muito próximo de zero, dadas
as ambiguidades deixadas pelo ministro Alexandre de Moraes, em sua decisão
sobre as medidas cautelares que lhe deveriam ser aplicadas. A despeito de sua
conduta à frente do processo sobre o golpe ter sido até aqui, impecável, nesse
outro caso, o da cumplicidade com o filho, Eduardo Bolsonaro, contra o Brasil,
no qual Bolsonaro ainda não é réu, deixou mesmo dúvidas sobre como controlar a
publicação de possíveis entrevistas nas redes, sem atingir a liberdade de terceiros?
Voltando
aos quartéis, os Comandos consideram, (segundo o site que publicou a matéria
sobre a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos) que “esta não é apenas
mais uma briga política internacional. Nos bastidores de Brasília, a tensão vem
acendendo alarmes no alto comando das Forças Armadas, que hoje operam sob uma
perigosa dependência de equipamentos, munições e sistemas tecnológicos
norte-americanos”, descreve.
E
continuando com a política do medo, apontam que o “o risco de sanções mais
severas por parte do governo Trump reacende um temor silencioso: o Brasil pode,
literalmente, ficar às cegas em caso de ruptura total com Washington”, diz o
site.
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Militares pressionam Lula por diplomacia urgente
De
acordo com as informações reveladas pelo site DefesaNet, os principais
comandantes das Forças Armadas têm feito forte pressão para que o presidente
Lula “adote imediatamente uma postura mais pragmática e menos ideológica nas
relações com os EUA”. O motivo? “Um eventual rompimento com os norte-americanos
pode gerar um colapso logístico e operacional em todo o sistema de defesa
nacional, atingindo Exército, Marinha e Força Aérea”, ameaçam, numa linguagem
que conhecemos bem.
A
matéria prossegue citando: “fontes militares ouvidas por bastidores do
Ministério da Defesa apontam que a situação é crítica: diversos sistemas
estratégicos como radares, comunicação criptografada, aviões de caça,
embarcações navais e até munições dependem de peças e suporte técnico dos
Estados Unidos. Sem isso, muitos desses equipamentos simplesmente deixam de
funcionar”.
A
ameaça parece ser real, mas talvez seja cedo para falar nesse tom, deixando
antever um viés mais político do que de preocupação com o bom funcionamento do
meio militar. Basta observar, por exemplo, o uso da caixa alta no intertítulo
da matéria:
“PACIÊNCIA
ZERO! MILITARES PRESSIONAM LULA POR TENSÃO COM OS EUA! FALTA DE PRIORIZAR
NOSSAS INDUSTRIA”.
Se isso
não se chama “oportunismo”, eu não sei que nome dar.
As
queixas do ministro da Defesa, José Múcio, por recursos, levando a trinca de
comandantes para almoços com o presidente Lula, em que a conversa mais parece o
samba de uma nota só: choro por recursos, não é de hoje. Pressionam o governo
para investimentos da ordem de 2% do PIB, quando sabemos que para 2026, todas
as despesas discricionárias que podem ser usadas pelo poder Executivo, estão
previstas para 1,8% do PIB (Dado da GloboNews). Em tempos de reajuste fiscal, a
reivindicação soa absurda. Ninguém é contra equipar bem as Forças Armadas, mas
que o orçamento ultrapasse as despesas do Executivo, isso não é possível.
A
alegação é a seguinte:
“A
situação é mais grave do que parece. A Força Aérea Brasileira ainda utiliza
aviões F-5 com mais de meio século de uso, e seus estoques de munição estariam
em níveis baixíssimos. O Exército, por sua vez, segue operando com blindados
Leopard 1 A5, veículos que já deveriam ter sido aposentados, mas que continuam
em campo pela ausência de substitutos — os novos blindados ainda não chegaram.”
Ora,
convenhamos. Esse quadro tão caótico não se fez de uma hora para a outra. Onde
estavam esses senhores, quando no governo passado se empanturraram de prótese
peniana, estoques de leite condensado e montanhas de cloroquina, e que não
viram o caos chegando? Faltou gestão? Onde estava o presidente amigo dos
militares, que colocou turmas de oficiais para dentro do poder, e que não foi
cobrado por esse cenário, que com toda certeza já se desenhava no horizonte?
Somos
contra a precaução, ainda mais em tempos de crise? Não. Mas não se pode, de uma
tacada, surfar numa onda de temor para arrancar, de uma só vez, todo o
investimento que deixou de ser feito pelo (des)governo passado. Tivessem
investido em mais equipamentos e menos cloroquina, certamente a situação
estaria menos grave.
E
prosseguem, carregando nas tintas: “Na Marinha, o cenário é igualmente
preocupante: o projeto das fragatas Tamandaré ainda não foi concluído e muitos
navios de combate não estão operacionais. Há, inclusive, relatos de escassez de
munição para os armamentos já em uso. Se os EUA aplicarem sanções mais duras ou
suspenderem o suporte técnico e o envio de peças, todo o sistema pode ser
paralisado”.
Sobre
as munições, tentem os CACs, que o presidente anterior abarrotou de fuzis e
toneladas de cartuchos, à base do liberou geral. O choro é válido. O que não se
pode permitir é que, em meio a uma crise real, séria, de desdobramentos
inimagináveis, esses senhores se aproveitem para pressionar o presidente Lula.
Essa postura tem cheiro de pólvora ou de “ideologia”, o que não é nada bom.
Fonte:
Brasil 247

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