sexta-feira, 25 de julho de 2025

Tarifaço pode zerar exportação de suco de laranja brasileiro para os EUA, diz CNA

A tarifa de 50% sobre produtos brasileiros aplicada pelo presidente Donald Trump deve zerar a exportação de suco de laranja brasileiro para o mercado dos Estados Unidos, segundo uma nota técnica da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

O produto deve ser um dos mais afetados pelo tarifaço de Trump. Em 2024, produtores brasileiros exportaram para os EUA mais de um milhão de toneladas de suco.

"Alguns produtos sofrerão mais impacto que outros, caso dos sucos de laranja, em que a tarifa se tornaria impeditiva para o produto brasileiro. Enquanto isso, produtos como o café verde teriam um menor impacto relativo, devido à queda na oferta do grão no mercado internacional nos últimos anos, o que faz com que a capacidade de substituição seja mais rígida", diz a nota.

O Brasil é o maior produtor de suco de laranja do mundo. De cada cinco copos consumidos no planeta, três são produzidos em solo brasileiro. Um dos principais mercados do produto é a América do Norte.

A CNA estima uma redução de 48% no valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos com a tarifa. Isso representaria 5,8 bilhões de dólares a menos na venda de produtos agropecuários para o mercado norte-americano. A estimativa considera a repetição do saldo de 2024 – quando exportou 12,1 bilhões de dólares.

Além do suco de laranja, o setor açucareiro também deve sofrer forte impacto. A estimativa é de que açúcares de cana tenham uma redução de 74% do volume exportado, em relação ao ano passado. Já a venda de sacarose quimicamente pura, uma forma refinada do açúcar, também deve zerar.

O volume de exportação de artigos de madeira, que é considerado como produto agropecuário pelo Ministério da Agricultura, deve cair 93%. Obras em madeira podem ter uma redução de 77% na exportação.

Na sexta-feira (25), senadores devem embarcar para os Estados Unidos para participarem de uma rodada de negociações com empresários e congressistas norte-americanos. Eles vão tentar sensibilizar as empresas para que ajudem na negociação com o governo Trump. As reuniões ocorrerão entre os dias 28, 29 e 30.

Eles participaram de uma reunião no Ministério das Relações Exteriores, com a participação do ministro Mauro Vieira, nesta quarta (23). Os senadores receberam um briefing dos principais discursos que têm sido feitos contra o Brasil e de como combatê-los.

•        Trump afirma ter aplicado tarifa de 50% a países com os quais relação 'não tem sido boa'

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quinta-feira (23) que aplicou tarifas de 50% a países com os quais o relacionamento "não tem sido bom". Embora não tenha sido citado diretamente, o Brasil está entre eles.

No dia 9 de julho, Trump publicou uma carta endereçada ao presidente Lula (PT) anunciando a aplicação de tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Ele justificou a medida com argumentos políticos e comerciais.

Nesta quinta-feira, durante evento em Washington D.C., Trump afirmou que estabeleceu tarifas que variam de 15% a 50% para pressionar outros países a abrir seus mercados.

"Em alguns casos, é 50% porque o relacionamento não tem sido bom com esses países. Então apenas dissemos: ‘vão pagar 50’. E é isso", afirmou.

Em abril, Trump divulgou uma lista com todos os países que receberiam tarifas recíprocas, em um episódio que ficou conhecido como “tarifaço”. Na época, o Brasil havia sido taxado em 10%. Já o Lesoto enfrentava uma tarifa de 50%.

Mais recentemente, o presidente dos EUA publicou cartas em uma rede social confirmando as tarifas para alguns países. Segundo ele, a medida entra em vigor a partir de 1º de agosto.

>>>> Veja a lista de afetados:

•        África do Sul: 30%

•        Argélia: 30%

•        Bangladesh: 35%

•        Bósnia e Herzegovina: 30%

•        Brasil: 50%

•        Brunei: 25%

•        Camboja: 36%

•        Canadá: 35%

•        Cazaquistão: 25%

•        Coreia do Sul: 25%

•        Filipinas: 20%

•        Indonésia: 32%

•        Iraque: 30%

•        Japão: 25%

•        Laos: 40%

•        Líbia: 30%

•        Malásia: 25%

•        México: 30%

•        Mianmar: 40%

•        Moldávia: 25%

•        Sérvia: 35%

•        Sri Lanka: 30%

•        Tailândia: 36%

•        Tunísia: 25%

•        União Europeia: 30%

>>> Tarifa para o Brasil

Ao anunciar a tarifa de 50% ao Brasil, Trump afirmou que a decisão de aumentar a taxa foi tomada “em parte devido aos ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e à violação fundamental da liberdade de expressão dos americanos”.

“[Isso ocorreu] como demonstrado recentemente pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”, escreveu Trump.

Ainda na carta, Trump também mencionou Jair Bolsonaro e voltou a dizer que o ex-presidente é alvo de uma “caça às bruxas”.

Por fim, o presidente americano afirmou que a relação comercial dos EUA com o Brasil é “injusta”. “Nosso relacionamento, infelizmente, tem estado longe de ser recíproco”, escreveu.

Apesar do argumento, dados do Ministério do Desenvolvimento mostram que o Brasil tem registrado déficits comerciais seguidos com os EUA desde 2009 — ou seja, há 16 anos. Ao longo desse período, as vendas americanas ao Brasil superaram suas importações em US$ 88,61 bilhões (equivalente a R$ 484 bilhões na cotação atual).

Desde então, o governo brasileiro tem se reunido com empresários e avalia como reagir à medida anunciada por Trump. O presidente Lula já criticou o republicano em diversas ocasiões e disse que ele "não foi eleito para ser o imperador do mundo".

•        Não é só tarifaço: mosca mortal também pode aumentar preço da carne bovina nos EUA

Fazer churrasco nos Estados Unidos está cada vez mais caro e a situação não deve melhorar tão cedo.

Os preços da carne no país vêm batendo recordes. Em junho, por exemplo, o preço médio de 450 gramas de carne moída chegou a US$ 6,12, um aumento de quase 12% em relação ao ano passado, segundo dados do governo dos EUA.

➡️ Mas isso não é recente. Os preços da carne vêm subindo de forma constante nos últimos 20 anos por causa de uma diminuição do rebanho bovino americano, que chegou ao seu menor nível em 2025, em 74 anos.

E as tarifas que Donald Trump impôs a grandes produtores de carne, como o Brasil, devem pressionar ainda mais a inflação.

🪰 E não é só isso. O governo americano teme que uma praga que atingiu rebanhos no México chegue aos EUA e coloque em risco os animais do país. Trata-se da mosca-da-bicheira, cujas larvas se alimentam da carne viva dos bois.

>>>>A seguir, entenda:

•        por que o rebanho bovino dos EUA diminui;

•        os riscos da mosca-da-bicheira;

•        impacto do tarifaço;

•        tendências para os preços.

<><> Rebanho menor

O rebanho bovino dos EUA tem diminuído continuamente há décadas.

Em 1º de janeiro, os EUA tinham 86,7 milhões de bovinos, uma queda de 8% em relação ao pico mais recente, em 2019. Esse é o menor número desde 1951, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

A indústria de carne bovina nos EUA tem aprimorado a criação de animais maiores, permitindo que os pecuaristas produzam a mesma quantidade de carne com menos cabeças de gado, segundo David Anderson, economista especializado em pecuária da Texas A&M.

Então, em 2020, começou uma seca que durou três anos, prejudicando pastagens e elevando o custo da ração, segundo o American Farm Bureau.

A seca continua sendo um problema no oeste do país desde então, e o preço da ração tem pressionado ainda mais os pecuaristas, que já operam com margens de lucro pequenas.

Como resposta, muitos agricultores abateram mais fêmeas do que o normal, o que ajudou a manter o fornecimento de carne a curto prazo, mas reduziu o tamanho dos rebanhos futuros. A menor oferta de gado elevou os preços.

Nos últimos anos, os preços dos bois dispararam. As cotações mais recentes apontam que os bois estão sendo vendidos por US$ 230.

Esses valore mais altos incentivam os pecuaristas a vender mais fêmeas, em vez de mantê-las para reprodução, já que os preços futuros podem cair, segundo Anderson.

“Para eles, o dilema é: ‘vendo esse animal agora e embolso esse lucro recorde?’ Ou ‘mantenho ela para gerar retorno ao longo da sua vida produtiva, tendo bezerros?’”, disse Anderson. “É um jogo de equilíbrio, e até agora o lado que tem vencido é o da venda imediata.”

<><> Mosca-da-bicheira

O surgimento de uma praga devoradora de carne em rebanhos do México aumentou ainda mais a pressão sobre a oferta, já que os EUA suspenderam todas as importações de gado do país vizinho no ano passado. Cerca de 4% do gado abatido para carne nos EUA vem do México.

O parasita é a mosca-da-bicheira do Novo Mundo.

As fêmeas depositam ovos em feridas de animais de sangue quente. As larvas que nascem se alimentam de carne e fluidos vivos, e não de matéria morta, o que é incomum entre moscas.

Autoridades americanas temem que, se essa mosca chegar ao Texas, suas larvas devoradoras possam causar enormes prejuízos econômicos, como ocorreu décadas atrás, antes da erradicação da praga nos EUA.

Bernt Nelson, economista agrícola do Farm Bureau, disse que a perda desse volume de gado está pressionando ainda mais a oferta, contribuindo para o aumento dos preços.

<><> Tarifaços de Trump

As tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump ainda não tiveram grande impacto sobre os preços da carne, mas podem se tornar outro fator de alta, já que os EUA importam cerca de 1,8 milhão de toneladas de carne bovina por ano.

Grande parte dessa carne importada são cortes magros, usadas por frigoríficos para misturar com a carne mais gorda produzida nos EUA, o que dá origem a diversos tipos de carne moída que o consumidor americano deseja.

Boa parte desses cortes vem da Austrália e da Nova Zelândia, que enfrentam tarifa de apenas 10%. Mas outra parte vem do Brasil, onde Trump ameaçou tarifas de até 50%.

Se essas taxas forem mantidas por muito tempo, os frigoríficos terão que pagar mais caro pela carne magra importada — algo difícil de substituir com produção nacional, já que o sistema dos EUA é voltado para produzir carne mais gorda, ideal para bifes marmorizados.

<><> Preços devem continuar altos

Atualmente, os EUA estão no auge da temporada de churrascos, o que ajuda a manter os preços elevados, diz o economista agrícola Glynn Tonsor, da Universidade Estadual do Kansas.

Se os valores continuarem assim, os consumidores provavelmente começarão a comprar mais carne moída e menos bifes. No entanto, isso ainda não parece estar acontecendo em larga escala — e também não há sinal de migração para frango ou porco.

Nelson disse que recentemente a seca diminuiu, o que melhorou as condições das pastagens, e os preços dos grãos caíram devido à queda na demanda externa por milho, por causa das tarifas.

Esses fatores, somados aos altos preços do gado, podem convencer mais pecuaristas a manter suas vacas e reproduzi-las para aumentar o tamanho dos rebanhos.

Mesmo que os pecuaristas decidam aumentar o rebanho para compensar as importações, levaria pelo menos dois anos para reproduzir e criar os animais.

“Ainda há muitas barreiras para aumentar esse rebanho”, disse Nelson. “Considere que um jovem fazendeiro que queira adicionar 25 novilhas prenhes ao seu rebanho precisa estar preparado para gastar mais de US$ 100 mil em leilão — em um momento em que os juros continuam altos.”

Normalmente, os preços da carne caem com o fim da temporada de churrascos no outono, mas essa queda deve ser modesta.

 

Fonte: g1

 

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