quinta-feira, 24 de julho de 2025

Tarifa zero: Índia e Reino Unido firmam acordo de livre comércio

primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, iniciou nesta quarta-feira (23/07) uma visita de dois dias ao Reino Unido para assinar um acordo de livre comércio considerado histórico. A iniciativa é apontada como um triunfo político e econômico em meio à guerra tarifária de Donald Trump.

Segundo The Guardian, para Londres, trata-se do pacto comercial mais relevante desde o Brexit; para Nova Délhi, é o primeiro grande tratado fora da Ásia, simbolizando uma parceria estratégica de longo prazo.

Modi se encontrará nesta quarta com o premiê britânico, Keir Starmer, para fechar as tratativas do livre comércio.  Ele se reunirá com o rei Charles.

Além de tarifa zero, o tratado prevê concessões importantes para os indianos, como a flexibilização de vistos de trabalho, reconhecimento de qualificações profissionais e isenção de contribuições previdenciárias para os que se encontram temporariamente no Reino Unido.

Após a formalização do acordo, os parlamentos de ambos os países precisarão aprovar o acordo. Isso deve adiar sua implementação para meados de 2026.

<><> Tarifa zero

Pelo acordo, 99% das exportações indianas ao Reino Unido – incluindo pedras preciosas, têxteis, produtos de engenharia, couro, vestuário e alimentos processados – terão tarifa zero. Em contrapartida, Londres verá reduções graduais em 90% de suas vendas para a Índia. Os automóveis britânicos, hoje taxados em mais de 100%, terão tarifas reduzidas para 10% dentro de um sistema de cotas, por exemplo.

O jornal britânico informa que o tratado trará alívio tarifário para dispositivos médicos, fármacos, peças aeronáuticas e equipamentos eletrônicos. Outro ponto inédito é a abertura do vasto mercado de compras governamentais da Índia para empresas britânicas. Isso pode beneficiar setores como energia limpa, transporte e infraestrutura.

Modi manteve fora das discussões a agricultura, setor que emprega mais de 40% da força de trabalho do país. Também ficaram de fora questões sensíveis, como inclusão de serviços financeiros e jurídicos, além do tratado bilateral de investimentos que daria maior proteção a investidores.

Outro ponto adiado nas negociações foi o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que a Índia considera injusto por penalizar as economias em desenvolvimento.

¨      EUA e Japão firmam acordo que reduz tarifas sobre automóveis do país asiático

Os Estados Unidos e o Japão assinaram, na terça-feira (22/07), um novo acordo comercial que reduz tarifas sobre produtos japoneses, especialmente automóveis, e abre caminho para a entrada de arroz norte-americano no mercado japonês. O anúncio foi feito durante a madrugada e classificado como “enorme” pelo presidente Donald Trump, que liderou as negociações.

O acordo prevê a redução das tarifas aduaneiras sobre automóveis japoneses de 25% para 15%, o que representa um alívio significativo para a indústria automobilística do Japão – quarta maior economia do mundo e altamente dependente de suas exportações para os Estados Unidos.

A medida foi recebida com entusiasmo pelos mercados. Nesta quarta-feira (23/07), as ações de montadoras como Toyota, Honda e Nissan abriram em alta na Bolsa de Tóquio, com a Toyota registrando valorização de 15% desde o anúncio.

<><> Alívio para o setor automotivo

A indústria automobilística japonesa é a principal beneficiária do acordo. Um terço das exportações do Japão para os EUA corresponde a veículos, e cada ponto percentual de tarifa representa milhares de dólares por unidade. A redução de 10 pontos percentuais nas tarifas contribui para que os fabricantes mantenham sua competitividade no mercado norte-americano, especialmente em um cenário de incerteza global.

primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, destacou que a tarifa de 15% sobre os direitos aduaneiros pagos aos Estados Unidos é a mais baixa entre os países com superávit comercial em relação aos norte-americanos. Trump ameaçava impor em 1° de agosto uma sobretaxa de 25% sobre produtos japoneses, o que torna a decisão final uma redução significativa.

A notícia trouxe alívio ao setor automotivo do Japão. As exportações de veículos para os EUA haviam caído 25% em maio e junho, mas, com o novo acordo, as ações das montadoras registraram alta na Bolsa de Tóquio.

<><> Concessões e tensões persistentes

Apesar do avanço, o acordo não resolve todos os pontos de tensão. O Japão concordou em abrir parcialmente seu mercado agrícola ao arroz norte-americano, uma decisão politicamente delicada. O arroz é um símbolo cultural e econômico no país, e a possibilidade de importações preocupa os produtores locais. Por outro lado, consumidores japoneses, afetados pela alta de preços – o arroz japonês dobrou de valor em um ano –, veem a medida com bons olhos.

Além disso, o aço e o alumínio continuam sendo taxados em 50%, evidenciando que o acordo é apenas parcial. Esses setores permanecem como pontos sensíveis nas relações comerciais entre os dois países.

<><> Impacto político no Japão

O momento do anúncio também tem implicações políticas. O primeiro-ministro japonês, Ishiba, enfraquecido por derrotas eleitorais recentes, teria usado a conclusão do acordo como uma última cartada para tentar recuperar apoio. No entanto, a imprensa japonesa já especula que ele deverá apresentar sua renúncia no próximo mês.

<><> Estratégia dos EUA

Para Washington, o acordo representa um passo estratégico na correção do déficit comercial com o Japão e no fortalecimento de alianças na Ásia. A iniciativa faz parte de uma abordagem mais agressiva adotada por Donald Trump em sua política comercial, que inclui negociações em andamento com a União Europeia e a China.

¨      Tática de Trump sobre tarifas pode está dando resultados, diz editor da BBC

As tarifas de importação já representam somas significativas para o Tesouro dos Estados Unidos, sem enfrentar retaliação contra os exportadores americanos.

Os valores somam, desde o início do ano, mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 554 bilhões). As tarifas já representam cerca de 5% da receita federal americana, em comparação com os 2% típicos anteriormente.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, acredita que a receita anual com as tarifas será de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,66 trilhão).

O valor está muito abaixo do que o país arrecada com o imposto de renda, mas é um montante considerável, recebido sem retaliações diretas dos países exportadores e, agora, sem as turbulências observadas inicialmente no mercado.

Mas a história não termina aqui. Afinal, quem, na verdade, está pagando estas tarifas?

Em última análise, os consumidores americanos pagarão uma grande parte delas, na forma de aumento dos preços pagos por produtos importados.

Bessent foi um dos que sugeriram, no passado, que o aumento do valor do dólar americano ajudaria a reduzir o custo das importações para os consumidores. Mas o que ocorreu foi o contrário.

O dólar caiu no mercado internacional no primeiro semestre deste ano. A moeda americana perdeu 10% do valor, em comparação com uma cesta de moedas mundiais. E esta queda irá se somar ao custo das importações, além das tarifas.

Existem aqui também outras questões em discussão. O presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, declarou esta semana que "o comércio mais movimentado do mercado no momento é o 'dólar curto'".

Ele destacou que os padrões de segurança estabelecidos nos mercados, especialmente em relação ao dólar americano, estão "sendo essencialmente destruídos".

Existe uma "redução de exposição" ao dólar, com as empresas e comerciantes eliminando suas transações ou os "hedges destinados a garantir proteção contra seu declínio", segundo Bailey.

Como discuti anteriormente, existe nos mercados a suspeita de que este dólar mais fraco, na verdade, possa fazer parte do objetivo destas intervenções, que foram projetadas para ajudar a promover, por exemplo, a retomada da competitividade das indústrias americanas.

Além disso, os Estados Unidos também ajudaram seu grande rival, a China, a mostrar para o resto do mundo que pode, pelo menos, ser um parceiro comercial mais estável.

Neste primeiro estágio da grande guerra comercial global, o recente acordo comercial entre os Estados Unidos e o Japão é uma vitória importante para a Casa Branca. Ele irá combater a noção de que "Trump sempre muda de ideia".

Este panorama poderá se traduzir em outras aparentes vitórias nas manchetes da próxima semana, aumentando a euforia do mercado. Mas o quadro econômico, de forma geral, permanece muito mais sombrio.

<><> O acordo com o Japão

O Japão é uma peça importante na convulsão do sistema de comércio mundial, causada pelo presidente americano, Donald Trump. É possível, agora, afirmar que sua abordagem agressiva está gerando resultados tangíveis.

Desde o princípio, o lado americano vem falando sobre as possibilidades de chegar a um acordo com o Japão. Mas, apesar das diversas tentativas, a negociação era estranhamente elusiva, até agora.

Estritamente falando, esta é uma vitória da técnica de Trump, especialmente se o Japão se tornar uma espécie de peça de dominó que leva o resto do mundo a se alinhar.

O Japão, agora, conta com o melhor acordo (ou, melhor dizendo, o menos ruim) entre todas as nações com superávit comercial importante sobre os Estados Unidos.

A tarifa geral de 15% a ser cobrada sobre os produtos japoneses importados pelos Estados Unidos é superior aos 10% do Reino Unido, mas os britânicos não detêm superávit comercial.

Tóquio estava jogando duro. Acostumados à extrema polidez do país asiático, os diplomatas de Washington estranharam a fúria dos negociadores japoneses durante as negociações.

O ministro da Fazenda do Japão chegou a descrever o estoque de US$ 1,1 trilhão (cerca de R$ 6,1 trilhões) em bônus do Tesouro americano (o maior do mundo), mantido pelo país asiático, como uma "carta" que poderia ser colocada na mesa.

Houve rumores de que os fundos de hedge japoneses estariam vendendo bônus americanos, após o anúncio das tarifas de importação, em abril. O "Dia da Libertação" de Trump causou forte venda dos títulos e despertou questões maiores sobre a maior economia do mundo e o status de paraíso seguro do dólar americano.

Por isso, o estabelecimento de um acordo comercial entre os Estados Unidos e o Japão tem enorme importância, isoladamente e como exemplo para outros blocos econômicos importantes, incluindo a União Europeia (UE).

O acordo veio no dia em que os japoneses recebem líderes da UE em Tóquio.

Surgiu um certo falatório de que o Japão, a UE e o Canadá estariam coordenando sua retaliação conjunta. Mas este acordo suspende qualquer iniciativa.

Alguns membros da União Europeia se perguntarão por que não podem chegar a um acordo similar, em um momento em que a Alemanha e a França aceleram o passo rumo à retaliação, talvez contra as gigantes americanas da tecnologia.

O mundo aguarda para saber os detalhes do acordo, mas já está claro que o Japão protegeu suas importações de produtos agrícolas, embora vá importar mais arroz dos Estados Unidos.

Não se sabe ao certo o que poderá aumentar a popularidade dos grandes carros americanos no país asiático. Mas as empresas privadas japonesas receberão apoio para investir nos Estados Unidos, de alguma forma, a quantia de meio trilhão de dólares (cerca de R$ 2,8 trilhões).

O Japão poderia ter esperado para observar o desenrolar da situação e a reação dos mercados internacionais, quando entrarem em vigor as tarifas mais elevadas de Trump para diversos países (incluindo o Brasil), programadas para o dia 1° de agosto.

Mas a fraca posição doméstica atual do primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, pode ter influenciado as negociações. E outros países, como a Indonésia e as Filipinas, também celebraram acordos.

O panorama atual mostra uma penosa aceitação mundial de que os Estados Unidos irão cobrar dos seus principais aliados tarifas de importação que, um ano atrás, teriam sido impensáveis, por medo de que sobrevenha algo pior.

No caso do Japão, a ameaça de Trump foi uma tarifa de 25%.

¨      China critica saída dos EUA da Unesco: ‘conduta não responsável’

O governo da China criticou nesta quarta-feira (23/07) a saída dos Estados Unidos da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e definiu a decisão norte-americana como “uma conduta não responsável por parte de um grande país”.

De acordo com o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, esta não é a primeira “que os EUA se retiram da Unesco, além de estarem em atraso com o pagamento das taxas de contribuição há algum tempo”

Ao reforçar que Pequim “sempre apoiou as decisões de trabalho da Unesco”, Guo convocou “a todos os países para reafirmarem seus respectivos compromissos com o multilateralismo, juntamente com a adoção de medidas concretas para apoiar o sistema internacional que tem as Nações Unidas em seu centro”.

De acordo com o jornal norte-americano The New York Times, os EUA já foram o maior apoiador da entidade, mas nos últimos anos mantém “um relacionamento intermitente”, em especial, desde que Donald Trump assumiu o cargo presidencial pela primeira vez, em 2017. 

<><> EUA se retiram da Unesco

Na última terça-feira (22/07), Trump anunciou a retirada dos EUA da Unesco, acusando a entidade de promover uma agenda “globalista e ideológica”. Trata-se da terceira vez que Washington abandona o organismo. O mesmo movimento ocorreu na gestão de Ronald Reagan, em 1983, mas foi readmitido por George W. Bush em 2003. Já na segunda vez, em 2017, Trump voltou a retirar o país citando “atrasos crescentes e viés anti-Israel”, contudo, foi readmitido em 2023 sob a gestão de Joe Biden.

“A Unesco trabalha para promover causas sociais e culturais divisivas e mantém um foco descomunal nos objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, uma agenda ideológica globalista para o desenvolvimento internacional em desacordo com nossa política externa America First”, afirmou Tammy Bruce, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano.

Segundo o governo Trump desta vez, a postura da Unesco contribui para a “proliferação da retórica anti-israelense dentro da organização”. 

Em nota, a diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, lamentou “profundamente” a decisão tomada pelo magnata, que terá efeito a partir de 31 de dezembro de 2026, mas garantiu que a saída norte-americana já era “esperada”.

“A Unesco se preparou para isso. Nos últimos anos, realizamos grandes reformas estruturais e diversificamos nossas fontes de receitas”, declarou. Segundo ela, a participação dos EUA no orçamento de organismos da ONU pode chegar a 40%, mas na Unesco essa fatia é de 8%.

Além disso, Azoulay rebateu as acusações de ser anti-Israel, apontando as ações da entidade na “educação sobre o Holocausto e na luta contra o antissemitismo”.

“A Unesco continuará a realizar essas missões, apesar dos recursos inevitavelmente reduzidos”, assegurou.

 

Fonte: Opera Mundi/RFI/BBC News Brasil/Ansa

 

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