Saúde
digital, futuro do SUS?
O
debate da digitalização da saúde é incontornável quando paramos para pensar no
futuro do Sistema Único de Saúde (SUS). Em que ponto estamos e qual lugar
almejamos alcançar, nos próximos anos? A sua influência pode chegar até onde,
em termos de saúde pública? Quais serão os impactos da inteligência artificial?
Essas foram algumas perguntas que o pesquisador da Fiocruz Marcelo Fornazin
respondeu, em entrevista à série SUS 35 Anos, do Outra Saúde, publicada hoje.
Você pode assistir acima.
Marcelo,
além de pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), é
conselheiro do Comitê Gestor da Internet (CGI) e coordenador do Grupo Temático
Informação, Saúde e População (GTISP) da Abrasco. Como ele frisou, na
entrevista, a Lei Orgânica do SUS – aquela que comemora 35 anos em 2025 – já
previa a criação de um Sistema Nacional de Informações em Saúde.
Esse
projeto se estende até hoje, e a questão da digitalização se acelerou sobretudo
desde a pandemia e após um incentivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) para
a criação de estratégias para os países, conta Marcelo. “O que vimos nesses
últimos anos é uma aposta muito grande numa incorporação mais massiva da
tecnologia, aquilo que se chama de potencial da saúde digital.”
O
Brasil criou sua Estratégia de Saúde Digital em 2020, em pleno governo de Jair
Bolsonaro – quando, inclusive, tentou-se criar um sistema que permitiria
entregar os dados do SUS às operadoras de seguros de saúde, iniciativa
felizmente frustrada que ficou conhecida como Open Health. Mas foi no governo
Lula, a partir de 2023, que o tema começou a ter ênfase de fato, e a Saúde
Digital ganhou secretaria dentro do Ministério da Saúde, capitaneada por Ana
Estela Haddad.
Mas por
que caminhos avançam essas tecnologias? Na entrevista, Marcelo levanta alguns
pontos cruciais para pensar o futuro da saúde digital no SUS. O primeiro diz
respeito à desigualdade. Apesar dos avanços, a transformação digital no SUS
ainda é desigual. Enquanto grandes centros urbanos contam com infraestrutura
robusta, regiões rurais, periferias e a região amazônica carecem de internet
estável e equipamentos adequados. Para resolver esse problema, pontua Marcelo,
o esforço precisa ir além do Ministério da Saúde.
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Soberania digital
Além
disso, outro problema que não deve ser ignorado: o Brasil segue dependente de
empresas estrangeiras para armazenar dados sensíveis, como os da Rede Nacional
de Dados em Saúde, que está hospedada em servidores da Amazon. Para Marcelo,
essa fragilidade expõe o país a riscos geopolíticos e limita a capacidade de
criar soluções adaptadas à realidade do SUS. “Havia uma série de ações para
construir infraestrutura local que, há 10 ou 15 anos, o Brasil não conseguiu
perceber a importância – e hoje sentimos a falta”, lamenta.
Marcelo
explica que o país enfrenta, hoje, uma profunda dependência de tecnologias e
serviços digitais externos, situação que nos coloca em posição vulnerável
diante de interesses geopolíticos e econômicos de outras nações. O controle
efetivo e o conhecimento tecnológico foram entregues majoritariamente nas mãos
dessas corporações estrangeiras.
Essa
fragilidade se torna ainda mais evidente quando consideramos que decisões
tomadas por governos de outros países podem impactar diretamente serviços
essenciais brasileiros. Apesar das dimensões continentais do Brasil e de seu
potencial econômico, desenvolver uma infraestrutura tecnológica completamente
autônoma – incluindo a produção local de componentes como processadores e
memórias – ainda representa um desafio complexo, embora estratégico para
garantir a soberania nacional no campo da Saúde Digital e em outros setores
críticos.
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Abertura ao setor privado?
Outro
desafio é evitar que a digitalização sirva de cavalo de Troia para a
privatização do SUS. Sistemas desenvolvidos pelo setor privado, muitas vezes
focados em modelos hospitalares ou individuais, podem ignorar a integralidade
do SUS. Marcelo relembra que, quando o SUS foi criado, a proposta de um sistema
100% público não vingou na Constituinte, abrindo espaço para a coexistência com
o setor privado. Essa dualidade se reflete hoje no mercado de tecnologia:
empresas que desenvolveram sistemas para planos de saúde e hospitais privados
agora veem o SUS como um nicho comercial, mas suas soluções frequentemente
ignoram particularidades cruciais do sistema público, como o trabalho em equipe
na atenção primária e a integração com a vigilância epidemiológica.
A
transferência acrítica de tecnologias do setor privado para o SUS gera
distorções perigosas. Sistemas hospitalares adaptados para unidades básicas de
saúde criam sobrecarga de trabalho e falhas no registro de informações
essenciais, enquanto modelos inspirados no setor financeiro – eficientes para
transações bancárias – mostram-se inadequados para a complexidade da saúde
coletiva. Além disso, a comercialização de dados de saúde por empresas de
tecnologia ameaça os princípios de universalidade, já que a lógica de mercado
naturalmente exclui quem não pode pagar. Para Marcelo, a saída está em
desenvolver tecnologias a partir da realidade concreta do SUS, com participação
de trabalhadores e gestores, evitando que soluções prontas importadas do setor
privado perpetuem desigualdades ou transformem direitos em mercadorias.
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Tecnologias digitais e epidemiologia
Para o
pesquisador, a Saúde Digital e a inteligência artificial podem representar uma
revolução para a epidemiologia no SUS, permitindo transformar dados de
atendimentos em ferramentas poderosas de vigilância em saúde. Ele destaca como
plataformas como o Cidacs da Fiocruz Bahia e a Plataforma de Ciência de Dados
aplicada à Saúde (PCDaS) do Icict/Fiocruz já utilizam essas tecnologias para
monitorar em tempo real a dinâmica de doenças como dengue e síndromes
respiratórias.
Eles
integram informações que vão além dos prontuários eletrônicos – incluindo dados
ambientais e sociais. Essa abordagem inovadora permite não apenas detectar
surtos com maior agilidade, mas também compreender os determinantes sociais da
saúde, criando possibilidades reais de intervenção preventiva e fortalecendo a
capacidade do SUS em promover saúde de forma integral, indo muito além do
modelo tradicional de assistência curativa.
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Participação popular como caminho
O que
Marcelo frisa ao longo de toda a entrevista é: para que a saúde digital cumpra
seu potencial, é essencial envolver trabalhadores e usuários do SUS na
construção das ferramentas. Exemplos como o e-SUS APS, desenhado a partir da
rotina das equipes de atenção básica, mostram que tecnologias colaborativas
podem reduzir a sobrecarga e melhorar a qualidade do registro. Já a criação da
Câmara Técnica de Saúde Digital no Conselho Nacional de Saúde (CNS) é um passo
para garantir que a população decida – e não apenas sofra – os impactos dessa
transformação. O futuro do SUS depende de escolhermos: queremos tecnologia a
serviço do lucro ou da universalidade? É o que provoca Fornazin.
Fonte:
Por Marcelo Fornazin em entrevista a Gabriela Leite, para a série SUS 35 anos,
em Outra Saúde

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