quinta-feira, 24 de julho de 2025

Repressão anti-imigração muda rotina de brasileiros nos EUA

O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos reacendeu o temor entre imigrantes brasileiros em situação irregular. Em meio a operações do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), comércios estão esvaziados, houve uma queda no consumo e o aumento da escassez de mão de obra em setores essenciais, como limpeza, construção civil e de entregas.

Desde o início de seu segundo mandato, Trump implementou uma série de mudanças rigorosas na política migratória, com foco na deportação de imigrantes indocumentados. De acordo com o Departamento de Segurança Interna dos EUA, até novembro de 2024, ao menos 38.677 brasileiros aguardavam deportação – cerca de 2,7% dos 1,45 milhão de estrangeiros com ordens finais de saída do país.

A comunidade brasileira nos Estados Unidos é uma das maiores da América Latina fora do país de origem. Estima-se que vivam mais de 1,8 milhão de brasileiros em território americano, concentrados especialmente em estados como Flórida, Massachusetts, Nova Jersey e Califórnia. Muitos são trabalhadores de baixa renda, inseridos nos setores de limpeza, construção civil, cuidados domiciliares e alimentação.

Com o avanço das medidas migratórias, organizações de apoio relataram um aumento na demanda por orientações legais, abrigos temporários e auxílio psicológico. Segundo a ONG Mantena, em Newark (NJ), cresceu também o número de pessoas buscando renovar documentos brasileiros e preparando filhos para um possível retorno.

"Tem dias em que a gente também não sabe o que fazer", afirma Rodrigo Godoi, diretor da Mantena, contando que o clima de incerteza afeta até a equipe da organização. "Tentamos manter a calma e transmitir segurança para os outros, mas também ficamos sem saber para onde ir."

Godoi também destaca o impacto nos casos de violência doméstica. "As vítimas têm medo de denunciar. Passamos anos tentando romper o tabu para que as mulheres pudessem falar sobre isso. Agora, se denunciam e são deportadas logo em seguida, o ciclo de silêncio volta."

<><> Momento tenso

A advogada Flávia Santos Lloyd, com mais de duas décadas de atuação na área migratória, afirma que o atual momento é o mais tenso de sua carreira. "Tenho clientes com cidadania americana com medo de viajar. Pessoas com direito à naturalização que estão desistindo. Nunca vi nada assim."

Lloyd também relata que o medo tem afetado a adesão a eventos educativos sobre direitos básicos. "Organizei uma palestra sobre direitos dos imigrantes, mas precisei manter em local secreto, com grupo fechado no WhatsApp. Ninguém queria ser visto junto."

O pânico atinge até os processos legais. "Há casos em que a pessoa vai à audiência de deportação ou ao check-in e é presa na saída. Isso criou um clima de terror. Mesmo quem quer fazer tudo certo, agora tem medo."

Nos escritórios de advocacia, o impacto também é emocional. "Criamos um plantão 24 horas por WhatsApp. Se o cliente mandar '911', entendemos que está com a imigração. Nunca imaginei organizar isso", conta a advogada.

<><> No coração do bairro brasileiro

Ironbound, em Newark (Nova Jersey), é um epicentro dessa mudança. Com forte presença de imigrantes brasileiros e latinos, o bairro vive uma retração visível no comércio, na circulação e no humor das ruas.

Há 21 anos vivendo nos Estados Unidos, o mineiro João de Souza comanda uma padaria em Ironbound. Em pouco tempo, ele viu o fluxo de clientes despencar. "O movimento caiu mais da metade. Caiu muito. Não sei se é medo, se é outra coisa", diz, sem esconder a incerteza.

Souza havia passado cinco anos em outro endereço, mas mudou o ponto em setembro e reabriu o novo espaço em novembro do ano passado. Mesmo com a padaria ativa em aplicativos de entrega, a clientela física não voltou como esperava. "Tem gente que paga Uber só para buscar pão aqui, mesmo morando a 15, 20 minutos."

A crise no comércio também se reflete nos espaços religiosos. "Eu vou à igreja todo domingo. Mas agora, especialmente no verão, tem menos gente indo. A frequência caiu", relata Souza. Apesar da preocupação, ele não pensa em voltar ao Brasil por enquanto. "Meu filho já tem 18 anos e vai entrar na faculdade. Queremos esperar para ver o que Deus está preparando."

<><> "Era pra mudar pra melhor, mas mudou pra pior"

Morando nos Estados Unidos há 13 anos, o cabeleireiro Douglas Barbosa, também mineiro, acompanhou quatro governos enquanto mantinha seu salão em Ironbound. "Já vi de tudo: Obama, Trump, Biden, e agora Trump de novo. A gente sente no dia a dia do comércio como a política muda tudo. E não é impressão nossa – a diferença está em todas as áreas", diz.

Barbosa decidiu ampliar o negócio no ano passado, trocando um salão pequeno por um espaço quase três vezes maior, com mais estrutura e estacionamento. Mas, ao invés de crescimento, enfrentou uma queda. "Eu tinha uma equipe de 13 pessoas, entre cabeleireiros e manicures. Agora estou com sete. Achei que ia melhorar, mas piorou."

Segundo ele, parte da equipe deixou de trabalhar com medo da exposição. "Mesmo com boas condições, muita gente preferiu atender escondido, em casa ou em salinhas. Não é por dinheiro, é por medo. As pessoas têm receio de ficar visíveis."

Barbosa também perdeu profissionais por causa de ações migratórias. "Uma das melhores funcionárias que eu tive, uma espanhola, foi embora pra Carolina do Norte depois de uma operação migratória aqui. Outra, brasileira, decidiu voltar para o Brasil. Ela tinha vindo com visto, pediu extensão, mas desistiu. O filho queria ficar, ela não."

Para ele, há uma nova mentalidade entre os que chegaram recentemente. "Tem gente que já fala que é melhor voltar do que viver com medo. Quem está aqui há mais tempo já sabe o que vai enfrentar. Mas para quem chegou agora, o clima é de terror. Está todo mundo muito assustado."

<><> Queda nas vendas

Há 21 anos nos Estados Unidos, o fluminense Leonardo de Oliveira, de Teresópolis, comanda uma distribuidora de bebidas em Ironbound. Com experiência no comércio local, ele diz que os últimos meses foram marcados por dois fatores: queda no poder de compra e medo generalizado.

"As pessoas falam que não estão conseguindo trabalhar como antes. Muitos tiveram os horários reduzidos, outros pararam completamente. E o medo está por toda parte, principalmente entre o público hispano. Medo de estar na rua, de ser abordado pelo ICE, de acontecer uma blitz."

Segundo Oliveira, o movimento de clientes até aumentou em volume, mas o que caiu foi a capacidade de consumo. "Antes, a pessoa levava duas caixas de vinho. Agora, leva quatro garrafinhas. Ninguém mais compra em quantidade. As vendas caíram cerca de 20% a 25% em relação a três meses atrás."

Ele diz que muitas informações falsas também alimentam a insegurança. "Circulam boatos o tempo todo. Fulano diz que o ICE está prendendo gente, mas às vezes era só um mandado para uma pessoa específica. Isso vai alimentando o pânico."

<><> "Minha filha entrou no carro chorando com medo do ICE"

A diarista Patrícia, que pediu para não ter seu nome verdadeiro divulgado por motivos de segurança, vive nos Estados Unidos desde 2018 e está com o processo de green card em andamento. Mesmo sem ter sofrido impactos diretos na própria rotina de trabalho, ela relata os efeitos da repressão migratória no cotidiano da comunidade.

"Com meus clientes, senti até solidariedade. Mas o que vi nos salões e clínicas de estética foi muito diferente. Muita gente cancelou atendimento, ficou em casa com medo de sair."

Segundo ela, o movimento nas ruas caiu drasticamente nos primeiros meses da nova gestão. Patrícia conta que a principal avenida do bairro, antes bem movimentada, anda vazia. "Tem loja fechando. E o número de apartamentos disponíveis para alugar aumentou muito — coisa que, até pouco tempo atrás, era inimaginável por aqui."

A tensão aumentou com a visibilidade da presença do ICE no bairro. "Muita gente nem sabia que tem um centro de detenção aqui em Newark, e também um escritório do ICE. Uma vizinha minha viu um homem ser preso na esquina de casa, indo para o trabalho com marmita na mão."

O medo chegou até sua filha. "Um dia, ela entrou no carro quase chorando e disse: ‘mãe, não quero que o ICE prenda a gente'. Isso veio das conversas com colegas na escola. Ela estuda aqui em Ironbound, onde há muitos filhos de brasileiros."

O pensamento de voltar ao Brasil é recorrente. "Minha filha fala disso todo dia. Eu também penso. O Brasil tem seus problemas, mas o que pesa aqui é esse clima. A política lá assusta, mas pelo menos a gente vive sem esse medo constante."

<><> O medo e o voto

Apesar do cenário de medo, o apoio a Trump entre parte da comunidade permanece. Muitos culpam o governo Biden pela entrada desordenada de imigrantes e associam a crise a essa suposta abertura. Rodrigo Godoi, da Mantena, discorda. "Muita gente que apoia Trump nem é americana. São filhos e netos de imigrantes que perderam a noção da história. Ao mesmo tempo, vejo muitos americanos solidários tentando ajudar. "

Uma empresária do setor gráfico resume o dilema: "Meu irmão votou no Trump, mas agora diz que os funcionários têm medo de sair de casa. Isso está quebrando o negócio dele. É um efeito dominó."

Enquanto o debate político se intensifica, comunidades como a de Ironbound seguem tentando viver sob o peso da insegurança. "Esse terrorismo psicológico uma hora tem que passar", diz Douglas Barbosa, "só não sabemos quando."

•        Políticas de Trump impulsionam migração reversa rumo ao sul

A política migratória do presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona cada vez mais imigrantes que vivem em território americano e leva muitos a deixar o país por trajetos alternativos e perigosos. O movimento de migração reversa faz com que áreas antes usadas para a travessia rumo ao norte agora passem a registrar intensos deslocamentos em sentido contrário e acumulem violações de direitos humanos.

Migrantes que antes enfrentavam a Selva de Darién, por exemplo, um trecho mortal de floresta densa entre a Colômbia e o Panamá tradicionalmente usado em jornadas rumo aos Estados Unidos, agora percorrem o mesmo caminho, mas em direção ao sul.

Essas viagens de retorno são, em grande parte, invisíveis. Os migrantes não são monitorados, não têm proteção e ficam expostos à violência sexual, tráfico de pessoas, exploração, além de sofrerem com grave escassez de alimentos e água potável ao longo do percurso. Muitas vezes, são obrigados a pagar e fazer o trajeto sob a tutela de contrabandistas e grupos criminosos.

Apesar de os dados públicos sobre esses trajetos raramente distinguirem o movimento reverso das rotas tradicionais rumo ao norte, informações disponibilizadas pelo governo da Colômbia revelam pistas sobre a atual dinâmica migratória no país.

Segundo o think tank americano Niskanen Center, que analisou essas informações, a Colômbia interceptou 4.513 migrantes cruzando sua fronteira norte vindos do Panamá entre fevereiro e março. "Embora esse número possa parecer modesto, ele é praticamente inédito nos últimos anos: Em 2024, foram registradas apenas duas interceptações desse tipo, em um total de 400.612 migrantes contabilizados", diz a organização.

<><> Nova rota migratória

Ao final de fevereiro, fluxo semelhante foi identificado na fronteira norte do Panamá. Na ocasião, o governo do país registrou a entrada de 2,2 mil imigrantes. O movimento em sentido contrário abriu novas rotas de saída para quem tenta evitar a Selva de Darién e seguir rumo à Colômbia pelo mar.

Segundo reportagem da agência de notícias AP, o colapso da rota tradicional sentido norte fez com que contrabandistas passassem a explorar a migração reversa, cobrando até 250 dólares (R$1,3 mil) por pessoa por uma travessia de barco chamada de "VIP". Essa rota contorna a floresta e segue pela costa panamenha, ligando a América Central à América do Sul.

À imprensa americana, organizações que atuam nas terras indígenas de onde o novo fluxo se abriu, como a HIAS e a Médecins du Monde também confirmam o fenômeno e denunciam diversas violações de direitos humanos sofridas pela população que decide usar esse trajeto. Em fevereiro, uma criança venezuelana de 8 anos morreu após o barco em que ela estava afundar.

<><> Migrantes documentados são obrigados a deixar o país

Desde o início de seu segundo mandato, Trump lançou o que chama de "a maior operação de deportação doméstica" da história dos EUA. O governo enviou centenas de voos para a América Latina e o Caribe, incluindo o Brasil. As batidas de imigração se intensificaram, e até mesmo uma lei de 1798, chamada Alien Enemies Act, foi invocada para justificar algumas das expulsões.

Mesmo residentes de longa data, filhos de imigrantes, famílias e até portadores de visto que antes acreditavam estar legalmente protegidos agora correm esse risco. Parte dos migrantes que agora se tornaram alvo do governo americano, por exemplo, entrou legalmente no país durante a gestão do ex-presidente Joe Biden, por meio do programa de liberdade condicional humanitária.

Trata-se de uma forma de entrada temporária concedida a indivíduos em necessidade urgente, como aqueles que fogem de violência ou desastres naturais. O modelo foi proposto para diminuir o fluxo de entrada irregular no país e, consequentemente, as violações sofridas por essa população na travessia. Até agora, isso permitiu que milhares de pessoas, principalmente cubanos, haitianos, nicaraguenses e venezuelanos, entrassem legalmente nos Estados Unidos.

Melissa Siegel, diretora de estudos migratórios na Universidade das Nações Unidas, afirmou que a Casa Branca está agora deixando que essas permissões expirem silenciosamente ou até mesmo as cancelando de forma direta. O movimento é referendado pela Suprema Corte dos EUA. "Não é que essas pessoas tenham violado a lei", afirma a especialista. "É que a política mudou ao redor delas. E agora, de repente, elas são tratadas como se nunca tivessem pertencido."

O governo americano diz que vai oferecer incentivos de mil dólares para quem decidir deixar o país voluntariamente. Até o momento, 100 mil já foram deportados e outros 113 aguardam em centros de detenção.

<><> Medo impulsiona saída por caminhos irregulares

O clima de medo imposto pela gestão Trump impulsiona a migração reversa de quem decide deixar o país às pressas por desespero e falta de oportunidades. A incerteza de como funciona a política de deportação voluntária dos EUA faz com que muitas famílias resolvam realizar o caminho de volta por conta própria, sem se apresentar aos canais oficiais.

Relatos na imprensa americana mostram que há poucos voos disponíveis para o programa de deportação voluntária e muitos receiam que, enquanto aguardam sua vez, sejam presos em centros de detenção.

Como a DW mostrou, imigrantes denunciam tratamento desumano e condições insalubres dentro desses ambientes. A ONG de direitos humanos Human Rights Watch também documentou condições precárias nos centros de detenção, onde pessoas que devem ser deportadas são mantidas.

<><> Fuga obriga retorno a países onde há perseguição

Cidadãos de países latino-americanos antes beneficiados pelo visto temporário de Biden são os que mais decidem pelo trajeto de volta. Em fevereiro, por exemplo, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) reportou um aumento acentuado nos pedidos de Retorno Voluntário Assistido (AVR) da população destes países. Muitos voltam a locais dos quais haviam fugido por questões políticas ou de sobrevivência.

"Essas são pessoas que estavam fugindo de perseguição", disse Michael Garcia Bochenek, autor do relatório da Human Rights Watch sobre migrantes presos nos centros de detenção. "Deportá-las para países incapazes de protegê-las não é apenas irresponsável, é perigoso", afirmou.

Um deles é a Venezuela, país que enfrenta aumento da pobreza e da violência, palco do maior fluxo migratório da América Latina. Em janeiro, Nicolás Maduro iniciou seu terceiro mandato na presidência do país, apesar de evidências generalizadas de fraude eleitoral, o que impulsionou ainda mais a fuga de parte da população.

Segundo os dados analisados pelo Niskanen Center, a grande maioria dos migrantes interceptados na fronteira da Colômbia com o Panamá rumo ao sul é de venezuelanos. Eles representaram 99% dos migrantes em retorno que entraram na Colômbia no início de 2025, diz a organização.

Os dados mostram ainda que o número de migrantes vindos do Equador para a Colômbia se manteve estável nos últimos meses, enquanto o deslocamento em direção ao Panamá caiu drasticamente – a travessia pela Selva de Darién rumo aos EUA teve uma redução de fluxo de 99,7% em abril, segundo o presidente panamenho José Raul Mulino.

Para o Niskanen Center, isso indica que muitos imigrantes estão desistindo de continuar a jornada até os Estados Unidos no meio do caminho. "Eles estão voltando para uma situação ruim", disse Siegel. "Na maioria dos casos, a mesma instabilidade política, pobreza e violência que os forçaram a fugir no início ainda existem. Nada mudou exceto a política dos EUA."

 

Fonte: DW Brasil

 

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