sexta-feira, 25 de julho de 2025

Miguel do Rosário: O hambúrguer do Tio Sam vem do Brasil

Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, uma medida que promete afetar três produtos absolutamente estratégicos para a segurança alimentar dos americanos: café, suco de laranja e carne para hambúrguer. Enquanto já abordamos a questão do café em análises anteriores e voltaremos a falar sobre ele em breve, e o suco de laranja será tema de um artigo específico, este texto foca na carne para hambúrguer – a carne bovina desossada congelada que o Brasil fornece em larga escala para os Estados Unidos.

A medida revela uma contradição fundamental que beira o patético em seus efeitos contraproducentes.

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<><> O hambúrguer na cultura americana

Os Estados Unidos são o maior consumidor de hambúrgueres do mundo. Os americanos consomem cerca de 50 bilhões de hambúrgueres por ano, o que equivale a aproximadamente três hambúrgueres por semana para cada habitante. Mais que um simples alimento, o hambúrguer está profundamente enraizado na cultura e na dieta americana, representando um símbolo da praticidade e do estilo de vida do país.

Essa preferência nacional não é apenas cultural – é também econômica. O hambúrguer representa uma fonte acessível de proteína para milhões de famílias americanas, especialmente em um momento em que os preços dos alimentos têm pressionado o orçamento doméstico.

<><> Dependência externa

A matéria-prima fundamental para a produção de hambúrgueres é a carne bovina desossada congelada. Os Estados Unidos importam milhões de toneladas desse produto anualmente, representando uma parcela significativa do consumo doméstico.

Os números revelam a importância estratégica do Brasil para o mercado americano. O país se consolidou como o principal fornecedor de carne bovina desossada congelada para os Estados Unidos, chegando a representar 34,7% das importações americanas em abril de 2025. Essa participação tem crescido consistentemente, partindo de níveis ao redor de 13% no início de 2024 e atingindo patamares superiores a 30% em diversos meses recentes.

Para colocar em perspectiva, outros fornecedores tradicionais como Argentina, Canadá e México têm participações bem menores no mercado americano. O Brasil consolidou-se como o principal fornecedor externo dessa matéria-prima essencial, superando concorrentes históricos e estabelecendo uma posição de liderança no segmento.

<><> Declínio da produção americana

A crescente dependência de importações reflete problemas estruturais na pecuária americana. A produção doméstica de carne bovina tem enfrentado declínio, com o rebanho bovino americano atingindo o menor nível desde 1961. Fatores como secas prolongadas, custos crescentes de alimentação animal e pressões ambientais têm contribuído para essa redução.

O resultado é uma transformação histórica: os Estados Unidos, que tradicionalmente eram exportadores líquidos de carne bovina, tornaram-se importadores líquidos. Essa mudança estrutural torna o país ainda mais dependente de fornecedores externos confiáveis como o Brasil.

<><> Pressão nos preços e o índice Big Mac

A pressão inflacionária sobre os alimentos americanos pode ser medida através do preço do Big Mac. Entre 2005 e 2024, o sanduíche mais famoso do McDonald’s saltou de US$ 2,58 para US$ 5,69, um aumento de 120% em menos de duas décadas.

Esse crescimento reflete não apenas a inflação geral, mas especificamente o encarecimento da carne bovina nos Estados Unidos. O Brasil, ao fornecer carne competitiva, tem ajudado a estabilizar os preços da matéria-prima, contribuindo para conter uma escalada ainda maior nos custos dos hambúrgueres americanos.

<><>  O resultado patético para os americanos

A ironia da situação torna-se evidente quando analisamos os efeitos práticos da tarifa. Para o Brasil, perder um mercado que absorve apenas 8,8% de suas exportações de carne bovina desossada congelada não representa um drama. Os produtores brasileiros podem facilmente redirecionar essa produção para outros mercados internacionais ou até mesmo para o mercado doméstico.

No Brasil, onde os preços da carne têm pressionado o orçamento das famílias, existe uma oportunidade clara: campanhas promocionais e políticas de incentivo ao consumo interno poderiam absorver facilmente a produção que deixaria de ir para os Estados Unidos. O país tem flexibilidade e alternativas, e os brasileiros poderão comer mais carne a preços mais baixos.

<><> A contradição de Trump

Do lado americano, o cenário é completamente diferente. Trump foi eleito com a promessa central de reduzir o custo de vida dos americanos, mas sua tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira produzirá exatamente o efeito oposto. O preço do hambúrguer – alimento básico na dieta americana – aumentará diretamente.

A ironia se aprofunda quando consideramos que as tarifas de Trump são altamente impopulares nos próprios Estados Unidos: pesquisas mostram que mais de 60% dos americanos são contra essa política. E não é difícil entender o porquê: a tarifa funciona como um imposto sobre os mais pobres, já que são os americanos de menor renda – cuja renda é mais comprometida pelo consumo de alimentos – que serão os principais taxados. Não são os brasileiros que pagarão os 50% adicionais, mas sim os consumidores americanos mais vulneráveis.

Enquanto isso, Trump intensifica seus ataques à soberania brasileira, chegando ao absurdo de chantagear o Brasil exigindo o fim do processo contra Bolsonaro como condição para cancelar as tarifas de 50%. É um pedido impossível, já que nem Lula nem o Congresso Nacional têm poder sobre o Judiciário, que é um poder independente. Esses ataques à soberania brasileira só fortalecem a posição de Lula, cuja aprovação já vem crescendo e tende a crescer ainda mais diante da postura respeitosa em defesa da independência nacional.

O resultado final é patético: uma medida que deveria proteger os americanos acaba por prejudicá-los diretamente no prato e no bolso, enquanto Trump perde popularidade e o Brasil encontra novos mercados. Os Estados Unidos ficarão com hambúrgueres mais caros e maior dependência de fornecedores alternativos, potencialmente menos competitivos, enquanto os brasileiros se beneficiam de mais carne disponível no mercado interno a preços menores.

¨      Tio Sam vai ficar sem suco de laranja

Os americanos adoram o suco de laranja.

É um dos itens mais tradicionais do seu café da manhã. No entanto, aparentemente eles terão dificuldades para manter esse hábito, caso Donald Trump não desista de sua ideia fixa de impor tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros.

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Nos últimos 12 meses, até maio de 2025, os Estados Unidos importaram um total de US$ 1,6 bilhão em suco de laranja, segundo os dados mais atualizados do departamento de estatística do governo americano. Houve um aumento significativo de 33% na importação de suco de laranja, em relação aos 12 meses anteriores, e de 80% acima dos gastos feitos dois anos antes.

O Brasil respondeu por 73% de todo suco de laranja importado pelos Estados Unidos nos últimos 12 meses, com aumento de 71% em 1 ano e 107% em 2 anos.

A ameaça das tarifas já está causando pânico no setor. A Johanna Foods, empresa que fornece quase 75% de todo suco de laranja “não concentrado” de marca própria para clientes nos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial contra a Casa Branca questionando a legalidade das tarifas propostas.

A empresa, que atende gigantes do varejo como Walmart, Aldi, Wegman’s, Safeway e Albertsons, estima que a tarifa resultará em um impacto de US$ 68 milhões, superando qualquer lucro anual desde que foi criada em 1995. O CEO Robert Facchina alertou que demissões de funcionários sindicalizados, equipe administrativa e redução da capacidade produtiva nas instalações de Flemington, Nova Jersey, e Spokane, Washington, são quase certas caso essas tarifas entrem em vigor. A empresa emprega quase 700 pessoas nos dois estados.

“A tarifa do Brasil resultará em um aumento significativo, e talvez proibitivo, no preço de um alimento básico do café da manhã americano”, afirma a empresa no processo judicial. “Os ingredientes de suco de laranja não concentrado importados do Brasil não estão razoavelmente disponíveis de qualquer fornecedor nos Estados Unidos em quantidade ou qualidade suficientes para atender às necessidades de produção da empresa.”

<><> Preços já em alta

Os preços do suco de laranja já vinham subindo em todo o país. No último ano, o preço médio de uma caixinha de 0,47 litros subiu 23 centavos, ou mais de 5%, para US$ 4,49, segundo o Bureau of Labor Statistics. Os futuros de suco de laranja, referência global que acompanha a commodity, também dispararam recentemente. Durante o último mês, subiram quase 40%, com a maior parte desse aumento ocorrendo após a ameaça de Trump.

A Johanna Foods projeta que os preços do suco de laranja podem subir entre 20% e 25% caso as tarifas sejam implementadas.

<><> A justificativa política de Trump

O presidente Donald Trump disse em carta de 9 de julho ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que aplicaria uma tarifa de 50% a todas as importações do Brasil a partir de 1º de agosto. Trump afirmou que a alta taxa tarifária era necessária devido à “forma como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro”.

Promotores no Brasil alegaram que Bolsonaro fazia parte de um esquema que incluía um plano para assassinar o atual presidente do país, que o derrotou na última eleição, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Bolsonaro negou qualquer irregularidade.

Trump também disse que o Brasil estava censurando plataformas de mídia social baseadas nos Estados Unidos e mantinha “déficits comerciais insustentáveis” com os Estados Unidos. No entanto, os Estados Unidos têm um superávit comercial de bens com o Brasil – mais de US$ 7 bilhões no ano passado, segundo dados do Escritório do Representante Comercial dos EUA.

<><> A assimetria da dependência

Mas se os Estados Unidos dependem tão profundamente do suco de laranja brasileiro, a recíproca não é simétrica.

Sim, os Estados Unidos são o mercado mais importante para o suco de laranja brasileiro, tendo respondido por 38% de todas as exportações brasileiras do produto nos últimos 12 meses.

Mas o Brasil tem alternativas, os EUA não. O brasil possui outros 200 mercados para exportar, alguns deles com muito potencial, como a China, a União Europeia, os países do Sudeste Asiático e a África.

Os Estados Unidos, por outro lado, não têm essa flexibilidade. O país conta com apenas dois fornecedores principais de suco de laranja: México e Brasil, que juntos respondem por 96% de todo o suco de laranja importado pelos EUA.

E os EUA está brigando com os dois, sobretudo agora com o mais importante fornecedor, que é o Brasil.

Essa assimetria coloca os Estados Unidos em uma posição vulnerável. Enquanto o Brasil pode diversificar seus mercados de exportação, os americanos têm poucas opções para substituir o suco de laranja brasileiro em suas mesas de café da manhã.

<><> A batalha judicial

Em resposta ao processo da Johanna Foods, um porta-voz da Casa Branca disse que o governo está “usando legal e justamente os poderes tarifários que foram concedidos ao poder executivo pela Constituição e pelo Congresso para nivelar o campo de jogo para os trabalhadores americanos e salvaguardar nossa segurança nacional”.

A empresa pede ao Tribunal de Comércio Internacional que declare que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional não concede a Trump a autoridade estatutária para impor as tarifas contra o Brasil, e que o presidente não identificou uma emergência nacional ou “ameaça incomum e extraordinária” conforme exigido pela lei IEEPA para impor as tarifas.

A questão central é se Trump tem o poder legal de impor essas tarifas sem uma emergência econômica real, usando apenas justificativas políticas relacionadas ao tratamento de Bolsonaro e questões de censura nas redes sociais.

¨      'South Park' retrata Trump como namorado de Satanás, ironiza tarifas e cita caso Epstein

O mais recente episódio da polêmica animação 'South Park' tem gerado forte repercussão nos Estados Unidos pelo deboche explícito contra o presidente Donald Trump. Logo na estreia da 27ª temporada do desenho animado, exibida nesta quarta-feira (23), o líder estadunidense foi ilustrado como amante de Satanás (um personagem recorrente na série) e suas políticas tarifárias foram alvo de deboche, além de menções ao caso envolvendo o bilionário Jeffrey Epstein.

Uma das cenas mais polêmicas retratou o presidente nu, deitando-se ao lado de Satanás em uma cama dentro da Casa Branca. Satã, agindo como um amante enciumado, disse que o presidente "não esteve trabalhando ultimamente, mas apenas publicando memes e brincando por aí". Além disso, indagou a Trump sobre o envolvimento com Epstein: "é estranho que sempre que esse assunto vem à tona, você apenas diz para as pessoas relaxarem".

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As tarifas trumpistas contra outros países também foram citadas. Em determinado momento, um personagem representando o primeiro-ministro do Canadá entrou em cena questionando por que seu país foi tarifado. Trump, então, o ameaçou: "quer que eu atire uma bomba em seu país como fiz no Iraque? Irã, Iraque, é tudo a mesma coisa".

 

Fonte: O Cafezinho/Brasil 247

 

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