Miguel
do Rosário: O hambúrguer do Tio Sam vem do Brasil
Donald
Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, uma medida que
promete afetar três produtos absolutamente estratégicos para a segurança
alimentar dos americanos: café, suco de laranja e carne para hambúrguer.
Enquanto já abordamos a questão do café em análises anteriores e voltaremos a
falar sobre ele em breve, e o suco de laranja será tema de um artigo
específico, este texto foca na carne para hambúrguer – a carne bovina desossada
congelada que o Brasil fornece em larga escala para os Estados Unidos.
A
medida revela uma contradição fundamental que beira o patético em seus efeitos
contraproducentes.
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O hambúrguer na cultura americana
Os
Estados Unidos são o maior consumidor de hambúrgueres do mundo. Os americanos
consomem cerca de 50 bilhões de hambúrgueres por ano, o que equivale a
aproximadamente três hambúrgueres por semana para cada habitante. Mais que um
simples alimento, o hambúrguer está profundamente enraizado na cultura e na
dieta americana, representando um símbolo da praticidade e do estilo de vida do
país.
Essa
preferência nacional não é apenas cultural – é também econômica. O hambúrguer
representa uma fonte acessível de proteína para milhões de famílias americanas,
especialmente em um momento em que os preços dos alimentos têm pressionado o
orçamento doméstico.
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Dependência externa
A
matéria-prima fundamental para a produção de hambúrgueres é a carne bovina
desossada congelada. Os Estados Unidos importam milhões de toneladas desse
produto anualmente, representando uma parcela significativa do consumo
doméstico.
Os
números revelam a importância estratégica do Brasil para o mercado americano. O
país se consolidou como o principal fornecedor de carne bovina desossada
congelada para os Estados Unidos, chegando a representar 34,7% das importações
americanas em abril de 2025. Essa participação tem crescido consistentemente,
partindo de níveis ao redor de 13% no início de 2024 e atingindo patamares
superiores a 30% em diversos meses recentes.
Para
colocar em perspectiva, outros fornecedores tradicionais como Argentina, Canadá
e México têm participações bem menores no mercado americano. O Brasil
consolidou-se como o principal fornecedor externo dessa matéria-prima
essencial, superando concorrentes históricos e estabelecendo uma posição de
liderança no segmento.
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Declínio da produção americana
A
crescente dependência de importações reflete problemas estruturais na pecuária
americana. A produção doméstica de carne bovina tem enfrentado declínio, com o
rebanho bovino americano atingindo o menor nível desde 1961. Fatores como secas
prolongadas, custos crescentes de alimentação animal e pressões ambientais têm
contribuído para essa redução.
O
resultado é uma transformação histórica: os Estados Unidos, que
tradicionalmente eram exportadores líquidos de carne bovina, tornaram-se
importadores líquidos. Essa mudança estrutural torna o país ainda mais
dependente de fornecedores externos confiáveis como o Brasil.
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Pressão nos preços e o índice Big Mac
A
pressão inflacionária sobre os alimentos americanos pode ser medida através do
preço do Big Mac. Entre 2005 e 2024, o sanduíche mais famoso do McDonald’s
saltou de US$ 2,58 para US$ 5,69, um aumento de 120% em menos de duas décadas.
Esse
crescimento reflete não apenas a inflação geral, mas especificamente o
encarecimento da carne bovina nos Estados Unidos. O Brasil, ao fornecer carne
competitiva, tem ajudado a estabilizar os preços da matéria-prima, contribuindo
para conter uma escalada ainda maior nos custos dos hambúrgueres americanos.
<><> O resultado patético para os americanos
A
ironia da situação torna-se evidente quando analisamos os efeitos práticos da
tarifa. Para o Brasil, perder um mercado que absorve apenas 8,8% de suas
exportações de carne bovina desossada congelada não representa um drama. Os
produtores brasileiros podem facilmente redirecionar essa produção para outros
mercados internacionais ou até mesmo para o mercado doméstico.
No
Brasil, onde os preços da carne têm pressionado o orçamento das famílias,
existe uma oportunidade clara: campanhas promocionais e políticas de incentivo
ao consumo interno poderiam absorver facilmente a produção que deixaria de ir
para os Estados Unidos. O país tem flexibilidade e alternativas, e os
brasileiros poderão comer mais carne a preços mais baixos.
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A contradição de Trump
Do lado
americano, o cenário é completamente diferente. Trump foi eleito com a promessa
central de reduzir o custo de vida dos americanos, mas sua tarifa de 50% sobre
a carne bovina brasileira produzirá exatamente o efeito oposto. O preço do
hambúrguer – alimento básico na dieta americana – aumentará diretamente.
A
ironia se aprofunda quando consideramos que as tarifas de Trump são altamente
impopulares nos próprios Estados Unidos: pesquisas mostram que mais de 60% dos
americanos são contra essa política. E não é difícil entender o porquê: a
tarifa funciona como um imposto sobre os mais pobres, já que são os americanos
de menor renda – cuja renda é mais comprometida pelo consumo de alimentos – que
serão os principais taxados. Não são os brasileiros que pagarão os 50%
adicionais, mas sim os consumidores americanos mais vulneráveis.
Enquanto
isso, Trump intensifica seus ataques à soberania brasileira, chegando ao
absurdo de chantagear o Brasil exigindo o fim do processo contra Bolsonaro como
condição para cancelar as tarifas de 50%. É um pedido impossível, já que nem
Lula nem o Congresso Nacional têm poder sobre o Judiciário, que é um poder
independente. Esses ataques à soberania brasileira só fortalecem a posição de
Lula, cuja aprovação já vem crescendo e tende a crescer ainda mais diante da
postura respeitosa em defesa da independência nacional.
O
resultado final é patético: uma medida que deveria proteger os americanos acaba
por prejudicá-los diretamente no prato e no bolso, enquanto Trump perde
popularidade e o Brasil encontra novos mercados. Os Estados Unidos ficarão com
hambúrgueres mais caros e maior dependência de fornecedores alternativos,
potencialmente menos competitivos, enquanto os brasileiros se beneficiam de
mais carne disponível no mercado interno a preços menores.
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Tio Sam vai ficar sem suco de laranja
Os
americanos adoram o suco de laranja.
É um
dos itens mais tradicionais do seu café da manhã. No entanto, aparentemente
eles terão dificuldades para manter esse hábito, caso Donald Trump não desista
de sua ideia fixa de impor tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros.
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Nos
últimos 12 meses, até maio de 2025, os Estados Unidos importaram um total de
US$ 1,6 bilhão em suco de laranja, segundo os dados mais atualizados do
departamento de estatística do governo americano. Houve um aumento
significativo de 33% na importação de suco de laranja, em relação aos 12 meses
anteriores, e de 80% acima dos gastos feitos dois anos antes.
O
Brasil respondeu por 73% de todo suco de laranja importado pelos Estados Unidos
nos últimos 12 meses, com aumento de 71% em 1 ano e 107% em 2 anos.
A
ameaça das tarifas já está causando pânico no setor. A Johanna Foods, empresa
que fornece quase 75% de todo suco de laranja “não concentrado” de marca
própria para clientes nos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial contra a
Casa Branca questionando a legalidade das tarifas propostas.
A
empresa, que atende gigantes do varejo como Walmart, Aldi, Wegman’s, Safeway e
Albertsons, estima que a tarifa resultará em um impacto de US$ 68 milhões,
superando qualquer lucro anual desde que foi criada em 1995. O CEO Robert
Facchina alertou que demissões de funcionários sindicalizados, equipe
administrativa e redução da capacidade produtiva nas instalações de Flemington,
Nova Jersey, e Spokane, Washington, são quase certas caso essas tarifas entrem
em vigor. A empresa emprega quase 700 pessoas nos dois estados.
“A
tarifa do Brasil resultará em um aumento significativo, e talvez proibitivo, no
preço de um alimento básico do café da manhã americano”, afirma a empresa no
processo judicial. “Os ingredientes de suco de laranja não concentrado
importados do Brasil não estão razoavelmente disponíveis de qualquer fornecedor
nos Estados Unidos em quantidade ou qualidade suficientes para atender às
necessidades de produção da empresa.”
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Preços já em alta
Os
preços do suco de laranja já vinham subindo em todo o país. No último ano, o
preço médio de uma caixinha de 0,47 litros subiu 23 centavos, ou mais de 5%,
para US$ 4,49, segundo o Bureau of Labor Statistics. Os futuros de suco de
laranja, referência global que acompanha a commodity, também dispararam
recentemente. Durante o último mês, subiram quase 40%, com a maior parte desse
aumento ocorrendo após a ameaça de Trump.
A
Johanna Foods projeta que os preços do suco de laranja podem subir entre 20% e
25% caso as tarifas sejam implementadas.
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A justificativa política de Trump
O
presidente Donald Trump disse em carta de 9 de julho ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva que aplicaria uma tarifa de 50% a todas as importações do Brasil
a partir de 1º de agosto. Trump afirmou que a alta taxa tarifária era
necessária devido à “forma como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro”.
Promotores
no Brasil alegaram que Bolsonaro fazia parte de um esquema que incluía um plano
para assassinar o atual presidente do país, que o derrotou na última eleição, e
o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Bolsonaro negou
qualquer irregularidade.
Trump
também disse que o Brasil estava censurando plataformas de mídia social
baseadas nos Estados Unidos e mantinha “déficits comerciais insustentáveis” com
os Estados Unidos. No entanto, os Estados Unidos têm um superávit comercial de
bens com o Brasil – mais de US$ 7 bilhões no ano passado, segundo dados do
Escritório do Representante Comercial dos EUA.
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A assimetria da dependência
Mas se
os Estados Unidos dependem tão profundamente do suco de laranja brasileiro, a
recíproca não é simétrica.
Sim, os
Estados Unidos são o mercado mais importante para o suco de laranja brasileiro,
tendo respondido por 38% de todas as exportações brasileiras do produto nos
últimos 12 meses.
Mas o
Brasil tem alternativas, os EUA não. O brasil possui outros 200 mercados para
exportar, alguns deles com muito potencial, como a China, a União Europeia, os
países do Sudeste Asiático e a África.
Os
Estados Unidos, por outro lado, não têm essa flexibilidade. O país conta com
apenas dois fornecedores principais de suco de laranja: México e Brasil, que
juntos respondem por 96% de todo o suco de laranja importado pelos EUA.
E os
EUA está brigando com os dois, sobretudo agora com o mais importante
fornecedor, que é o Brasil.
Essa
assimetria coloca os Estados Unidos em uma posição vulnerável. Enquanto o
Brasil pode diversificar seus mercados de exportação, os americanos têm poucas
opções para substituir o suco de laranja brasileiro em suas mesas de café da
manhã.
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A batalha judicial
Em
resposta ao processo da Johanna Foods, um porta-voz da Casa Branca disse que o
governo está “usando legal e justamente os poderes tarifários que foram
concedidos ao poder executivo pela Constituição e pelo Congresso para nivelar o
campo de jogo para os trabalhadores americanos e salvaguardar nossa segurança
nacional”.
A
empresa pede ao Tribunal de Comércio Internacional que declare que a Lei de
Poderes Econômicos de Emergência Internacional não concede a Trump a autoridade
estatutária para impor as tarifas contra o Brasil, e que o presidente não
identificou uma emergência nacional ou “ameaça incomum e extraordinária”
conforme exigido pela lei IEEPA para impor as tarifas.
A
questão central é se Trump tem o poder legal de impor essas tarifas sem uma
emergência econômica real, usando apenas justificativas políticas relacionadas
ao tratamento de Bolsonaro e questões de censura nas redes sociais.
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'South Park' retrata Trump como namorado de Satanás,
ironiza tarifas e cita caso Epstein
O mais
recente episódio da polêmica animação 'South Park' tem gerado forte repercussão
nos Estados Unidos pelo deboche explícito contra o presidente Donald Trump.
Logo na estreia da 27ª temporada do desenho animado, exibida nesta quarta-feira
(23), o líder estadunidense foi ilustrado como amante de Satanás (um personagem
recorrente na série) e suas políticas tarifárias foram alvo de deboche, além de
menções ao caso envolvendo o bilionário Jeffrey Epstein.
Uma das
cenas mais polêmicas retratou o presidente nu, deitando-se ao lado de Satanás
em uma cama dentro da Casa Branca. Satã, agindo como um amante enciumado, disse
que o presidente "não esteve trabalhando ultimamente, mas apenas
publicando memes e brincando por aí". Além disso, indagou a Trump sobre o
envolvimento com Epstein: "é estranho que sempre que esse assunto vem à
tona, você apenas diz para as pessoas relaxarem".
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As
tarifas trumpistas contra outros países também foram citadas. Em determinado
momento, um personagem representando o primeiro-ministro do Canadá entrou em
cena questionando por que seu país foi tarifado. Trump, então, o ameaçou:
"quer que eu atire uma bomba em seu país como fiz no Iraque? Irã, Iraque,
é tudo a mesma coisa".
Fonte:
O Cafezinho/Brasil 247

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