sexta-feira, 25 de julho de 2025

Mais de 100 agências humanitárias relatam 'fome generalizada' em Gaza

Mais de 100 organizações humanitárias, entre elas Save the Children, Oxfam e Médicos sem Fronteiras, publicaram um comunicado conjunto em que denunciam o que classificam como "fome generalizada" em Gaza.

"Enquanto a fome generalizada se espalha por Gaza, os corpos de nossos colegas e daqueles a quem servimos estão sendo consumidos", afirma o documento.

"A cada manhã, a mesma pergunta ecoa em Gaza: 'Será que vou comer hoje?'."

Um trabalhador humanitário, que presta apoio psicossocial no território, falou do impacto devastador sobre as crianças.

"Elas dizem aos pais que querem ir para o céu, porque ao menos lá tem comida", destacam as agências.

ONU declarou na terça-feira (22/07) que as forças israelenses mataram mais de 1.000 palestinos que tentavam obter ajuda alimentar desde que uma entidade controversa, respaldada pelos Estados Unidos e Israel, a Fundação Humanitária de Gaza, iniciou suas operações no fim de maio, substituindo uma ampla resposta humanitária coordenada pela ONU.

Israel enfrenta uma crescente pressão internacional diante da catastrófica situação humanitária no território palestino.

Mais de dois milhões de pessoas enfrentam uma grave escassez de alimentos e outros produtos essenciais para a sobrevivência após 21 meses da atual ofensiva de israelense.

<><> 'Tormento físico e psicológico'

"Os palestinos estão presos em um círculo vicioso de esperança e angústia, aguardando assistência e cessar-fogo, apenas para descobrir que as condições estão piorando", afirma o comunicado.

"Não é apenas um tormento físico, mas também psicológico. A sobrevivência é apresentada como uma mera miragem."

A carta indica que as distribuições de ajuda permitidas em Gaza "têm uma média de apenas 28 caminhões por dia".

A ONU já sugeriu anteriormente que seriam necessários ao menos 600 caminhões por dia para alimentar uma população de dois milhões de pessoas.

As agências afirmam que Israel nega acesso a "toneladas" de suprimento e acusam o país de falsas promessas sobre seus planos de aumentar a ajuda "quando não há mudança real acontecendo".

Na terça-feira, o órgão militar israelense responsável por coordenar as entregas de ajuda, o Cogat, insistiu que Israel atua em conformidade com o direito internacional, e afirmou que facilita a entrada de ajuda, ao mesmo tempo em que garante que ela não chegue ao Hamas.

Nesse mesmo dia, centenas de pessoas em Tel Aviv marcharam até um edifício do Ministério da Defesa com sacolas simbólicas de alimentos para protestar contra a fome em Gaza e pedir um cessar-fogo.

Outros pontos destacados no comunicado das agências humanitária incluem:

  • "Enquanto o cerco imposto pelo governo israelense mata de fome a população de Gaza, os trabalhadores humanitários se juntam às filas para receber alimentos, arriscando serem baleados, para alimentar suas famílias";
  • O "cerco total" em Gaza tem "gerado caos, fome e morte";
  • Os suprimentos estão "totalmente esgotados";
  • Armazéns em Gaza com toneladas de alimentos, água e suprimentos médicos permanecem intactos, já que Israel impede as organizações de ter acesso a eles e distribui-los;
  • "O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, mas foi impedido de funcionar", diz a declaração;
  • Há "taxas recordes" de desnutrição aguda, especialmente entre crianças e idosos;
  • As agências exigem um cessar-fogo permanente, a suspensão de todas as restrições, a reabertura de todas as passagens terrestres, a rejeição dos centros de distribuição controlados por militares e uma resposta humanitária liderada pela ONU.

<><> 'Não há leite em fórmula para bebês com fome'

A Oxfam compartilhou com a BBC Mundo — serviço em espanhol da BBC — o testemunho de um médico em Gaza.

"Nunca imaginamos que existiam países que pudessem declarar guerra contra civis — crianças, mulheres e idosos — e cortar o fornecimento de ajuda humanitária e médica. Nunca imaginamos que, 18 meses depois do início da guerra, a situação poderia piorar tanto a ponto de não encontrarmos um leito de hospital para um paciente com leucemia... nem leite em fórmula para um bebê com fome" declarou.

"Quero contar que, na semana passada, transitei entre o horror das cirurgias e o caos dos feridos, e logo depois de um dia longo no trabalho, descobri que faltava comida nos mercados, não porque não estivávamos com fome, mas porque simplesmente não havia nada", acrescentou.

"Desabamos de cansaço e tentamos esquecer a fome. Mas nunca vou esquecer das lágrimas das mães na porta do hospital implorando por leite em fórmula para seus bebês."

<><> '33 mortos por desnutrição em 48 horas'

Diante da deterioração das condições em Gaza, o Ministério da Saúde local está classificando o número de mortos por categorias.

Na terça-feira, foi informado que 33 pessoas, incluindo 12 crianças, morreram por desnutrição nas últimas 48 horas, elevando o total de mortes por desnutrição para 101, sendo 80 crianças. Nesta quarta-feira (23/07) foram informadas outras 10 mortes por desnutrição.

O Ministério também indicou que 1.026 pessoas morreram pelas mãos do exército israelense enquanto buscavam ajuda alimentar desde que o sistema de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza começou, em 27 de maio.

A ONU divulgou um número ainda maior, de 1.054 mortes.

Segundo a ONU, aproximadamente 87,8% de Gaza está hoje coberta por ordens de evacuação de Israel ou se encontra dentro de zonas militarizadas israelenses, o que deixa os 2,1 milhões de habitantes confinados em um território de 46 km².

Israel lançou uma campanha militar em Gaza em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas e levou outras 251 como reféns, segundo as autoridades israelenses.

Desde então, os ataques de Israel mataram pelo menos 59.029 pessoas, incluindo mais de 17 mil crianças, e feriram mais de 142 mil, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

<><> Israel diz que fome é 'tática do Hamas'

O porta-voz do governo israelense, David Mencer, afirmou que não há fome causada por Israel.

"Há uma escassez provocada pelo homem, arquitetada pelo Hamas", disse.

Mencer iniciou sua declaração expressando "profundo pesar" pela perda de soldados israelenses. Segundo ele, 895 soldados morreram desde 7 de outubro de 2023.

Ela acrescentou que dois militares foram mortos recentemente no sul de Gaza.

Segundo Mencer, a ajuda tem chegado até Gaza por meio da Fundação Humanitária de Gaza e por remessas coordenadas pela ONU com matérias-primas para padarias e cozinhas comunitárias.

Ele ainda afirmou que, entre 19 de julho e a última terça-feira, mais de 4.400 caminhões entraram em Gaza, contendo alimentos, farinha e comida para bebês.

Ontem, a Fundação Humanitária de Gaza teria distribuído dois milhões de refeições em um único dia, segundo Mencer, que afirmou que 87 milhões de refeições no total foram distribuídas pela organização.

"Hamas está tentando impedir a distribuição de comida. Eles estão saqueando os caminhões de ajuda".

O porta-voz do governo de Israel também declarou que, nas últimas 24 horas, mais de 700 caminhões de ajuda estão dentro de Gaza, aguardando retirada pela ONU.

Mencer culpou a ONU por esse "gargalo" e sugeriu que a organização seja o principal obstáculo para manter o fluxo de ajuda para Gaza.

Ao ser questionado sobre o comunicado de mais de 100 organizações humanitárias, que denunciaram fome generalizada em Gaza e pediram por um cessar-fogo, o porta-voz afirmou que as alegações de fome têm sido recorrentes ao longo do conflito, mas que são "alertas falsos".

"Onde há fome em Gaza, é uma fome arquitetada pelo Hamas."

Segundo ele, a fome seria uma tática do Hamas para pressionar Israel.

¨      'Já enfrentamos fome antes, mas nunca assim': crianças esqueléticas lotam enfermarias de hospitais enquanto a fome atinge Gaza

Os braços esqueléticos de Ohammed sobressaem de um macacão com um emoji de rosto sorridente e o slogan "menino sorridente", que em um hospital de Gaza soa como uma piada cruel. Ele passa boa parte do dia chorando de fome ou roendo os próprios dedos emaciados.

Aos sete meses de idade, ele pesa apenas 4 kg e esta é a segunda vez que é internado para tratamento. Seu rosto está magro, seus membros são pouco mais que ossos cobertos por pele flácida e suas costelas se projetam dolorosamente do peito.

"Meu maior medo agora é perder meu neto para a desnutrição", disse sua avó, Faiza Abdul Rahman, que sofre constantemente de tontura por falta de comida. No dia anterior, a única coisa que ela comeu foi um único pedaço de pão pita, que custou 15 shekels (£ 3).

"Seus irmãos também sofrem de fome extrema. Em alguns dias, vão para a cama sem ter o que comer."

Mohammed nasceu saudável, mas sua mãe estava desnutrida demais para produzir leite materno, e a família só conseguiu obter duas latas de fórmula infantil desde então.

A enfermaria do hospital da Sociedade Beneficente dos Amigos dos Pacientes está lotada de outras crianças esqueléticas, algumas acomodadas em 12 leitos. Restam apenas duas equipes pediátricas em funcionamento na Cidade de Gaza, e até 200 crianças chegam diariamente em busca de tratamento.

O Dr. Musab Farwana passa os dias tentando, mas muitas vezes sem sucesso, salvá-los. Depois, ele volta para casa para compartilhar refeições insuficientes com seus próprios filhos e filhas famintos.

A família inteira está perdendo peso rapidamente, porque seu salário não compra quase nada, e ele não quer arriscar a corrida mortal por suprimentos distribuídos pela Fundação Humanitária de Gaza depois que outro médico, Dr. Ramzi Hajaj, foi morto tentando conseguir comida em um local.

Gaza nunca passou tanta fome, apesar dos vários alertas sobre a iminente fome ao longo de quase dois anos de guerra. Em apenas três dias desta semana, autoridades de saúde pública registraram 43 mortes por fome; antes disso, havia 68 no total.

Faiza Abdul Rahman, que permaneceu na Cidade de Gaza durante toda a guerra, disse que mesmo os controles mais rigorosos sobre os alimentos que entravam no norte de Gaza no ano passado não foram tão ruins. "Já passamos fome antes, mas nunca como agora", disse ela. "Esta é a fase mais difícil que já enfrentamos."

Depoimentos de moradores e médicos locais, além de dados do governo israelense, da Fundação Humanitária de Gaza, da ONU e de organizações humanitárias, mostram que a comida está acabando.

Prateleiras vazias se refletem em preços altíssimos, com a farinha sendo vendida por mais de 30 vezes o preço de mercado no começo do ano.

Nem mesmo dinheiro ou empregadores influentes podem mais proteger os palestinos. "Organizações humanitárias estão testemunhando seus próprios colegas e parceiros definhando diante de seus olhos", alertaram mais de 100 grupos humanitários que trabalham em Gaza, incluindo MSF, Save the Children e Oxfam, em um comunicado conjunto esta semana.

O sindicato dos jornalistas da AFP afirmou na segunda-feira que, pela primeira vez na história da agência de notícias, corre o risco de perder um colega para a fome . Na quarta-feira, o chefe da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que uma "grande proporção" da população de Gaza estava passando fome . "Não sei como chamar isso além de fome em massa – e é causada pelo homem", disse ele.

Durante meses, Israel restringiu o envio de alimentos. As quantidades totais permitidas desde o início de março estão bem abaixo das rações de fome para a população de 2,1 milhões de pessoas, e os palestinos já estão enfraquecidos pelo impacto da prolongada escassez de alimentos e dos repetidos deslocamentos.

“Há quase dois anos, as crianças aqui sofrem com a fome. Mesmo que em alguns dias se sintam satisfeitas, não se trata apenas de estarem satisfeitas, mas sim de receber os nutrientes de que o corpo necessita. E esses nutrientes estão completamente ausentes”, disse Farwana, a pediatra.

Esses anos de desnutrição os tornam mais vulneráveis a outras doenças, e sua baixa imunidade é agravada pela grave escassez de suprimentos médicos básicos, cuja entrada também foi bloqueada por Israel.

“Muitas vezes, sinto-me devastado porque há algo tão simples que a criança precisa para sobreviver, e nós simplesmente não conseguimos fornecer”, disse ele. Três pacientes gravemente desnutridos morreram na UTI esta semana, um deles uma menina que provavelmente teria sobrevivido se os médicos tivessem conseguido lhe administrar potássio intravenoso, normalmente um medicamento básico, e agora impossível de obter em Gaza.

“Tentamos dar a ela alternativas orais, mas devido à desnutrição e às complicações resultantes, ela teve má absorção.”

Esses casos me assombram, nunca saem da minha cabeça. Essa criança poderia ter voltado para a família e vivido uma vida normal. Mas, como uma coisa simples não estava disponível, ela não sobreviveu.

Israel impôs um cerco total a Gaza a partir de 2 de março. Quando o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o suspendeu em 19 de maio, alegou que o governo estava agindo para evitar uma "crise de fome", porque alguns dos aliados mais fiéis do país lhe disseram que não tolerariam imagens de fome.

Na verdade, o governo israelense simplesmente mudou o curso para prolongar a crise de fome, permitindo a entrada de apenas quantidades mínimas de ajuda, para que a decadência de Gaza rumo à fome progredisse um pouco mais lentamente.

O governo israelense anunciou planos de canalizar toda a ajuda por meio de uma organização secreta apoiada pelos EUA que administra quatro pontos de distribuição militarizados.

Centenas de pessoas foram mortas tentando obter alimentos distribuídos em locais que os palestinos descrevem como "armadilhas mortais", que distribuíram suprimentos que atendem apenas uma fração das necessidades de Gaza.

Em 22 de julho, a GHF estava operando há 58 dias, mas a comida que ela havia trazido só teria sustentado a população de Gaza por menos de duas semanas, mesmo se fosse distribuída igualmente.

Na terça-feira, Umm Youssef al-Khalidi se preparava para tentar a sorte pela primeira vez em um centro de distribuição do GHF. Ela os evitava há meses porque seu filho mais novo tem dois anos e o mais velho, 13, e seu marido é paralítico e está confinado a uma cadeira de rodas.

“Temos silenciado nossa fome com água”, disse ela. “Meu medo pela minha família é maior do que o medo por mim mesma. Tenho medo de que algo ruim me aconteça e eu os deixe sem ninguém para cuidar deles.”

Mas sua família ficou sem comida por quatro dias na semana passada e, quando quebraram o jejum, oito deles tiveram que dividir um saco de arroz e duas batatas dados a eles por um estranho que passava.

As crianças eram excelentes alunas antes da guerra, sempre ganhando bolsas de estudo. Agora, elas passam os dias sentadas na beira da rua, embaixo de uma mesquita bombardeada no bairro de Al-Wehda, na Cidade de Gaza, onde as meninas tentam vender pulseiras em vez de apenas mendigar.

Hoje em dia, há pouca demanda por joias baratas em Gaza e, embora às vezes um transeunte sinta pena do grupo de crianças magras com rostos sujos e roupas esfarrapadas, os preços altos significam que elas compram pouca comida.

“Meus filhos ficaram esqueléticos, pele e osso”, disse Khalidi. “Até o menor esforço os deixa tontos. Eles se sentam de novo, pedindo comida, e eu não tenho nada para dar. Não posso mentir e dizer que vou levar algo para eles quando sei que não vou conseguir.”

Então ela decidiu que, no sombrio cálculo dos riscos para sua família, a esperança de conseguir um pouco de comida finalmente superava o risco de perder o adulto que mantinha suas vidas unidas.

O telefone do marido dela havia sido roubado no início da guerra, então eles não teriam como se comunicar durante as longas horas que ela passaria caminhando até o local do GHF, depois correndo para tentar conseguir comida e voltando a pé. A família teria apenas que esperar e torcer.

"Não tenho mais ninguém para enviar", disse ela. "É doloroso vê-los sofrer, e a saúde deles piora a cada dia que passam sem comer."

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

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