João
Lister: A Indústria da Crise - letargia cívica e o bombardeio contínuo da
atenção
Vivemos
sob o império da crise. Não uma crise específica, mas a proliferação contínua
de múltiplas crises que se sobrepõem, se sucedem, se anulam e se alimentam.
Esse fenômeno, que Giorgio Agamben denominaria como o estado de exceção
permanente, não é acidente, mas engrenagem de um sistema — uma verdadeira
indústria da crise, que paralisa o sujeito histórico e desarticula a ação
política transformadora.
No
início do século XXI, com os atentados de 11 de setembro de 2001, o mundo
ingressou em um novo paradigma de governança por meio do medo e da emergência.
Desde então, a política passou a ser administrada sob o signo da ameaça:
terrorismo, colapso financeiro, pandemias, guerras cibernéticas, crises
migratórias, colapsos climáticos, novas pandemias, golpes constitucionais, fake
news, IA descontrolada. Em 2025, vivemos mais um ciclo dessa repetição — Israel
intensifica sua ofensiva militar em Gaza após ataques coordenados do Hezbollah;
a Ucrânia entra em seu quarto ano de guerra, agora sob crescente desgaste da
atenção midiática global; no Brasil, uma crise hídrica ameaça o Sudeste
enquanto o Congresso discute uma anistia ampla para crimes de fake news eleitorais
e sua soberania é ameaçada por Donald Trump. Tudo ao mesmo tempo.
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A
fragmentação é tão estratégica quanto o choque.
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A lógica do acúmulo: de Petrogrado a bolsonarismos
A
Revolução Russa, deflagrada em fevereiro e aprofundada em outubro de 1917, foi
um símbolo da ruptura, um ponto de inflexão na história moderna. Não se tratava
apenas da derrubada de um regime imperial, mas da canalização da indignação
popular contra uma estrutura opressora visível. A miséria era concreta, os
privilégios da aristocracia explícitos, a concentração do poder e da riqueza
indecentes. A multidão sabia o que atacar.
Em
contraste, os levantes contemporâneos se dissolvem em um mar de indignações
difusas. Em 2013, as Jornadas de Junho no Brasil começaram como protestos
contra o aumento das tarifas de transporte, mas logo se pulverizaram em dezenas
de pautas: corrupção, saúde, educação, e até mesmo “contra tudo isso que está
aí”. A falta de um inimigo definido é deliberada — como diria Naomi Klein em A
Doutrina do Choque, o sistema neoliberal moderno sobrevive criando confusão,
utilizando a comoção para avançar agendas impopulares.
No
Brasil contemporâneo, a ascensão do bolsonarismo é produto direto dessa
estratégia. Um populismo reacionário que se alimenta de crises: moral,
institucional, sanitária, educacional, cultural. Jair Bolsonaro não foi eleito
apesar da crise, mas por causa dela. Ele encarnou o ressentimento difuso, sem
precisar oferecer soluções. Cada escândalo ou declaração absurda gerava uma
nova cortina de fumaça que enterrava o anterior — uma overdose informacional,
onde a indignação não encontra objeto nem direção.
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A paralisia pela multiplicidade
A era
digital amplia esse fenômeno a uma escala inédita. Com a explosão das redes
sociais, a atenção se tornou o recurso mais escasso. Como apontou Byung-Chul
Han, no livro Sociedade do Cansaço, vivemos em um tempo de hiperestimulação,
onde o excesso de informação leva à exaustão e à incapacidade de ação. Em 2025,
as plataformas seguem lucrando com o caos: cada guerra, escândalo, denúncia,
massacre ou catástrofe viraliza, mas apenas por 24 horas. No dia seguinte, um
novo acontecimento ocupa o topo do feed.
O
bombardeio informacional contínuo não apenas anula a memória como impede a
solidariedade efetiva. As dores são descartáveis. A guerra em Gaza, com mais de
35 mil mortos em dois anos, já não gera comoção suficiente; a fome no Sudão,
com crianças morrendo aos milhares, sequer entra na pauta dos noticiários; os
desastres ambientais que devastam o Pantanal ou a Amazônia são tratados como
“problemas regionais”. A urgência universalizou-se, mas a mobilização morreu.
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Do sujeito histórico ao avatar indignado
Hannah
Arendt já alertava que o totalitarismo moderno cresce quando os cidadãos deixam
de se sentir parte ativa do processo político. A apatia contemporânea, no
entanto, não é ausência de emoção, mas excesso dela — um estado de excitação
impotente, onde o sujeito acredita participar do mundo através de “posts”,
“stories”, curtidas e hashtags. A militância virou performance. O engajamento é
medido em métricas vazias.
Zygmunt
Bauman chamaria isso de “compromisso líquido”: protestos que evaporam tão
rapidamente quanto surgem. E o sistema aprende com isso. A coisificação da
rebelião é tão avançada que já se vende camiseta “revolucionária” pela Shein,
enquanto algoritmos de IA fabricam discursos que imitam lutas identitárias para
gerar engajamento.
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A indústria da crise e seus operadores
Esse
estado permanente de urgência interessa a muitos: governos autoritários
justificam censuras; corporações se esquivam de responsabilizações ambientais e
sociais; a imprensa hegemônica capitaliza o medo com manchetes alarmistas. Em
2025, o próprio conceito de “normalidade” se torna irrelevante — quem governa
são as exceções.
Pior: a
indústria da crise não quer solução, mas continuidade. Ela prospera com a
sensação de colapso iminente. Quanto mais se teme o futuro, mais se aceita o
presente — mesmo que ele seja inaceitável. É uma pedagogia do desespero:
desarticula-se a esperança para impedir a organização coletiva.
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Saídas possíveis: contra a distração, o foco histórico
Libertar
a política da lógica do entretenimento e da imagem é tarefa urgente. Isso exige
não apenas crítica, mas construção. Como propõe o filósofo francês Alain
Badiou, o verdadeiro ato político é aquele que rompe com o possível — não é
repetição de gestos vazios, mas criação de novas formas de relação e de
verdade.
Precisamos
recuperar a memória histórica como arma contra o esquecimento estratégico.
Retomar o sentido de pertencimento, de construção coletiva. A esquerda, tão
fragmentada quanto a própria sociedade que denuncia, precisa aprender a
construir convergência sem apagar diferenças. A crítica deve voltar a ser
projeto.
Afinal,
se tudo é crise, o que permanece é o sistema que a produz.
A
indústria da crise e dos conflitos não apenas desinforma — ela desmobiliza. Seu
produto não é apenas o medo, mas a letargia cívica, a crença de que nada pode
ser feito, de que todas as lutas são vãs. Contra esse niilismo político, é
preciso resgatar o sujeito histórico, a consciência de classe, a solidariedade
concreta.
Ou
retomamos o poder de narrar o mundo, ou continuaremos meros espectadores do
espetáculo do colapso.
• Esmael Morais: Moraes chuta o pau da
barraca de bolsonaristas no STF
O
ministro Alexandre de Moraes chutou o pau da barraca, literalmente. Na
madrugada deste sábado (26), ele determinou o fechamento da Praça dos Três
Poderes e autorizou o uso de força policial contra parlamentares bolsonaristas
que tentavam ressuscitar acampamentos golpistas em frente ao Supremo Tribunal
Federal (STF). O recado foi direto: ou desmontam por bem, ou serão presos.
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Moraes não tolera repeteco de 8 de janeiro
A
decisão do ministro atendeu à Procuradoria-Geral da República, que classificou
os atos como afronta institucional. No despacho, Moraes proibiu qualquer tipo
de estrutura num raio de 1 km do STF, do Congresso e do Palácio do Planalto. A
ordem abrange barracas, bandeiras, tendas, caixas de som, colchões, até
cadeiras de praia.
O alvo:
deputados como Hélio Lopes (PL-RJ), Gustavo Gayer (PL-GO) e Nikolas Ferreira
(PL-MG), que usaram a praça como palanque para encenar protestos contra o
Supremo. A encenação, no entanto, durou pouco. A Polícia Legislativa já iniciou
a remoção com base no mandado judicial.
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Quem pode ser preso?
A ordem
judicial prevê prisão imediata de qualquer parlamentar que se recuse a
desmontar o acampamento. Segundo apurou o Blog do Esmael, o governador do DF,
Ibaneis Rocha (MDB), foi comunicado oficialmente da decisão e teria autorizado
o uso da força policial para garantir o cumprimento.
Deputados
como Hélio Lopes já deixaram o local durante a madrugada. Outros, como Nikolas
Ferreira e Gustavo Gayer, seguem mobilizados nas redes sociais, ameaçando nova
ocupação no dia 1º de agosto, quando movimentos sociais também planejam
protestos contra o tarifaço de Donald Trump.
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Ibaneis promete prisão se houver resistência
O
governador do Distrito Federal disse que tentará uma saída “pacífica”, mas
avisou que não hesitará em prender os parlamentares, caso desobedeçam à ordem
judicial.
“Vamos
tentar tirar pacificamente. Se não saírem, serão presos”, cravou Ibaneis,
deixando claro que a paciência institucional chegou ao limite.
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STF e bolsonarismo: tensão crônica
O
acampamento-relâmpago ocorre em meio a uma nova onda de radicalização
bolsonarista, motivada pelas recentes condenações de Carla Zambelli e do
senador Marcos do Val pelo próprio STF.
Ambos
foram punidos por crimes graves, Zambelli por invasão ao sistema do CNJ, Marcos
do Val por obstrução de Justiça. Os atos em Brasília foram interpretados como
provocação direta ao Judiciário, e Moraes reagiu como de costume, com a caneta
e o peso da lei.
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O que está em jogo institucionalmente?
O
episódio reacende o conflito entre bolsonarismo e Judiciário às vésperas das
eleições de 2026. A estratégia de tensionar o STF com atos públicos e
simbólicos visa transformar Alexandre de Moraes em alvo eleitoral da
extrema-direita, o “inimigo do povo”, o “censor da oposição”.
Por
outro lado, a postura firme do ministro busca preservar a Corte diante das
ameaças golpistas que seguem pulsando, mesmo após o julgamento dos réus do 8 de
janeiro.
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Risco de nova radicalização
A
chegada do dia 1º de agosto, quando entra em vigor a sobretaxa de 50% imposta
por Trump sobre produtos brasileiros, pode catalisar protestos simultâneos,
tanto da direita quanto da esquerda. O risco de confronto simbólico, e real, na
Esplanada preocupa o governo federal e as forças de segurança.
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2026 no horizonte: quem confronta Moraes vira pré-candidato
Nos
bastidores, interlocutores de Moraes avaliam que os deputados bolsonaristas
tentam se cacifar para 2026 encarnando a narrativa do “perseguido político”. A
cartilha é conhecida: provocar o Judiciário, viralizar nas redes, posar de
mártir e faturar votos.
Mas
Moraes também faz política. Ao endurecer com os parlamentares, envia um recado
ao centro democrático, o STF não se curvará a novas investidas autoritárias. O
tabuleiro está posto.
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Não passarão
O
ministro Alexandre de Moraes foi direto ao ponto: não haverá segunda temporada
de 8 de janeiro. Ao fechar a Praça dos Três Poderes e ameaçar prender
deputados, ele chutou o pau da barraca literal e simbolicamente. A
extrema-direita já ensaia reação, mas, desta vez, o cerco institucional parece
mais sólido. O Brasil assiste, dividido, a mais um embate entre toga e farda,
entre o Estado Democrático e os escombros do golpismo.
• Hélio Lopes e o MST (Movimento dos Sem
Trump) na porta do STF. Por Ricardo Nêggo Tom
Numa
tentativa de reeditar os acampamentos golpistas que serviram como base
operacional para a tentativa de golpe no 08/01, legionários bolsonaristas
planejavam montar suas barraquinhas na porta do STF, na Praça dos Três Poderes,
em Brasília. Liderados pelo infante deputado federal Hélio Lopes, também
conhecido como o “negão do Bolsonaro”, como ele gosta de ser chamado, o
bolsonarismo tentou criar uma espécie de MST da extrema-direita, para protestar
contra o que eles consideram uma censura do judiciário. Poderíamos chamar o
evento de Movimento dos Sem Trump, mas prefiro classificar a ideia como mais
uma “loucura” utilizada como método para provocar o Judiciário e escalar as
tensões envolvendo os bolsonaristas e o ministro Alexandre de Moraes.
Se um
legionário romano usava uma armadura, calçava uma pilo (sandália de couro), e
portava um gládio (um tipo de espada) como arma, Hélio Lopes montou seu
acampamento em frente ao STF trajando uma camiseta com a bandeira de Israel
como escudo, empunhando uma Bíblia como arma, e usando um esparadrapo na boca
como mordaça. Aliás, o último acessório deveria ser adotado por toda a base
bolsonarista no Congresso Nacional, o que nos pouparia de ouvir as estultices
ditas por eles. A minha dúvida é se o deputado “negão do Bolsonaro”, mesmo
sendo negro, tem noção do simbolismo negativo que carrega um homem preto
amordaçado e praça pública. Se tivesse, não o teria utilizado para uma causa
tão desonesta e favorável àquele que sempre defendeu a opressão das minorias.
A cena
se torna ainda mais patética quando uma mulher se aproxima do deputado e começa
a chorar, antes de lhe dar um abraço e um beijo no rosto em sinal de
debilidade, digo, de solidariedade. Um gesto que me fez evocar o filósofo
General Mauro Fernandes, e me levou a um intruso “pensamento digitalizado” no
qual eu imaginava uma senhora de engenho oferecendo carinho a um preto
escravizado, amordaçado no tronco prestes a receber algumas chibatadas do
capitão do mato. Só que me lembrei que pretos amordaçados, seja injustamente ou
por defenderem uma causa justa, nunca suscitaram muita compaixão nas pessoas, e
que o deputado Hélio Lopes é um dos capitães do mato sem cachorro que o
bolsonarismo quer enfiar todo o país.
Também
se uniu a Hélio Bolsonaro outro deputado federal, Coronel Chrisóstomo, o mesmo
que ergueu uma bandeira com o nome de Trump dentro da Câmara, e que sugeriu uma
intervenção militar para livrar Bolsonaro da cadeia, e o ex-desembargador
Sebastião Coelho, um evangélico conhecido por apoiar as sandices de Bolsonaro
orando para que elas não sejam castigadas pela justiça dos homens. A distopia
legionária parecia ganhar corpo com a chegada de outros populares, incluindo
mais evangélicos, que começaram a fazer orações e a entoar louvores em defesa
do sagrado direito de colocarem em prática outra tentativa de golpe contra o
país. Só não contavam que Alexandre de Moraes também fosse armar a sua barraca
por ali, e ordenar a retirada daquele circo dos horrores.
Com
suas barracas devidamente desarmadas, a pequena legião bolsonarista que tentou
cercar o STF partiu em retirada. Os gritos de “criminoso” direcionados a Moraes
foram silenciados pela PMDF, que cercou a praça dos Três Poderes com grades,
impedindo que outros lunáticos se juntassem aos aluados deputados. Nem deu
tempo de fazer a oração do pneu, nem de invocar a presença dos ET’s com a
lanterna do celular. Ainda bem, porque sabemos como esse tipo de culto costuma
terminar. O Movimento dos Sem Trump sucumbiu ao MMGA (Make Moraes Great Again),
e voltou para casa sem rumo, sem Trump, sem Bolsonaro, e sem terra para tentar
organizar assentamentos golpistas. O líder do movimento será preso em breve, e
quem sabe poderá montar sua barraca de protesto no pátio da Papuda, se a
direção do presídio assim permitir. Espero que mantenham o esparadrapo na boca
durante as sessões da Câmara, e distribuam o adereço para todos os sectários da
congregação. A democracia e os nossos ouvidos agradecem.
Fonte:
Brasil 247

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