IA:
A maçã envenenada de Donald Trump
Depois
de quase seis meses, e conforme havia determinado poucos dias depois da posse1, o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, lançou com pompa e
circunstância, em 23/7, sua estratégia de inteligência artificial — o America’s AI Action Plan. Trata-se de um documento de
menos de 30 páginas onde sua administração traça os rumos que o país deverá
tomar para manter a dianteira em relação à China na corrida da tecnologia que
está se alastrando por todas as frentes. E mostra querer os vizinhos e aliados
a seu lado.
Com uma
retórica que, à primeira vista, parece defender valores universais comuns para
uma IA que sirva a todos os países, o documento também pode ser lido como mais
uma ameaça de ação hegemônica dos EUA sobre os países do Sul Global.
Principalmente, para as nações que, como o Brasil, estão buscando uma via
independente e soberana às duas forças que competem pela liderança em IA
globalmente. Neste sentido, nesta análise vamos focar mais nas consequências
externas do plano do que nos eixos que tratam de medidas voltadas ao mercado
interno.
Em
poucas palavras, pode-se resumir os três pilares do plano de ação2 da seguinte
forma:
1.
Governança democrática e direitos humanos
- Promove o uso da
IA de forma ética, centrada no ser humano, com base em direitos
fundamentais.
- Reforça valores
democráticos como transparência, accountability, segurança e
privacidade.
- Defende
“ambientes regulatórios favoráveis” que evitem barreiras
desnecessárias à inovação.
2.
Integração econômica e inovação
- Estimula o
crescimento econômico impulsionado pela IA com incentivos à indústria
e comércio digital.
- Promove interoperabilidade
regulatória entre os países das Américas.
·
Estabelece cooperação em pesquisa e inovação com bases comuns de dados,
infraestrutura digital e redes de centros de excelência.
3.
Capacitação e equidade
- Incentiva a
formação de mão de obra qualificada por meio de programas em ciência de
dados, IA e ética digital.
·
Preconiza a inclusão de populações vulneráveis e a redução da
desigualdade digital por meio de capacitação técnica.
4.
Infraestrutura digital resiliente
- Reforça a
importância de redes seguras, conectividade e computação de alto
desempenho.
- Defende investimentos
públicos e privados em infraestrutura crítica de dados, incluindo centros
de dados e redes de telecomunicação.
5.
Segurança, resiliência e confiança
- Promove o uso
responsável de IA em segurança cibernética, combate à desinformação e
resiliência institucional.
- Incentiva a
criação de sistemas confiáveis de IA e avaliação de riscos, além da
proteção contra usos maliciosos.
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Protecionismo intervencionista
Olhando
com lupa, porém, os silêncios falam alto. E, também, os impactos não declarados
na realidade tecnológica dos demais países. Em resumo, trata-se de um plano
protecionista e intervencionista, como várias das medidas do segundo mandato de
Trump, que traz riscos e desafios estruturais, principalmente, para estados
nacionais da região. A começar pela ênfase na interoperabilidade regulatória e
técnica entre as regras nacionais. Parece claro que, ao defender uma abordagem
mais liberal para seu plano e buscar equidade com outras jurisdições, podem
acabar preponderando os normativos, padrões, modelos e plataformas já
consolidados pelos EUA, criando dependência tecnológica e cerceando a soberania
digital, com o intuito de reduzir as outras nações a meras consumidores de
tecnologia. Este alinhamento normativo favorável à inovação em detrimento da
regulação pode inibir tentativas locais de regulamentação como a do PL
2.338/23, atualmente em apreciação pela Câmara dos Deputados do Brasil. Mais do
que isso, pode frustrar iniciativas que prejudicariam os conglomerados
estadunidenses, como política de dados locais, tributos sobre serviços digitais
e exigências de interoperabilidade com softwares públicos.
Outro
ovo da serpente importante de se olhar atentamente é a criação de
infraestruturas compartilhadas e bases comuns de dados. Como já vem ocorrendo,
estas duas propostas podem ampliar ainda mais o acesso das grandes empresas dos
EUA a dados gerados nos países com menor capacidade tecnológica instalada,
aumentando o colonialismo de dados — onde a riqueza extraída da economia
digital não retorna às sociedades geradoras da informação — e anabolizando o
poder econômico das big techs, que já possuem predomínio exacerbado nos
serviços de processamento da chamada computação em nuvem e tendem a se estender
para IA.
Por
fim, mas não menos importante, estão as questões de cibersegurança e valores
morais. A governança digital promovida pela administração Trump inclui o uso da
IA em segurança nacional. Para quem viveu o caso Snowden, fica patente que esta
defesa poderá ser usada como justificativa para intervenções tecnológicas ou
vigilância em países considerados instáveis. Algo que tem potencial risco de
ocorrer, levando em consideração a tendência dos EUA em exportarem seus
conceitos de democracia e liberdade há muitas décadas.
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Geopolítica trumpista em IA
Mas
talvez nada seja mais preocupante para países em desenvolvimento do que o
terceiro pilar do plano, onde o governo Trump deixa transparente como pretende
expandir suas ações geopoliticamente para enfrentar as ameaças da China à sua
liderança em IA. Aqui, vale uma descrição mais exaustiva e sistemática:
1.
Uso responsável de IA em segurança e defesa
- Incentivo ao
desenvolvimento e uso de sistemas de IA por instituições públicas voltadas
à segurança nacional e internacional.
- Foco
na transparência, controle humano significativo e
no cumprimento das normas internacionais, como o Direito
Internacional Humanitário.
- Reforço
da responsabilidade dos Estados em impedir o uso de IA para fins
ofensivos ou desestabilizadores (ex: armas autônomas letais).
2.
Combate à desinformação e proteção democrática
- Uso da IA para
identificar e mitigar ameaças híbridas, como campanhas de
desinformação, ataques cibernéticos e manipulação de informação eleitoral.
- Incentivo à
cooperação entre Estados das Américas para identificar atores
estatais e não estatais que explorem vulnerabilidades digitais.
3.
Cibersegurança cooperativa e resiliência
- Fortalecimento
da infraestrutura crítica digital, com mecanismos regionais de
detecção de ameaças, resposta rápida e compartilhamento de inteligência.
- Criação
de protocolos hemisféricos para contenção de crises envolvendo
sistemas de IA e ataques a redes estratégicas (como energia, finanças,
defesa).
Apesar
da retórica de cooperação e estabilidade, esse pilar esconde uma série de
riscos geopolíticos para países em desenvolvimento, particularmente aqueles que
não compartilham os interesses estratégicos dos EUA. O primeiro deles é o fato
de a estratégia pressupor que todos os países compartilham a mesma visão do
conceito de “segurança”, que os EUA costumam usar de forma instrumental para
justificar vigilância e sanções. Como está latente no debate sobre a importação
de chips de IA desde o início deste ano, os países também poderão ter que
alinhar sua política externa da agenda digital aos interesses de Washington sob
pena de serem rotulados como “zonas de risco”.
Isso
nos leva ao uso de IA em uma onda de crescente militarização das tecnologias
digitais com a participação cada vez mais regular de empresas do Vale do
Silício, como é o caso de Anduril, Palantir e OpenAI. Ao promover o uso de IA
para defesa, o plano ignora as assimetrias bélicas entre os países. Como
sabemos, os países latino-americanos não possuem capacidades de desenvolver
sistemas autônomos de defesa, o que pode agravar a dependência de fornecedores
estrangeiros, inclusive em contextos de conflito. No caso da governança em
segurança internacional, a estratégia é ainda mais excludente ao não prever a
inclusão equitativa de países em desenvolvimento nos fóruns de decisão sobre
IA. Mais grave do que tudo, por razões óbvias, o AI Action Plan desconsidera
totalmente a cooperação multilateral com blocos como BRICS, CELAC ou África,
preferindo redes de alinhamento político ao estilo OCDE.
Outra
arma importante em termos de diplomacia é a exportação de modelos de vigilância
e “segurança democrática” para o combate à desinformação e crimes cibernéticos.
Da forma como são desenvolvidos os sistemas de IA não é difícil direcioná-los
para a vigilância algorítmica sobre populações marginalizadas, movimentos
sociais e opositores políticos, bem como os próprios governos eleitos. Países
com instituições frágeis ou capturadas podem adotar modelos prontos de IA para
segurança, baseados em datasets enviesados, racistas ou descontextualizados da
realidade local.
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A ameaça chinesa
Mesmo
não deixando isso explícito, a arquitetura geopolítica do plano de ação é
apontada como uma resposta hemisférica direcionada a deter a crescente
influência tecnológica da China e ganhar aliados em regiões como América Latina
e Caribe. Construir um ecossistema digital interoperável sob liderança dos EUA,
dificultando a entrada ou permanência de tecnologias, padrões e infraestruturas
dominadas pela China (como Huawei, ZTE, TikTok, Alibaba Cloud, Deep Seek, etc).
Não à toa, o documento traz bastante referência a redes de telecomunicações,
uma das preocupações de Trump desde quando seu país perdeu a guerra do 5G para
a gigante Huawei. Outra tentativa de enfrentar os grandes modelos chineses de
IA é o estímulo a códigos e pesos abertos para os LLMs, coisa até então
impensável para um país com desenvolvimentos proprietários como os do ChatGPT e
Claude.
Uma
menção explícita à China se dá no trecho que propõe a ocupação de espaços
multilaterais, como G20, G7, ICANN e fóruns da ONU, a fim de conter o avanço da
potência asiática na definição de padrões e protocolos estratégicos. Fica claro
em várias passagens que a intenção é promover uma ordem digital ocidentalizada,
baseada em valores como “transparência”, “accountability”, “governança
democrática”, sem aceitar modelos regulatórios ou empresariais do “Oriente
autoritário”. O texto vai direto ao ponto neste caso:
Liderado
pelo Departamento de Estado e pelo Departamento de Comércio, aproveitar a
posição dos EUA em órgãos internacionais diplomáticos e de definição de padrões
para defender vigorosamente abordagens internacionais de governança de IA que
promovam a inovação, reflitam os valores americanos e combatam a influência
autoritária. (Pág. 20)
O
fantasma do dragão oriental continua em outros momentos que tratam, por
exemplo, da busca de infraestrutura digital soberana e vigilância sobre cadeias
críticas resilientes focadas em redes digitais seguras e confiáveis, capacidade
nacional de computação e armazenamento de dados, bem como fornecimento seguro
de semicondutores e IA confiável. Com isso, os EUA buscam substituir ou impedir
a expansão da China como provedor de tecnologia de base na região, promovendo
investimentos alternativos e pressionando por padrões técnicos “seguros”.
Discurso muito parecido com o promovido há poucos anos na guerra do 5G sob a
marca OpenRan.
Ao
tratar de segurança digital e combate à desinformação, o plano propõe criar
sistemas de detecção de ameaças; combater “atores estatais e não estatais” que
promovem instabilidade; e fortalecer a resiliência institucional contra
manipulações algorítmicas. Embora não a nomeie diretamente, esse trecho alude
claramente à preocupação dos EUA com operações de influência digital e
diplomacia pública da China (e também da Rússia) na região — seja via
plataformas como TikTok e WeChat, ou por meio de mídias estatais, universidades
e centros culturais. Na linha mais comum de soft power, a proposta
é também uma guerra de narrativas, promovendo um ecossistema de IA que blinde a
região contra modelos comunicacionais e epistemológicos alternativos, rotulados
como autoritários ou desestabilizadores.
O plano
também reforça que os países que aderirem à proposta devem apoiar princípios de
IA responsável e ética alinhada com democracias; adotar regras interoperáveis
para comércio digital; e contribuir com fóruns multilaterais liderados por
países do G7 ou OCDE. Esses pontos se opõem diretamente ao modelo defendido
pela China, e o próprio Brasil, de atuação multilateral em foros como o BRICS,
G77 ou ONU. Trata-se de uma espécie de cordão sanitário tecnológico, alinhando
os países aliados com a estratégia de desacoplamento digital e comercial dos
EUA frente à China. Em resumo, o plano visa isolar a China na governança global
da IA, cooptando países latino-americanos para blocos normativos liderados pelo
Ocidente.
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Hegemonia digital
Depois
de analisar suas 28 páginas, é possível entender que o America’s AI
Action Plan representa uma tentativa dos EUA institucionalizarem uma
nova hegemonia digital sob sua liderança, algo que tiveram ao longo das décadas
de implementação da Internet mas que estão perdendo nos últimos anos. Ao
promover a IA como ferramenta de defesa, contenção e vigilância, o plano ignora
os desequilíbrios estruturais de poder, capacidade tecnológica e autonomia
normativa que caracterizam o Sul Global. Aceitar ou não este “convite” para a
região é um debate que precisa ser feito de forma nacional e estruturada.
Ao
concluir a leitura do documento, fica a sensação de que os países do Sul
Global, especialmente os da América Latina, precisam parar e discutir entre si
como responder a esta proposta. Aderir de forma acrítica a Trump pode
significar o fechamento de portas com a China e outras alternativas, o aumento
da dependência tecnológica dos EUA em termos de infraestrutura, governança e
comércio digital e a perda de margem de manobra na diplomacia internacional de
IA. Mais do que isso, a manutenção da soberania digital exige a participação
crítica e ativa no debate continental com reforço da cooperação Sul-Sul como
contrapeso, além do desenvolvimento de infraestrutura própria, marcos
equilibrados entre regulação e política industrial e capacitação local
independente.
Especialmente
no caso do Brasil, o grupo de trabalho que implementa o Plano Brasileiro de
Inteligência Artificial (PBIA), coordenado no âmbito do CIT-Digital, precisa se
debruçar sobre este documento para descobrir a melhor forma de buscar o diálogo
sem que necessite haver um alinhamento automático a um plano pouco democrático
e que visa re-enquadrar a região como “quintal” do vizinho do Norte na agenda
digital.
Fonte: Por
James Görgen, em Outras Palavras

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