sexta-feira, 25 de julho de 2025

Homens estão mais propensos a adoecer e a morrer mais cedo, diz estudo

Homens adoecem mais e vivem menos que as mulheres em quase todos os países, segundo uma revisão global da Universidade do Sul da Dinamarca, publicada em maio na revista científica PLOS Medicine. A pesquisa analisou marcadores de gênero em saúde em mais de 200 países, focando em hipertensão, diabetes e HIV/Aids. Os resultados mostram que homens têm taxas mais altas dessas doenças, morrem mais cedo por causa delas e procuram menos o sistema de saúde — tanto para diagnóstico quanto para tratamento.

O estudo aponta fatores sociais e culturais como principais explicações para esse padrão. Normas de gênero, comportamentos de risco e a associação entre doença e fragilidade ajudam a afastar os homens do cuidado com a saúde. Eles costumam fumar mais, negligenciar a prevenção e tendem a minimizar sintomas.

“Historicamente, o estereótipo do ‘ser homem’, associado a fatores sociais, culturais, políticos e econômicos, causa impactos negativos na saúde do homem”, diz o médico de família e comunidade Wilands Patrício Procópio Gomes, do Einstein Hospital Israelita. Entre os exemplos destacados por Gomes estão a ideia de que estar doente é sinônimo de fragilidade, a falta de conhecimento sobre o próprio corpo e eventuais sintomas, além do medo de diagnósticos.

No Brasil, dados do IBGE refletem esse cenário. Em 2023, a expectativa de vida masculina era de 73,1 anos, contra 79,7 anos das mulheres, uma diferença de quase sete anos. Os homens também fazem menos consultas de rotina e são mais resistentes a exames preventivos e a tratamentos contínuos. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 82,3% das mulheres haviam ido ao médico no ano anterior, contra 69,4% dos homens.

<><> Falta de acolhimento e estratégia

Para Gomes, a mudança começa na atenção primária, com ações específicas para atrair e acolher o público masculino. “A atenção primária, por ser a porta de entrada ao serviço de saúde, precisa conhecer bem sua população e desenvolver estratégias para ampliar o acesso e acolhimento a esse grupo, ofertar educação em saúde e exames de rastreio adequados para reduzir o impacto que os aspectos culturais e sociais podem ter no processo de saúde e adoecimento clínico, mental e psicológico”, enfatiza o médico de família e comunidade.

As consequências dessa resistência em recorrer ao sistema de saúde aparecem nas estatísticas de prevalência das doenças observadas pela pesquisa. Em relação ao HIV e à aids, entre 2007 e julho de 2024, 70,7% dos casos no Brasil se deram em homens, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de dezembro de 2024. Já doenças crônicas como hipertensão e diabetes, embora comuns a ambos os sexos, levaram mais homens a complicações fatais, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Na prática clínica, Gomes observa que muitos homens ainda encaram o sistema de saúde como um recurso emergencial, acionado apenas em situações agudas, como dor ou lesão. “Também devemos considerar o estigma dos exames de rastreio de câncer de próstata, como o exame de toque”, lembra. Sem uma abordagem adaptada, afirma o médico, a tendência é de que esses indivíduos sigam distantes do cuidado — e mais expostos a mortes evitáveis.

<><> Política pública é parte da resposta

A resistência é mais acentuada entre homens de 20 a 59 anos — justamente o foco da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), criada em 2008 para enfrentar os fatores culturais e sociais que afetam a saúde masculina. A iniciativa reconhece a importância de adequar o Sistema Único de Saúde (SUS) às necessidades específicas dos homens, apostando em acolhimento, horários estendidos nas unidades básicas e outras ações.

“Algumas ações têm importante impacto na captação e acesso à saúde do homem, como o aumento do horário de atendimento das unidades básicas de saúde; atividades extramuro, como grupos em saúde realizados na comunidade, em bares e em praças levando informações de saúde; e atendimento coletivo a cidadãos que, por vezes, não acessam o serviço de saúde”, lista Wilands Gomes.

Outro exemplo de iniciativa é o Novembro Azul, criado em 2011 pelo Instituto Lado a Lado pela Vida. A campanha busca sensibilizar os homens sobre exames preventivos contra o câncer de próstata e ampliar discussões sobre autocuidado masculino, abordando tabagismo, saúde mental e prevenção de doenças cardiovasculares.

Para o médico do Einstein, porém, só haverá transformação se o sistema de saúde reconhecer e agir diretamente sobre os determinantes sociais e culturais da resistência masculina, não só com políticas públicas, mas também na relação médico-paciente. “Entendo ser necessário que todos os profissionais de saúde da atenção primária conheçam os protocolos sobre rastreio, tratamento, classificação e reabilitação do homem e suas condições, podendo otimizar as consultas, criar vínculo, aumentar e qualificar o cuidado da saúde do homem”, afirma. São estratégias que vêm demonstrando eficácia — resta torná-las mais amplas e consistentes.

•        Homens têm mais chance de morrer por síndrome do coração partido; entenda

Um homem de 59 anos chegou ao Primeiro Hospital da Universidade de Pequim, na China, para um procedimento quando começou a sentir dores intensas no peito e falta de ar.

Quatro meses antes, ele havia removido tumores cancerígenos da bexiga. Perto da família, ele fazia o possível para parecer forte e evitava conversar sobre sua saúde. No entanto, em particular, a ansiedade intensa diante da possibilidade de recorrência do câncer o mantinha acordado à noite.

Segundo os médicos, o homem estava sofrendo de cardiomiopatia por takotsubo — também conhecida como síndrome do coração partido, conforme documentado em um estudo de caso de 2021. Essa condição cardíaca rara, induzida por estresse, é observada principalmente em mulheres, mas um estudo publicado em maio no Journal of the American Heart Association revelou que a doença pode ser mais letal para os homens que a desenvolvem.

Acredita-se que a condição seja causada por eventos emocionais ou físicos extremos — como receber a notícia da morte de um ente querido, ganhar na loteria ou levantar um sofá pesado. A cardiomiopatia por takotsubo (TC) ocorre quando o músculo cardíaco é inundado por hormônios do estresse, fazendo com que parte dele “congele”. À medida que o coração tem dificuldade para bombear o sangue corretamente, os sintomas se assemelham aos de um ataque cardíaco: dor no peito, palpitações e batimentos cardíacos irregulares.

O novo estudo analisou dados de quase 200 mil pacientes hospitalizados com TC nos Estados Unidos entre 2016 e 2020. Embora as mulheres representassem 83% dos casos, os homens tinham mais que o dobro de probabilidade de morrer da condição — com uma taxa de mortalidade de 11,2%.

“As diferenças entre homens e mulheres são um achado muito marcante”, disse o coautor do estudo, Dr. Mohammad Reza Movahed, professor clínico de medicina na Universidade do Arizona, em Tucson. “Isso levanta uma nova e interessante questão que realmente merece ser estudada.”

<><> Síndrome do coração partido: homens vs. mulheres

Assim como ocorre com outras diferenças na saúde cardiovascular entre homens e mulheres, as discrepâncias nas taxas de mortalidade por TC ainda não são bem compreendidas, disse Movahed — especialmente porque contradizem as tendências de outras doenças cardíacas. No entanto, há uma ampla teoria de que os níveis hormonais desempenham um papel importante.

Situações estressantes fazem com que as glândulas suprarrenais liberem os chamados hormônios de luta ou fuga, conhecidos como catecolaminas. Eles servem para aumentar a pressão arterial e a frequência cardíaca, mas, em níveis extremos, podem “atordoar” temporariamente as células do tecido cardíaco, levando à TC, explicou Movahed.

Acredita-se que os homens produzam mais catecolaminas em situações de estresse do que as mulheres, o que pode resultar em casos mais graves de TC entre eles, sugeriu o especialista.

O estrogênio, hormônio sexual produzido em maior quantidade nas mulheres, também pode ter um efeito protetor sobre o sistema cardiovascular, facilitando a gestão desse aumento repentino de catecolaminas e reduzindo o risco de complicações graves da TC, disse o Dr. Louis Vincent, pesquisador em cardiologia não invasiva na Universidade de Miami, coautor de um estudo semelhante, de vários anos, que investigou as discrepâncias entre homens e mulheres com TC. Vincent não participou do novo estudo.

Além das diferenças biológicas, fatores sociais também podem influenciar.

“A maioria dos médicos conhece a takotsubo, mas pode pensar nela como uma doença que afeta apenas mulheres, então o diagnóstico pode ser negligenciado em homens”, afirmou o Dr. Deepak Bhatt, cardiologista e diretor do Mount Sinai Fuster Heart Hospital, que também não esteve envolvido na pesquisa. “Com o diagnóstico incorreto, o atendimento é atrasado, e isso pode levar a desfechos piores.”

Os homens também podem demorar mais para procurar atendimento médico, acreditando que os sintomas são suportáveis ou que vão passar, disse o Dr. Alejandro Lemor, professor assistente de cardiologia intervencionista no Centro Médico da Universidade do Mississippi, que igualmente não participou do estudo.

Entre as complicações graves da TC estão coágulos sanguíneos, AVC, parada cardíaca e insuficiência cardíaca, afirmou Lemor. Se a condição for detectada precocemente, medicamentos podem reduzir o risco dessas complicações, restaurar a função cardíaca e permitir uma recuperação completa em poucas semanas, acrescentou.

<><> Taxas de mortalidade mais altas entre homens precisam ser melhor investigadas

A equipe de Movahed conseguiu considerar variáveis importantes como idade, raça, renda, doença pulmonar crônica, hipertensão e diabetes nos resultados.

No entanto, segundo Vincent, o estudo não incluiu dados de pacientes com outras doenças coexistentes, como histórico de AVC ou infecção por Covid-19.

Além disso, o novo estudo analisou apenas dados diagnósticos de pacientes internados com TC, o que significa que pessoas que receberam atendimento ambulatorial ou morreram posteriormente por complicações fora do hospital provavelmente não foram incluídas na análise, observou Movahed.

Para estabelecer uma explicação mais sólida sobre as diferenças nas taxas de mortalidade entre homens e mulheres e testar melhor os métodos de tratamento, seria necessário um conjunto de dados mais detalhado, afirmou Vincent.

“As pessoas devem estar cientes de que, em estudos como este, estamos apresentando achados com base em códigos de diagnóstico — e não estamos analisando procedimentos ou exames laboratoriais dos pacientes”, disse Vincent. “Mas é algo poderoso, pois nos permite observar grandes populações e identificar tendências. E eu acho que essa tendência de maior mortalidade entre os homens merece uma análise mais profunda.”

<><> Não tente "aguentar firme"

Dor intensa e súbita no peito ou falta de ar devem sempre ser tratadas como uma emergência médica, alertou Bhatt, que também é professor de medicina cardiovascular na Escola de Medicina Icahn, do Mount Sinai, em Nova York.

“Esse não é o momento de tentar aguentar em casa ou procurar na internet uma explicação... Não tente entrar em contato com seu médico de rotina. Ligue para os serviços de emergência”, disse Bhatt. “O tempo importa. Ganhar algumas horas pode evitar danos irreparáveis ao coração.”

Sintomas após estressores físicos — uma causa comum de TC em homens — também não devem ser ignorados, disse Movahed, especialmente quando ocorrem após eventos médicos como crises de asma, convulsões ou complicações pelo uso de drogas.

E, embora a TC seja causada por estresse súbito, Bhatt afirma que controlar o estresse crônico com meditação diária ou exercícios físicos pode melhorar a saúde cardiovascular como um todo, além de fornecer rotinas que ajudam a lidar melhor com situações inesperadas.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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