Sara
Goes: BigTechs e Bolsonaro armam exército digital para 2026
Fortaleza,
30 de maio de 2025. No Centro de Eventos do Ceará, um auditório lotado por
jovens ativistas de direita, assessores parlamentares, influenciadores e
profissionais de marketing digital testemunhou um momento embaraçoso que, mais
do que uma gafe, serviu como síntese involuntária do que viria a seguir.
Waldemar
da Costa Neto, presidente nacional do PL, 75 anos, envolvido em escândalos
históricos e visivelmente desconfortável, tentou abrir o evento com entusiasmo
juvenil, ou o que imaginava ser. Em uma fala desconexa, tropeçou ao tentar usar
expressões como “flopou” e “stalkear”, gaguejou, repetiu sílabas até formar
palavras mínimas, tentou invocar uma linguagem que claramente não dominava.
“Se
alguém não entende o que eu falei, está no lugar certo para aprender.”
A
frase, que arrancou risos nervosos da plateia, revelou mais do que o esforço de
um cacique partidário em parecer atualizado. Revelou que o PL não é o
protagonista da sua própria festa, o partido havia cedido o palco, o tom e a
pauta às corporações que realmente conduziam o espetáculo, Meta, Google e
CapCut.
O que
se desenrolaria ali, ao longo do dia, não era um seminário de comunicação. Era
uma aula prática de como transformar um partido político em base operacional de
uma milícia digital, com benção técnica das big techs e com Jair Bolsonaro e
Michelle como totens simbólicos do projeto.
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Seminário das Big Techs: como o PL foi instrumentalizado para formar milícias
digitais
Representantes
oficiais da Meta, Google e CapCut dominaram a programação. Enquanto
parlamentares tiveram falas cronometradas de 3 a 5 minutos, Ricardo Vilella
(Google), Felipe Ventura (Meta) e um trio técnico vinculado ao CapCut (Jhon
Henrique, Vitor Reels e Dan Maker) ocuparam o palco com desenvoltura,
autoridade e espaço privilegiado.
Apresentaram
tutoriais práticos sobre como automatizar vídeos, alimentar inteligências
artificiais com conteúdo político enviesado, impulsionar mensagens via WhatsApp
Business e até gerar podcasts inteiros com voz sintética, tudo isso com foco
explícito em mobilização política, ataque a adversários e formação de
militância digital.
Ali,
ninguém falava em regulação. Ninguém mencionava riscos de desinformação. Muito
menos havia qualquer cuidado em esconder o objetivo: ensinar a extrema direita
brasileira a dominar as plataformas com as ferramentas fornecidas por elas
mesmas.
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A nova lógica da milícia digital
A cena
é mais do que simbólica, é estratégica. As plataformas de tecnologia, que
historicamente se vendem como neutras, mostraram, de forma pública e
escancarada, que estão operando lado a lado com uma articulação política
autoritária, antidemocrática e negacionista.
A
estética do evento foi juvenil, descontraída, mas o conteúdo era nitidamente
voltado para criar um exército digital disciplinado, treinado para atacar,
manipular e fidelizar públicos com linguagem emocional, estética gamificada e
técnicas de IA de última geração.
Não por
acaso, nos bastidores, já se comenta que essa foi a primeira “formatura
técnica” das novas milícias digitais do bolsonarismo. Se antes havia improviso,
agora há cartilha. Se antes o gabinete do ódio funcionava com memes e raiva,
agora ele conta com editores de vídeo, scripts automatizados e fluxos de
produção baseados em machine learning, tudo entregue em mãos pelas próprias
corporações.
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Bolsonaro, o cicerone de luxo
Jair
Bolsonaro esteve no evento, mas não como protagonista. Seu papel foi o de
mascote ideológico, espécie de cicerone da plateia. Falou por poucos minutos,
retomando seu discurso manjado sobre liberdade de expressão, atacando o Supremo
Tribunal Federal, afirmando que Lula e Janja estariam importando um modelo de
censura da China e, o mais grave, sugerindo que um “país da parte norte da
América” pudesse intervir para “acabar com essa palhaçada do STF”. “Ainda bem
que as big techs estão do lado certo”, disse Bolsonaro em certo momento, com um
sorriso satisfeito.
A frase
ecoou pelo auditório como confissão e celebração. A simbiose foi feita. A
extrema direita oferece base, blindagem legislativa e fidelidade ideológica. As
plataformas oferecem ferramentas, estrutura e legitimidade técnica.
Michelle
Bolsonaro, por sua vez, não apareceu. Esteve presente como símbolo, imagem viva
de um projeto de poder moralista, feminino e disciplinador, que já se projeta
para 2026 como possível cabeça de chapa, ou ao menos rainha eleitoral da
bancada evangélica.
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O culto à liberdade como biombo da violência digital
Durante
todo o seminário, o termo “liberdade de expressão” foi repetido como mantra.
Mas a liberdade que se cultuava ali não é um valor democrático, é a licença
para caluniar, desinformar e intimidar adversários políticos com a chancela
algorítmica das big techs.
Vídeos
institucionais apresentados no evento reforçavam esse enredo: uma peça ligava
Lula e Janja a um suposto plano de censura com apoio da China, outra exaltava
lives, vozes anônimas e conteúdos que “tocam o coração” como símbolos de uma
liberdade ameaçada. Era a estética do TikTok travestida de épica libertadora. A
distopia apresentada como heroísmo.
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Um partido digitalizado, uma plataforma instrumentalizada
O mais
impressionante do evento foi perceber que o PL não usou as plataformas, foi
usado por elas. O partido virou palco para uma operação de transferência de
know-how.
O
algoritmo é o verdadeiro partido, e seu projeto é global.Não se trata mais de
disputar eleições. Trata-se de operar cognitivamente a população por meio de
redes treinadas para inflamar, confundir, atacar e capturar.
O PL,
ao lado de figuras como Rogério Marinho, Valdemar Costa Neto, André Fernandes e
Carmelo Neto, cumpre o papel de facilitar, blindar e proteger esse novo tipo de
milícia, a milícia algorítmica, a milícia da IA e a milícia digital.
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O que aconteceu em Fortaleza não é um detalhe, é um alerta
Enquanto
parte da esquerda ainda discute se TikTok deve ou não ser regulado, se a Janja
pode ou não mencionar a China em um jantar, o adversário está montando seu
exército com planilha, roteiro, editor de vídeo e instrução técnica de
multinacional.
O que
se viu em Fortaleza foi um evento de codificação da extrema direita, uma
certificação da nova aliança entre o mercado e o caos, um passo a mais no
projeto de destruir o espaço público, transformar a verdade em meme, e capturar
o imaginário coletivo por meio de narrativas fabricadas em laboratório.
Se
ninguém reagir com força, ousadia e inteligência estratégica, não haverá 2026
para disputar, haverá apenas um feed colonizado.
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PL está pronto para 2026. E nós?
O
evento em Fortaleza não deixou dúvidas: o Partido Liberal está tecnicamente,
esteticamente e estrategicamente pronto para disputar o controle da mente
pública. Está armado de IA, treinado em mobilização digital e respaldado pelas
maiores plataformas do mundo.
A
pergunta que resta é: nós estamos prontos? Ou ainda estamos debatendo com boas
intenções enquanto o campo de batalha já foi tomado por códigos e promessas de
engajamento? Avia!
• O bolsonarismo roubou a ideia do
"Kit Gay" e decidiu implantá-lo dentro dos quartéis
O
bolsonarismo, herdeiro direto do moralismo hipócrita que justificava censura e
repressão sob o pretexto de proteger a família, levou essa lógica ao paroxismo.
Após anos acusando a esquerda de tentar implantar um inexistente “Kit Gay” nas
escolas, uma farsa eleitoral e midiática tão torpe quanto eficaz, ironicamente
institucionalizou a erotização da masculinidade e expôs, a níveis
estratosféricos, as contradições (ou talvez revelações) dentro dos próprios
quartéis.
O culto
à virilidade transformou-se em espetáculo audiovisual de proporções bíblicas,
onde decrepitude, fardas com cheiro de naftalina, uma competência (duvidosa) e
disciplina militar são apresentados como os ingredientes secretos da salvação
nacional. Trata-se, essencialmente, de um romance tórrido entre a câmera lenta
e o fetiche da ordem, temperado com uma dose generosa de testosterona
condensada. As redes bolsonaristas, em um gesto de generosidade estética
raramente visto fora dos sets da Brasil Paralelo, decidiram transformar o
soldado brasileiro no símbolo sexual do novo milênio, uma improvável fusão
entre Batman, Capitão Nascimento (do Tropa de Elite) e nosso amado Clóvis
Basílio dos Santos (o “Kid Bengala”), com direito a olhares intensos, discursos
sobre moral cristã, neopentecostalismo e devoração de canos de fuzil com os
olhos.
Sob o
nobre pretexto de exaltar os “heróis da pátria” e o militarismo, acabaram
criando, sem perceber, um novo subgênero: o pornofardismo patriótico. Um
espetáculo onde tanques fumacentos se transformam em extensões fálicas
inquebrantáveis da autoestima política, e a defesa da nação é encenada com
tanto suor, gemidos visuais e edição sensacionalista que cineastas do cinema
adulto alternativo provavelmente já estão tomando notas.
Porque
sejamos honestos: se isso não é um fetiche coletivo disfarçado de nacionalismo,
então o desfile de 7 de setembro de 2022, em Brasília, nas comemorações do
Bicentenário da Independência do Brasil, mais parecia uma rave temática
sadomasô. Um evento onde os gritos de “Mito... Mito... Mito...!” se misturam ao
mantra repetido de “Imbrochável... Imbrochável... Imbrochável...”,
transformando o patriotismo em um espetáculo de testosterona e teatralidade
exagerada.
A
erotização institucionalizada do militarismo não é apenas uma contradição
ideológica: é um sintoma explícito de um desejo reprimido operando nas
entranhas da moral conservadora. O bolsonarismo, assim como outras vertentes da
extrema-direita, bebe direto da fonte estética da chamada Red Pill, uma visão
masculinista que glorifica uma virilidade exagerada (frequentemente digna de
desconfiança), enquanto demonstra profunda aversão a qualquer expressão de
sexualidade que fuja ao padrão hegemônico. Essa moral rígida, centrada no culto
à disciplina, ao militarismo e à força armada, é incapaz de lidar com a
diversidade da sexualidade humana. Algo profundamente freudiano, diga-se. O
paradoxo é gritante: enquanto acusavam a esquerda de querer “perverter a
infância” com o suposto "Kit Gay", uma invenção propagandística sem
lastro na realidade, projetavam inconscientemente sua obsessão pelo controle da
sexualidade, revelando sua incapacidade crônica de lidar com os próprios
impulsos e contradições. A repressão não recaiu apenas sobre o discurso
público, mas retornou como um bumerangue contra as próprias estruturas
bolsonaristas, transformando-se numa estetização do militarismo que flerta
perigosamente com os mesmos elementos de fetiche que fingiam combater.
O
Brasil tornou-se palco de uma masculinidade performática, onde quartéis viraram
camarins de militares envelhecidos, anacrônicos e desesperados por reafirmação,
como se fossem uma versão reacionária dos Menudos. Enquanto o país enfrentava
crises reais, corrupção, genocídio indígena, catástrofe pandêmica, fome e fila
do osso, generais mergulhavam num festival de excessos financiado com dinheiro
público: viagra, picanha, uísque 12 anos, próteses penianas de até 25 cm e
“montanhas” de leite condensado. Além dos coturnos, cacetetes, algemas e
fardas, o aparato militar assumiu contornos de fetiche autoritário, revelando
uma estética digna de qualquer orgia BDSM, e expondo, sem disfarces, sua
própria falência moral (ou talvez só seu desejo mal resolvido).
O
bolsonarismo, assim como a ditadura militar com a pornochanchada, reinventou a
pornografia moral: uma dissonância cognitiva em que o herói é quem distribui
cloroquina e acredita na terra plana, e o vilão, o professor de história. A
performance da hipermasculinidade tornou-se caricatural, desnudando a falência
grotesca do conservadorismo à brasileira. No fim, o “Kit Gay” que tanto
condenaram acabou emergindo, com todas as cores e fetiches, dentro dos próprios
quartéis, por obra e graça de quem mais dizia combatê-lo.
Fonte:
Brasil 247

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