segunda-feira, 2 de junho de 2025

Sara Goes: BigTechs e Bolsonaro armam exército digital para 2026

Fortaleza, 30 de maio de 2025. No Centro de Eventos do Ceará, um auditório lotado por jovens ativistas de direita, assessores parlamentares, influenciadores e profissionais de marketing digital testemunhou um momento embaraçoso que, mais do que uma gafe, serviu como síntese involuntária do que viria a seguir.

Waldemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, 75 anos, envolvido em escândalos históricos e visivelmente desconfortável, tentou abrir o evento com entusiasmo juvenil, ou o que imaginava ser. Em uma fala desconexa, tropeçou ao tentar usar expressões como “flopou” e “stalkear”, gaguejou, repetiu sílabas até formar palavras mínimas, tentou invocar uma linguagem que claramente não dominava.

“Se alguém não entende o que eu falei, está no lugar certo para aprender.”

A frase, que arrancou risos nervosos da plateia, revelou mais do que o esforço de um cacique partidário em parecer atualizado. Revelou que o PL não é o protagonista da sua própria festa, o partido havia cedido o palco, o tom e a pauta às corporações que realmente conduziam o espetáculo, Meta, Google e CapCut.

O que se desenrolaria ali, ao longo do dia, não era um seminário de comunicação. Era uma aula prática de como transformar um partido político em base operacional de uma milícia digital, com benção técnica das big techs e com Jair Bolsonaro e Michelle como totens simbólicos do projeto.

<><> Seminário das Big Techs: como o PL foi instrumentalizado para formar milícias digitais

Representantes oficiais da Meta, Google e CapCut dominaram a programação. Enquanto parlamentares tiveram falas cronometradas de 3 a 5 minutos, Ricardo Vilella (Google), Felipe Ventura (Meta) e um trio técnico vinculado ao CapCut (Jhon Henrique, Vitor Reels e Dan Maker) ocuparam o palco com desenvoltura, autoridade e espaço privilegiado.

Apresentaram tutoriais práticos sobre como automatizar vídeos, alimentar inteligências artificiais com conteúdo político enviesado, impulsionar mensagens via WhatsApp Business e até gerar podcasts inteiros com voz sintética, tudo isso com foco explícito em mobilização política, ataque a adversários e formação de militância digital.

Ali, ninguém falava em regulação. Ninguém mencionava riscos de desinformação. Muito menos havia qualquer cuidado em esconder o objetivo: ensinar a extrema direita brasileira a dominar as plataformas com as ferramentas fornecidas por elas mesmas.

<><> A nova lógica da milícia digital

A cena é mais do que simbólica, é estratégica. As plataformas de tecnologia, que historicamente se vendem como neutras, mostraram, de forma pública e escancarada, que estão operando lado a lado com uma articulação política autoritária, antidemocrática e negacionista.

A estética do evento foi juvenil, descontraída, mas o conteúdo era nitidamente voltado para criar um exército digital disciplinado, treinado para atacar, manipular e fidelizar públicos com linguagem emocional, estética gamificada e técnicas de IA de última geração.

Não por acaso, nos bastidores, já se comenta que essa foi a primeira “formatura técnica” das novas milícias digitais do bolsonarismo. Se antes havia improviso, agora há cartilha. Se antes o gabinete do ódio funcionava com memes e raiva, agora ele conta com editores de vídeo, scripts automatizados e fluxos de produção baseados em machine learning, tudo entregue em mãos pelas próprias corporações.

<><> Bolsonaro, o cicerone de luxo

Jair Bolsonaro esteve no evento, mas não como protagonista. Seu papel foi o de mascote ideológico, espécie de cicerone da plateia. Falou por poucos minutos, retomando seu discurso manjado sobre liberdade de expressão, atacando o Supremo Tribunal Federal, afirmando que Lula e Janja estariam importando um modelo de censura da China e, o mais grave, sugerindo que um “país da parte norte da América” pudesse intervir para “acabar com essa palhaçada do STF”. “Ainda bem que as big techs estão do lado certo”, disse Bolsonaro em certo momento, com um sorriso satisfeito.

A frase ecoou pelo auditório como confissão e celebração. A simbiose foi feita. A extrema direita oferece base, blindagem legislativa e fidelidade ideológica. As plataformas oferecem ferramentas, estrutura e legitimidade técnica.

Michelle Bolsonaro, por sua vez, não apareceu. Esteve presente como símbolo, imagem viva de um projeto de poder moralista, feminino e disciplinador, que já se projeta para 2026 como possível cabeça de chapa, ou ao menos rainha eleitoral da bancada evangélica.

<><> O culto à liberdade como biombo da violência digital

Durante todo o seminário, o termo “liberdade de expressão” foi repetido como mantra. Mas a liberdade que se cultuava ali não é um valor democrático, é a licença para caluniar, desinformar e intimidar adversários políticos com a chancela algorítmica das big techs.

Vídeos institucionais apresentados no evento reforçavam esse enredo: uma peça ligava Lula e Janja a um suposto plano de censura com apoio da China, outra exaltava lives, vozes anônimas e conteúdos que “tocam o coração” como símbolos de uma liberdade ameaçada. Era a estética do TikTok travestida de épica libertadora. A distopia apresentada como heroísmo.

<><> Um partido digitalizado, uma plataforma instrumentalizada

O mais impressionante do evento foi perceber que o PL não usou as plataformas, foi usado por elas. O partido virou palco para uma operação de transferência de know-how.

O algoritmo é o verdadeiro partido, e seu projeto é global.Não se trata mais de disputar eleições. Trata-se de operar cognitivamente a população por meio de redes treinadas para inflamar, confundir, atacar e capturar.

O PL, ao lado de figuras como Rogério Marinho, Valdemar Costa Neto, André Fernandes e Carmelo Neto, cumpre o papel de facilitar, blindar e proteger esse novo tipo de milícia, a milícia algorítmica, a milícia da IA e a milícia digital.

<><> O que aconteceu em Fortaleza não é um detalhe, é um alerta

Enquanto parte da esquerda ainda discute se TikTok deve ou não ser regulado, se a Janja pode ou não mencionar a China em um jantar, o adversário está montando seu exército com planilha, roteiro, editor de vídeo e instrução técnica de multinacional.

O que se viu em Fortaleza foi um evento de codificação da extrema direita, uma certificação da nova aliança entre o mercado e o caos, um passo a mais no projeto de destruir o espaço público, transformar a verdade em meme, e capturar o imaginário coletivo por meio de narrativas fabricadas em laboratório.

Se ninguém reagir com força, ousadia e inteligência estratégica, não haverá 2026 para disputar, haverá apenas um feed colonizado.

<><> PL está pronto para 2026. E nós?

O evento em Fortaleza não deixou dúvidas: o Partido Liberal está tecnicamente, esteticamente e estrategicamente pronto para disputar o controle da mente pública. Está armado de IA, treinado em mobilização digital e respaldado pelas maiores plataformas do mundo.

A pergunta que resta é: nós estamos prontos? Ou ainda estamos debatendo com boas intenções enquanto o campo de batalha já foi tomado por códigos e promessas de engajamento? Avia!

•        O bolsonarismo roubou a ideia do "Kit Gay" e decidiu implantá-lo dentro dos quartéis

O bolsonarismo, herdeiro direto do moralismo hipócrita que justificava censura e repressão sob o pretexto de proteger a família, levou essa lógica ao paroxismo. Após anos acusando a esquerda de tentar implantar um inexistente “Kit Gay” nas escolas, uma farsa eleitoral e midiática tão torpe quanto eficaz, ironicamente institucionalizou a erotização da masculinidade e expôs, a níveis estratosféricos, as contradições (ou talvez revelações) dentro dos próprios quartéis.

O culto à virilidade transformou-se em espetáculo audiovisual de proporções bíblicas, onde decrepitude, fardas com cheiro de naftalina, uma competência (duvidosa) e disciplina militar são apresentados como os ingredientes secretos da salvação nacional. Trata-se, essencialmente, de um romance tórrido entre a câmera lenta e o fetiche da ordem, temperado com uma dose generosa de testosterona condensada. As redes bolsonaristas, em um gesto de generosidade estética raramente visto fora dos sets da Brasil Paralelo, decidiram transformar o soldado brasileiro no símbolo sexual do novo milênio, uma improvável fusão entre Batman, Capitão Nascimento (do Tropa de Elite) e nosso amado Clóvis Basílio dos Santos (o “Kid Bengala”), com direito a olhares intensos, discursos sobre moral cristã, neopentecostalismo e devoração de canos de fuzil com os olhos.

Sob o nobre pretexto de exaltar os “heróis da pátria” e o militarismo, acabaram criando, sem perceber, um novo subgênero: o pornofardismo patriótico. Um espetáculo onde tanques fumacentos se transformam em extensões fálicas inquebrantáveis da autoestima política, e a defesa da nação é encenada com tanto suor, gemidos visuais e edição sensacionalista que cineastas do cinema adulto alternativo provavelmente já estão tomando notas.

Porque sejamos honestos: se isso não é um fetiche coletivo disfarçado de nacionalismo, então o desfile de 7 de setembro de 2022, em Brasília, nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil, mais parecia uma rave temática sadomasô. Um evento onde os gritos de “Mito... Mito... Mito...!” se misturam ao mantra repetido de “Imbrochável... Imbrochável... Imbrochável...”, transformando o patriotismo em um espetáculo de testosterona e teatralidade exagerada.

A erotização institucionalizada do militarismo não é apenas uma contradição ideológica: é um sintoma explícito de um desejo reprimido operando nas entranhas da moral conservadora. O bolsonarismo, assim como outras vertentes da extrema-direita, bebe direto da fonte estética da chamada Red Pill, uma visão masculinista que glorifica uma virilidade exagerada (frequentemente digna de desconfiança), enquanto demonstra profunda aversão a qualquer expressão de sexualidade que fuja ao padrão hegemônico. Essa moral rígida, centrada no culto à disciplina, ao militarismo e à força armada, é incapaz de lidar com a diversidade da sexualidade humana. Algo profundamente freudiano, diga-se. O paradoxo é gritante: enquanto acusavam a esquerda de querer “perverter a infância” com o suposto "Kit Gay", uma invenção propagandística sem lastro na realidade, projetavam inconscientemente sua obsessão pelo controle da sexualidade, revelando sua incapacidade crônica de lidar com os próprios impulsos e contradições. A repressão não recaiu apenas sobre o discurso público, mas retornou como um bumerangue contra as próprias estruturas bolsonaristas, transformando-se numa estetização do militarismo que flerta perigosamente com os mesmos elementos de fetiche que fingiam combater.

O Brasil tornou-se palco de uma masculinidade performática, onde quartéis viraram camarins de militares envelhecidos, anacrônicos e desesperados por reafirmação, como se fossem uma versão reacionária dos Menudos. Enquanto o país enfrentava crises reais, corrupção, genocídio indígena, catástrofe pandêmica, fome e fila do osso, generais mergulhavam num festival de excessos financiado com dinheiro público: viagra, picanha, uísque 12 anos, próteses penianas de até 25 cm e “montanhas” de leite condensado. Além dos coturnos, cacetetes, algemas e fardas, o aparato militar assumiu contornos de fetiche autoritário, revelando uma estética digna de qualquer orgia BDSM, e expondo, sem disfarces, sua própria falência moral (ou talvez só seu desejo mal resolvido).

O bolsonarismo, assim como a ditadura militar com a pornochanchada, reinventou a pornografia moral: uma dissonância cognitiva em que o herói é quem distribui cloroquina e acredita na terra plana, e o vilão, o professor de história. A performance da hipermasculinidade tornou-se caricatural, desnudando a falência grotesca do conservadorismo à brasileira. No fim, o “Kit Gay” que tanto condenaram acabou emergindo, com todas as cores e fetiches, dentro dos próprios quartéis, por obra e graça de quem mais dizia combatê-lo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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