terça-feira, 3 de junho de 2025

PF liga deputados e senadores a desvios no INSS e envia investigação ao STF

A Polícia Federal está em fase avançada de apuração sobre esquema bilionário de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e já prepara o envio de parte das investigações ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a coluna do jornalista Lauro Jardim, de O Globo, o envio do material ao STF aponta que o esquema de desvios por meio de descontos irregulares deve membros do Congresso nacional.

Com a remessa dos documentos ao STF, o caso passa a atingir em cheio deputados e senadores, já que parlamentares com foro privilegiado só podem ser investigados e processados pela Corte. De acordo com a reportagem, o número de congressistas citados nas investigações não é pequeno.

<><> Filho de ex-diretor do INSS movimentou R$ 10 milhões no auge da farra

Suspeito de receber propina dos operadores das fraudes contra aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em nome de seu pai, o advogado Eric Douglas Martins Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do órgão André Fidelis, movimentou R$ 10,4 milhões em transações financeiras suspeitas entre 2023 e 2024, no auge da farra dos descontos indevidos revelada pelo Metrópoles.

Os valores constam dos relatórios de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) anexados ao inquérito da Policia Federal (PF) que investiga o esquema bilionário de desvio de dinheiro de aposentados do INSS. Tanto Fidelis quanto o filho Eric (foto em destaque) foram alvos da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril.

Segundo a investigação, o ex-diretor André Fidelis, que foi demitido em julho do ano passado após série de reportagens do Metrópoles, era o canal que as entidades suspeitas tinham para conseguir os Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS que permitiam os descontos de mensalidade associativa direto na folha de pagamento dos aposentados. Entre 2023 e março de 2024, ele assinou 14 acordos.

<><> Operações suspeitas

•        A PF diz que as comunicações financeiras destacadas na investigação não informam todas as transações, apenas as operações “com indícios de serem ocorrências de lavagem de dinheiro ou outro ilícito no período informado”.

•        Eric Fidelis tem um escritório de advocacia especializado em direito previdenciário que teva relações com entidades associativas e atuou em ações contra o INSS. A banca foi alvo de busca e apreensão no último dia 23 de abril, durante a Operação Sem Desconto.

•        O filho do ex-diretor do INSS declarou possuir renda de R$ 13,3 mil, mas registrou movimentações milionárias no período da farra dos descontos indevidos.

•        Segundo a PF, Eric recebeu R$ 5,1 milhões de intermediários relacionados às entidades associativas, como o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Do total, R$ 3,7 milhões foram por meio do escritório de advocacia.

•        Outra transferência suspeita envolveu o escritório de Cecília Rodrigues Mota. Ela enviou mais de R$ 520 mil para a banca do filho do ex-diretor INSS entre novembro de 2023 e abril de 2024.

•        Advogada e servidora federal aposentada, Cecília movimentou, segundo a PF, cerca de R$ 14 milhões e já foi presidente de entidades associativas ligadas à farra do INSS.

Segundo a PF, “a trilha financeira” envolvendo o filho do ex-diretor do INSS “apresenta mais indícios de fluxo irregular de recursos”. Os investigadores destacam que, “estranhamente”, o advogado transferiu de volta para seu escritório o valor de R$ 1,6 milhão entre fevereiro de 2023 e março de 2024.

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“Esse movimento de recursos de volta ao escritório sugere um possível ciclo de lavagem de dinheiro, no qual os valores recebidos podem estar sendo redirecionados para camuflar a verdadeira origem dos recursos. Esse comportamento, somado às ligações com associações de aposentados envolvidas em fraudes e com movimentações suspeitas de grandes quantias, reforça as suspeitas de irregularidades financeiras e desvios de dinheiro”, afirma a PF.

•        Nelson Wilians: do luxo nas redes à citação na fraude bilionária do INSS

Conhecido nas redes sociais por exibir uma rotina de alto luxo, marcada por jatinhos particulares e vinhos de até R$ 60 mil, o advogado Nelson Wilians foi citado nas investigações da Polícia Federal sobre a fraude bilionária contra aposentados do INSS.

Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), contas ligadas ao advogado movimentaram R$ 4,3 bilhões em transações consideradas atípicas. Em resposta, Wilians ironizou os dados em vídeo publicado nas redes, dizendo que o valor é ainda maior — R$ 5,8 bilhões em outra conta.

Em nota oficial, o escritório que leva seu nome declarou que não é alvo de investigação, não foi notificado por nenhuma autoridade e que todas as transações têm natureza “legítima, privada e legal”.

<><> Quem é Nelson Willians

Nas redes sociais, Nelson Wilians constrói a narrativa de um empresário bem-sucedido que teria saído da pobreza para acumular uma fortuna por meio da advocacia empresarial. “O advogado empreendedor”, como ele próprio se autointitula.

Com forte presença digital, acumulando mais de 1,4 milhão de seguidores no Instagram, Wilians compartilha vídeos e postagens que destacam seu estilo de vida ostentatório com jatinhos, viagens internacionais e vinhos raros.

Paralelamente, o escritório que fundou, Nelson Wilians & Advogados Associados (NWADV), é apresentado como o maior do país na área empresarial, com atuação em todos os estados, mais de 1.100 advogados e cerca de 450 mil processos ativos.

Em relação à fraude do INSS, ele teria transferido, entre 2016 e 2022, R$ 15,5 milhões ao empresário Maurício Camisotti, suspeito de ser o principal beneficiário das fraudes no INSS. Wilians alega que parte desse montante foi uma antecipação de honorários advocatícios.

Nelson atuou como advogado da Ambec, uma das entidades ligadas ao esquema de fraudes no INSS. Antes disso, já representava a Prevident, empresa controlada por Maurício Camisotti, apontado como beneficiário central do esquema. Wilians defendia a Prevident em uma ação contra a rescisão de um contrato milionário com a Geap, plano de saúde dos servidores públicos federais.

Na mesma época, em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, o próprio escritório de Wilians teve seu contrato com a Geap encerrado, sob alegação de prejuízos financeiros. Desde então, as disputas judiciais entre o plano, Camisotti e Wilians seguem tramitando no Judiciário de Brasília.

O advogado também possui vínculos com figuras públicas, como o ex-governador de São Paulo João Doria, que utilizou jatinhos registrados em nome de Wilians sem comprovação de reembolso, e o ex-juiz da Lava Jato e atual senador Sergio Moro, para quem atuou em ações judiciais contra veículos de imprensa.

O nome de Wilians também ganhou projeção por sua atuação em casos de grande visibilidade pública, como o de Rose Miriam di Matteo, viúva do apresentador Gugu Liberato, em disputas judiciais sobre a herança do comunicador, e também defendeu herdeiras da família controladora do Bradesco.

•        Nelson Wilians tem muito a ensinar. Até a você, pobre aposentado. Por Mario Sabino

Como as minhas visitas mentais ao Brasil estão cada vez mais espaçadas, perdi o aparecimento de outro personagem exemplar do empreendedorismo nativo: um advogado chamado Nelson Wilians.

O nome do moço surgiu em uma conversa na casa de amigos, na qual se comentava a última festa exuberante que ele deu aqui em São Paulo, a capital das exuberâncias.

Abro parêntese. Há poucas semanas, a mulher de um banqueiro organizou uma festa, em um condomínio de ricos nos arredores da capital paulista, para comemorar os 25 anos de casamento. Custou R$ 15 milhões. Dá para imaginar quanto sairia o divórcio do casal. Fecho parêntese.

Estavam lá os meus amigos comentando a festa de Nelson Willians, quando perguntei: “Quem é Nelson Wilians?”. Olharam-me com espanto. Como é que eu não sabia quem é o Nelson Wilians? Fui ouvindo, então, que é o advogado ostentação, dono do maior escritório do Brasil, que ele tem casas assim e assado, tantos carros de luxo de tais e tais marcas, jatinho que é jatão, e por aí vai.

Quando eu já me considerava suficientemente informado sobre Nelson Wilians, o bastante para esquecer o personagem, eis que o Metrópoles publica uma reportagem sobre as relações pecuniárias entre Nelson Wilians e patriotas enrolados na farra do INSS, um deles o tal Careca que fez fortuna dando golpes em aposentados.

Nelson Wilians não é investigado no caso, mas o nome dele veio à tona porque o Coaf enviou à PF um relatório sobre as transações financeiras dos suspeitos e lá estavam pagamentos feitos pelo advogado ostentação a alvos da polícia.

Fiquei impressionadíssimo com a cifra: de acordo com o Coaf, o escritório de Nelson Wilians movimentou R$ 4,3 bilhões em operações consideradas suspeitas, entre 2019 e 2024. Como é que um escritório de advocacia pode movimentar tanto dinheiro, meu São Márcio Thomaz Bastos?

Tudo bem. Bilhão, no Brasil, é patamar de inocentes, jamais de culpados, então estou certo de que Nelson Willians nada deve à Justiça.

Depois de ler a reportagem do Metrópoles, eu me dei ao trabalho de entrar no Instagram de Nelson Wilians. Ele se define como “advogado empreendedor”. Deveria ser uma especialização reconhecida pelo Ministério da Educação, pensei.

O moço tem 1,4 milhão de seguidores. De fato, como é que eu não sabia quem é Nelson Wilians?

O instagrammer Nelson Wilians é pitoresco. Até no Festival de Cannes, o moço foi ostentar, juntamente com a mulher — ele de smoking e óculos escuros; ela vestida para matar milhares de euros. Só não vi imagens de ambos no tapete vermelho, dividindo atenções com Tom Cruise.

Há muitas fotos de Nelson Wilians viajando pelo Brasil, em jato próprio, com as iniciais dele, para dar palestras sobre como vencer na vida. Nos vídeos, muito bem feitos, o cinegrafista sempre dá um jeito de destacar o relógio caro, o charuto, os ouros, o terno bem cortado — marcas do sucesso, enfim. Embora eu não seja referência de elegância, aconselharia Nelson Wilians a deixar a gravata um pouco mais longa, a fim de que a ponta cubra até a fivela do cinto. No mais, tudo está perfeito.

O advogado ostentação também gosta de aparecer como personagem de desenho animado em 3D, transmitindo mensagens de amor familiar. Parece que os seguidores ficam enternecidos, com olhos marejados até.

As mensagens de Nelson Wilians revelam uma sabedoria emergente, eu diria. São as meditações do Marco Aurélio brasileiro, que é também colaborador (e capa, como ele frisa) da Forbes nacional. Elenco algumas pílulas da sua sabedoria:

“Você é bom ou só está sendo mal pago? No mercado, você vale o que consegue negociar ou a riqueza que consegue gerar, não o quanto estudou, se esforçou ou sonhou.”

“Não nasci em berço de ouro, mas aprendi a polir o chão onde piso.”

“Quase sempre, o mais conhecido vence o melhor. Injusto? Talvez. Mas ignorar isso é perder o jogo antes de entrar em campo.”

Em um dos vídeos postados no Instagram, alguém pergunta a Nelson Wilians se ele prefere ser subestimado ou supervalorizado. Nelson Wilians responde:

“Ah, não tenho dúvida alguma: prefiro ser subestimado. Quando não criam grandes expectativas, é muito mais fácil você surpreender. Que o diga o meu próprio pai: ‘Nelsinho, você jamais vai me decepcionar. De você, só espero o pior’. E cá estou eu”. Depois de uma pausa, que já estava para ser dramática, ele esclarece: “Ou seja, quando você é subestimado, você só pode surpreender”. Ah, bom.

Nelson Wilians tem muito a ensinar a quem quer ser como ele. Mas também a você, que trabalhou por uma aposentadoria ridícula, seu pobre.

 

Fonte: Brasil 247/Jornal GGN

 

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