“O
tráfico de pessoas é uma das maiores violações dos direitos humanos”, afirma
pesquisadora
“O
tráfico de pessoas é uma das maiores violações dos direitos humanos quando
analisado no contexto da migração”, alertou a professora da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Cláudia Araújo, durante a conferência ‘A
fronteira como território: tráfico de pessoas e políticas para enfrentamento’.
A atividade foi promovida pela ENSP, em parceria com o Instituto Nacional de
Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz),
na manhã desta segunda-feira (23), como parte da programação do ‘Seminário
Nacional Interculturalidade, Migrações, Gênero e Saúde’.
Segundo
a pesquisadora, o comércio de indivíduos viola todos os artigos da Declaração
Universal dos Direitos Humanos. Claúdia defendeu que tratar a migração como um
ato de liberdade e olhar para o comércio humano como uma grave violação de
direito significa enxergar o indivíduo em situação de tráfico como uma real
vítima, que está exposta a diversas situações de vulnerabilidade. “A situação
de tráfico retira as capacidades individuais, anula as oportunidades de
deslocamento voluntário e compromete a saúde mental e física das pessoas. Isso
implica diretamente na vida de homens, mulheres, crianças, adolescentes e de
uma massa enorme da população LGBTQIA+. E fragiliza os estados ou países na
medida em que suas populações são colocadas nessa situação”, alertou.
Apesar
de existir há séculos, o tráfico de pessoas sofreu poucas mudanças ao longo do
tempo. Segundo Cláudia, trabalho escravo, exploração sexual, casamentos servis,
mendicância e criminalidade forçadas acontecem repetidamente no cotidiano de
milhares de pessoas e permanecem como as principais características do comércio
de seres humanos. “O tráfico humano é o terceiro maior lucro ilícito do
planeta”, destacou a pesquisadora.
Embora
seja uma prática frequente, o tráfico de pessoas pode parecer inacreditável
para o senso comum e aos olhos de quem vive em grandes centros com uma melhor
estrutura de vida. No entanto, as pesquisas comprovam que o comércio de seres
humanos é, de fato, uma realidade em diversos locais do mundo, conforme relatou
a palestrante. Segundo ela, o último relatório do Escritório das Nações Unidas
sobre Drogas e Crime (UNODC) apontou que a expansão da pobreza provocou o
crescimento do tráfico de pessoas em todo o mundo. O comércio humano para
trabalho escravo aumentou 47% e o de crianças, especialmente meninas, cresceu
38% em todo o planeta, entre 2019 e 2024. “O mundo está mais empobrecido
economicamente. As pessoas estão mais expostas a vulnerabilidades. Aquelas que
sobrevivem com menos do salário mínimo, em seu país, é cada vez maior”,
explicou Cláudia.
Segundo
Cláudia, nesse grave cenário existe um ‘lugar’ que merece especial atenção:
“Devemos sempre nos lembrar de que o território fronteiriço é um espaço de
vida, trocas, convívio de populações e de direitos e violação de direitos. É um
espaço de poder, de dinheiro, de estruturas que beneficiam poucas pessoas e, às
vezes, induzem milhares delas ao descaminho, ao crime, ao tráfico de drogas e
de armas, e que colocam os indivíduos no mesmo conjunto de problemas. Entender
o que significa território e fronteira é uma necessidade”.
Nas
fronteiras com o Brasil, os números de tráfico humano são preocupantes.
Conforme destacou a palestrante, dados do Ministério da Justiça e dos Direitos
Humanos mostram que, entre janeiro e abril de 2024, uma pessoa foi traficada
por dia em solo nacional. “Nas quatro cidades da região onde moro (Corumbá,
Ladário, Puerto Quijarro e Puerto Suárez), que ficam na fronteira com a
Bolívia, desaparece uma criança por semana. As rodoviárias são cheias de
fotografias de pessoas desaparecidas, que provavelmente não voltarão. É raro
alguém ser resgatado do tráfico”, lamentou.
Além do
crescimento dos números, o Brasil sofre, ainda, com a insuficiência de
registros. De acordo com dados da Polícia Federal, em 2024 apenas 148
inquéritos foram considerados crimes de tráfico humano. “Será que somente 148
pessoas estiveram em situação de tráfico no período? As rodoviárias brasileiras
não mostram isso”, atentou Cláudia. Segundo ela, essa grave realidade requer do
Estado brasileiro um olhar prioritário para o enfrentamento ao tráfico de
pessoas, assim como a necessidade de articulações com os países de fronteira e
a renovação de pactuações com eles.
Diante
desse quadro, a área de Saúde deve desempenhar um papel fundamental, segundo a
pesquisadora: “As pessoas em situação de tráfico não conseguem procurar o setor
Saúde. Por isso, nós precisamos qualificar nossos profissionais, para que eles
desenvolvam habilidades de observar e aprender a reconhecer pessoas nessa
situação”.
Para um
enfrentamento eficaz ao tráfico de pessoas, a professora defendeu a articulação
de dados científicos com políticas públicas, assim como a integração de ações
entre os países e o debate intersetorial que envolva, principalmente, as
comunidades e a população em geral. Claúdia acredita que as políticas públicas
estão colocadas e podem ser praticadas das melhores maneiras possíveis como
formas de enfrentamento ao problema. “O acompanhamento e o monitoramento das
pessoas podem alcançar melhores condições de cuidado e, dentro do cuidado,
orientações para aprender a evitar situações de exposição ao tráfico de
pessoas, à migração irregular e a questões do desamparo. Como diria a minha
professora Cecília Minayo: nós ainda temos muito por fazer”, concluiu.
Por
fim, a moderadora da mesa e pesquisadora da ENSP, Cristiane Andrade, chamou a
atenção para a necessidade de pensar a formação profissional a partir da
garantia de melhores condições de trabalho, principalmente para as mulheres que
estão na linha de frente do cuidado às pessoas expostas ao tráfico humano: “Não
é raro encontrarmos situações em que as profissionais ficaram mais de seis
meses sem pagamento, trabalhando na Saúde. O trabalho do cuidado com quem sofre
violência não é fácil. É muito intenso e estressante”.
Fonte:
Por Danielle Monteiro, Informe Ensp

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