quarta-feira, 4 de junho de 2025

Carla Zambelli, condenada no STF, deixa o Brasil: o que se sabe até agora da fuga da bolsonarista?

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), condenada a 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta terça-feira (3/6) que deixou o Brasil em direção à um país da Europa e que vai se licenciar do cargo para, segundo ela, lutar contra o que classificou de "falta de liberdades" e "censura" no Brasil.

"Gostaria de deixar bem claro que não é um abandono do país. Não é desistir da minha luta. Muito pelo contrário. É resistir. É continuar falando o que eu quero falar. Voltar a ser a Carla antes das amarras que essa ditadura nos impôs", disse a parlamentar em entrevista à rádio Auriverde, em transmissão na manhã desta terça-feira.

Zambelli não revelou em que país europeu ela estaria. A parlamentar afirmou ter cidadania de algum país europeu e que vai solicitar uma licença não-remunerada da Câmara dos Deputados para seguir fora do país. Ela disse que o pedido será semelhante ao feito pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que, desde fevereiro está vivendo nos Estados Unidos.

A suposta ida de Zambelli à Europa acontece menos de um mês depois de ela ter sido condenada por unanimidade pela Primeira Turma do STF a 10 anos de prisão pela invasão de sistemas e pela adulteração de documentos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Apesar da condenação, ainda não havia mandado de prisão contra a parlamentar. A BBC News Brasil apurou que ela não tinha nenhuma restrição a viagens e que seu passaporte, que chegou a ser apreendido em 2023, já havia sido devolvido.

Zambelli disse que vai usar seu tempo na Europa para denunciar a perseguição política à qual militantes de direita estariam sendo submetidos no Brasil.

"O que nós estamos vivendo hoje é um tempo de ditadura, falta de liberdades, censura e acho que vocês precisam ter pessoas fora do Brasil para poder lutar e continuar denunciando, desta vez na Europa. Vou levar isso a todos os países da Europa. Vou denunciar em todas as cortes que a gente tiver pra denunciar", afirmou a parlamentar.

Além da pena de prisão em regime fechado, a deputada foi condenada à perda do mandato e ao pagamento de indenização, por envolvimento na invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo crime de falsidade ideológica.

Zambelli foi acusada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de planejar e coordenar, com o auxílio do hacker Walter Delgatti, uma invasão ao sistema do CNJ no início de 2023.

Segundo a denúncia, o objetivo era incluir alvarás de soltura falsos e um mandado de prisão forjado contra o próprio Moraes.

Delgatti, que confessou o ataque, foi condenado a oito anos e três meses de prisão. Ele afirma ter feito a invasão a mando da deputada.

No voto que embasou a condenação, Moraes afirmou que Zambelli atuou de forma "premeditada, organizada e consciente", com a intenção de desacreditar as instituições do Estado democrático de Direito.

"Como deputada federal, portanto representante do povo brasileiro e jurada a defender a Constituição, utilizou-se de seu mandato e prerrogativas para, deliberadamente, atentar contra a credibilidade do Poder Judiciário", escreveu o ministro.

A pena, segundo ele, foi agravada pelo "comportamento social desajustado ao meio em que vive a acusada" e pelo "desrespeito às instituições e à democracia".

A defesa da parlamentar argumenta que a condenação se baseou exclusivamente nos depoimentos de Delgatti, que seriam contraditórios e imprecisos.

Segundo os advogados, não houve pagamento por serviços ilegais e não há provas técnicas de que Zambelli tenha redigido ou enviado os documentos falsos incluídos no sistema do CNJ.

•        'Vítima de perseguição'

Após o STF formar maioria pela condenação a dez anos de prisão, Zambelli afirmou ser vítima de perseguição política.

Em entrevista coletiva em 15 de maio, ela também criticou o andamento do processo e negou qualquer envolvimento nos crimes.

"Não colocaria meu mandato em risco por uma brincadeira sem graça", disse então a deputada.

Zambelli negou envolvimento nos crimes e afirmou que não há provas que a conectem diretamente à invasão.

Ela também acusou Delgatti de ser um "mentiroso patológico" que alterou sua versão dos fatos em pelo menos seis depoimentos.

"A própria Polícia Federal, quando esteve na casa dele, o classificou como mitômano, que mente e inventa histórias", afirmou.

O advogado da deputada, Daniel Bialski, criticou o formato do julgamento. Segundo ele, a realização em plenário virtual impediu a apresentação oral dos argumentos da defesa.

"É inaceitável que o julgamento tenha ocorrido de forma virtual, sem que o advogado estivesse presente diante dos ministros. Isso é um cerceamento de defesa", declarou.

•        'Não sobreviveria à cadeia'

Na entrevista coletiva, Zambelli também mencionou que enfrenta problemas de saúde, como a síndrome de Ehlers-Danlos — condição genética que causa hipermobilidade nas articulações —, além de depressão e uma disfunção cardíaca conhecida como síndrome da taquicardia postural ortostática.

"Pedi relatórios aos meus médicos, e eles são unânimes em afirmar que eu não sobreviveria à cadeia", disse a deputada.

"Se acontecer de ter a prisão, vou me apresentar. Mas não me vejo capaz de ser cuidada da maneira como devo ser cuidada", afirmou.

A decisão de maio foi a segunda vez, em menos de dois meses, que o STF condenou Carla Zambelli.

Em março, os ministros já haviam votado por uma pena de cinco anos e três meses de prisão em regime semiaberto, por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal.

O caso diz respeito ao episódio em que a deputada perseguiu um homem armada pelas ruas de São Paulo, na véspera do segundo turno das eleições de 2022. O julgamento, porém, foi interrompido após um pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques.

No âmbito eleitoral, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) decidiu, em janeiro, cassar o mandato de Zambelli por disseminação de desinformação durante as eleições de 2022. A decisão, no entanto, ainda aguarda a análise de recursos para entrar em vigor.

Já Walter Delgatti Neto permanece preso desde 2023 por outros crimes cibernéticos, incluindo a invasão de contas de autoridades no Telegram.

Ele ficou conhecido por seu envolvimento no caso "Vaza Jato", quando repassou mensagens obtidas ilegalmente a partir de invasões à força-tarefa da Lava Jato e ao ex-juiz Sergio Moro. O conteúdo foi divulgado inicialmente pelo site The Intercept Brasil.

No processo atual, ele foi condenado a oito anos e três meses de prisão, e, junto com Zambelli, deverá pagar uma multa de R$ 2 milhões por danos morais e coletivos.

•        “Sou intocável na Itália”, diz Zambelli após deixar o Brasil

Após anunciar nesta terça-feira (3/6) que deixou o Brasil, a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) afirmou que é “intocável na Itália” por ter cidadania italiana. A parlamentar foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 10 anos de prisão e à perda de mandato por envolvimento na invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

“Como tenho cidadania italiana, eu sou intocável na Itália, não há o que ele [Alexandre de Moraes] possa fazer para me extraditar onde sou cidadã, eu estou muito tranquila em relação a isso”, declarou a deputada em entrevista à CNN.

Além disso, Zambelli afirmou que viajou ao país norte-americano para realizar um tratamento de saúde, mas negou que seja por depressão. “Tenho psiquiatra e psicólogo no Brasil, inclusive, já me deram relatórios para que eu possa usar nos meus processos judiciais. Minha intenção era ficar no Brasil, mas percebo que nós não temos mais justiça no nosso país”, disse.

A deputada também criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, que mandou reter seu passaporte diplomático no ano passado. Segundo ela, a medida seria “ilegítima”.

Mais cedo, a deputada disse ao canal AuriVerde, no YouTube, que “estou fora do Brasil”. “Já faz alguns dias. A princípio, buscando um tratamento médico, é um tratamento que eu já fazia aqui [sem especificar o lugar]. Vou pedir afastamento do cargo”, adiantou a parlamentar.

Ela disse que ficará na Europa por ter cidadania europeia e que vai “denunciar a ditadura”, que, segundo ela, o Brasil vive. Segundo a deputada, ela vai pedir licença não remunerada, assim como fez o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos Estados Unidos.

Zambelli, no entanto, está nos Estados Unidos, como revelou o Metrópoles, na coluna de Igor Gadelha.

<><> Passaporte liberado

Embora esteja condenada pelo STF, Zambelli poderia viajar para fora do país. O passaporte dela foi liberado pelo Supremo, e não há restrições a deslocamentos durante a fase recursal.

“Vou me basear na Europa. Eu tenho cidadania europeia, então estou muito tranquila em relação a isso. Gostaria de deixar bem claro que não é um abandono do país. Não é desistir do país. Muito pelo contrário: é resistir. É voltar a ser a Carla que eu era antes das amarras que essa ditadura nos impôs”, declarou a parlamentar.

“Vou levar isso em todos os países da Europa. Vou denunciar em todas as Cortes que a gente tiver na Europa”, completou.

•        Carla Zambelli deve ter prisão preventiva decretada; deputada pede Pix a bolsonaristas após fuga

A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviará ainda nesta terça-feira (3) um pedido de prisão preventiva da deputada bolsonarista Carla Zambelli (PL-SP), que fugiu do país após ser condenada a mais de 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por perseguição armada na véspera da eleição presidencial em 2022.

O pedido de prisão deve ser acatado pelo Supremo, onde o julgamento da deputada bolsonarista foi suspenso após pedido de vistas do ministro Kássio Nunes Marques, mesmo com o placar já definido pela condenação por 5 anos 3 meses de prisão.

Carla Zambelli já havia sido condenada 10 anos de prisão por ser mandante da invasão ao sistema eletrônico do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Na invasão, o hacker Walter Delgatti - que diz que agiu por ordem da bolsonarista - incluiu um falso mandado de prisão contra Alexandre de Moraes. O caso, ocorrido em meio à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL), incendiou os extremistas que se encontravam em frente a quartéis generais pedindo intervenção militar.

Em entrevista na manhã desta terça-feira (3), a deputada afirmou que já estava fora do país e sinalizou que ficará em algum país da Europa, citando Portugal, Espanha e Itália. No entanto, aliados da bolsonarista dizem que ela está nos EUA, de onde deve embarcar para o destino final no continente europeu.

Em nota, o advogado Daniel Bialski anunciou sua renúncia à defesa da parlamentar. "Fui apenas comunicado pela deputada de que estaria fora do Brasil para dar continuidade a um tratamento de saúde. Todavia, por motivo de foro íntimo, estou deixando a defesa da deputada, como já lhe comuniquei. Agora, detalhes sobre ela devem ser requisitados à Karina, assessora da deputada".

<><> Redes

Após confirmar que está fora do país, Carla Zambelli fez uma publicação nas redes sociais, atribuída à mãe, afirmando que deixou "temporariamente o solo brasileiro não por escolha, mas por necessidade" e abriu uma campanha pedindo Pix aos apoiadores.

"Perseguida pelo establishment, calada por quem deveria garantir minhas liberdades, sigo agora do exterior para continuar lutando pelo resgate da democracia em nosso país — uma democracia destruída pelo ativismo autoritário do Supremo Tribunal Federal", escreveu a bolsonarista.

Zambelli ainda afirmou na entrevista que vai "ombrear" com Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que fugiu para os EUA, conspirando contra autoridades brasileiras da Europa.

"Minha esperança está no povo brasileiro e no Senado que será eleito em 2026. Um Senado forte, corajoso e comprometido com a liberdade poderá restabelecer o equilíbrio entre os poderes, responsabilizar os que abusam de suas funções e devolver à Suprema Corte o papel que lhe é devido: o de zelar pela Constituição — e não ser sua usurpadora", emendou na mensagem distribuída no Instagram.

•        Lindbergh vai acionar Interpol após fuga de Carla Zambelli: "Localizar, prender e extraditar"

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), responsável pela ação que culminou na abertura de inquérito contra Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por conspiração contra o judiciário brasileiro nos Estados Unidos, anunciou que vai pedir alerta vermelho da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) para localizar, prender e extraditar a deputada bolsonarista Carla Zambelli (PL-SP).

Nesta terça-feira (2), Carla Zambelli, recentemente condenada a 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), anunciou que fugiu do Brasil para a Europa e que pretende fazer o mesmo que Eduardo Bolsonaro: "denunciar" ministros do Supremo no exterior, em uma tentativa de escapar da cadeia.

Ao anunciar que acionará a Interpol contra Zambelli, Lindbergh alertou que o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe do Estado no STF, pode fazer o mesmo que a deputada e fugir.

"Zambelli fugiu. Vamo pedir alerta vermelho pra Interpol para localizar, prender e extraditar.Essa turma é um leão pra atacar a democracia e covarde na hora de responder por seus crimes! Não tenho dúvida que Bolsonaro pode ir pelo mesmo caminho. Não podemos permitir uma fuga de uma eventual condenação por golpe de Estado. A PGR tem todos os instrumentos pra impedir isso: Cassar passaporte, tornozeleira eletrônica ou pedir uma prisão preventiva!", escreveu o petista.

 

Fonte: BBC News Brasil/Metrópoles/Fórum

 

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