AI-5:
negar ditadura é ignorância histórica, diz pesquisador
Decretado
no dia 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional número 5 (AI-5) ficou
marcado na história como o nível mais extremo a que chegou o autoritarismo no
Brasil e foi o ponto de partida para institucionalizar a repressão política
durante a ditadura militar, afirma o historiador Carlos Fico.
Assinado
há mais de 50 anos pelo general Artur da Costa e Silva, o AI-5 autorizou uma
série de medidas de exceção, autorizando o presidente a fechar o Congresso
Nacional, cassar mandatos parlamentares, intervir em Estados e municípios,
suspender os direitos políticos de qualquer cidadão por até dez anos e
suspender a garantia do habeas corpus.
Professor
titular de História Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), Fico afirma que o ato inaugurou o período mais violento do regime
militar, entre 1969 e 1973, e caracterizou-o explicitamente como uma ditadura.
Em
entrevista à BBC News Brasil, o historiador afirma que discursos que buscam
negar a ditadura são expressão de uma "ignorância histórica". Para
ele, o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), que defende a
ditadura, poderá ser marcado por tentativas de reescrever a História sobre o
período, iniciativas que poderão "dar trabalho", mas não irão
prevalecer.
"É
impossível ocultar eventos traumáticos, como o Apartheid na África do Sul, ou o
nazismo na Alemanha, ou as ditaduras militares latino-americanas", afirma
Fico, especialista em estudos sobre a ditadura militar e autor de livros como O
Golpe de 1964: Momentos Decisivos (Editora FGV, 2014) e Como Eles Agiam - Os
Subterrâneos da Ditadura Militar: Espionagem e Polícia Política (Record, 2001).
"Ao
fim e ao cabo, essas realidades acabam se impondo. Os governos são passageiros,
mas a História se solidifica ao longo de décadas, séculos."
De
acordo com o relatório final da Comissão Nacional de Verdade, 434 pessoas
morreram ou desapareceram nas mãos do Estado. Publicado em dezembro de 2014, o
relatório da comissão responsabilizou 377 agentes do Estado por graves
violações de direitos humanos ocorridas entre 1964 e 1988.
O AI-5
vigorou durante dez anos, até dezembro de 1978. O Congresso foi fechado no
mesmo dia do decreto, para só reabrir dez meses depois.
Leia
abaixo os principais trechos da entrevista.
• Quais foram os principais efeitos
imediatos do AI-5?
Carlos
Fico - O Congresso Nacional foi fechado. Na mesma noite do decreto, o
ex-presidente Juscelino Kubitschek foi preso. No dia seguinte, foi o ex-governador
Carlos Lacerda, e começaram as cassações de deputados federais e senadores. Até
1969, um total de 333 políticos tiveram seus direitos políticos suspensos.
Foi o
pior momento da história brasileira em termos de autoritarismo, sobretudo pela
brutalidade da tortura, dos desaparecimentos, e também pela suspensão do habeas
corpus e o fechamento do Congresso Nacional.
Foi um
paroxismo, um momento de auge, do regime militar, que a partir de então ficou
claramente caracterizado como uma ditadura, com muitos prejuízos até hoje.
• Como a sociedade reagiu? Ou não reagiu,
porque não podia?
Fico -
A sociedade realmente não reagiu. Foi um ato brutal de força. O fechamento do
Congresso, a prisão dessas grandes lideranças populares, a cassação de centenas
de pessoas, tudo isso tornou a possibilidade de uma reação praticamente
impossível.
O que
acontece depois do AI-5 é que o regime cria estruturas nacionais clandestinas
de repressão política. O sistema DOI-Codi, que fazia as prisões e
interrogatórios, em geral seguidos de tortura; o Sistema Nacional de
Informações, que na verdade fazia espionagem e censura política. A repressão
política é institucionalizada a partir do decreto.
Começa
a haver muitos interrogatórios, com brutalidades, tortura, e muitas prisões sem
comunicação à Justiça. Uma das iniciativas lamentáveis do AI-5 foi a suspensão
do direito de habeas corpus para quem fosse acusado de crimes políticos. Não
havia a possibilidade de recorrer à Justiça. Todos os atos praticados com base
no AI-5 estavam fora da jurisdição da Justiça comum.
As
pessoas acusadas de crimes políticos passaram a ser julgadas pela Justiça
Militar, o que era uma aberração. Apesar disso, quando as pessoas eram levadas
para a Justiça Militar, elas se sentiam aliviadas, porque pelo menos estavam
fora do aparato clandestino de repressão política. Pelo menos estavam
protegidas da tortura, que era praticada sobretudo no sistema DOI-Codi.
• Qual foi o contexto por trás do AI-5?
Por que o regime militar chegou àquele extremo?
Fico -
Em 1968, houve protestos frequentes dos estudantes, que eram reprimidos com
violência pela polícia. Em março, um dos estudantes (Edson Luís) acabou morto
em uma dessas manifestações no Rio, no restaurante Calabouço.
O
episódio motivou muitas passeatas contra o regime, que levaram a ala mais
radical a pressionar o presidente Costa e Silva a decretar um novo ato
institucional que permitisse punições excepcionais, como cassações de mandatos
e suspensão de direitos políticos.
Ele
próprio não queria um novo ato que reabrisse a temporada de punições, e
inicialmente conseguiu evitar a medida, em uma reunião do Conselho de Segurança
Nacional em junho. Digo reabrir porque os primeiros atos institucionais após o
golpe haviam liberado punições excepcionais, mas com prazos determinado. Quando
Costa e Silva assumiu, ele não tinha mais esses mecanismos punitivos em mãos.
Depois
dessa reunião, entretanto, militares e civis da direita mais radical começaram
a agir para criar um clima de conflagração que obrigasse Costa e Silva a
decretar o ato. As provocações incluíram invasões de universidades e sequestros
de artistas. Até que em agosto houve a violenta invasão da Universidade de
Brasília (UnB), na qual um estudante levou um tiro na cabeça.
Vários
filhos de parlamentares estudavam na UnB, e a invasão foi vista como um excesso
mesmo por políticos da Arena, o partido que apoiava o regime militar. Marcio
Moreira Alves, um deputado da oposição, fez um discurso criticando duramente as
forças militares. O discurso foi o pretexto para decretar o AI-5. Os militares
queriam processar Moreira Alves, mas a Câmara se recusou a liberar o deputado
de suas imunidades. Mas veja que havia desde 1964 essa demanda por reabrir a
temporada de punições.
• Foi também uma reação à luta armada?
Fico -
A luta armada cresceu, sobretudo, a partir do AI-5. Aqueles estudantes que
protestavam em 1968 ficaram muito frustrados com o decreto, e se tornaram
recrutas fáceis para as organizações de esquerda que se denominavam
revolucionárias. Muitos nem eram comunistas, mas passaram para as ações armadas
em função desse fechamento (do regime).
Mas não
há uma relação de causa e efeito. A linha dura queria a reabertura das punições
desde 1964. E a esquerda vinha debatendo a opção pela luta armada antes mesmo
do golpe de 1964, desde a época da Revolução Cubana (em 1959).
Uma
coisa não é causa da outra, mas com certeza houve um processo de
retroalimentação. Com o passar do tempo, os militares diziam que era preciso
manter a repressão política por causa das ações armadas; e a esquerda
revolucionária justificava a necessidade de pegar em armas por causa do AI-5,
que institucionalizou a repressão. A partir do decreto, o número de vítimas
(mortos, desaparecidos e torturados) da ditadura aumentou muito, sobretudo
entre 1969 e 1973.
• Por que ganham força questionamentos
sobre ter havido uma ditadura?
Fico -
A negação de ter havido uma ditadura é simplesmente uma loucura, uma idiotice.
Não sei bem como caracterizar.
O que
acho mais significativo, em termos da sociedade brasileira, é que muita gente
diz que, naquele tempo, as coisas eram melhores. Não negam que houve uma
ditadura, ao contrário, dizem que era até melhor.
Isso
acontece porque a memória que se construiu no Brasil sobre a ditadura militar
não é uma memória traumática como foi, por exemplo, na Argentina. Lá, a
repressão foi muito visível. Pessoas eram mortas nas ruas, havia tiroteios. Os
próprios militares anunciavam que iam matar até o último comunista.
• Foi também pela escala da repressão? Na
Argentina fala-se em 30 mil mortos e desaparecidos, um número muito maior que
no Brasil.
Fico -
Sim, também isso. Mas mesmo as pessoas que não foram afetadas viam, ouviam,
liam, viam as fotografias - isso quando não esbarravam com um cadáver nos
terrenos baldios. No Brasil não houve essa experiência, essa vivência da
repressão política.
• Por quê? A população não ficava sabendo?
Fico -
Por duas razões. Primeiro pela censura política, que foi institucionalizada
após o AI-5. Foi criado um órgão secreto no gabinete do diretor geral da
Polícia Federal que reunia as solicitações de diversas autoridades listando
temas que deveriam ser proibidos na imprensa, as chamadas proibições
determinadas. Era vetado escrever sobre confrontos entre a repressão e a
chamada luta armada, que praticava as ditas ações revolucionárias.
Além da
censura, havia uma propaganda política muito eficaz. O período de 1969 a 1973,
que foi o auge da repressão, coincidiu com o período do chamado milagre
brasileiro. O PIB cresceu em índices elevadíssimos, de 9, 10, 11% ao ano. A
própria imprensa estrangeira falava em milagre brasileiro.
O
governo do presidente (Emílio Garrastazu) Médici (que sucedeu Costa e Silva em
1969) fez uma enorme campanha de propaganda política na televisão que dava a
impressão de que o Brasil tinha finalmente encontrado o seu destino de
potência. Obras faraônicas eram feitas e a propaganda do governo vendia a
imagem de um país que estava dando certo, um país que ia para a frente,
"pra frente, Brasil".
Se você
associa a censura vigorosa com essa propaganda política e os benefícios
decorrentes do crescimento econômico, com todo mundo comprando
eletrodomésticos, carros, até casa própria, essa combinação explica por que no
Brasil não se construiu uma memória traumática como na Argentina. Então, aqui,
muita gente hoje lembra positivamente daquela época.
• O presidente eleito defende a ditadura,
o uso da tortura e exalta o general Brilhante Ustra (que chefiou o DOI-Codi). O
que representa para o Brasil ter um presidente com essa postura?
Fico -
Isso é expressão de uma ignorância histórica. Jair Bolsonaro e outros militares
na ativa e na reserva expressam essa ignorância e essa incapacidade de
compreensão.
Eu
creio que, ao fim e ao cabo, essas realidades acabam se impondo. Os governos
são passageiros, mas a História se solidifica ao longo de décadas, séculos.
É
impossível ocultar eventos traumáticos, como o Apartheid na África do Sul, ou o
nazismo na Alemanha, ou as ditaduras militares latino-americanas. Isso é apenas
expressão de ignorância. Não prevalece, evidentemente, entre as pessoas que
conhecem minimamente a História, e certamente não vai prevalecer com o passar
do tempo.
• Mas no curto prazo o senhor acha que
podemos ver iniciativas que tentem reescrever a História?
Fico -
Não há a menor possibilidade de isso acontecer. Mas sim, acredito que vá haver
muitas tentativas. Até pelo perfil do novo ministro da Educação (Ricardo Vélez
Rodríguez) e de outros nomes indicados (para o futuro governo).
É claro
que vai haver tentativas de dizer que 1964 não foi um golpe, que não houve
ditadura, em torno de projetos como o Escola Sem Partido. Mas isso não vai
prevalecer, é um disparate. Essas iniciativas vão ocorrer, e vão dar muito
trabalho. Mas a realidade prevalece.
• Quais foram as consequências do AI-5
para o longo prazo?
Fico -
O AI-5 foi uma espécie de paroxismo de uma tradição que no entanto vem de longa
data, infelizmente, no Brasil. Eu a chamo de utopia autoritária. É a ideia de
que o povo é despreparado. De que o Congresso Nacional é um obstáculo. E que,
portanto, eventualmente seria conveniente, admissível, fazer algumas coisas
fora dos parâmetros constitucionais.
Uma das
frases famosas sobre o AI-5 é do Delfim Netto (então Ministro da Fazenda), que
o defendeu por ter conseguido fazer uma reforma tributária que durou 25 anos. É
justamente essa a perspectiva: de que eventualmente é preciso medidas
autoritárias para impor decisões certas, segundo determinada elite que esteja
no poder.
Isso
perpassa todo o período republicano brasileiro, mas foi levado ao extremo
durante as nossas duas ditaduras, o Estado Novo e a ditadura militar. E o AI-5
é o paroxismo dessa visão.
É muito
ruim que essa perspectiva autoritária não tenha sido completamente dissolvida.
Ela não desapareceu totalmente. E volta e meia percebemos no Brasil indícios
dessa visão que busca atalhos constitucionais. Acho que isso é o que há de
permanente. A ditadura não foi algo que caiu como um raio em céu azul.
• A maneira como se deu a anistia, sem
punição por violações de direitos humanos, prolonga a possibilidade dessa
utopia autoritária ressurgir?
Fico -
Não, acho que aí há outro problema. Acho que a Lei de Anistia decorreu de duas
coisas. Um, o fato de não ter havido propriamente uma grande visibilidade da
repressão, e portanto não haver essa memória tão traumática; e a enorme
tradição de conciliação que existe na história política brasileira. Os setores
da elite, quando se veem em conflito, tendem a encontrar formas de conciliação.
Mas
claro que o fato de militares e civis que praticaram violações de direitos
humanos não terem sido julgados tornou a transição brasileira muito peculiar,
quase que inconclusa. Tanto que o primeiro governo civil na transição para a
democracia foi um antigo líder durante o regime militar, o José Sarney. Foi uma
transição muito suave, amaciada. Nunca houve no Brasil uma ruptura clara com a
ditadura.
Fonte:
BBC News Brasil

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