Porque
Bolsonaro foi chamado de ‘Yoon Suk Yeol brasileiro’?
Quando
o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro foi denunciado pela Procuradoria-Geral da
República (PGR),
junto com 33 de seus aliados, por um plano que pretendia romper a ordem
democrática do país e impor um golpe de Estado, a imprensa sul-coreana se
deparou com uma espécie de déjà vu. Jornais tradicionais como Kyunghyang e Hankook
Ilbo referiram-se ao político como “o Yoon Suk Yeol brasileiro”.
O
político que foi o principal adversário de Luiz Inácio Lula da Silva nas
eleições de 2022 encara, na próxima terça-feira (25/03), o início do julgamento
pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que decidirá se ele se torna réu, em uma
situação que se assemelha ao que vive o mandatário asiático, afastado do cargo,
no outro lado do mundo.
Em
ambos os cenários, existe um ponto em comum: a tentativa fracassada de golpe.
Embora
Yoon tenha recentemente sido solto da prisão por uma decisão
do Tribunal Distrital de Seul, onde pemaneceu após ser acusado de pelos crimes
de insurreição e abuso de poder no âmbito da decretação da lei marcial, em 3 de dezembro de
2024, ele segue aguardando o julgamento do Tribunal
Constitucional,
que analisa um pedido de impeachment aprovado na Assembleia Nacional. A
expectativa é de um desfecho sobre este caso durante esta semana.
No caso
brasileiro, uma denúncia de 272 páginas foi apresentada pelo procurador-geral
Paulo Gonet em 18 de fevereiro detalhando as articulações de Bolsonaro e de
seus aliados, as quais teriam tido seu início em meados de março de 2022, sete
meses antes das eleições presidenciais daquele ano – nas quais o então
candidato à reeleição seria derrotado por Lula.
O
documento conclui que o ex-presidente tentou impor um golpe de Estado e abolir
o Estado Democrático de Direito, a partir da conformação de uma organização
criminosa, e outros crimes que, juridicamente falando, levariam a uma pena
altíssima.
Não é
mera coincidência que duas lideranças políticas que compartilham do mesmo viés
ideológico foram equiparadas, apesar das diferenças contextuais. Chamam a
atenção algumas das estratégias que foram usadas por ambos para a execução de
seus respectivos planos. Em especial, as alegações de fraude eleitoral e o
fomento de um sentimento contrário a uma suposta ameaça comunista.
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‘Presidencialismo da confrontação’
Os dois
líderes usaram alegações de irregularidades nas urnas eletrônicas para
questionar a legitimidade dos processos eleitorais. A denúncia da PGR menciona
algumas datas em que Bolsonaro teria atacado o sistema de votação para se
blindar de uma possível vitória eleitoral de Lula.
Em 29
de julho de 2022, pouco antes do pleito, o ex-presidente fez uma transmissão ao
vivo das dependências do Palácio do Planalto, em Brasília, criticando o
funcionamento das urnas. Em 10 de agosto daquele ano, mesmo com a decisão da
Câmara de manter a votação digital, o ultradireitista insistiu em atacar o
sistema. Um ano antes, nas manifestações de 7 de setembro de 2021, na Avenida
Paulista, em São Paulo, Bolsonaro fez um discurso no qual “deu a conhecer seu
propósito de não mais se submeter às deliberações provenientes da Suprema
Corte, confiado no apoio que teria das Forças Armadas”, segundo o documento.
Com a
aproximação das eleições presidenciais, os ataques ao sistema de votação foram
intensificados, com acusações infundadas sobre supostas vulnerabilidades das
urnas e fraude eleitoral.
A Opera
Mundi, o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, mencionou o termo “presidencialismo de confrontação” para explicar o
comportamento adotado por Bolsonaro ao longo de seus quatro anos de mandato.
“Bolsonaro
começou atacando a velha política e ela foi encarnada na figura do Rodrigo
Maia, [então] presidente da Câmara. Depois passou a atacar os jornalistas, a
mídia tradicional, cientistas, intelectuais, professores, universidades, até
que veio uma pandemia. E nessa pandemia, Bolsonaro foca esse presidencialismo
de confrontação atacando a ciência”, explicou.
Superada
a pandemia, o especialista aponta que Bolsonaro passa a atacar “com muita
força” o sistema eleitoral e os ministros do STF.
“O
sentido de vida do bolsonarismo no espectro político é o confronto, é o
constante ataque. Se formos ver, de uma maneira paralela, o [estrategista
norte-americano] Steve Bannon acabou fazendo com que o [presidente dos Estados
Unidos Donald] Trump usasse a mesma tática, que é a ideia de inundar o debate
público com questões que geram comportamentos e sentimentos de estranheza, de
ódio, de repulsa, porque a extrema direita sabe que esses elementos que
mobilizam os sentimentos ganham tração e compartilhamento, especialmente nas
redes sociais”, afirmou.
Por
outro lado, o presidente afastado da Coreia do Sul, que tem adotado uma posição
de linha dura contra países como a Coreia do Norte e a China, atacando o
“comunismo” para defender seus interesses políticos e associando o assunto à
suposta fraude eleitoral no país.
Em 11
de fevereiro, durante uma audiência na Corte para o julgamento do impeachment,
a defesa de Yoon mencionou, sem provas, que “a China usa muitas manobras
políticas para interferir nas eleições de outros países”, sobretudo a própria
nação sul-coreana.
Analistas
locais avaliam que o mandatário asiático tem tentado, durante sua situação
politicamente vulnerável, formular teorias da conspiração para reunir apoio
incitando sentimentos de ódio contra a China e a Coreia do Norte. Dessa forma,
seu governo buscava aumentar a legitimidade da declaração da lei marcial.
A
professora da Universidade Católica de Daegu e doutora em Ciência Política, Lim
Sujin, explicou a Opera Mundi que as divergências ideológicas e
questões de segurança referentes à Coreia do Norte configuram tradicionalmente
os tópicos mais importantes nas eleições sul-coreanas. Enquanto o Partido do
Poder Popular (sigla de Yoon) defende uma resposta linha-dura à Coreia do
Norte, a oposição, representada pelo Partido Democrático da Coreia, prefere uma
abordagem pacífica.
De
acordo com Lim, o depoimento de uma das figuras acusadas por envolvimento no
evento de 3 de dezembro passado aponta que Yoon já vinha articulando a
decretação da lei marcial desde o início de 2024. Para isso, o mandatário
afastado, durante seu mandato, continuou batendo na tecla da ‘crença de uma
suposta necessidade de salvar a nação do comunismo’”.
“O
presidente sustentou alegações não verificadas de blogueiros e youtubers de
extrema direita sobre ‘fraude eleitoral’ e ‘intervenção chinesa’. Ele seguiu
uma política anti-China durante todo o seu mandato, até mesmo afirmando,
durante a declaração da lei marcial, a existência de espiões chineses. A lei
marcial não é resultado de uma teoria da conspiração que foi criada de repente.
O presidente se preparou para ela há algum tempo, enquanto prometia ‘proteger a
Coreia do Sul do comunismo’, ideia que foi propagada por grupos de extrema
direita”, explicou.
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Construção de inimigos
Durante
os dois anos em que Bolsonaro e Trump coincidiram em seus mandatos (2020 e
2021), o brasileiro adotou uma política externa alinhada à do republicano.
Aproveitou, ainda, para se aproximar de outros líderes conservadores, como por
exemplo o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que anos depois
seria responsável pelo massacre na Faixa de Gaza.
Nesse
contexto, Bolsonaro seguiu um discurso crítico aos governos de esquerda,
principalmente da América Latina, confrontando o “comunismo” de nações como
Venezuela e Cuba.
De
acordo com Prando, é da natureza da extrema direita a necessidade de “construir
inimigos”.
“Esse
inimigo pode ser o estrangeiro, o jornalista, o intelectual ou, muitas vezes, o
comunismo, os progressistas […] Tudo isso faz parte de uma estratégia muito bem
delimitada, compartilhada e utilizada com bastante eficiência por vários
líderes da extrema direita mundial. E Jair Bolsonaro, entre outros, utiliza
muito desta técnica”, afirma.
Entre
dezembro e janeiro, Opera Mundi esteve em Seul acompanhando os protestos favoráveis e
contrários à permanência do presidente no Executivo. A reportagem verificou que
nas manifestações pró-Yoon, havia uma semelhança no comportamento de seus
apoiadores com o dos bolsonaristas. Ambas as categorias, embora de países
distantes, estendiam bandeiras dos Estados
Unidos e Israel, enquanto incitavam a violência aos grupos oposicionistas de resistência,
chamando-os de “bbalgaeng-ih” (“vermelhinhos”, na tradução em português,
termo usado por coreanos em tom pejorativo para se referir a “comunistas”).
Nas
cidades brasileiras onde costumavam ser convocadas manifestações pró-Bolsonaro,
era comum ver imagens parecidas com as descritas acima.
Segundo
Prando, a compatibilidade nas ações entre ambos os grupos, apesar de
compartilharem de culturas políticas distintas, deriva de uma “dissonância
cognitiva” na qual as pessoas não se questionam. Ela é trazida por líderes
mundiais por meio de discursos com ênfase na tentativa de corroer a
democracia.
“Existem
elementos como, por exemplo, no campo religioso de grupos evangélicos que se
sentem ligados a Israel. Isso a gente viu expresso aqui no Brasil, nas
bandeiras. Quando o Trump começa a tarifar o mundo e você tem a defesa deste
tipo de comportamento por bolsonaristas, há uma contradição. Como é que a
pessoa se diz patriota e aí ela sai com as bandeiras de Israel e dos Estados
Unidos, inclusive apoia medidas do Trump que prejudicam o Brasil? Mas de novo,
essas pessoas entram numa dissonância cognitiva e mesmo que a realidade mostre
que elas estão equivocadas, elas reforçam cada vez mais as suas crenças e
permanecem nelas de forma muito fiel”, explica o especialista.
Essa
convicção de uma realidade alimentada entre os apoiadores de uma figura
extremista ganha força e conexão em culturas políticas diferentes como Brasil e
a Coreia do Sul, segundo Prando, especialmente por estarmos em uma sociedade
hiperconectada.
Por sua
vez, a professora sul-coreana Lim destacou que, assim como Bolsonaro recebe
apoio dos evangélicos, Yoon também recebe apoio das forças protestantes, embora
criticados por alguns segmentos dentro do próprio protestantismo, por estarem
“em desacordo com os valores cristãos”.
“Eles
afirmam defenderem uma democracia ao estilo Trump. Quando Trump perdeu a última
eleição presidencial, seus apoiadores invadiram o Capitólio e qualificaram os
atos violentos como sendo legítimos dentro dos princípios da democracia
norte-americana. Foi assim que surgiu a lógica da extrema direita: de que a
violência é aceitável e que os comunistas podem ser espancados até a morte”,
explicou a docente.
A
especialista também relatou que parte dos cristãos sul-coreanos compartilham de
um sentimento de “gratidão” aos norte-americanos. De acordo com eles, os
Estados Unidos tiveram foram os responsáveis pela introdução do protestantismo
na Coreia [do Sul] e da fé israelense, “um símbolo do protestantismo”. Nessa
mesma lógica, Lim avalia que no caso do Brasil, “percebe-se que a religião
intervém excessivamente na política, equiparando o anticomunismo
norte-americano à democracia e ao protestantismo”.
¨ Prestes a se tornar
réu, Bolsonaro convoca novo ato na Avenida Paulista para o dia 6 de abril
O
ex-presidente Jair Bolsonaro convocou nesta madrugada, por meio de suas redes
sociais, um novo ato político na Avenida Paulista para o dia 6 de abril, quando
pretende reunir apoiadores em defesa da anistia aos envolvidos nos ataques
golpistas de 8 de janeiro de 2023. A postagem foi feita em meio à expectativa
de que ele se torne réu ainda neste mês no Supremo Tribunal Federal, no
julgamento marcado para o dia 26 de março, por sua participação em uma trama
para subverter a ordem constitucional e tentar impedir a posse do presidente
eleito Luiz Inácio Lula da Silva.
Na
publicação, Bolsonaro afirma que "o que está acontecendo em nosso país é
inaceitável e precisa chegar ao fim" e acusa o ministro Alexandre de
Moraes, do STF, de “ultrapassar todos os limites”.
“Em
nome da vingança política, pessoas humildes estão sendo massacradas e
humilhadas pelo Estado brasileiro. É chegada a hora de dar um basta nisso e
trazer paz para o nosso país com a anistia”, escreveu o ex-presidente. Ao longo
do texto, Bolsonaro não menciona diretamente os ataques às sedes dos Três
Poderes, mas trata os manifestantes já condenados por atos golpistas como
vítimas de um Estado “persecutório”.
A
convocação do ato ocorre num momento de crescente pressão judicial sobre o
ex-mandatário, que é alvo de múltiplas investigações, incluindo a que apura a
tentativa de golpe de estado revelada pela Polícia Federal em fevereiro.
Segundo a PF, Bolsonaro teria liderado um grupo que planejou manter-se no poder
mesmo após a derrota eleitoral, por meio de medidas como um decreto de estado
de sítio baseado em falsas denúncias de fraude nas urnas.
Na
postagem, Bolsonaro afirma que “a pauta da anistia está avançando no Congresso
com o apoio crescente de parlamentares e partidos”, mas que agora “a bola está
com a gente”. Ele convoca os apoiadores a “mostrar para aqueles que ainda estão
indecisos que essa pauta é urgente e reflete a vontade da maioria dos
brasileiros”.
Apesar
de usar tom emocional, o ex-presidente insiste que a manifestação “não é por
mim. É pela liberdade! É pelo Brasil! É pelo futuro dos nossos filhos!”. Na
mesma linha, conclama seus seguidores a se organizarem, chamarem amigos e
familiares e estarem presentes em 6 de abril. “A liberdade precisa de você.
Compareça. Mostre sua força.”
A nova
convocação se dá pouco mais de um mês após a manifestação anterior, realizada
em 25 de fevereiro na mesma Avenida Paulista, quando Bolsonaro apareceu ao lado
de aliados e defendeu a anistia aos golpistas, embora evitando críticas diretas
ao STF naquele momento. Desta vez, porém, o tom se elevou significativamente.
Analistas
políticos avaliam que Bolsonaro tenta mobilizar sua base diante da iminência de
decisões judiciais que podem levá-lo à prisão e torná-lo inelegível por um
longo período. A estratégia de tensionamento institucional tem sido recorrente
ao longo de sua trajetória política, mas agora ocorre em um contexto de avanço
das investigações e possível responsabilização penal.
O ato
de 6 de abril, portanto, tende a ser mais um momento de confronto simbólico
entre o bolsonarismo e as instituições democráticas. Em meio à tentativa de
reconstrução da normalidade institucional no país, a mobilização anunciada por
Bolsonaro reforça a polarização e representa mais um desafio à estabilidade
política brasileira.
Fonte: Opera Mundi/Brasil 247

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