segunda-feira, 24 de março de 2025

Bolsonaristas não apoiam Israel por respeito aos judeus e sim por desprezo aos árabes

Há anos vemos Bolsonaro e seus apoiadores abanando bandeiras israelenses e estadunidenses, clamando pela vitória deles na aniquilação que continuam a incendiar na Palestina.

Esse fenômeno já foi explicado teologicamente por muitos, com base nos ensinamentos bíblicos evangélicos. Mas essa explicação é insuficiente. Acreditar numa revelação sobre o retorno de Jesus, o julgamento das nações, e a chegada do “fim” não é nada em frente ao desdém emitido em direção ao mundo árabe pelo ocidente cristão.

Não custa muito lembrar o desprezo que o mundo cristão tem ao ‘outro’, o que não é apenas direcionado ao árabe. Há desprezo ao africano, chines, indiano, árabe… e ao povo judeu também. Será coerente acreditar que a criação de Israel como nação foi mesmo uma vontade de Deus? Ou um fruto desse ódio, da supremacia racial enraizada em nossa sociedade cristã?

Sim, é uma questão de raça, mais do que de religião. Apoiar um povo que exibe comportamentos culturais e valores supostamente mais ‘alinhados’ com os nossos, o que na Europa chamam de propensão à ‘integração,’ é o código para apoiar uma sociedade ‘superior’ em detrimento de outra, que é ‘inferior.’

Na realidade, a pressuposição dessa inferioridade, ou atraso evolucionário de certos povos, é um dos traços mais tóxicos de nossas sociedades cristãs. E esse traço é muito mais latente do que qualquer conhecimento, entendimento teológico ou histórico das pessoas sobre qualquer coisa.

Não importa que nem todos os árabes sejam muçulmanos, não importa se sabemos em qual ano estamos no calendário islâmico, não importa que tanto os muçulmanos quanto os judeus traçam sua linhagem de Abraão, ou que a maior nação muçulmana do mundo nem árabe é.

O que importa para esse eleitorado é o avanço da dominação europeia no mundo, porque acredita-se que os europeus (e descendentes deles) são os humanos mais ‘evoluídos’. Assim vemos nos Estados Unidos, onde o ‘americano de verdade’ é o descendente de europeu. No Brasil, ‘o brasileiro de verdade’ tem alguma descendência europeia visível. E, assim, os judeus têm sido usados por eles como linha de frente na guerra de dominação em seu avanço para o oriente.

Na leitura teológica sobre o apoio cristão ao estabelecimento da nação judaica em Israel, o avanço da dominação europeia no Oriente significa acelerar o retorno de Jesus e o início do fim do mundo. Nesse ponto, o povo judeu será salvo baseado em sua disposição de… deixar de ser judeu.

Será que as pessoas que acreditam que o sionismo, e o que está sendo feito com a Palestina, são vontades de Deus, também acreditam que a Alemanha nazista apoiou a vontade de Deus, pelo simples fato de (também) ter influenciado decisivamente o estabelecimento do estado judaico?

Fobia ao islã e racismo contra os árabes são motivações praticamente unânimes em meio de diversas divergências religiosas, de interpretação de passagens bíblicas, dentro do cristianismo. É possível olhar a situação em que estamos agora e enxergar uma evolução da humanidade, em comparação com milhares de anos de história religiosa? Será que os os brancos não são capazes de barbarismo?

Estamos presenciando a barbárie, um legado cultural, geopolítico, e religioso de milhares de anos, sim. Mas estamos, acima de tudo, testemunhando um paradigma de desintegração de valores espirituais que deram vida a todas essas religiões em primeiro lugar.

É Ramadã. Pelo mundo inteiro, os muçulmanos estão observando seus valores humanos e religiosos, praticando, na medida do possível, caridade, disciplina, e honrando esse presente divino que é estar vivo graças a Allah, Alhamdulillah.

Enquanto isso, a barbárie continua, se exacerba, e os bolsonaristas levantam bandeiras em completo declínio espiritual e obliteração de valores humanos. Nós de nações cristãs, que de um lado afirmamos defender valores de liberdade, justiça, penitência e perdão, testemunhamos membros de nossas comunidades se deleitando na brutalidade da chacina.

Em face dessa desgraça, eu, pessoalmente, boto fé no mundo árabe, em sua integridade humana e disciplina religiosa para forjar seu caminho de resistência.

“E combatê-los até que não haja mais perseguição e a religião seja para Allah. Mas se eles cessarem, que então não haja agressão, exceto contra os malfeitores.193” (2:193 Alcorão)

 

•                            A apropriação e inversão dos conceitos pelos nazifascistas-bolsonaristas. Por Jair de Souza

Ainda deve estar ressoando forte nos ouvidos de muita gente as palavras proferidas por um dos delfins do clã bolsonarista no momento em que tornou pública sua decisão de fugir do Brasil para permanecer nos Estados Unidos sob a proteção do governo de extrema direita de Donald Trump.

Para nosso espanto, o até então deputado federal disse que estava se afastando do cargo ocupado e do país para lutar lá fora contra as forças nazifascistas, que o estariam perseguindo. E é aí que reside o principal motivo de estupor e incompreensão.

Como entender que alguém tido como um dos principais expoentes do extremismo de direita no Brasil alegue que a razão por trás de sua fuga seja a perseguição desatada por adeptos do nazifascismo?

Sim, tal situação seria mesmo impossível de ser compreendida se não tivéssemos um conhecimento prévio de como surgiu e se desenvolveu ao longo do último século este movimento ideológico ultra-direitista. Assim, há características comuns em todas suas variantes conhecidas até agora, seja na original italiana (fascismo), na que prevaleceu na Alemanha (nazismo), na da Espanha (franquismo), na portuguesa (salazarismo) ou, inclusive, nos modelos brasileiros (antes, integralismo; atualmente, bolsonarismo).

O ponto essencial comum a todas as modalidades organizacionais dessa ideologia de extrema direita é sua total vinculação à defesa dos interesses dos grandes grupos capitalistas. Em outras palavras, em qualquer de suas alternativas, o fascismo sempre tem como sua maior missão defender a classe dos grandes capitalistas das ameaças que possam pôr em risco a continuidade de suas condições de privilégio na sociedade.

Porém, o que diferencia fortemente o fascismo (em todas as suas vertentes) das demais correntes e ideologias políticas alinhadas com os ricos e poderosos é sua capacidade de introduzir-se no seio de setores dos explorados e, por meio de sua atuação política, angariar apoio em favor das causas dos que tudo possuem entre os que pouco, ou nada, têm.

Para cumprir com este propósito de induzir os trabalhadores a assumirem posturas favoráveis aos patrões, e levar os pobres a tomarem partido pelos ricos, os fascistas se especializaram em inverter os sentidos das mais relevantes aspirações do campo popular, utilizando-as em favor dos objetivos das oligarquias que vivem à custa do sacrifício das maiorias. Para isso, desde seus primórdios, os movimentos fascistas se dedicaram a lançar mão de palavras e conceitos caros para o povo trabalhador e transformá-los em seu exato oposto.

Foi assim que o nazismo, apesar de se constituir numa ideologia e força política que odiava ao máximo tudo o que pudesse significar um maior grau de liberdade para os trabalhadores, desvirtuou o significado do termo socialista e o empregou para denominar o partido e movimento político que mais odiava e combatia o socialismo e os trabalhadores. Não nos esqueçamos que aquele partido alemão criado por Adolf Hitler para servir a banqueiros e donos de mega-corporações capitalistas recebeu o nome de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores.

Então, passamos a ver como os que queriam a toda custa impedir que o sistema de exploração capitalista fosse abolido se auto denominarem publicamente como contrários ao sistema. De igual maneira, as forças que apoiavam a exploração impiedosa que causava a miséria, a pobreza e a desestruturação das famílias trabalhadoras passaram a se arvorar em defensoras dos valores da família.

Outra particularidade muito nefasta que observamos constantemente em países do capitalismo periférico, como o Brasil, é a manipulação feita por essas mesmas forças de sustentação do grande capital da simbologia relacionada com a figura de Jesus. Como é sabido, devido aos relatos de sua vida nos Evangelhos, o nome de Jesus está intrinsecamente vinculado às mais sentidas reivindicações do povo trabalhador humilde. Assim, para a imensa maioria de nossa gente, ao relacionar Jesus com alguma causa, a primeira sensação que se tem é a de que se trataria de algo favorável aos mais necessitados, visto que é generalizado o sentimento de que a opção preferencial de Jesus é pelos mais carentes, e não pelos mais abastados.

No entanto, por aqui, são os fascistas os que mais têm apelado para a manipulação da figura de Jesus para induzir as massas populares a darem apoio a tudo o que vai inteiramente contra o legado de Jesus. Novamente, o fascismo, em sua versão bolsonarista-neopentecostal, recorre aos símbolos e ao nome de Jesus para sustentar pontos que não possuem absolutamente nada relacionado com o que os ensinamentos de vida de Jesus nos transmitem. Na verdade, atualmente, tem-se apelado para o nome de Jesus com o objetivo de fazer valer pautas que estariam muito mais em conformidade com o diabo.

Portanto, podemos concluir que, ao dizer-se um perseguido do nazi-fascismo, o membro do clã bolsonarista ao qual fizemos referência no início de nosso texto não está fazendo nada diferente do que tem sido a tradição dos adeptos desse pensamento desde seu aparecimento no cenário político na primeira parte do século passado. Por isso, já não deveríamos nos surpreender quando nos deparamos com típicos nazi-fascistas apresentando-se como vítimas daquilo que eles próprios encarnam em sua totalidade.

Os nazi-fascistas estão dotados de todos os instintos de perversidade que os seres humanos foram capazes desenvolver, mas eles ainda não chegaram ao ponto de se tornarem autofágicos.

 

Fonte: Por Mirna Wabi-Sabi, no Le Monde/Brasil 247

 

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