De Golfo da América
a Fort Bragg: o que há por trás das trocas de nome decretadas por Trump
O presidente americano, Donald Trump,
sempre entendeu o poder da marca. Como um empresário famoso, ele estampou seu
nome nas fachadas dos seus arranha-céus, e o licenciou para uma série de
produtos, de hotéis a vinhos.
Agora, ele está tentando fazer sua maior e mais ousada campanha
de branding até o momento: do próprio Estados Unidos.
Em seu primeiro dia de volta à presidência, ele assinou uma
ordem executiva renomeando o Golfo do México como Golfo da América. Denali, o
nome indígena do famoso pico do Alasca, vai voltar a se chamar Monte McKinley,
uma referência ao presidente William McKinley, assassinado em 1901.
A base militar de Fort Bragg, que foi batizada em homenagem a um
general confederado, mudou de nome há alguns anos para Fort Liberty. Agora, com
Trump na presidência, vai voltar a ter o nome original — mas, desta vez, em
homenagem a um soldado muito menos controverso da Segunda Guerra Mundial.
Trump não é o primeiro presidente dos EUA a renomear marcos. Foi
o democrata Barack Obama que mudou o nome do Monte McKinley para Denali, nome
nativo americano, após anos de campanha de grupos indígenas do Alasca.
Já o republicano George W. Bush mudou o nome da Floresta
Nacional do Caribe, em Porto Rico, para Floresta Nacional de El Yunque em 2007,
para refletir a herança cultural deste território dos EUA.
E depois que o assassinato de George Floyd, em
2020, desencadeou um debate nacional sobre raça, o Congresso iniciou um
processo para renomear as bases militares dos EUA que tinham nome de confederados.
Em 2023, durante a presidência de Joe Biden, o
Departamento de Defesa renomeou nove bases militares americanas, incluindo Fort
Bragg.
No centro destas decisões, está o desejo de retratar os Estados
Unidos e seus valores sob uma ótica específica.
"O ato de nomear é uma maneira pela qual os presidentes
podem reformular sua visão da nação", diz Allison Prasch, professora da
Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, que estuda retórica política.
As escolhas de Trump em seu segundo mandato também enviam uma
mensagem clara sobre suas prioridades, segundo ela.
"Ele está enaltecendo uma visão muito nacionalista e
imperialista dos Estados Unidos."
Algumas das escolhas de nomes de Trump remetem à era
expansionista dos Estados Unidos, quando a ideologia predominante dizia que o
país tinha a missão divina de se expandir.
Por exemplo, parte do legado do presidente William McKinley foi
seu papel na anexação de Porto Rico, Guam, Filipinas e Havaí ao território dos
EUA.
Ao mudar o nome do Monte Denali de volta para McKinley, Trump
disse que queria homenagear McKinley porque ele "tornou nosso país muito
rico por meio de tarifas e talento".
Esta é uma ideologia que também parece influenciar Trump hoje, à
medida que ele fala em retomar o Canal do Panamá,
que já esteve sob controle dos EUA, comprar a Groenlândia e
anexar o Canadá para se tornar o "51º Estado".
Enquanto isso, renomear Fort Bragg é o último capítulo de um
debate em andamento sobre o legado dos Confederados — a coalizão de Estados do
sul que declarou sua secessão dos EUA por causa da questão da escravidão e
desencadeou a Guerra Civil, também conhecida como Guerra de Secessão.
Durante o primeiro governo Trump, em meio a um debate nacional
sobre injustiça racial, o Congresso exigiu que o Pentágono renomeasse as
instalações com nomes de confederados — e proibiu que futuras instalações
militares fossem batizadas em homenagem a eles.
A medida irritou Trump na época, que tentou vetar o projeto de
lei do Congresso, dizendo que "nossa história como
a maior nação do planeta não pode ser adulterada". Mas o Congresso aprovou
a medida com apoio bipartidário.
O historiador Connor Williams, que fez parte do comitê para
renomear Fort Bragg em 2021, acredita que prestar homenagens aos confederados é
um equívoco.
"O que faz com que os confederados não sejam dignos de
homenagem é que há muito pouco para redimi-los", diz Williams. "Eles
cometeram traição contra os Estados Unidos."
"O que homenageamos, o que celebramos, que exibições
públicas fazemos, onde colocamos coroas de flores — o presidente tem essa
capacidade de sinalizar o que ele acha importante."
Em 2023, o governo Biden mudou o nome de Fort Bragg, em
homenagem ao general confederado Braxton Bragg, para Fort Liberty.
"Aproveitamos essa oportunidade para nos tornarmos melhores
e buscarmos a excelência", disse o tenente-general Christopher Donahue na
cerimônia de renomeação. "Isso é o que sempre fizemos, e sempre
faremos".
Mas a mudança de nome gerou sentimentos contraditórios entre os
legisladores, ex-militares baseados na instalação e a comunidade local.
"Entendo o raciocínio por trás da mudança, e tenho que
aceitá-la porque é o que a liderança eleita determinou como sendo do melhor
interesse", disse Jimmy Keefe, comissário do condado de Cumberland, na
ocasião da mudança, de acordo com a imprensa local.
"Mas detesto que tantas pessoas que tiveram experiências
positivas em Fort Bragg, que tiveram filhos nascidos lá, que se casaram lá, não
vão ter mais esse vínculo com o nome de Fort Bragg", acrescentou.
Na semana passada, o novo secretário de Defesa de Trump, Pete
Hegseth, reverteu o nome da base para Fort Bragg. Mas, desta vez, ele disse que
a base se chamaria assim em homenagem ao soldado Roland Bragg, que lutou na
Segunda Guerra Mundial, e não em homenagem a um general confederado.
"É isso mesmo", declarou Hegseth. "Bragg está de
volta."
Os legisladores republicanos que representam a base manifestaram
entusiasmo com a mudança.
"Renomear Fort Bragg em homenagem ao soldado Roland L.
Bragg, que recebeu (as medalhas) estrela de prata e coração púrpura na Segunda
Guerra Mundial, sempre foi a decisão certa", escreveu o senador Ted Budd,
da Carolina do Norte, no Facebook.
Mas, a nível nacional, muitas das mudanças de Trump se mostraram
controversas. Uma pesquisa da Universidade Marquette, nos EUA, sugeriu que 71%
dos adultos no país não apoiavam a mudança do nome do Golfo do México.
E algumas das mudanças provocaram debates sobre qual visão da
história americana deveriam prevalecer oficialmente.
Uma pesquisa realizada pela Alaska Survey Research sugeriu que
47% dos eleitores de Trump no Alasca eram a favor da mudança de nome do Monte
McKinley.
Mas, no geral, os habitantes do Alasca se opuseram à mudança de
nome por uma margem de dois para um, informou o jornal Juneau Express.
Democratas e republicanos do Legislativo do Alasca se uniram
para aprovar uma resolução pedindo a Trump que não mudasse o nome do Monte
Denali.
"Mudar oficialmente o nome não apenas desonraria aqueles
que lutaram para proteger o legado do Denali, mas também desconsideraria as
vozes das comunidades nativas cujas raízes estão entrelaçadas com esta
terra", disse a democrata Maxine Dibert, representante do Legislativo do
Alasca, que é membro da comunidade indígena Koyukon Athabascan.
O tempo vai dizer se as mudanças de nome simbólicas de Trump vão
perdurar. Mas as discussões sobre elas não dão sinais de arrefecimento.
Na semana passada, a Casa Branca impediu a entrada de um
jornalista da Associated Press no Salão Oval porque a agência de notícias
manteve o Golfo do México em seu popular guia de estilo. A editora executiva da
AP, Julie Pace, chamou a decisão de "alarmante", e disse que ela
violava os direitos de liberdade de expressão da Constituição.
Enquanto isso, o Google — que agora usa o nome Golfo da América
em seus mapas para usuários dos EUA — começou a excluir avaliações negativas da
troca de nome.
Mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América poderia
ser uma apropriação de terra (ou água) apenas no papel, mas seu simbolismo é
inegável, segundo Prasch, professora de retórica política na Universidade de
Wisconsin.
E vai além da geografia, tocando em ponto sensível em relação a
como o país vê a si mesmo — e a sua história.
"Na verdade, acho que isso é muito mais do que renomear um
corpo de água em um mapa", diz ela.
"Trata-se de uma decisão fundamentalmente retórica sobre
como pensamos a história da nação."
¨ Plano de
Trump pode azedar mais relação de sauditas e Israel
Propostas polarizadoras
sobre o futuro dos palestinos na Faixa de Gaza parecem
estar sendo feitas em ritmo acelerado desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se reuniram
em Washington na semana passada.
Na segunda-feira (10/02),
Trump esclareceu que os palestinos não teriam permissão para retornar a Gaza se seus planos de adquirir e reconstruir o território devastado pela guerra se concretizarem.
"Eles terão moradias
muito melhores (...) em comunidades um pouco distantes de onde estão, onde há
todo esse perigo", disse Trump à emissora americana Fox News.
Trump gostaria de ver os
vizinhos regionais, como o Egito e a Jordânia, como os
principais países anfitriões para cerca de 2 milhões de palestinos de Gaza.
No entanto,
especialistas afirmam que expulsar os palestinos de Gaza viola a lei internacional, enquanto as Nações Unidas alertaram para o que seria uma "limpeza
étnica".
Outra ideia controversa foi
apresentada por Netanyahu. Ele disse recentemente à emissora israelense Channel
14 que "os sauditas podem criar um Estado palestino na Arábia Saudita,
pois eles têm muitas terras lá".
Por sua vez, não só o Egito
e a Jordânia, mas também a Arábia Saudita, reiteraram que não estão dispostos a
dar um lar aos palestinos de Gaza.
<><> Rejeição
árabe unilateral
"O governo saudita
afirma que o povo palestino tem direito à sua terra e não é um intruso ou
imigrante que pode ser expulso sempre que a brutal ocupação israelense
desejar", publicou o Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita
no X.
A pasta também destacou que
"o direito do povo palestino permanecerá firmemente estabelecido e ninguém
poderá tirá-lo dele, não importa quanto tempo isso leve".
Tais comentários incisivos
marcam uma reviravolta de 180 graus em relação à amizade diplomática nutrida
entre os EUA e o líder de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ou MBS,
durante o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2021.
"Em 2017, muita
esperança foi depositada em Trump, especialmente por MBS, que ainda estava
consolidando seu poder", diz à DW Sebastian Sons, pesquisador sênior do think tank Center for Applied
Research in Partnership with the Orient (Carpo), sediado em Bonn.
Nos anos seguintes, os laços
políticos e econômicos entre os dois países se intensificaram.
No entanto, embora Trump
tenha intermediado com sucesso os laços diplomáticos – apelidados de Acordos de
Abraão – entre Israel e Sudão, Bahrein, Marrocos e Emirados Árabes Unidos, ele
não conseguiu fechar o acordo com a Arábia Saudita antes de ser sucedido na
Casa Branca por Joe Biden.
As negociações dos EUA entre
Israel e a Arábia Saudita continuaram até o ataque terrorista do Hamas a Israel
em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra em Gaza.
De lá para cá, 15 meses
depois e com Trump mais uma vez no cargo, muita coisa mudou.
<><> A
influência da Arábia Saudita
"MBS não só está
firmemente estabelecido, como também se tornou muito autoconfiante, o que
também pode ser visto por sua reação às declarações de Trump e Netanyahu sobre
os palestinos de Gaza", avalia Sebastian Sons.
Na opinião do pesquisador,
no entanto, a normalização com Israel continua sendo uma alta prioridade para
Washington e Jerusalém. "Mais do que para a Arábia Saudita no
momento", afirma.
"Para a Arábia Saudita,
normalizar os laços com Israel é atualmente – e a ênfase está em atualmente –
uma impossibilidade", diz ele, acrescentando que "isso significaria
perder a credibilidade, e MBS não vê Netanyahu e Trump como parceiros
confiáveis para estabelecer uma solução de dois Estados".
Outros analistas concordam.
"O plano de Trump para Gaza tornará a normalização entre a Arábia Saudita
e Israel ainda mais difícil", pontua Anna Jacobs, do think tank Arab Gulf States
Institute, com sede em Washington. "Os sauditas deixaram bem clara a
sua posição de que o deslocamento forçado dos palestinos de suas terras não é
solução."
Aziz Alghashian, membro
sênior da Observer Research Foundation Middle East (ORF), com sede em Dubai,
também acha que a Arábia Saudita mudou seu foco político do pragmatismo para a
disputa.
"Os sauditas estão
dispostos a enfrentar e discordar dos EUA em vez de serem pragmáticos como
no passado", afirma Alghashian.
Na avaliação dele, essa
confiança é sustentada pelo apoio público em larga escala na Arábia Saudita e
em todos os países árabes. "A nova postura de MBS é muito popular nas ruas
sauditas", ressalta.
E, no entanto, Sebastian
Sons, do Carpo, não descarta que MBS e Trump acabarão se negociando, já que
ambos os líderes também precisam se concentrar nos interesses de seus países.
"O projeto de reforma
econômica da Arábia Saudita, o Vision 2030, precisa ser garantido",
explica Sons, acrescentando que, para isso, os investimentos dos EUA são
fundamentais.
E a Arábia Saudita continua
sendo um parceiro importante para os Estados Unidos no Oriente Médio.
Sons diz esperar que a
Arábia Saudita busque uma redução da escalada em um futuro próximo, o que
poderia complementar o cálculo político de Trump.
"Eu poderia imaginar
que a intenção de Trump também é fazer o máximo de exigências para conseguir
pelo menos algumas concessões da Arábia Saudita", arremata Sons.
No entanto, ainda resta
saber se, ou em que medida, isso também envolverá o destino dos palestinos em
Gaza – que permanece incerto mais uma vez, depois que o Hamas
suspendeu o atual cessar-fogo no último fim de semana. Até o momento, o pior
cenário para a população é a retomada da guerra.
Fonte: BBC News/DW
Brasil

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