terça-feira, 3 de setembro de 2024

Brasil enfrenta a maior seca da história, diz órgão do governo federal

O Brasil enfrenta a maior seca já vista na sua história recente, segundo órgão de monitoramento do governo federal. Dados inéditos e obtidos com exclusividade pelo g1 mostram que, pela primeira vez, a estiagem afeta o país de forma generalizada, por toda a sua extensão. A única exceção é o Rio Grande do Sul. E o cenário é preocupante: o país não deve ter alívio até novembro.

A análise é do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, responsável por subsidiar as ações de enfrentamento de crises climáticas.

🏜️ Os dados sobre a seca cobrem o período desde 1950. A série histórica revela que a estiagem se agravou a partir de 1988. De lá para cá, a seca mais severa havia sido registrada em 2015. No entanto, à época, a falta de chuva atingiu apenas uma parte das regiões, fazendo com que os rios secassem e a vegetação pegasse fogo.

Neste ano, a seca se espalhou pelo país quase todo e de forma mais intensa, surpreendendo especialistas. A falta de chuva e os severos impactos na vegetação atingem uma área muito maior que a de 2015. Agora, grandes porções do Brasil passam por situação de seca de severa a excepcional.

A pedido do g1, o Cemaden processou os mapas abaixo que mostram o alcance da estiagem nos últimos anos. As imagens mostram a série histórica desde o ano de 2012 e é possível ver a gravidade da situação atual.

Sequência de imagens mostra avanço da seca ano a ano — Foto: Arte/g1

➡️ Os dados de 2024 no mapa ainda são parciais pois consideram os meses de janeiro a agosto deste ano. Por isso, o cenário, que já é ruim, pode piorar.

<><> O que está acontecendo hoje?

Hoje, mais de um terço do território nacional, o que equivale a mais de 3 milhões de km², enfrenta a estiagem na sua pior versão, o que se traduz em:

•                                         cidades isoladas no Norte do país por conta dos rios que secaram, impedindo a navegação;

•                                         fogo espalhado por todas as regiões, sufocando a população com a fumaça e causando problemas respiratórios;

•                                         rios em níveis tão baixos, que fez com que o Operador Nacional do Sistema Elétrica (ONS), que controla o abastecimento de energia no país, anunciasse a ativação de termoelétricas para suprir a demanda.

Para se ter uma ideia, em 2015, o trecho do país nessas condições era menor e representava 2,5 milhões de km².

“Nós nunca tínhamos visto, desde o início do monitoramento, uma seca tão extensa e intensa quanto essa. Víamos regiões isoladas sofrerem com os ciclos de seca, mas, dessa vez, é generalizado. Isso é um problema maior para o país enfrentar.” — Ana Paula Cunha, pesquisadora do monitoramento de secas do Cemaden

<><> Por que a seca no Brasil está tão severa?

A resposta para essa pergunta não é tão simples. O que os especialistas explicam é que ela é multifatorial e leva em consideração alguns pontos:

•                                         El Niño: o fenômeno, que aquece o Oceano Pacífico, contribuiu para a elevação das temperaturas no país e mudou os padrões de chuva. O El Niño ainda gerou uma seca intensa ao Norte do país, que bateu recordes.

•                                         Bloqueios atmosféricos: A expectativa era que o El Niño acabasse e a seca terminasse em abril deste ano, o que não aconteceu. Isso porque bloqueios atmosféricos impediram que as frentes frias avançassem pelo país, deixando a chuva abaixo da média em quase todo o mapa, com exceção do Rio Grande do Sul.

•                                         Aquecimento do Atlântico Tropical Norte: Nos últimos meses, o Oceano Atlântico Tropical Norte está mais quente do que o normal, o que tem contribuído para as mudanças nos padrões de chuva pelo país, prolongando a seca iniciada em 2023.

A soma destes fenômenos, que mudaram os padrões de chuvas e de temperatura por um período de tempo tão longo e sem trégua, é que fez com que a seca se intensificasse e espalhasse pelo país.

“É uma seca multifatorial. Saímos de um Pacífico aquecido (El Niño) para um Atlântico Norte mais aquecido. Não houve uma trégua entre os dois eventos e isso fez com que a situação de seca fosse se agravando gradativamente em cada região até que chegássemos em um cenário de seca pelo país.” — Ana Paula Cunha, pesquisadora e especialista em secas

De acordo com os dados mais recentes, mais de 3,8 mil cidades estão com alguma classificação de seca (de fraca a excepcional). O número de cidades nessa situação aumentou quase 60% entre julho e agosto. (Veja abaixo a situação na sua cidade)

<><> E o que esperar daqui em diante?

➡️ Segundo os meteorologistas, o cenário não é otimista. O país ainda tem mais um mês de estação seca para enfrentar, mas ela deve se estender porque as previsões mostram que a chuva, que chegaria em outubro, deve atrasar e ser mais fraca do que o esperado. Com isso, só a partir de novembro deve haver alguma trégua.

O meteorologista Giovani Dolif, que também é pesquisador no Cemaden, explica que a perspectiva já não era de uma melhora expressiva depois de outubro. Isso porque as chuvas teriam que ser acima da média para que o país se recuperasse da estiagem tão intensa. Além disso, alerta que o atraso do fim da estação de seca pode deixar tudo mais grave.

O problema da seca não é só a falta de chuva, mas a soma disso à alta temperatura, o que deixa os rios mais secos e o solo também porque a água evapora mais rápido. Em outubro e novembro, estamos mais expostos ao sol, diferentemente do inverno. Isso faz com que a seca piore muito rápido de forma exponencial.

— Giovani Dolif, meteorologista do Cemaden.

➡️ E a La Niña? Com o fim do El Niño, era esperada uma mudança para a La Niña, fenômeno que faz cair a temperatura dos oceanos e pode provocar mais chuva. A expectativa era que ela começasse ainda no primeiro semestre deste ano, mas as estimativas mostram que ela só deve chegar em novembro e bem menos intensa do que o esperado.

❄️O La Niña ocorre quando há o resfriamento da faixa Equatorial Central e Centro-Leste do Oceano Pacífico. Ele é estabelecido quando há uma diminuição igual ou maior a 0,5°C nas águas do oceano. O fenômeno acontece a cada 3 ou 5 anos.

•                                         Atualmente, o Oceano Pacífico está na chamada fase neutra, quando não há atuação de nenhum dos dois fenômenos.

•                                         Segundo o relatório da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) divulgado no dia 26 de agosto, há 66% de chance da consolidação do La Niña entre setembro e novembro.

•                                         Uma análise da NOAA do início de agosto apontava que taxa de resfriamento foi mais lenta do que o previsto, mas que as condições para o desenvolvimento do fenômeno nos próximos meses estão mantidas.

•                                         Ainda segundo o órgão, o La Niña deve persistir ao menos até janeiro de 2025.

O meteorologista Giovani Dolif explica que a La Niña poderia minimizar a seca, mas, do jeito que está previsto, não vai ser o suficiente para diminuir os impactos.

“A solução é uma temporada de chuvas acima da média, que pode ser que aconteça em janeiro, mas não há ainda uma previsão clara. Até lá, a situação deve permanecer como estamos vendo”, diz.

<><> E o que acontece com os rios?

A falta de chuva vem afetando os rios pelo país há mais de um ano. Os especialistas afirmam que a seca começou em junho, mas, antes disso, a estiagem já vinha castigando algumas regiões. Com isso, há estados com chuvas muito abaixo da média há mais de 18 meses.

Dados mais recentes do Cemaden, que vão de abril a agosto, mostram que pelo menos nove estados não têm chuva há quatro meses e a maior parte do país não vê chuva há mais de trinta dias. Confira o mapa abaixo.

País tem estados sem chuva por mais de 120 dias — Foto: Arte/g1

A hidróloga e pesquisadora Adriana Cuartas explica que a maior parte das bacias pelo Brasil tem enfrentado baixas com a seca e com o calor intenso. A previsão até outubro deste ano, quando a chuva deveria chegar, já mostra a maior parte dos rios em situação crítica.

“A maior parte das bacias está abaixo da média, com exceção do Sul. No Norte, estamos vendo uma seca severa nos rios e, no Centro-Oeste e até no Sudeste, uma situação bem crítica nas bacias. A estiagem está impactando o país de uma forma geral”, afirma.

A situação mais crítica é no Norte do país. Os rios estão baixando de nível de forma mais acelerada e antes do que aconteceu em 2023, quando a crise foi histórica. Os rios Madeira, Negro e Solimões, principais da bacia da região, estão em baixas históricas. A previsão é que a região possa enfrentar uma crise ainda mais severa que a de 2023.

A seca nos rios também afeta o abastecimento de energia. Na última semana, o Operador Nacional do Sistema Elétrico alertou que, com a baixa a região Norte, não teria como atender a demanda e seria preciso suporte de outras regiões, como a Sul, e antecipou o uso de termelétricas para o reforço no abastecimento. Mesmo com a baixa nos reservatórios, o órgão garante que há como atender a demanda de energia sem interrupções.

A especialista explica que a situação deve permanecer crítica para todo o país até novembro.

“Esses ciclos de seca são preocupantes para as bacias. O rio sobrevive com a água do lençol freático, que passa abaixo dele. Se não tem chuva, esse lençol não é alimentado e, com tanto tempo sem repor água, isso dificulta a recuperação. Já estamos vendo rios menores, de cabeceiras, desaparecerem com o tempo em alguns pontos.” — Adriana Cuartas, hidróloga e pesquisadora

 

•                                         Talanoa aponta caminhos para o Brasil liderar a agenda climática mundial

O novo documento de recomendações políticas (policy brief) do Instituto Talanoa, NDC 3.0: um roteiro para o Brasil liderar mostra por que, como futuro presidente da COP 30 e atual líder do G20, o Brasil é visto como um dos países que poderá “dar o tom” na nova rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Para tanto, o país deve estar entre os primeiros a submeter sua contribuição à Convenção do Clima da ONU (UNFCCC) e demonstrar clareza e ambição em suas metas, incluindo metas claras de adaptação, além de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE).

Dessa forma, juntamente com o sinal para a comunidade internacional, espera-se que o compromisso reflita a urgência sentida pelos brasileiros em relação à mudança do clima, como demonstrado em pesquisas após a tragédia recente no Rio Grande do Sul. “Ambição não é um número, não é só descarbonização. É adaptação e transição para longe dos combustíveis fósseis. Sem esses outros dois pilares, nossa ambição climática não se sustentará”, comenta Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.

Desde que foi firmado o Acordo de Paris, em 2015, as nações signatárias da UNFCCC se comprometeram com a submissão periódica das NDCs. Segundo o último relatório síntese sobre as contribuições, se todos os compromissos de mitigação de emissões forem implementados, as emissões globais atingirão o pico ainda nesta década e, em 2030, estarão 2% abaixo do nível de 2019. É um declínio muito lento e aquém do que a Ciência afirma que devemos alcançar para evitar ultrapassar o limite de 1,5°C: 43% de redução em 2030 e 60% em 2035 (6° Relatório de Avaliação do IPCC e 1o Balanço Global, GST).

Em NDC 3.0: um roteiro para o Brasil liderar, o Instituto Talanoa aponta como o Brasil pode liderar pelo exemplo, declarando seu compromisso de alcançar zero emissões líquidas antes de 2050 e de avaliar a antecipação dessa meta para 2040. Esse é um sinal crucial para mostrar que o país está empenhado em evitar os pontos de inflexão (tipping points), como os da Amazônia. Além disso, o Brasil deve se comprometer a evitar investimentos em infraestruturas e tecnologias intensivas em emissões e que perpetuam a dependência de combustíveis fósseis além de 2050.

Outro sinal que mostrará o compromisso do Estado brasileiro é declarar o alinhamento de todas as políticas e investimentos públicos com o objetivo de zerar emissões líquidas, e indicar um cronograma para desenvolver e submeter a estratégia de longo prazo (LTS) do país.

Para demonstrar que entende a urgência e o tamanho da agenda de adaptação e perdas e danos, a NDC deve trazer esse componente considerando metas e esforços para reduzir vulnerabilidades e aumentar resiliência, incluindo condicionar investimentos públicos à avaliação de riscos climáticos a partir de 2025.

A NDC precisa conter claros sinais de transição, na forma de compromissos setoriais, como:

•                                         Plano para dar início imediato à transição da produção e do consumo de petróleo & gás;

•                                         Duplicar a eficiência de toda a matriz energética até 2030;

•                                         Remover imediatamente os estímulos e subsídios às termelétricas movidas a combustíveis fósseis;

•                                         Regular emissões de GEE, a partir de 2025, via Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões;

•                                         Zerar desmatamento em todos os biomas até 2030;

•                                         Garantir que, até 2030, pelo menos 30% das áreas degradadas de ecossistemas terrestres, de águas interiores e costeiras e marinhas estejam sob restauração efetiva, a fim de aumentar a biodiversidade e as funções e serviços ecossistêmicos, a integridade ecológica e a conectividade;

<><> O déficit de financiamento e implementação

A NDC só terá credibilidade e poderá cumprir uma função de aglutinar setores público e privado e o país como um todo se for fruto de consulta ampla e inclusiva com a sociedade brasileira, e se a tomada de decisão em relação ao seu conteúdo for feita de modo transparente e baseado na melhor ciência disponível.

O documento deve trazer grandes pontos da arquitetura de implementação para atingir as metas o Quanto antes, como a definição do Plano Clima, de uma Plataforma-país como estratégia de Financiamento climático, dos arranjos de governança e de mecanismos de monitoramento, responsabilização e correção de rumos internos, com relatórios tanto do governo quanto independentes.

 

Fonte: g1/eCycle

 

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