terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O que mudou (e o que não mudou) na Venezuela nos últimos 10 anos

E se a Venezuela mudasse? E se a Venezuela fosse consertada?

Perguntas recorrentes, especialmente entre emigrantes venezuelanos.

Às vezes perguntam de brincadeira, com um sentido irônico, porque a crise profunda que a Venezuela viveu entre 2016 e 2018 se amenizou, mas está longe de ser resolvida.

E às vezes perguntam com a memória de um passado melhor: este foi um dos países mais ricos e prósperos da América Latina, e hoje está entre os mais pobres.

Em uma década, a economia venezuelana encolheu 75% e quase um quarto da população (7 milhões, de um total de 30 milhões) deixou o país.

São processos traumáticos que inevitavelmente despertam saudades, tanto do país que parece não existir mais, como da distância entre quem ficou e quem partiu.

Um bom exemplo dessa nostalgia que agita os venezuelanos é Caracas en el 2000 (Caracas nos ano 2000, em tradução livre) a música do momento no país, que fala das araras que sobrevoam a capital, do passeio dominical de bicicleta por um frondoso anel viário montanhoso, da raspadinha de Coca-Cola que são vendidas nas ruas e daquelas outras instituições típicas que os emigrantes – neste caso, os caraquenhos – deixaram de viver.

Por trás de todo exercício nostálgico está a noção de algo perdido.

E sim, claro: a Venezuela já não é tão rica como nos anos 1960 ou 1970, mas também não é tão pobre como em 2018. A moeda agora é o dólar, há restaurantes tão caros como em Nova York e a gasolina agora é paga.

Num país que outrora teve um Estado generoso e redistributivo e uma classe média relativamente estabelecida, a desigualdade, a pobreza e a ineficiência dominam agora a paisagem.

E a economia, em geral, está em constante transformação.

Mas também há muita coisa que não muda: nem a política, nem a infraestrutura mudam como as pessoas gostariam. E os venezuelanos, esse povo resiliente, alegre e gentil, continua tão brincalhão como sempre.

·        O que não muda

Também não muda o som das rãs no início da noite quente da capital venezuelana.

Nem mudam as iniciativas dos moradores de Caracas para homenageá-las: ano passado, um coletivo de artistas chamado SoundScape gravou e colocou na internet um mapa dos sons atuais da cidade.

Há as rãs, mas também as araras e os vendedores ambulantes.

Não muda aquela rua animada, onde vendedores ambulantes calçam sandálias com meias e usam óculos gigantes espelhados imitando os da marca Gucci.

Uma mãe e sua filha caminham com os cabelos pintados da mesma cor vermelha.

E um jovem com um grande relógio e cabelo raspado de um o lado, mas seboso em cima, vende desodorantes, omitindo a inevitável suspeita de que sejam usados.

Não mudam as manhãs de partidas de dominó nas praças, onde velhos e jovens jogam sob o olhar de dezenas de outros jogadores penteados e elegantes, que comentam, julgam, brigam.

Enquanto isso, um jovem ao lado lê uma Bíblia e alguns senhoras proferem ensinamentos evangélicos, uma corrente que, aliás, tem crescido muito no país.

Também não muda a sensação de que se vive numa realidade inventada: um prédio no meio de uma área comercial não tem janelas, apesar de ter varandas.

Uma criança sai da aula de caratê pela mesma porta de um bar escuro.

E algumas senhoras participam de um curso de spinning em um terraço cuja música alta ressoa a dois quarteirões de distância.

Não muda o calor humano. A melhor forma de transmitir confiança na Venezuela é o que na maioria dos países do mundo significaria uma afronta: um toque corporal, um toque no ombro.

E não mudam coisas que talvez mudem em outros países.

Na Venezuela, por exemplo, ainda é possível ver publicidade de cervejas e produtos de beleza em enormes outdoors nas rodovias promovidos por mulheres esbeltas, voluptuosas e seminuas; uma imagem já inusitada em outras partes do mundo que ali se mantém.

Assim como persiste a tendência de fazer fila. Agora não mais para comprar óleo ou farinha, porque a escassez foi atenuada com a dolarização de fato, mas para se registar em um novo sistema de pagamento de eletricidade.

Durante anos a eletricidade foi quase gratuita, mas agora começaram a cobrar por ela, apesar de muitas regiões ainda sofrerem cortes diários de energia.

O serviço não muda, então, mas o preço vai mudar.

E tudo o que funciona mais ou menos na capital é pior no resto do país, onde a pobreza é maior e os serviços são mais deficientes. A disparidade capital-interior, portanto, não mudou.

Também não mudou aquela ineficiência do sistema que gera distorções insólitas.

Por exemplo: para entrar no metrô de Caracas agora existem duas filas, uma para comprar a passagem e outra para esperar quando as catracas deixam uma entrada gratuita após a passagem de alguém.

Não é que o sistema seja feito para dar passagens gratuitas aleatoriamente, mas sim que as catracas geram um erro, que já está normalizado.

As distorções podem ser resultado de um sistema que não funciona. E os venezuelanos se adaptam; talvez com resignação, mas também com bom humor e criatividade.

·        O que muda

Com a dolarização não oficializada pelo Estado, para muitos venezuelanos tornou-se mais lucrativo ter empregos informais, pagos em dólares, do que empregos formais, pagos em bolívares.

A tendência desencadeou trabalhos de reparos, vendas ambulantes, apostas digitais em videojogos e negócios artesanais e domésticos porta-a-porta.

O impacto deste novo setor informal é tão grande que, segundo a empresa de pesquisa Datanalisis, quase 4 milhões de pessoas nos últimos três anos ascenderam socialmente através do "empreendedorismo criativo".

"Vimos o surgimento de uma nova classe média que não tem ensino superior, não tem trabalho formal, mas ainda assim tem acesso a recursos e uma certa qualidade de vida", explica Luis Vicente León, diretor da empresa.

O analista diz que o caso da Venezuela "é como se você tivesse dentes bons, colocasse aparelho para deixá-los feios e quando termina o tratamento os dentes querem voltar, por inércia, a serem bons".

Os venezuelanos, filhos de uma antiga potência petrolífera, têm um histórico de consumo, um caráter empreendedor e uma visão alegre e entusiasmada da vida.

Assim que a economia foi reativada com a dolarização, saíram às ruas para ver o que conseguiam inventar.

É por isso que você encontra ruas repletas de vendedores ambulantes oferecendo sorvetes, calçados ou produtos de beleza entre música tropical e dança lúdica.

É por isso que há um boom de bingos em todo o país. É porque existem novos e bem sucedidos estabelecimentos de pasticho (uma espécie de lasanha) e cachito (um tipo de croissant recheado com presunto e queijo), duas comidas típicas.

É por isso que, segundo o Global Entrepreneurship Monitor, um centro de estudos, 16% da população está começando um novo negócio.

Não é que os problemas estruturais – serviços precários, inflação elevada, infraestruturas deterioradas, hospitais sem abastecimento – tenham sido resolvidos.

É que as pessoas estão se acostumando, diz León: "Depois que você se acostuma, os problemas não parecem mais tão diferentes e o que incomodava, agora incomoda menos."

Pelo contrário, acrescenta, "você começa a valorizar as coisas que deixou de valorizar: como a natureza, as festas, a sua gente, etc".

Na década passada, o crime transformou a Venezuela num dos países mais perigosos do mundo.

Mas agora, depois de uma controversa política de segurança linha dura, o sentimento de insegurança diminuiu. Essa é outra mudança, para muitos temporária.

Mas a tendência ajudou muitos venezuelanos a regressar ao país; a maioria não para ficar, mas para visitar.

O "malandro falado" é um dialeto de rua que os venezuelanos dentro e fora do país têm transformado em gíria de todos, numa bandeira rara e talvez paradoxal da venezuelanidade.

Você pode ouvir isso no tom e na letra da música Caracas en el 2000.

Exemplos de expressões maliciosas incluem "te da frío, gafa" para dizer "você está com medo, cara" e "picarle la torta" para criticar a reverência excessiva aos poderosos.

Coromotto Hernández é um influencer que fala na língua da malandragem e tenta identificar através da cultura popular essas facetas que os venezuelanos adotaram quando saíram às ruas para resolver sua crise.

"Não é uma apologia da ilegalidade, mas das pessoas se apropriando das ruas e se identificando com essa criatividade de resolver", afirma.

Coromotto acredita que uma coisa é normalizar os problemas – "aceitar que um colchão seja transportado em uma motocicleta" – e outra é encontrar humor e oportunidades na crise.

"Nós que ficamos estamos nos virando e continuamos bebendo malta [uma bebida de malte não alcoólica] e curtindo as araras", afirma.

Ou seja: a Venezuela mudou, mas não em tudo. E a raspadinha de Coca-Cola continua tão doce como sempre.

 

Ø  Nicolás Maduro: as acusações que pesam contra líder da Venezuela

 

Depois de oito anos e quatro meses de ausência, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, está de volta ao Brasil. Acusado de graves violações de direitos humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e de "narcoterrorismo" pelos Estados Unidos, Maduro aterrissou em Brasília para uma reunião dos chefes de Estado e de governo de 11 países latinoamericanos, a ser realizada na terça-feira (30/05). Maduro não vinha ao Brasil desde janeiro de 2015, quando esteve na posse da ex-presidente Dilma Rousseff, também do PT.

Ao assumir o governo brasileiro em 2019, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) rompeu relações com o governo de Nicolás Maduro – que comanda de fato o país desde 2013 – e passou a reconhecer o opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, embora este nunca tenha exercido o poder no país vizinho.

Em 2017, ainda no governo de Michel Temer (MDB), o então encarregado de negócios da Venezuela no Brasil, Gerardo Antonio Delgado Maldonado, foi considerado "persona non grata" no Brasil. A medida foi uma resposta à decisão de Caracas de fazer o mesmo com o embaixador brasileiro na Venezuela, o diplomata Ruy Pereira.

E, em setembro de 2020, já sob Bolsonaro, o corpo diplomático venezuelano no Brasil também deixou de ser reconhecido pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) – os profissionais não foram expulsos de Brasília, mas não tinham mais o status de representantes diplomáticos para o governo brasileiro. Sob o governo do ex-capitão, o Estado brasileiro passou a relacionar-se com representantes indicados por Guaidó.

·        As acusações contra o regime de Maduro

Entidades como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a Organização das Nações Unidas (ONU) acusam o governo comandado por Maduro de ser uma ditadura que usa da violência para manter o poder. Os métodos incluiriam execuções, sequestros, estupros e prisão de opositores. Iniciado por Hugo Chávez, o grupo político de Maduro - o chavismo - está no poder na Venezuela de forma ininterrupta desde 1999. Segundo as entidades, o governo usaria o aparato de inteligência civil e militar para vigiar a sociedade civil, inclusive sindicalistas e membros da imprensa.

Em 2020, o governo dos Estados Unidos acusou Maduro de envolvimento com o tráfico de drogas e de "narcoterrorismo" contra a população americana – as acusações continuam em aberto, e há uma recompensa pela prisão do chefe de Estado venezuelano.

Por fim, os principais índices que se propõem a medir o grau de democratização dos diferentes países ao redor do mundo são unânimes em considerar o atual regime venezuelano como uma ditadura.

Para o índice V-Dem, baseado na Suécia, a Venezuela é hoje uma "autocracia eleitoral" – um regime autoritário, apesar das eleições. Maduro foi eleito presidente em 2013 e reeleito em 2018. A eleição vencida por ele em 2018, porém, foram colocadas sob suspeita por diversos outros países. Além disso, após ter sofrido uma derrota na eleição de 2015 para obter maioria na Assembleia Nacional - o Legislativo unicameral da Venezuela -, Maduro convocou uma Assembleia Nacional Constituinte.

Na prática, o movimento serviu para esvaziar o Legislativo eleito e comandado pela oposição.

As últimas acusações de violação de direitos humanos dirigidas contra o governo Maduro foram apresentadas em março deste ano pela Missão das Nações Unidas para Verificação de Fatos sobre a Venezuela (FFMV, na sigla em inglês). A missão relatou a existência de pelo menos 282 presos por razões políticas no país, e apontou a permanência de um clima generalizado de medo por parte da população. "Num contexto de impunidade generalizada de crimes sérios mencionados em nossos relatórios anteriores, os cidadãos que criticam ou se opõem ao governo se sentem ameaçados e desprotegidos. O medo da prisão e de torturas por parte do governo impedem as pessoas de se expressarem ou protestarem", disse Marta Valiñas, a chefe da FFMV.

Em outro relatório, de setembro de 2020, a mesma missão da ONU detalhou a forma como o governo venezuelano usava agências de inteligência civis e militares para reprimir opositores. "Ao fazê-lo (o governo) comete crimes graves e violações de direitos humanos, incluindo atos de tortura e violência sexual. Estas práticas precisam parar imediatamente", disse Valiñas na ocasião. O relatório foi baseado em 245 entrevistas confidenciais com cidadãos venezuelanos, além de análise de documentos.

No fim de março deste ano, a Anistia Internacional estimou entre 240 e 310 o número de presos políticos na Venezuela, além de destacar as dificuldades econômicas enfrentadas pela população.

A maioria dos venezuelanos sofre com "severa insegurança alimentar e falta de acesso a cuidados médicos adequados", enquanto o Estado trata de forma repressiva "jornalistas, integrantes da mídia independente e defensores de direitos humanos", segundo a organização.

Em 2020, porém, o então embaixador da Venezuela na ONU, Jorge Valero, classificou a iniciativa das Nações Unidas como "hostil" e disse que a produção dos relatórios fazia parte de uma iniciativa dos Estados Unidos para atacar o governo de Caracas.

·        'Tradição brasileira'

A professora do curso de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Carol Pedroso, diz que o Brasil tem uma tradição de buscar relações com todos os países – mesmo os que são considerados ditaduras. "Existe uma tradição na diplomacia brasileira, consolidada no começo do século vinte, de que o Brasil não se posiciona contra governos. o Brasil (...) não faz críticas diretas à situação interna de outros Estados. O entendimento é de que se nós (Brasil) nos posicionamos contra questões domésticas de outro país, nós também nos colocamos em posição de receber críticas dos outros", diz ela. "E sendo o Nicolás Maduro o presidente de fato da Venezuela, aquele que governa realmente o país, que controla as instituições, ele deve ser recebida como chefe de Estado", diz. "Agora, tem a questão simbólica, com todo esse histórico recente. Há várias acusações graves de violação de direitos humanos por parte do governo Maduro, e até questionamentos de se a Venezuela seria de fato uma democracia", diz a pesquisadora à BBC News Brasil. "Nessa dimensão simbólica, a recepção do Maduro com honras de chefe de Estado pesa contra o Lula, sobretudo no âmbito interno (ao Brasil)", completa ela.

Segundo Carol Pedroso, a aproximação de Lula com Maduro pode estar relacionada à tentativa do brasileiro de trazer o regime venezuelano de volta às negociações com a oposição.

"O Lula pode (tentar) ganhar uma projeção internacional como mediador, assim como ele está tentando fazer no caso do conflito da Ucrânia. A gente sabe que ele pessoalmente tem uma capacidade de negociação grande, porém as condições atuais (na Venezuela) são muito diferentes daquelas dos dois primeiros governo dele", diz ela.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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