terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A lição de Diniz para os reacionários da bola

Fernando Diniz choca o status quo do futebol não só por interpretar o jogo diferente da maioria, mas, principalmente, por não se render à cultura resultadista. Enquanto muitos repetem clichês como “o importante é bola na casinha”, o treinador do Fluminense e da seleção brasileira defende que a vitória não deve ser o único fim do esporte. Foi assim que venceu a Libertadores pelo clube tricolor.

Em 2014, quando Diniz surgia no Audax, seu amigo e ex-treinador, Oswaldo de Oliveira, que na época comandava o Santos, insinuou que o estilo proposto pelo antigo pupilo seria inviável em times grandes. “É mais fácil fazer isso no Audax. Lá não tem pressão, a chinelada dói menos que nos nossos jogadores”, disse Oliveira.

Com o tempo e as oportunidades que surgiram na carreira, Diniz provou que era possível reproduzir a mesma ideia de jogo do Audax em clubes maiores e até mesmo na seleção. No entanto, sempre teve de lidar com a desconfiança. Antes do título da Libertadores, carregava a pecha de técnico que “nunca ganhou nada” em time grande, mesmo após ter conquistado o Campeonato Carioca diante do Flamengo.

Na véspera da final contra o Boca Juniors, o ex-técnico Joel Santana chamou Diniz de “teimoso” e afirmou que o Fluminense perderia a taça caso o comandante insistisse com sua proposta ofensiva. Porém, ignorando todos os críticos, o time tricolor jogou de peito aberto no Maracanã e, dessa forma, conquistou seu primeiro título do torneio continental.

Agora, o crítico da vez é Renato Gaúcho. O técnico do Grêmio diz ser “totalmente contra” o estilo de jogo de Diniz, por entender se tratar de uma roleta-russa. “É bonito, mas é arriscado”, argumentou. Incomodado com a repercussão de suas falas, Renato divulgou uma nota em que afirma respeitar o colega de profissão, negando ter feito uma crítica a seu estilo de jogo.

Entretanto, ao se dizer “totalmente contra” à forma das equipes de Diniz jogarem, Renato Gaúcho acaba deslegitimando um método que já se mostrou muito eficaz, tanto que, nesta temporada, levou o Fluminense à final do Mundial de Clubes. Ninguém é obrigado a replicar o dinizismo. Mas suspeitar da eficiência do modelo se torna, no fim das contas, um tipo de negacionismo.

É claro que Diniz sabe que sua proposta é arriscada. Sabe, também, que os ganhos superam os riscos. Vários gols do Fluminense começam com construções de jogada a partir do campo de defesa. Por outro lado, seu time passou mais de um ano sem tomar um gol sequer por erro na saída de bola. Com o time bem treinado, o risco é friamente calculado.

Diante de modelos transgressores como o de Diniz, em que todo empirismo típico do futebol brasileiro é colocado à prova pela ciência de estudar o jogo e assumir riscos em busca de um ganho maior, é normal e até esperado que figuras reacionárias do meio se espantem. O reacionário tende a se posicionar contra qualquer mudança revolucionária, as modernidades e a evolução científica. Naturalmente, o dinizismo não deixaria de incomodar os reacionários da bola.

Porque a proposta do técnico do Fluminense foge do lugar comum, dos clichês e explicações preconcebidas. Foge à ideia, igualmente reacionária, de que o jogador é máquina, de que não deve ter liberdade para jogar e pensar. Ou de que o jogador, se for preto e de origem humilde, pode ser associado à criminalidade sem quaisquer constrangimentos.

Em sua entrevista coletiva antes da final, Diniz deu várias aulas, uma delas sobre o racismo estrutural, ao dizer que o Fluminense representa as favelas do Brasil. Outra, aos reacionários de plantão, ao bancar seu estilo de jogo até mesmo contra o poderoso Manchester City. Independentemente do resultado no Mundial, o treinador já deixou um grande legado. Tanto para o clube tricolor quanto para as mentalidades antiquadas do futebol brasileiro.

 

Ø  O Fluminense não entrou para ganhar. Entrou para mostrar o conceito de Diniz ao mundo. Por Douglas Ceconello

 

Nas últimas décadas, poucos times brasileiros foram tão incensados -- e também tripudiados -- quanto o Fluminense treinado por Fernando Diniz. É uma equipe que desperta emoções extremas, que opõe formas diferentes de entender o futebol. O resultado na decisão da Libertadores mostrou que o técnico e seus abnegados jogadores estavam certos -- na ideia, na execução e no estilo. Porque o resultado é o melhor avalista de todos os conceitos, bem sabemos.

Este mesmo Fluminense já recebeu elogios quando optou por competir, acima de qualquer manifestação de virtude. Assim aconteceu na final da Libertadores, quando a equipe esqueceu todos os preceitos do parnasianismo dinizista para se entrincheirar na frente da área, após fazer 2 a 1 contra o Boca Juniors. O resultado ali não apenas importava -- era o resultado mais importante da história do Fluminense, e toda essa gravidade histórica sugou o time para baixo das próprias traves.

O Manchester City é muito melhor e mais equilibrado que o Fluminense -- na própria ideia, na própria execução e no próprio estilo. Sobretudo, levava a seu favor a quase intransponível questão econômica. Montados em dinheiro proveniente de sabe-se lá que circunstâncias, os europeus deitam e rolam sobre os sul-americanos, que chegam ao Mundial com uma prancheta na mão, o bolso cheio de ilusões e uma ideia na cabeça. Essa é a premissa sob a qual tudo deve ser lido e qualquer confronto deve ser assistido. Nossos sonhos e nossos memes não conseguem fazer frente ao atroz  desequilíbrio financeiro.

Depois da Lei Bosman e da formação de um seleto grupo de superclubes europeus, os sul-americanos raramente vencerão um título intercontinental, mas sempre terão seus quinze minutos de fama. Assim deve ter previsto algum Andy Warhol de Laranjeiras. E, de fato, o Fluminense conquistou sua fugaz parcela de admiração. Ao fim do jogo, cujo placar apontava 4 a 0 para os ingleses, Fernando Diniz comemorou porque, segundo ele, havia alcançado o feito inédito feito de envolver o Manchester City por quinze minutos. Também Guardiola estava encantado com este breve esplendor tricolor, mostrando uma espécie de condescendência típica, enquanto provavelmente pensava na escalação para enfrentar algum Luton Town da vida na próxima rodada da Premier League.

O sucesso no futebol é feito também de concessões. A aposta na pureza do conceito, em qualquer circunstância, acontece apenas por vaidade. E o Fluminense parece ter entrado em campo sem qualquer preocupação, por exemplo, em relação à fragilidade defensiva da equipe, algo bastante evidente durante toda a temporada. O primeiro gol inglês nasceu de uma virada de bola desastrada de Marcelo quando praticamente toda a equipe ocupava um lado do campo. O segundo, em falha de marcação bisonha (e recorrente) do lado direito de sua defesa. Mas, entre um evento e outro, houve quinze minutos de virtuosismo dinizista, "O breve envolvimento do City" -- este o troféu que a equipe realmente se empenhou em conquistar. Pela estratégia adotada, Fernando Diniz parece ter entrado mais preocupado em apresentar seu conceito ao mundo do que em vencer.

O que o Fluminense fez e conquistou em 2023 é histórico, e não apenas em termos de resultado. Mas um abismo financeiro tão grande como este que hoje existe em relação aos maiores times europeus (que representam menos de 1% da Europa, percebam) só pode ser combatido com alguma medida disruptiva. Como, por exemplo, continuar amando a pelota, mas apenas e tão somente naquele dia através de um platônico romance à distância. Tentar algo além daqueles quinze minutos de fama, que serviram como migalhas -- "olha, que bonitinhos, até sabem jogar futebol" (sim, amigo anglófono, nós inventamos o futebol moderno à nossa imagem e semelhança).

A tentativa de mostrar ao mundo como funciona o Fluminense de Fernando Diniz praticamente aniquilou as chances, já pequenas, do acontecimento que poderia ser o Fluminense campeão do mundo -- este sim o evento sísmico que duraria uma eternidade (e mais um quarto de hora).

 

Ø  O decadente futebol brasileiro. Por Roberto Caminha Filho

 

Acordei, tomei café, fui ao guarda-roupa e escolhi a camisa verde-amarela da Seleção Brasileira, aquela que venceu cinco Campeonatos Mundiais de Futebol.

Preparei-me psicologicamente para ver o futebol brasileiro praticado pelo espanhol Pepe Guardiola, do Manchester City, contra o futebol inventado pelo treinador do Fluminense e da Seleção Brasileira, Fernando Diniz.

Estava preparado para torcer pelo Brasil, apesar da alma rubro-negra estar avisando que a coisa não daria certo. O timaço do Manchester estava desfalcado de muitos jogadores e dos melhores do mundo nas suas posições: o meia De Bruine e o centroavante Halland.

Antes do jogo, os gozadores ingleses, chamaram o nosso Fluminense de Time de Asilo, de Aposentados e dos Casados, do tradicional jogo de final de ano, contra os solteiros.

O nosso Fluminense, digno representante do futebol brasileiro, aguentou, heroicamente, quarenta e sete segundos, e quem encerrou o nosso empate, foi o melhor jogador, o Marcelo, fazendo uma assistência espetacular para que os ingleses fizessem o seu primeiro gol.

A batida do centro mostrou ao mundo, que o Brasil de cinco vitoriosas copas, já não existe. Os veteranos foram prensados na sua linha de fundo, aquela em que o goleiro pisa, ficando muito difícil a saída da bola para o campo do Manchester.

Foi uma demonstração de tática e de técnica do time inglês. O representante do Brasil parecia um time de crianças sendo empurrado por um time de adultos. Foram noventa minutos de muito sufoco que levamos dos ingleses. As arquibancadas estavam lotadas de ruivos e louros, se afogando em gyn, cerveja e muita alegria. Foi um massacre que deveremos tirar como lição, para que não passemos vexame na Copa do Mundo. As eliminatórias estão mostrando que a anarquia reinante na CBF, já passou para o túnel e para o gramado.

O túnel atual não tem tamanho para dirigir a nossa seleção. O Fernando Diniz ainda é um despreparado para o cargo mais importante do futebol brasileiro. A nossa seleção não apresenta nada de novo e muito menos: nada de velho.

A CBF, segundo o presidente deposto, estava acertadíssima com o italiano Ancelotti, um grande técnico para dirigir os nossos bons jogadores. E agora, com a deposição do quinto presidente da CBF? O Ancelotti fica no Real Madri, vem para uma confederação acéfala ou aceita a brocha brasileira para ficar segurando toda a parede?

Oremos, façamos despachos e nos resignemos aos desmandos no riquíssimo e enganado futebol brasileiro.

Impossível é querer que uma confederação que teve seus seis últimos dirigentes depostos, e presos, no estrangeiro e no nosso território, possa passar pelas dificuldades impostas pelos nossos carentes vizinhos sulamericanos.

Quanta sacanagem! Quanta esculhambação! Até quando?

 

Fonte: Terra/ge/Metrópoles

 

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