Joaquim de
Carvalho: A especialidade de Moro é armar. Por que seria diferente agora?
A
tranquilidade com que Lula falou nesta quinta-feira sobre a possibilidade de
Moro ter armado a história de que foi alvo do PCC faz supor que o presidente
tenha informação que ainda não pode tornar pública.
Mas,
a rigor, nem é preciso ter dado adicional ou relatório de inteligência para
desconfiar da versão que tem a assinatura digital da juíza lavajatista Gabriela
Hardt, de Curitiba, um projeto de Batgirl, num tempo em que Moro era chamado de
Batman.
A
começar pelo retrospecto de Sergio Moro. Mas não só. Primeiro, o retrospecto:
Moro seria capaz de uma armação desse tipo. Dois episódios demonstram a falta
de escrúpulo do ex-juiz.
Os
dois falavam sobre supostas operações de lavagem de dinheiro por parte de
Alberto Youssef, em benefício de Janene. Moro, embora não tivesse sido o juiz
que autorizou a quebra do sigilo, recebeu a transcrição.
Como
envolvia um deputado federal, o caso deveria ter sido remetido para o STF. No
máximo, Moro poderia ter usado o diálogo como ponto de partida para anular o
acordo de delação de Youssef, e o colocado de volta na cadeia.
Mas
Moro decidiu ficar com o caso, sem devolver Youssef ao sistema prisional.
Determinou com letras miúdas que a Polícia Federal realizasse inquérito sob sua
jurisdição. E esse inquérito levou oito anos até que as primeiras prisões e
ações de busca e apreensão fossem decretadas.
Só
em janeiro de 2014, ano de eleição para presidente, é que a Polícia Federal fez
os primeiros pedidos de prisão, entre eles a de Alberto Youssef.
O
procurador José Soares Frisch, que atuava na 13a. Vara Federal de Curitiba, a
de Moro, foi contra. Para ele, Moro não tinha competência jurisdicional para
tomar decisões nesse caso, já que os fatos investigados revelavam indícios de
crime em São Paulo e Brasília.
Mas,
depois disso, Soares Frisch não durou no cargo. Um mês depois, Deltan Dallagnol
assumiu o lugar dele e foi autorizado a formar uma força-tarefa, para a qual
chamou amigos e antigos subordinados.
"Foi
uma decisão pessoal, e eu prefiro não declinar os motivos pelos quais eu fiz
uma troca de posto com Deltan Dallagnol", disse Soares Frisch, quando o
entrevistei, em março de 2021.
O
parecer de Soares que abatia a Lava Jato no ninho ficou perdido em algum
arquivo digital da 13a. Vara até que o jornalista Marcelo Auler o encontrasse,
e fizesse o primeiro texto sobre o caso.
O
ex-procurador-geral da república Rodrigo Janot já tinha contado uma parte da
história em seu livro, “Nada Menos que Tudo — Bastidores da Operação que
Colocou o Sistema Político em Xeque”.
“O
procurador do caso, Pedro Soares, seria substituído por outro, Deltan
Dallagnol. Até hoje não entendi por que Soares saiu do caso, mas, se era
vontade dele, tudo bem."
Janot
errou o nome, mas isso é o de menos.
No
caso do PCC, a ação também tomou um caminho estranho até parar na mesa de
Gabriela Hardt, a juíza que condenou Lula a 12 anos e um mês, com uma sentença
que tinha trechos copiados de outra decisão de Moro.
Quem
deveria analisar os pedidos de prisão e buscas no inquérito sobre o PCC era a
juíza substituta da 9ª Vara Federal do Paraná, Sandra Regina, mas ela saiu de
férias em 16 de março, antes de tomar qualquer decisão.
O
inquérito foi redistribuído, e quem ficou com a ação foi Gabriela Hardt. Ela
poderia ter tomado qualquer decisão sexta-feira, 17 de março, ou segunda-feira,
20. Ou ainda dia 23 ou 24 ou qualquer outra data.
Mas
a ação começou a se movimentar no e-proc, sistema da Justiça Federal do Paraná,
às 11h49 do dia 22, terça-feira, minutos depois que perfis na rede social
começaram a divulgar trechos descontextualizados da entrevista de Lula à TV
247, em que ele revelou ter dito a seus algozes na cadeia que só ficaria bem
quando se vingasse de Moro.
Não
foi nada muito diferente do que ele disse nas várias entrevistas que deu na
cadeia, quando afirmava ter como propósito de vida provar que Moro mentiu no
processo contra ele.
Às
12h47, os mandados de prisão e de busca assinados por ela digitalmente já
estavam no e-proc, mas não eram de conhecimento público, já que a ação estava
sob sigilo.
Às
14h33, Moro deu entrevista à CNN para responder a Lula e demonstrou que talvez
soubesse que a operação seria deflagrada, ao dizer que a fala de Lula colocava
a vida dele em risco, e também a de sua família.
Como
uma fala de teor político de Lula colocaria a vida de qualquer pessoa em risco?
No
dia seguinte, a operação Sequaz é deflagrada, e as primeiras informações dão
conta de que o PCC planejava sequestrar Moro, e citava também a esposa do
ex-juiz, Rosângela, como um possível alvo.
Na
tarde desta quinta-feira, Gabriela Hardt retirou o sigilo das prisões, e com
isso espera-se que algo consistente justifique o barulho em torno da versão de
que Moro poderia ter sido, efetivamente, alvo do PCC.
Por
enquanto, as explicações são vagas.
O
promotor Lincoln Gakiya, outro possível alvo - este, justificadamente, em razão
de ter sido o autor do pedido que, em 2019, transferiu o líder do PCC Marcola
de São Paulo para Brasília -, diz que a inclusão de Moro se deve ao relato de
uma pessoa que tem o nome preservado por estar em programa de proteção à
testemunha.
"No
curso das investigações, se viu aí indícios de que o ex-ministro Moro fosse uma
das autoridades que poderiam ser atacadas ou mesmo sequestradas. E nós,
inclusive, reunimos mais elementos de prova, nós tivemos inclusive testemunha
protegida, no programa de proteção a testemunha, que teria feito esta
missão".
Quais
são esses outros "elementos de prova"? Ele não diz. O que diz uma
testemunha sob proteção deve sempre ser recebido com reserva. O que conta são
as provas que apresenta.
"A
gente, então, passou esse caso para a Polícia Federal. Isso foi no início de
fevereiro agora de 2023. Mas nós atuamos, temos atuado com o Ministério
Público, inclusive eu, pessoalmente, em conjunto com a Polícia Federal. Eu
mesmo prometi ao ministro Moro e ao procurador-geral que, em três meses, nós
iríamos esclarecer esse caso junto com a Polícia Federal, e a gente conseguiu
em 45 dias resolver essa situação", acrescenta.
"Eu
apenas ressalto, até para tirar qualquer caráter político da ação ou da operação
em si, que o plano já estava em andamento há mais de cinco meses. A gente tem
recibos lá de que esses criminosos, no caso do Moro e outros estados também, já
haviam empenhado dinheiro, por exemplo alugando chácaras, alugando imóveis,
veículos blindados. E aí não só Curitiba, no caso do Moro, mas em outras
capitais do país também. Então, é uma questão que foi descoberta em janeiro,
mas ela já havia esse andamento, esse planejamento desde agosto do ano
passado", finaliza.
Se
havia outros alvos, em outros estados, por que a operação foi centralizada em
Curitiba?
Por
enquanto, não há resposta.
Outro
ponto que merece destaque é que Moro, quando era corregedor do presídio federal
de Catanduvas - construído no segundo mandato de Lula –, não foi propriamente
um combatente do crime organizado.
O
repórter José Maschio revelou em 2007 que reinava o caos no presídio. A
reportagem cita relatório sobre a situação no presídio. "Beira-Mar, diz o
relatório, já assumiu a condição de chefe dos demais detentos. (...) O traficante
carioca tem ajudado presos mais pobres com a contratação de advogados e já
alugou dois apartamentos em Catanduvas 'para que sirvam de albergue para
familiares de presos"', cita o documento.
Quando
entrevistei Maschio para o documentário "A Grande Farsa - Como Moro
enganou o Brasil e ficou rico", ele disse que, em razão da reportagem, o
então juiz-corregedor cortou as relações com ele.
Em
sua autobiografia, Moro fala de Fernandinho Beira-Mar, como autor de uma carta
dirigida a ele, mas não toca no assunto do relatório que motivou a reportagem
de Maschio, que acabou vencedora do Prêmio Folha de Jornalismo.
.x.x.x.x.
PS:
O procurador da república Soares Frisch atua na Operação Sequaz e, ao contrário
do que fez na Lava Jato, não se opôs aos pedidos de investigação da Polícia
Federal.
Lula tem autoridade para falar das
armações de Sergio Moro. Por Moisés Mendes
Agitada
pela chance de ressurreição do ex-juiz suspeito, a grande imprensa ataca Lula
por ter levantado a suspeita de que a história das ameaças do PCC está
parecendo uma armação do próprio Sergio Moro.
Uma
declaração desse porte, nessas circunstâncias, ficaria estranha na boca de
qualquer um, mesmo que fosse uma figura pública de expressão.
Mas
Lula tem experiência, como vítima, em armações de Sergio Moro. Tem todas as
provas e as cicatrizes das armações.
A
grande imprensa bate em Lula porque chegou a hora de defender o ex-juiz de
novo, como parte de uma dívida impagável de meia década de conluios com a
Lava-Jato.
Mas
todo mundo sabe que foi Moro quem armou o grampo para a gravação da conversa de
Dilma e Lula, em março de 2016. Foi uma armação criminosa.
Moro
armou o grampo, manteve a escuta depois do tempo previsto e fez outra armação:
passou o grampo para a Globo.
Moro
armou, também em março de 2016, a condução coercitiva de Lula, para que
prestasse um depoimento que ele nunca se negou a dar. Armou uma cena
policialesca para humilhar Lula.
Moro
armou, com Deltan Dallagnol, todos os passos do Ministério Público na
força-tarefa de Curitiba, para que os procuradores agissem sob seu comando,
como ficou provado nas mensagens da Vaja-Jato.
Moro
armou as escutas das conversas dos advogados de Lula e grampeou Roberto
Teixeira e Cristiano Zanin, esse último cada vez mais perto da vaga no Supremo,
o que será um desastre para o ex-juiz
O
grampo pegou todos os 25 advogados do escritório e mais de 200 clientes.
Aconteceu porque Moro era especialista na armação de espionagem telefônica.
Em
maio de 2017, quando Lula depôs a Sergio Moro no caso do tríplex, o juiz
apresentou ao ex-presidente o que seria um documento de dona Marisa Letícia
como intenção de compra de um apartamento no Guarujá.
O
juiz tentou mais uma armação e apresentou o documento, sem assinatura, para
saber, como armadilha, se Lula reconhecia o papel apócrifo.
Moro
fez denúncias contra Bolsonaro, por interferências na Polícia Federal, que
resultaram em inquérito no Supremo, e um ano depois tentou armar uma cilada
para Lula, desfilando ao lado de Bolsonaro nos estúdios de TV nos debates da
eleição.
A
grande imprensa defensora dos bons modos, que condena agora a atitude de Lula
por ter levantado a suspeita de armação no caso do PCC, sabe que foi cúmplice
de todas as armações de Moro.
Lula
tem autoridade para dizer que o ex-juiz está sempre armando alguma coisa, como
armou agora a versão de que caçou o PCC como magistrado e como ministro da
Justiça.
Não
caçou nada. O promotor Lincoln Gakiya, que de fato cerca o PCC, já disse e
repetiu que Moro nunca fez nada de relevante contra Marcola. E o chamou de mentiroso
por se apresentar como protagonista das medidas de restrição aos presidiários
do PCC.
Moro
disse em entrevista à GloboNews que é ameaçado por ter agido com determinação
contra o PCC como juiz e ministro de Bolsonaro. Nenhum dos três jornalistas no
estúdio perguntou o que ele fez, porque o entrevistado não saberia o que dizer.
O
que já se sabe e é repetido desde ontem, inclusive pelo promotor Lincoln
Gakiya, é que em fevereiro de 2019 Moro proibiu visitas íntimas aos presos do
PCC. Provocou Marcola, mas nunca fez nada de relevante.
Lula
sabe muito do que fala quando desconfia de mais uma armação. A grande imprensa
protege Moro para se proteger, porque as armações do lavajatismo só existiram
com a cumplicidade lacaia das corporações de mídia.
A
Lava-Jato foi uma grande armação. O próprio Moro é uma armação da direita e da
extrema direita brasileira e americana, de parte do sistema de Justiça, da
Globo, da Folha, do Estadão, da Fiesp, de grileiros, militares, manés e
milicianos.
Pedro Cardoso detona Sergio Moro ao vivo
na CNN: "moralmente desqualificado"
O
ator Pedro Cardoso fez duras críticas ao senador Sergio Moro (União Brasil-PR)
após a Operação Sequaz, da Polícia Federal (PF), prentede na última
quarta-feira (22) suspeitos de planejar o assassinato do parlamentar e outras
autoridadades públicas. De acordo com o artista, Moro "está sendo tratado
como se fosse uma pessoa digna, correta".
"Esse
homem (Sergio Moro), moralmente desqualificado, recebe toda essa atenção porque
foi vítima de uma ameaça. Estou muito mais preocupado com milhões de outras
pessoas permanentemente ameaçadas e que não serão noticiadas. Ameaça à vida
dele (Moro) é lamentável. Agora milhões de brasileiros são ameaçados todos os
dias pela pobreza em que vivem, pela proximidade com o crime organizado",
complementou Cardoso em entrevista à CNN Brasil.
"É
uma pessoa que tramou junto a um procurador para colocar uma pessoa na
cadeia", disse o ator em referência à condenação e à prisão política do
atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando o senador era juiz da
Lava Jato.
A
Vaza Jato (diálogos entre membros do Judiciário paranaense no contexto da
operação e com divulgação a partir de 2019) começou a ser divulgada em 2019 e
deixou mais evidente a parcialidade de Moro. Segundo as conversas, o
parlamentar agia como uma espécie de assistente de acusação ao interferir na
elaboração das denúncias, que devem ser feitas por promotores do Ministério
Público Federal (MPF-PR).
Após
tirar Lula da campanha de 2018 ao determinar a prisão dele, Moro aceitou ser
ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (PL), mas saiu do governo alegando
tentativa de interferência na Polícia Federal, subordinada à pasta.
Em
2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a decisão anteriormente
proferida pela Segunda Turma da Corte no sentido de declarar a suspeição dele
nos processos contra o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em
2022, quando tentava candidatura ao Senado, Moro foi derrotado no Tribunal
Regional Eleitoral (TRE-SP) por fraude em domicílio eleitoral e, como
consequência, decidiu ser candidato pelo Paraná.
Fonte:
Brasil 247
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