sábado, 30 de maio de 2026

Brasil vive nova onda industrial? Chegada de multinacionais reacende debate

Especialistas apontam que interesse estrangeiro cresce por escala, recursos e energia, mas alertam para entraves estruturais da economia brasileira.

No final de abril, a Whirlpool, dona de marcas de eletrodomésticos como Brastemp, fechou uma fábrica na Argentina, em Pilar, e transferiu a produção para Rio Claro, no interior de São Paulo. A escolha, feita para melhorar a eficiência operacional e otimizar recursos segundo um comunicado da empresa, no entanto, não alteraria o fornecimento de produtos para o mercado argentino.

O movimento, porém, ocorre em um contexto mais amplo de reposicionamento industrial na América do Sul e coincide com a chegada e expansão de outras multinacionais no Brasil.

Nos últimos anos, o país tem atraído investimentos de grupos estrangeiros interessados tanto no mercado consumidor brasileiro quanto na possibilidade de transformar o território nacional em uma plataforma regional de produção. Em dados, o setor industrial brasileiro passa por um processo de recuperação e modernização, com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrando crescimento de 1,8% na produção industrial e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) projetando alta de 1,6% para o setor em 2026.

Entre os casos mais emblemáticos está a expansão da chinesa BYD em Camaçari, na Bahia, onde a companhia assumiu o antigo complexo industrial da Ford para instalar aquela que promete ser uma das maiores fábricas de veículos elétricos da América Latina.

Outro exemplo é a GWM, também chinesa, que iniciou operações na antiga planta da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior paulista, além de novos aportes internacionais em setores como energia, mineração, infraestrutura e tecnologia.

<><> O que atrai empresas para o Brasil?

Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper, afirma que o principal ponto atrativo para essas companhias é o tamanho do mercado brasileiro — mais de 200 milhões de potenciais consumidores —, ressaltando também a posição do Brasil como uma das maiores economias do mundo e maior da América Latina.

"O segundo ponto é o fato de nós termos uma base agro muito forte, com muitos recursos naturais, energia relativamente diversificada e muitas possibilidades de projetos em transição energética", diz Inhasz, pontuando também preços relativamente baratos de produção no Brasil. Ou seja, além do grande mercado consumidor — que ainda possui demanda reprimida em alguns setores —, o país oferece vantagens como proximidade da matéria-prima, custos salariais relativamente menores e condições geográficas favoráveis, explica.

"É um lugar atrativo, com clima relativamente bom, grande extensão territorial e sem problemas extremos, como terremotos."

Para a especialista, o conjunto desses fatores reforça a atratividade econômica do país, mas o tamanho do mercado interno e a disponibilidade de recursos seguem sendo os principais diferenciais para investidores e empresas.

Complementando, Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), diz que o atual cenário de incerteza política e geopolítica internacional também tem sido outro ponto que tem levado empresas multinacionais a enxergarem o Brasil como alternativa estratégica para investimentos. "O Brasil não está envolvido diretamente nesses conflitos, tem autonomia em relação ao petróleo e uma matriz energética relativamente verde", afirma.

Haroldo destaca ainda a disponibilidade de serviços industriais e logísticos, especialmente no Sudeste, citando o caso da Whirlpool como exemplo desse movimento. "Não é uma fábrica nova, mas um incremento de investimentos naquela região", observa. Na avaliação dele, a junção de todos esses elementos traz "algum nível de vantagem comparativa para o Brasil" em relação a outros países na América Latina.

<><> Potencial industrial

Agora, poderia o Brasil converter esse interesse em um novo ciclo de reindustrialização? Inhasz explica que, embora o país reúna fatores atrativos para investidores, ainda enfrenta barreiras estruturais importantes que limitam a capacidade de transformar esse cenário em uma industrialização mais robusta e duradoura.

Segundo a especialista, o principal desafio é o baixo ganho de produtividade, considerado por ela o "calcanhar de Aquiles" da economia brasileira. Para Inhasz, avanços nessa área dependem diretamente de investimentos em inovação, tecnologia e aumento da competitividade — fatores que também ampliariam a inserção internacional da indústria nacional.

Juros elevados, alto custo da dívida pública e financiamento caro reduzem o apetite ao risco dos investidores, que também precisam lidar com incertezas fiscais e oscilações da demanda.

"Apesar de todos os pontos positivos, existem muitos poréns."

Outro obstáculo apontado por Inhasz é a burocracia brasileira, que se soma aos custos econômicos e institucionais enfrentados pelo setor produtivo. Para a economista, embora parte das empresas consiga aproveitar as oportunidades existentes, muitas indústrias ainda dependem de uma base institucional mais sólida para expandir investimentos e consolidar resultados.

Sem enfrentar essas fragilidades, avalia Inhasz, o país pode deixar escapar parte do atual interesse internacional sem convertê-lo plenamente em benefícios para a indústria e para a economia. Ela compara o cenário brasileiro ao mexicano que, segundo sua avaliação, tem atraído investimentos em manufatura e logística por contar com uma indústria de transformação mais integrada e competitiva.

Por outro lado, o presidente do Corecon-SP ressalta que, apesar dos entraves ligados à produtividade, juros e burocracia, o Brasil possui ativos estruturais importantes que podem sustentar um processo de reindustrialização. Segundo ele, o país conta com uma engenharia industrial relevante e já alcançou níveis expressivos de complexidade econômica em determinados segmentos produtivos.

Ele cita empresas como WEG e Embraer como exemplos da capacidade nacional de desenvolver tecnologia e produção sofisticada. Para ele, essa força está ligada não apenas ao parque industrial, mas também à formação técnica da mão de obra brasileira, apoiada por universidades, centros de pesquisa e instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) — presente em diversas regiões do país.

Na avaliação dele, a recorrente instabilidade política, tributária e econômica brasileira acabou criando um setor produtivo mais resiliente e habituado a operar sob condições de incerteza. Essa flexibilidade seria um dos diferenciais do país para atrair e sustentar investimentos industriais.

Por outro lado, ele reconhece que o setor segue enfrentando gargalos estruturais, dizendo que políticas de financiamento e juros — como a Nova Indústria Brasil (NIB) — ainda limitam o potencial industrial. A NIB, por exemplo, prevê cerca de R$ 600 bilhões em recursos ao longo de quatro anos, envolvendo instituições como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Para ele, embora o montante seja expressivo, o setor recebe menos proporcionalmente do que outros setores, como o agronegócio, que recebe R$ 500 bilhões ao longo de um ano. Haroldo destaca ainda que a indústria tem peso significativo na arrecadação da Previdência Social, contribuindo com cerca de 25% do total devido ao pagamento de salários mais elevados. "A indústria paga melhores salários do que o agro e do que o setor de serviços", afirma.

Inhasz, por outro lado, pondera que o agronegócio não deve ser visto como responsável pelas dificuldades da indústria brasileira. Segundo ela, o principal obstáculo está no Custo Brasil — conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarece a produção e a contratação do país, estimado em cerca de R$ 1,7 trilhão ao ano —, que reduz produtividade e competitividade.

Para a economista, o agro é um ativo estratégico por atrair capital e impulsionar exportações. Em 2025, o setor respondeu por quase metade das vendas externas brasileiras, com US$ 169 bilhões (cerca de R$ 852 bilhões) exportados —, enquanto a indústria depende de uma infraestrutura e coordenação mais complexas, historicamente insuficientes no país.

"Não é que o agro seja o vilão. A infraestrutura necessária para a indústria ficou faltando."

<><> Reforma tributária e escala de trabalho

Haroldo da Silva avalia que a reforma tributária pode contribuir para melhorar o cenário da indústria brasileira nos próximos anos. Segundo ele, a redistribuição da carga tributária entre os setores tende a beneficiar a atividade industrial, hoje mais pressionada pelo pagamento de tributos.

"O cenário para a indústria pode melhorar também por conta da reforma tributária", afirma. Para o economista, a mudança deve tornar os produtos industriais gradualmente mais baratos e competitivos, embora o processo seja lento e só esteja totalmente consolidado em 2033.

Ainda assim, ele observa que a perspectiva de alívio tributário já aparece nas pesquisas de percepção empresarial e ajuda a sustentar expectativas mais positivas para o setor.

Sobre a possível substituição da escala 6 x 1 pela 5 x 2, Haroldo afirma que os impactos serão diferentes entre setores e companhias. "Dizer que vai ser bom ou ruim para a indústria seria uma desonestidade intelectual", diz, citando estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre o tema.

Segundo ele, parte da indústria já opera em modelos semelhantes, enquanto segmentos mais dependentes da presença contínua do trabalhador podem enfrentar maiores dificuldades, especialmente micro e pequenas empresas. Para o presidente do Corecon-SP, a transição pode ser suportável se houver negociação entre empresas e sindicatos e o apoio do Estado para a adaptação dos negócios.

Haroldo argumenta que, apesar das dificuldades e turbulências esperadas no curto prazo, a redução da jornada pode trazer ganhos de produtividade e melhorar as condições de trabalho no longo prazo, sobretudo diante da crescente atenção aos riscos psicossociais no ambiente laboral.

"O Estado brasileiro deveria ajudar nesse processo de transição, especialmente as pequenas e micro empresas."

•        Política industrial: qual a escolha brasileira? Por Celso Pinto de Melo

A rivalidade entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas diplomática, militar ou comercial. Ela se tornou estruturalmente produtiva. O conflito central deslocou-se para o terreno da capacidade industrial, da densidade tecnológica e do controle de cadeias estratégicas.

Em 2022, os Estados Unidos aprovaram o CHIPS and Science Act, mobilizando cerca de US$ 280 bilhões para fortalecer a produção doméstica de semicondutores e ampliar o investimento científico. No mesmo ano, o Inflation Reduction Act destinou aproximadamente US$ 369 bilhões a incentivos para a transição energética e a manufatura verde. Não se trata de políticas anticíclicas convencionais. Trata-se de reorganização deliberada da base produtiva em escala histórica .

A China, por sua vez, intensificou sua estratégia de autossuficiência tecnológica, reforçando investimentos em semicondutores, baterias, inteligência artificial e equipamentos industriais avançados.

 A disputa por litografia de ponta e chips avançados tornou-se explícita, com restrições comerciais e sanções tecnológicas.

A globalização dispersiva dos anos 1990, baseada na fragmentação de cadeias produtivas e na primazia do custo, está sendo substituída por uma reorganização seletiva e estratégica.

Como observa Gala, a promessa dos anos 1990 de que bastaria “abrir a economia” para alcançar convergência revelou-se historicamente inconsistente: as economias que hoje lideram a reorganização produtiva global nunca abandonaram a coordenação estratégica do investimento.

O centro da geopolítica voltou a se organizar em torno da capacidade produtiva. É nesse novo terreno que a posição relativa dos países está sendo redefinida.

<><> A variável que quase ninguém discute

No debate econômico brasileiro, inflação, juros e resultado fiscal dominam o noticiário. São variáveis relevantes, mas de horizonte curto. Pouco se discute a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede o investimento em ativos produtivos – máquinas, equipamentos, fábricas, infraestrutura, tecnologia – e, portanto, a expansão da capacidade futura de produção.

Segundo dados do IBGE e do World Development Indicators, a FBCF brasileira oscilou majoritariamente entre 17% e 22% do PIB nas últimas quatro décadas. Em 2017 e 2020, aproximou-se de 15%. Em 2022, situava-se em torno de 18% do PIB .

No mesmo intervalo – aproximadamente as últimas quatro décadas – a Coreia do Sul sustentou taxas de investimento superiores a 30% do PIB por longos períodos, enquanto a China manteve patamares frequentemente acima de 35%, alcançando picos superiores a 45% nos anos 2000.

A mesma figura permite observar não apenas a diferença de investimento, mas também sua consequência acumulada: a divergência das trajetórias de renda per capita ao longo do período.

Em termos analíticos, esse processo é conhecido como convergência: a capacidade de economias de menor renda de crescer de forma sistematicamente mais rápida do que as economias avançadas, reduzindo ao longo do tempo a distância que as separa. Mais do que crescer, convergir significa alterar a posição relativa no sistema internacional.

A evidência empírica é consistente com o diagnóstico apresentado por Gala: países que sustentaram regimes persistentes de investimento elevado e orientado à complexificação produtiva foram capazes de multiplicar sua renda per capita; aqueles que mantiveram patamares baixos e voláteis ficaram presos à chamada armadilha da renda média.

Entre investir 18% e 35% do PIB há uma diferença de 17 pontos percentuais. Mantida por décadas, essa diferença transforma o estoque de capital, a produtividade e a renda per capita.

Naturalmente, em macroeconomia, a correlação entre dois indicadores não implica causalidade automática. O crescimento econômico depende de múltiplos fatores institucionais, tecnológicos e demográficos. Ainda assim, a persistência de níveis elevados de investimento produtivo constitui um dos traços mais consistentes nas experiências históricas de convergência bem-sucedida.

<><> O custo da persistência

Um baixo investimento não resulta em um colapso imediato. Produz crescimento medíocre persistente.

Entre 1980 e 2023, o Brasil apresentou um crescimento médio anual do PIB substancialmente menor que o das economias asiáticas que adotaram regimes persistentes de investimento elevado. A renda per capita brasileira, que nos anos 1970 superava amplamente a chinesa e era comparável à sul-coreana, passou a divergir estruturalmente.

Segundo o Banco Mundial, a renda per capita chinesa ultrapassou a brasileira em termos de paridade de poder de compra ao longo da década de 2010. A Coreia do Sul multiplicou sua renda per capita por várias vezes nesse período, distanciando-se de forma irreversível.

O Brasil deixou de convergir quando interrompeu a expansão sistemática de sua capacidade produtiva e passou a depender crescentemente de ciclos de commodities, confundindo prosperidade conjuntural com desenvolvimento estrutural.

A divergência não decorreu de um evento isolado. Decorreu da manutenção de regimes de investimento distintos ao longo de décadas.

Além da magnitude, a composição do investimento importa. No Brasil, a construção civil representa uma parcela significativa da FBCF, enquanto máquinas e equipamentos mantêm participação menor do que em economias que realizaram o salto tecnológico. Construção impulsiona ciclos. Máquinas, equipamentos e tecnologia alteram produtividade estrutural e densidade industrial.

Essa diferença é menos visível no curto prazo, mas decisiva no longo.

<><> O mundo não está esperando

Enquanto o Brasil mantém um regime de investimento baixo e volátil, as grandes economias coordenam políticas industriais explícitas. Os Estados Unidos subsidiam semicondutores e baterias. A China investe pesadamente em manufatura avançada. A União Europeia cria mecanismos para evitar uma dependência tecnológica excessiva.

Semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, hidrogênio verde e baterias não são apenas setores econômicos. São instrumentos de poder nacional.

A política industrial deixou de ser tabu. Tornou-se linguagem comum das potências.

A experiência coreana, ilustra que proteção temporária combinada com exigência de desempenho e disciplina institucional pode produzir transformação estrutural quando sustentada ao longo do tempo. A neutralidade produtiva, nesse contexto, revela-se uma abstração.

Se grandes economias reorganizam suas bases produtivas e o Brasil permanece sob regime estruturalmente insuficiente de acumulação, a divergência tende a ampliar-se.

<><> A janela brasileira

O Brasil possui vantagens estruturais relevantes. Sua matriz energética é relativamente limpa. Detém reservas importantes de minerais estratégicos. Reúne condições especialmente favoráveis para expandir a produção de biocombustíveis e hidrogênio verde. Possui mercado interno de grande escala e sistema universitário consolidado.

Mas vantagens estruturais não se convertem automaticamente em poder econômico.

O sucesso do agro brasileiro – tecnicamente sofisticado e competitivo – não resolve, por si, o problema estrutural do câmbio valorizado e da perda relativa de densidade industrial. Sem contrapeso estratégico, o êxito setorial pode reforçar a especialização primária.

Sem um regime consistente de investimento produtivo, as oportunidades tendem a se traduzir em exportação de commodities e dependência tecnológica.

Nesse contexto, o lançamento da Nova Indústria Brasil (NIB), em 2024, representa uma inflexão relevante ao recolocar a política industrial no centro da agenda. Ao definir missões estratégicas e instrumentos de financiamento direcionado, o programa reconhece explicitamente que a reorganização produtiva exige coordenação.

A questão decisiva, contudo, não é a existência formal da estratégia, mas sua escala e sua compatibilidade com o regime macroeconômico vigente. Sem elevação estrutural da taxa de investimento e redução do custo do capital, a política industrial tende a operar na margem, com impacto limitado sobre a trajetória de longo prazo.

<><> A decisão que ainda não foi tomada

Elevar gradualmente a FBCF brasileira para um patamar entre 25% e 27% do PIB ao longo de uma década não seria exceção internacional. Seria aproximação ao padrão observado em economias que realizaram o salto estrutural.

Ampliar o investimento público direto para cerca de 4% do PIB – com foco em infraestrutura logística, digital e energética – poderia funcionar como indutor de investimento privado e eixo coordenador de expectativas.

Reequilibrar a composição da FBCF, elevando a participação de máquinas e equipamentos, teria impacto direto na produtividade e na capacidade tecnológica.

Não se trata de voluntarismo, mas de mudança de regime. O desenvolvimento não emerge espontaneamente da abertura irrestrita; resulta de estratégia persistente, coordenação institucional e investimento contínuo .

<><> O que está em jogo

No século XX, as grandes inflexões históricas ocorreram quando as nações alteraram deliberadamente seu padrão de investimento. Hoje, em um mundo marcado pela reconfiguração de cadeias produtivas e pela disputa tecnológica, essa lógica retorna ao centro da dinâmica global.

O Brasil não atravessa uma crise aguda. O que se observa é algo mais sutil – e talvez mais preocupante: um processo contínuo de deslocamento relativo no sistema internacional.

Se persistir operando sob um padrão de acumulação baixo e volátil, essa trajetória tende a se aprofundar. A perda de posição não se dá por ruptura, mas por erosão gradual.

Nesse contexto, a ausência de decisão não é neutralidade – é, na prática, uma escolha.

O regime de investimento costuma aparecer como um tema técnico, restrito a especialistas. Mas, no plano histórico, ele expressa uma decisão fundamental sobre o tipo de economia que se deseja construir.

É essa decisão – frequentemente implícita – que define o lugar de um país na geopolítica produtiva do século XXI.

No próximo artigo, o foco se desloca para o interior desse problema: se a necessidade de investir mais parece evidente, por que o Brasil tem encontrado tanta dificuldade em sustentar, de forma persistente, um regime de investimento compatível com essa transformação?

 

Fonte: Sputnik Brasil/Outras Palavras

 

Por que o dono da Ford criou a escala de trabalho 5x2 há 100 anos — e como isso impactou o mundo

"O país está pronto para a semana de cinco dias [de trabalho]. Seguramente é algo que deve se espalhar por toda a indústria. […] Já é hora de nos livrarmos da ideia de que é 'tempo perdido' o lazer dos trabalhadores, ou um privilégio de classe."

Essas palavras fizeram parte de um discurso há cem anos, no 1º de maio de 1926. Não foram proferidas por um operário, um líder sindical, um militante socialista ou um político trabalhista.

O pronunciamento foi feito por um dos maiores magnatas da história da humanidade, o engenheiro mecânico e empresário Henry Ford (1863-1947), fundador da Ford Motor Company, considerado um pioneiro no formato industrial conhecido como linha de montagem em série.

A partir daquela data, a jornada 5x2 se tornaria praxe em todo o seu gigantesco parque fabril — com 40 horas de trabalho por semana.

A ideia de aumentar o fim de semana do trabalhador superava, a favor do proletariado, o que havia sido determinado em 1919 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) — e havia se tornado padrão internacional por convenção: o teto praticado era de 48 horas semanais.

A decisão não foi tomada de uma hora para outra. A Ford já vinha testando em alguns departamentos o novo formato. Em artigo publicado no jornal The New York Times em março de 1922, o filho de Henry Ford, Edsel Bryant Ford (1893-1943), que presidia a empresa desde 1919, escreveu que "toda pessoa precisa de mais de um dia por semana para descanso e recreação".

No texto, argumentava que "a Ford sempre buscou promover uma vida doméstica ideal para seus empregados" e disse acreditar que "para viver de forma apropriada, todo ser humano deveria dispor de mais tempo para passar com sua família".

Após ser adotado voluntariamente pela Ford, o sistema se expandiu. Nos Estados Unidos, a jornada de trabalho semanal foi reduzida por lei em 1938 — limitada a 44 horas semanais. Em 1940, o teto cairia para as 40 horas semanais idealizadas por Ford 14 anos antes.

Principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, o sistema fordista de organização de trabalho fabril se espalhou pelo mundo.

"O modelo americano de industrialização e economia nacional foi multiplicado nas sociedades que tomaram parte da reconstrução da economia mundial, a partir de 1945, como o Japão e a China", explica o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O advogado trabalhista Pedro Maciel entende a adesão ao sistema por causa do sucesso obtido.

"O modelo começou a demonstrar uma vantagem econômica para as empresas, o que acabou por disseminar essa forma de jornada", diz. A concorrência acabou convencida de que menos horas trabalhadas "não significavam menos dinheiro".

"Até os anos 1960, a formação de administradores e o adestramento de trabalhadores foram ações conjugadas, engatando patrões e empregados no compromisso pelo sucesso da empresa através da produção e da produtividade do trabalho", contextualiza o historiador. "Criou-se mesmo uma ilusão perversa, a de que um não existiria sem o outro."

Vêm daí, relata Martinez, ideias como a de que o empregado precisa "vestir a camisa da empresa". Era a celebração de uma "paz social", ressalta o historiador, vendida por Henry Ford — um estratagema eficaz na contenção das insatisfações proletárias.

Se regulamentar o descanso se tornou uma necessidade sobretudo com o advento do capitalismo industrial e as jornadas cada vez mais desgastantes, é fato que o fim de semana de dois dias representou a quebra de um paradigma que vinha desde a antiguidade.

Um exemplo importante disso está no livro sagrado que está na base do mundo judaico-cristão.

Na concepção do mundo contada no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, Deus descansou no sétimo dia — depois de seis jornadas consecutivas de trabalho na obra da criação.

O relato não deixa de ser um registro de como os antigos lidavam com organização entre trabalho e descanso.

Mesmo antes de Ford, no entanto, houve casos pontuais de mudança. Professor de direito do trabalho na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o advogado Claudinor Roberto Barbiero cita, por exemplo, uma fábrica têxtil dos Estados Unidos que havia instituído em 1908 a semana de cinco dias com o objetivo de acomodar trabalhadores judeus que guardavam o sábado.

"A Ford deu escala e prestígio industrial ao modelo", enfatiza ele. "A prática deixou de parecer apenas uma concessão social e passou a ser vista como possível estratégia de gestão."

<><> Tempo e dinheiro

Henry Ford entendia que o progresso, ao mesmo tempo que poderia aumentar os ganhos do empresariado e a eficiência da produção, também deveria resultar em benefícios trabalhistas.

Àquela altura, ele já havia criado um programa de bônus por produtividade aos seus trabalhadores e, em 1914, criado certa polêmica entre outros industriais por decidir dobrar o piso salarial dos seus empregados.

O empresário argumentava que a própria linha de montagem possibilitava isso. Ao ser adotada na produção do modelo Ford T em 1913, o tempo necessário para um carro ficar pronto havia caído de 12 horas para pouco mais de 1h30.

Ford entendeu que os operários também deveriam ser recompensados de alguma forma por esse gigantesco salto de eficiência.

"Foi o crescimento das grandes corporações, com sua habilidade de usar o poder, o maquinário de ponta e, de forma geral, reduzir os desperdícios de tempo, material e energia humana que permitiu implementar a jornada de 8 horas diárias", reconheceu ele, no mesmo discurso de 1926.

"Nessa mesma linha, novos progressos tornam possível instituirmos também a semana de cinco dias."

Evidentemente, Ford respondia a uma demanda presente em sua época. Em artigo acadêmico publicado em junho de 1990 em The Journal of Economic History, o economista e historiador Robert Whaples, então professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, ressalta que, antes da Segunda Guerra, as lutas dos trabalhadores por menos horas de trabalho eram mais intensas do que as reivindicações por melhores salários.

Não é que o empresário fosse "bonzinho". "A motivação de Henry Ford não foi apenas humanitária", diz o professor.

Ele sabia o que estava fazendo — e como sua medida resultaria em melhores ganhos. Martinez analisa a decisão de Ford como consequência de "duas balizas" que regiam suas ações empresariais. Em primeiro lugar "a organização metódica do trabalho".

Ford era um expoente das "teorias científicas de administração e de gerenciamento da produção", contextualiza o historiador, "desde os espaços da fábrica, passando pela disciplina de horários, turnos e demais atividades e intervalos de descanso, até a divisão de tarefas entre equipes e indivíduos, do fiscal ao operador manual".

Na sua visão de negócios, para a indústria funcionar, tudo deveria seguir o roteiro.

O segundo ponto era justamente que a divisão "programada e organizada do trabalho completava-se na dimensão do consumo dos bens industrializados", ressalta Martinez. Isso alimentava "um mercado de consumo de massas, para uma produção massiva realizada por grandes contingentes de trabalhadores".

"Melhores salários e tempo livre completavam a fórmula para induzir e generalizar hábitos de consumo, expandindo assim a produção industrial", comenta o historiador. No fim do mês, a conta fechava — com lucros maiores.

"O próprio argumento empresarial era que a empresa poderia produzir tanto ou mais em cinco dias do que em seis, porque a redução da jornada forçaria melhores métodos, maior concentração e mais eficiência por hora trabalhada", diz Barbiero. Na lógica fordista, era possível ao menos tanta produção em cinco dias quanto em seis. "E provavelmente mais, porque 'a pressão traria melhores métodos'", explica o professor.

"Ford implantou uma equação bem-sucedida", analisa Martinez. "Buscava assegurar a disciplina e a regularidade do trabalho na fábrica, obtendo melhores resultados produtivos e econômicos, de um lado. E, de outro, estimulando hábitos e condições de consumo."

Isso vinha com salários melhores e jornadas de trabalho menores. "A satisfação financeira e o acesso ao mercado de consumo pela massa operária trariam a paz social, ancorada no ciclo ininterrupto entre trabalho, produção e consumo", conclui o professor da Unesp.

"Ford entendia que o trabalhador com tempo livre se tornaria também consumidor. Mais lazer significava mais passeios, viagens, compras e, no limite, mais uso e compra de automóveis", comenta Barbiero.

<><> No Brasil

O Brasil começou a resolver, ao menos na legislação, o problema das jornadas desumanas de trabalho apenas nos anos 1930. Dois decretos, um de março, outro de maio de 1932, limitaram a jornada em oito horas diárias de trabalho e seis dias por semana.

Era plataforma política do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). "[Governo este] com a construção de uma agenda trabalhista estatal, urbanização, industrialização e tentativa de organização das relações entre capital e trabalho", destaca Barbiero.

Em 1943, a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) reforçou os limites da jornada. Seis anos depois, uma outra lei passou a garantir o descanso semanal remunerado.

Para o advogado trabalhista Alessandro Vietri, pós-graduado na área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o aumento do direito ao descanso do trabalhador brasileiro foi "gradual e tardio", se comparado ao que ocorreu nos Estados Unidos.

Durante os debates da assembleia que criou a Constituição de 1988, que atualmente vigora no Brasil, havia propostas para que a jornada limite no país fosse de 40 horas semanais.

"A reação das bancadas de deputados e senadores alinhadas aos interesses empresariais, financeiros e comerciais, resistiram e o texto constitucional consagrou a jornada de 44 horas", afirma o historiador Martinez.

"Foi buscada uma compensação para esse acréscimo de horas, como a maior remuneração de horas-extras, o trabalho noturno, atividades de riscos, e assegurar outros direitos aos empregados."

"O fim de semana de dois dias 'pegou' no Brasil principalmente após a Constituição de 1988, mas não de forma universal", aponta Barbiero.

"A redução de 48 para 44 horas abriu espaço para a compensação do sábado em muitas empresas: em vez de trabalhar 8 horas de segunda a sexta e 4 horas no sábado, muitos empregadores passaram a distribuir as 44 horas em cinco dias, normalmente com jornadas próximas de 8h48 por dia."

"Em outros casos, especialmente em áreas administrativas, tecnologia, indústria mais estruturada e empresas com políticas internas mais competitivas, adotou-se a jornada de 40 horas semanais, com oito horas por dia, de segunda a sexta-feira", explica o advogado.

Vietri contextualiza que esse tipo de ajuste, no Brasil, acabou sendo viabilizado sobretudo por meio de acordos coletivos.

O tema sempre suscita diferentes pontos de vista. "Traz à tona um debate complexo sobre como equilibrar o bem-estar social e a viabilidade econômica", pondera Vietri.

"Vejo o fim de semana não apenas como período de descanso, mas um pilar da dignidade humana e da saúde mental do trabalhador, fundamentos estes que estão no cerne da nossa proteção constitucional".

Ele defende, contudo, que a mudança na organização das jornadas não seja feita de forma abrupta, para que as empresas, sobretudo as menores, consigam se preparar.

"O ponto mais interessante é que Ford percebeu algo que continua atual: o trabalhador não é apenas força de produção; ele também é parte do mercado consumidor", diz Barbiero.

"Ao pagar melhor e liberar tempo, Ford fortalecia a própria lógica de consumo que sustentava a indústria automobilística."

 

Fonte: Por Edison Veiga, de Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil

 

Gustavo Tapioca: O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro

A viagem de Flávio Bolsonaro a Washington não é apenas um gesto de campanha. É uma confissão política. Quem acredita que está ampliando sua base fala com o país. Quem teme perder a própria base corre para o bunker trumpista da ultradireita global.

Há momentos em que uma fotografia vale menos pelo que mostra do que pelo que tenta esconder. A imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump, depois de dias de expectativa, desgaste e constrangimento, não deve ser lida apenas como demonstração de força internacional. Deve ser lida, sobretudo, como operação de defesa. A foto não prova que Flávio cresceu. Revela que ele precisou se refugiar.

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Depois do escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento suspeito do filme Dark Horse, a candidatura de Flávio entrou em nova fase. A aposta inicial era apresentá-lo como um Bolsonaro mais palatável, menos explosivo, mais aceitável para o mercado, para a mídia conservadora e para setores da direita que desejavam derrotar Lula sem carregar todo o peso tóxico do bolsonarismo raiz.

<><> Essa operação sofreu um abalo profundo

O Brasil 247 publicou nesta quarta-feira, 27, que, após o encontro com Trump, Flávio teria reuniões no Departamento de Estado dos Estados Unidos e poderia cumprir agendas com parlamentares republicanos em Washington. No mesmo dia, o artigo “Estratégia de um derrotado” apontou a mudança essencial: Flávio estaria retomando o bolsonarismo raiz como estratégia defensiva para conter danos e preservar força política.

Daniela Lima, no UOL, chegou ao mesmo ponto por outro caminho. Segundo ela, rivais veem Flávio mudando a rota para buscar amparo no núcleo duro bolsonarista, tentando impedir que os eleitores mais fiéis a Jair Bolsonaro se desgarrem do herdeiro do clã antes da campanha oficial no rádio e na TV.

É aqui que a fotografia com Trump ganha seu verdadeiro sentido. Ela não é expansão. É contenção. Não é ponte com o centro. É trincheira para a extrema direita. Não é demonstração de segurança. É tentativa de recompor a moral da tropa.

Flávio não foi a Washington para convencer o eleitor moderado brasileiro. Foi para dizer ao bolsonarismo que ainda é o herdeiro reconhecido pelo chefe da ultradireita global. O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro.

<><> A candidatura que mudou de função

A pergunta que começa a circular nos bastidores é dura: a campanha de Flávio já teria concluído que a eleição de outubro está perdida para Lula? Não há prova pública disso. Nenhuma campanha presidencial admite derrota antes da hora. Mas os sinais apontam para uma mudança de função política da candidatura. Flávio ainda disputa para vencer. Mas talvez já esteja, ao mesmo tempo, disputando para não morrer.

Essa diferença é decisiva.

Vencer Lula em 2026 continua sendo o objetivo máximo da direita. Mas, se a vitória parecer cada vez menos provável, o objetivo realista passa a ser outro: chegar ao segundo turno, perder por margem administrável, manter a base bolsonarista unida, eleger um Congresso ainda mais hostil ao governo Lula e sair da eleição como líder natural da oposição para 2030.

Nesse cenário, uma derrota apertada não seria tratada como derrota. Seria transformada em narrativa.

Flávio diria que enfrentou Lula, a máquina federal, a Justiça, a imprensa, o sistema, o “globalismo”, os “comunistas” e quase venceu. Diria que foi vítima de perseguição. Diria que o escândalo Vorcaro foi armação. Diria que o povo conservador resistiu. Diria que 2030 começou no dia seguinte à apuração de 2026.

É por isso que a foto com Trump importa tanto. Ela não serve apenas para outubro. Serve para novembro. Serve para os quatro anos seguintes. Serve para preservar Flávio como ativo político, mesmo em caso de derrota.

<><> Valdemar olha para Flávio, mas pensa no PL

A entrevista de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, à GloboNews acrescenta outra camada à crise. Na leitura do professor João Cezar de Castro Rocha, Valdemar não parece empenhado em salvar a candidatura de Flávio Bolsonaro a qualquer custo. Parece empenhado em salvar o próprio PL. Essa diferença muda tudo.

Valdemar é menos um ideólogo do bolsonarismo do que um operador profissional da máquina partidária. Enquanto o sobrenome Bolsonaro rende votos, bancada, dinheiro público e poder de barganha, ele é protegido. Quando começa a contaminar o projeto eleitoral, passa a ser administrado como risco.

É nesse ponto que a foto com Trump ganha ainda mais sentido. Flávio não correu a Washington apenas para enfrentar Lula ou responder ao escândalo Vorcaro, ao qual está profundamente ligado. Correu também para mandar um recado ao próprio PL: ainda tenho Trump, ainda tenho base, ainda tenho valor eleitoral.

O Salão Oval virou bunker porque o perigo já não vem só de fora. Vem também de dentro da direita.

Valdemar pode até defender Flávio publicamente enquanto isso for conveniente. Mas sua prioridade é preservar o PL como maior máquina da direita brasileira. Se Flávio se mostrar inviável, o partido buscará outra saída. Valdemar Costa Neto não morre abraçado a candidato ferido. Ele calcula, recua, reposiciona-se e negocia. Afinal, o PL foi o partido que mais recebeu recursos do Fundo Partidário em 2025.

Segundo dados oficiais do TSE, o PL, partido do qual Valdemar é presidente, recebeu R$ 192,1 milhões em dotações orçamentárias do Fundo Partidário, mais R$ 16,4 milhões provenientes de multas eleitorais. Somando as duas fontes, o total chegou a R$ 208,6 milhões em 2025.

Flávio, portanto, precisava da foto. Precisava provar que ainda vale o custo político de ser mantido como candidato.

<><> A burguesia dividida

A análise de Breno Altman, no Opera Mundi, ajuda a organizar o quadro eleitoral. Segundo ele, aquilo que chama de burguesia — os donos do dinheiro e do poder — estaria hoje dividido em três frações.

A primeira é a que queria uma terceira via com força real, especialmente Tarcísio de Freitas. Tarcísio era o candidato ideal para parte do mercado e da direita liberal: conservador, privatista, com discurso de gestão, sem o estilo destrutivo de Jair Bolsonaro e com capacidade de dialogar com setores empresariais que temem a instabilidade do bolsonarismo puro-sangue. Mas Tarcísio preferiu disputar novamente o governo de São Paulo e esperar 2030.

Sem Tarcísio, essa fração do andar de cima ficou sem seu candidato dos sonhos. E, na falta de alternativa forte, passou a aceitar Flávio Bolsonaro como o candidato possível. Não por entusiasmo. Por cálculo. Não porque Flávio seja confiável. Mas porque carrega o sobrenome Bolsonaro, segura a base radical e pode levar a disputa ao segundo turno.

A segunda fração ainda procura uma terceira via. Olha para Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, Aécio Neves, Joaquim Barbosa e outros nomes que aparecem ou tentam aparecer nas pesquisas. Mas essa terceira via continua com o mesmo problema de sempre: existe nos editoriais, nos salões, nos institutos de pesquisa, nos seminários acadêmicos e nas conversas do mercado e do bar, mas não se transforma em força popular capaz de romper a polarização.

A terceira fração já trabalha com a hipótese de Lula vencer. Essa parte do poder econômico pode combater Lula publicamente e negociar com ele reservadamente. Pode financiar adversários e, ao mesmo tempo, abrir pontes com o governo. Pode fazer discurso contra o PT e pedir cargos, influência, garantias, juros, orçamento, obras, marcos regulatórios, controle sobre estatais, agronegócio, mineração, energia e sistema financeiro.

É o velho realismo das elites brasileiras: hostilidade no palanque, negociação na sala fechada e sem celular. A crise Vorcaro acelerou essa divisão. Antes dela, Flávio tentava ser candidato de ampliação. Depois dela, passou a ser candidato de contenção. Essa talvez seja a mudança mais importante.

O objetivo imediato não é mais convencer o Brasil de que Flávio é moderado. Essa fantasia perdeu força. O objetivo agora é convencer o bolsonarismo de que Flávio ainda é Bolsonaro. Que ainda tem Trump. Que ainda tem Washington. Que ainda tem a bênção simbólica da ultradireita global. Que ainda pode ser o nome de 2026. Ou, se necessário, de 2030.

<><> A eleição de 2030 já começou

Se Lula vencer em 2026, não poderá disputar uma nova reeleição consecutiva em 2030 pelas regras eleitorais. O campo democrático terá de construir outro nome, sem o mesmo recall popular, sem a mesma ligação afetiva com os setores mais vulneráveis da população e sem a biografia que fez de Lula uma exceção na história política brasileira.

Lula chegaria ao fim de um eventual quarto mandato com idade avançada, submetido ao desgaste natural de qualquer governo, ainda mais se cercado por um Congresso dominado pela direita. A oposição sabe disso. A burguesia sabe disso. O bolsonarismo também. Daí a estratégia provável: mesmo que Lula vença, ele precisa vencer cercado.

Cercado por uma Câmara mais conservadora. Cercado por um Senado mais bolsonarista. Cercado por CPIs, chantagens orçamentárias, sabotagens legislativas, bloqueios institucionais, crises fabricadas, guerra cultural permanente e pressão da mídia empresarial.

A direita pode aceitar perder o Planalto em 2026 se ganhar as condições políticas para inviabilizar o governo Lula e preparar 2030 como a eleição do “fim de ciclo”. Nesse sentido, 2026 pode deixar de ser apenas uma eleição presidencial. Pode se tornar a primeira batalha de 2030.

<><> O bunker e o futuro

Para Lula, o perigo não está apenas em Flávio vencer. Está também em Flávio perder preservando força.

Uma vitória de Lula contra um bolsonarismo desmoralizado abriria espaço para governar com mais legitimidade. Mas uma vitória apertada contra uma direita radicalizada, com bancada ampliada no Congresso e narrativa de revanche para 2030, poderia produzir um governo sitiado desde o primeiro dia. Esse é o plano possível da direita: se não puder derrotar Lula agora, que ao menos o impeça de governar.

Se não puder conquistar o Executivo, que capture o Legislativo.

Se não puder vencer 2026, que transforme 2026 em preparação para 2030.

Nesse desenho, Flávio Bolsonaro não precisaria sair de outubro como presidente. Bastaria sair como chefe da oposição. Bastaria chegar vivo. Bastaria perder sem ser destruído. Bastaria manter o sobrenome Bolsonaro como senha de mobilização permanente.

A foto com Trump, portanto, é mais do que uma imagem. É uma estratégia condensada. Ela diz que Flávio voltou ao lugar de onde nunca saiu: o bolsonarismo raiz. Diz que a direita liberal continua órfã de um candidato plenamente confiável.

Diz que a burguesia se divide entre o bolsonarismo possível, a terceira via improvável e a negociação pragmática com Lula.

Diz que Valdemar Costa Neto já calcula menos a salvação de Flávio do que a sobrevivência do PL. Diz que 2026 pode ser disputado como eleição presidencial, mas também como ensaio geral de 2030. E diz, sobretudo, que Flávio Bolsonaro já não tenta apenas parecer forte. Tenta impedir que sua fraqueza vire colapso.

O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro porque abriga uma candidatura ferida, uma direita sem rumo único e um projeto autoritário que ainda não desistiu do Brasil.

Lula pode vencer 2026. Mas a pergunta decisiva é outra: vencerá com força suficiente para governar? Ou vencerá cercado por uma direita que já terá transformado sua derrota em plano de guerra para 2030?

Esse é o verdadeiro sentido da viagem a Washington.

Flávio foi buscar em Trump não apenas uma foto. Foi buscar oxigênio. Foi buscar abrigo.

Foi buscar tempo.

¨      "Factóide bolsonarista para desviar atenção do caso Master', diz Alckmin após EUA classificarem PCC e CV como terroristas

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), criticou nesta sexta-feira (29) a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. 

Segundo ele, a medida pode provocar impactos econômicos negativos para o Brasil sem representar avanços concretos no combate ao crime organizado e que aliados de Jair Bolsonaro (PL) estariam utilizando o tema para desviar a atenção de denúncias relacionadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro. 

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Ao comentar a repercussão da decisão estadunidense, o vice-presidente fez críticas ao entorno político de Bolsonaro e associou a mobilização em torno do tema a uma tentativa de mudar o foco do debate público. “O que eu lamento nesse episódio é que, infelizmente, membros do clã Bolsonaro pensam mais em si do que no país. Então, para sair desse tema do Banco Master, o maior caso de corrupção e sonegação de tributos, aí ficam gerando factoides para desviar a atenção. Pensam mais em si do que no país, isso é ruim para o Brasil”, disse Alckmin durante coletiva de imprensa em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo.

<><> Impactos econômicos preocupam o governo

Alckmin afirmou que a classificação das facções como organizações terroristas pode trazer consequências para a economia brasileira, especialmente no sistema financeiro. “Pode ter consequências na área do sistema financeiro, na área da economia, não vai resolver nada em termos de combate ao crime e pode prejudicar a economia”, afirmou.

Na avaliação do vice-presidente, o enfrentamento ao crime organizado já é realizado pelas autoridades brasileiras por meio de operações permanentes e ações integradas entre órgãos de segurança.

<><> Operação Fluxo Oculto foi citada como exemplo

Na entrevista, Alckmin destacou a Operação Fluxo Oculto, deflagrada nesta semana pela Polícia Federal em um desdobramento da Operação Carbono Oculto, como uma demonstração da capacidade do Estado brasileiro de combater organizações criminosas em diferentes níveis. “A Operação Fluxo Oculto não pegou só quem estava ali na ponta, mas pegou toda a cadeia, envolvendo importadores, navios, refinarias. Então esse é um trabalho permanente”, disse.

 

Fonte: Brasil 247

 

Stephen Maher: Não é neofeudalismo, é hipercapitalismo

Um dos dogmas mais persistentes da esquerda atualmente é a ideia de que o investimento produtivo está dando lugar à especulação improdutiva, levando ao “esvaziamento” da economia industrial e ao declínio do capitalismo. Afinal, parece óbvio que os capitalistas preferem ganhar dinheiro rápido do que entrar no árduo e arriscado processo de produzir realmente algo. O neofeudalismo está em voga.

Esses argumentos geralmente estão focando o suposto papel parasitário das finanças e do “capital fictício”.

Mais recentemente, porém, eles expandiram o argumento para descrever um emergente “capitalismo rentista”, no qual a extração de rendas por meio do poder monopolista e controle sobre o Estado deslocou a produção como principal meio pelo qual os capitalistas acumulam riqueza. Na realidade, a distopia que se desenrola ao nosso redor não é resultado do colapso da lógica do capitalismo, mas da expressão direta dessa lógica.

Em um artigo recente no portal Sidecar, por exemplo, Dylan Riley reitera o ponto importante frequentemente associado ao seu coautor, Robert Brenner, de que a “dependência generalizada do mercado” é a base do capitalismo. Ou seja, a característica definidora do capitalismo é que ele é um sistema no qual tanto a classe dominante quanto as massas trabalhadoras dependem do mercado para seu bem-estar.

Entre outras coisas, isso tem implicações fundamentais para a compreensão da transição para o capitalismo, resumida brevemente por Dylan Riley no artigo. Isso nos leva a focar nas relações de produção dentro das sociedades ao invés se concentrar apenas suas conexões comerciais externas com um “sistema mundial”, para determinar a natureza de seu modo de produção.

Dylan Riley insiste que a crítica de esquerda não deve ser direcionada a capitalistas específicos e suas histórias específicas de violência, mas sim à lógica do capitalismo. No entanto, sua afirmação posterior de que os capitalistas hoje acumulam cada vez mais riqueza por meio da busca de rendas, extração política e pilhagem, em vez de “investimento produtivo”, é conceitualmente confusa e carece de suporte empírico. Na verdade, essas afirmações se baseiam justamente na falta de análise da “dinâmica do sistema” e “suas leis do movimento”, que ele justamente denuncia.

Para começar, pode-se perguntar: qual é a fonte da “renda” que esses capitalistas supostamente extraem? Para que o valor seja extraído na forma de renda, ele deve ser produzido primeiro. A única maneira de contornar essa exigência seria adotar a visão neoclássica de que o poder de precificação das empresas cria valor do nada.

Se partirmos de um arcabouço que entende o valor como resultado de processos materiais reais realizados por seres humanos reais, essa explicação não é muito satisfatória. O aluguel, junto com lucro e juros, deve, portanto, ser entendido como um direito a um fundo finito de plusvalência produzido em toda a economia, como mostra Karl Marx.

Isso, por sua vez, implica relações específicas – sistêmicas – entre renda e lucro. Renda é uma dedução da produção total gerada em toda a economia. Isso significa que não pode expandir-se sem limites. Ele é limitado pelo que realmente foi produzido. Se o aluguel for subtraído do lucro, isso só pode ir até certo ponto antes que a produção deixe de ser viável – minando assim a fonte do aluguel e a reprodução de todo o sistema. O “incentivo ao lucro” (nos termos de Marx) deve ser suficiente para levar os capitalistas a investir em atividades produtivas, ou a própria renda se torna impossível.

Se as atividades rentistas fossem sistematicamente mais lucrativas do que o investimento produtivo, então todos os capitalistas tentariam se tornar rentistas, como Dylan Riley sugere. E se isso acontecesse, a enxurrada de capital nesses setores intensificaria a competição e empurraria os retornos para a média social.

Esse é o cerne da teoria da concorrência em Marx e é o mesmo que se encontra em qualquer escola de negócios: o capital é retirado de setores com retornos abaixo da média e direcionado para aqueles com retornos acima da média, resultando em uma tendência de equalização da taxa de lucro. Isso não significa que os lucros não possam ser maiores em um setor do que em outro. Isso apenas implica que o investimento buscará os maiores retornos e que esse investimento afeta a capacidade e, portanto, a competição e os lucros.

Assim, retornos persistentemente acima da média exigem a existência de alguma barreira para a equalização competitiva da taxa de lucro. Algumas empresas precisam ser capazes de impedir que outros capitais entrem nesses setores devido ao seu controle sobre alguma condição de produção ou circulação que outros não podem reproduzir ou acessar. Em outras palavras, eles devem possuir poder de monopólio. Na verdade, é exatamente assim que Marx define a renda: renda derivada de vantagens específicas de mercado que não podem ser eliminadas pela concorrência.

Se abandonarmos a ligação de Marx entre renda e monopólio, então a renda pode passar a se referir a qualquer renda derivada da propriedade. Mas todos os capitalistas possuem e controlam as condições de produção e circulação: fábricas, armazéns, sistemas logísticos, software, marcas, redes de clientes, patentes, sistemas de pagamento, plataformas, etc. Se for entendido que apenas propriedade gera renda, então o lucro como categoria distinta tende a desaparecer completamente do aluguel.

Diante de tudo isso, a análise de Dylan Riley sugere efetivamente que o capitalismo está sendo substituído por alguma forma de “neofeudalismo”, já que a acumulação de riqueza por meio do “saque” mina a competição e leva à suspensão das “leis do movimento” do capitalismo.

No entanto, isso não é respaldado empiricamente. Como Scott Aquanno e eu demonstramos em um artigo recente na Review of Radical Political Economics, as grandes empresas de tecnologia que frequentemente são alvo desses debates não têm obtido lucros acima da média de forma consistente. Seus lucros oscilaram em torno da média. Também não há evidências de que a mobilidade do capital na economia tenha sido reduzida da forma que os argumentos de “capital monopolista” ou “capitalismo rentista” exigiriam.

Isso significa que, mesmo assumindo que as atividades dessas empresas são totalmente “improdutivas” (o que não é realmente o caso), a renda delas não é aluguel. Na verdade, seriam o que Marx chama de “lucro comercial”, ou seja, o lucro obtido por capitais que desempenham funções de circulação e realização.

Google, Meta, Amazon e outras empresas similares não apenas extraem valor de empresas produtivas, mas constroem e gerenciam infraestruturas que outros capitais usam para circular bens, reduzir tempos de rotatividade, obter plusvalor e competir de forma mais eficaz.

As empresas mercantis estão sujeitas à disciplina competitiva de melhorar continuamente – até mesmo revolucionar – as condições de circulação. Isso inclui infraestrutura de telecomunicações, armazenagem e logística, além de publicidade. Dessa forma, a análise de Marx sobre o capitalismo continua a oferecer uma explicação poderosa dos rápidos processos de desenvolvimento tecnológico e logístico que testemunhamos ao nosso redor todos os dias. Longe de se afastarem das leis do movimento do capitalismo, essas dinâmicas são expressões cristalinas deles.

Como Dylan Riley sugere, capitalistas certamente odeiam competição. Todos querem destruir seus rivais e conquistar o poder de monopólio. Mas isso simplesmente não é possível. Nada pode impedir o que Anwar Shaikh chama de “guerra entre empresas”, já que as empresas lutam para maximizar sua parte do superávit social total – especialmente quando as grandes finanças podem fornecer às grandes corporações o poder de fogo necessário para derrubar quaisquer barreiras à concorrência na busca de lucros acima da média. A competência não é contingente, mas constitutiva do sistema.

Por fim, a ideia de que as empresas não estão fazendo “investimentos produtivos” é simplesmente um mito. As empresas centrais do capitalismo contemporâneo estão investindo massivamente em capital fixo, logística, software, data centers, inteligência artificial, infraestrutura energética e cadeias globais de suprimentos. O investimento empresarial continua alto, os gastos em pesquisa e desenvolvimento cresceram, a inovação tecnológica avançou rapidamente e empresas líderes continuam presas em uma competição acirrada de preços. Teorias do monopólio têm dificuldade em explicar todas essas dinâmicas.

Não estamos diante de um capitalismo que está desmoronando ou caindo no rentismo, mas sim de um sistema forte, lucrativo, dinâmico e competitivo. E esse é exatamente o problema.

•        O tempo da crítica. Por Tiago Ferro

Há um ponto em que a gramática habitual da política – convicção, programa, identidade – entra em colapso. Aparentemente não por esgotamento interno, mas porque algo externo a ela passa a disputar o próprio terreno do jogo: forças de caráter fascista se tornam candidatas viáveis e, mais grave, normalizadas nos processos eleitorais. Nesse cenário, o voto deixa de ser apenas expressão e passa a funcionar como contenção.

A esquerda (aqui pensada em termos amplos, incluindo os chamados progressistas, grupos organizados por identidades e o que restou de movimentos trabalhadores), que historicamente reivindica o voto como gesto de afirmação de valores, de projetos de sociedade e de horizontes emancipatórios, vê a si própria constrangida a operar de forma defensiva. Não se trata mais de escolher “o melhor”, mas de impedir “o pior”. O voto útil, antes um expediente tático ocasional, transforma-se em regra estrutural. E com isso, desloca-se o próprio sentido da participação política: votar já não é dizer o que se quer, mas o que não se deve permitir.

A mudança interessa. Gera, se não estamos enganados, uma reorganização do tempo da crítica. Antes da eleição, instala-se uma espécie de estado de exceção crítico: qualquer ataque a candidaturas com maior capacidade de derrotar a opção fascista passa a ser visto como irresponsável, ou mesmo, cúmplice. A crítica, nesse momento, é rebaixada a ruído perigoso. Ela não desaparece, mas é moralmente deslegitimada: “não é hora disso”. Depois da eleição, o paradoxo se aprofunda. A lógica de contenção não é desativada com a derrota eleitoral do fascismo, já que sua ameaça se estabelece definitivamente no horizonte. A crítica às gestões eleitas sob o signo do “mal menor” tende a ser novamente inibida, agora sob o argumento de que qualquer desgaste pode pavimentar o retorno das forças autoritárias. A exceção se prolonga no tempo (afinal, quando começa e quando termina o pós e o pré eleições?), e o provisório adquire feição permanente – a política se torna onipresente ao mesmo tempo que impotente.

É nesse ponto que o problema do “tempo da crítica” deixa de ser apenas conjuntural e revela uma história mais longa, e, no caso brasileiro, um impasse específico. Nos anos 1950 e 1960, figuras como Mário Pedrosa encarnaram uma forma de crítica que não reconhecia fronteiras rígidas entre estética e política; mais do que isso, tiravam a força de suas análises justamente dessa relação. Sua escrita atravessava obras, movimentos artísticos e acontecimentos históricos com a mesma intensidade, revelando a forma artística (no caso de Pedrosa, as artes plásticas) e a forma política como aspectos de um mesmo processo social. A crítica funcionava como intervenção: tentativa de reorganizar o campo de forças que disputavam a sociedade.

Esse modelo implicava um pressuposto hoje rarefeito: o de que a crítica pode produzir efeitos reais, ou seja, não apenas interpretar ou avaliar, mas deslocar práticas, tensionar instituições e abrir possibilidades – haveria uma longa lista de intelectuais da periferia capitalista, no pós-Segunda Guerra, que encarnou esse ideal. Ao imbricar crítica artística e crítica política, Pedrosa operava num momento em que ainda era possível imaginar uma continuidade entre transformação cultural e transformação social, e o futuro da periferia do sistema ainda não era a decomposição do pouco que havia sido alcançado com o nosso processo civilizatório sempre a reboque.

O que se perde, então, entre aquele momento e o nosso? Em parte, a própria condição de possibilidade dessa crítica. A expansão e a onipresença do mercado capturam e neutralizam a crítica ao convertê-la em mais um elemento de circulação simbólica (como suporte de mercadorias): opinião e avaliação. O que antes pretendia desestabilizar, passa a ser integrado como valor agregado positivo. Mas há ainda o segundo movimento: a própria esquerda passa a desconfiar desse tipo de crítica, sob a bandeira de que se deve buscar a convergência de opiniões (no fim, sempre desembocando no mercado e sentenciando qualquer plataforma de esquerda a algum tipo de frustração futura). Desconfia-se então não apenas da crítica externa, mas da crítica interna, que passa a ser vista como fator de divisão ou elitismo teórico – tudo isso mais ou menos justificado por conta do risco (real) fascista.

Se nos anos de Pedrosa a crítica era uma prática que tensionava o mundo em nome de sua transformação, hoje, ela frequentemente aparece como algo a ser contido em nome da sobrevivência. O deslocamento é profundo: da crítica como força produtiva à crítica como risco. E isso ajuda a entender por que, no cenário eleitoral marcado pela opção fascista, ela se torna tão facilmente interditada. 

A evocação de Pedrosa não é tratada aqui como nostalgia, mas como índice de um problema: o desaparecimento de uma figura de crítico capaz de habitar simultaneamente o campo simbólico e o campo político sem ser imediatamente neutralizado por um ou por outro. Hoje, quando a crítica tenta se exercer, ela é rapidamente capturada: pelo mercado, que a transforma em adorno; ou pela urgência política, que a transforma em ameaça.

Há ainda uma consequência importante e difusa desse esquema de um novo tempo da política: ao deslocar o voto da esfera da convicção para a da contenção, altera-se também o “antes” e o “depois” da eleição no plano subjetivo. O eleitor que vota reiteradamente contra algo, e não por algo, tende a experimentar uma relação mais frágil com o resultado. A identificação com o governo eleito é menor, a expectativa é rebaixada e a disposição para defendê-lo no longo prazo pode se corroer (qualquer semelhança com a mais recente rodada do PT no governo federal não é mera coincidência). Paradoxalmente, a estratégia que impede o avanço autoritário pode, se prolongada sem mediações, produzir um campo democrático desmobilizado e cínico (qualquer semelhança com a mais recente rodada do PT etc. etc.).

Isso não significa que “rifar” o voto (no sentido de priorizar a derrota do fascismo) seja um erro. Em muitos contextos, pode ser uma necessidade histórica incontornável. Mas reconhecer essa necessidade não deveria implicar naturalizá-la como horizonte permanente, ou, pior, rifar a própria consciência. O desafio está em reabrir o espaço da política como escolha positiva, e não apenas como bloqueio do pior; isso em tempos de descrédito completo do liberalismo (que segue vivo) e do desaparecimento da alternativa socialista (morta até segunda ordem); tempo ainda marcado e condicionado pelos pressupostos da modernidade, mas que exige a reinvenção total da sociedade a partir do funcionamento de suas ruínas.

A crítica, em momentos extremos, pode ser a própria condição para que o campo democrático não se reduza à mera gestão do medo, ou pior, da barbárie. Nesse caso, o que o esquema aqui proposto (conjuntural e histórico) encontra, é menos a falência de uma certa forma de pensar a sociedade, mas o esgotamento de suas condições. A soma dos pleitos em que fomos “obrigados” a referendar o liberalismo como opção única a conter a ameaça fascista parece impor uma questão decisiva: o que é esquerda hoje? Refletida com honestidade, a resposta revela não apenas o que temos evitado a cada nova eleição, mas, principalmente, se o tipo de sociedade que ajudamos a construir não é também a causa da possibilidade do pior.  

 

Fonte: A Terra é Redonda/Blog da Boitempo