segunda-feira, 2 de março de 2026

Instagram vai alertar pais sobre buscas por suicídio; associações dizem que medida é insuficiente

Pais que utilizam ferramentas de supervisão do Instagram passarão a receber notificações caso seus filhos adolescentes pesquisem repetidamente na plataforma termos relacionados a suicídio ou automutilação.

A medida marca a primeira vez em que a Meta decide alertar proativamente responsáveis sobre os hábitos de pesquisa dos jovens.

Até então, a empresa limitava-se a bloquear determinadas buscas na plataforma e direcionar usuários para serviços externos de apoio.

O novo recurso começará a ser implementado a partir da próxima semana para famílias que participam do programa de Contas para Adolescentes do Instagram no Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Canadá.

Segundo a empresa, a intenção é expandir a funcionalidade gradualmente para outros países.

A iniciativa, porém, foi duramente criticada pela organização britânica de prevenção ao suicídio Molly Rose Foundation, que alertou que as medidas "podem causar mais danos do que benefícios".

"Esse anúncio é cheio de riscos. Temos medo que divulgações forçadas possam causar mais danos do que benefícios", afirmou Andy Burrows, diretor-executivo da Molly Rose Foundation.

A entidade foi criada pela família de Molly Russell, adolescente que tirou a própria vida em 2017, aos 14 anos, após ter sido exposta a conteúdos sobre automutilação e suicídio em plataformas digitais, incluindo o Instagram.

Burrows acrescentou que "todo pai gostaria de saber se o filho está em lutando contra algo, mas essas notificações frágeis podem deixar os responsáveis em pânico e despreparados para as conversas sensíveis e difíceis que virão depois".

A Meta afirma que os alertas enviados aos pais quando adolescentes pesquisarem no Instagram conteúdos sobre suicídio e automutilação em um curto intervalo de tempo serão acompanhados de materiais produzidos por especialistas, com orientações sobre como lidar com a situação.

Mesmo assim, o pai de Molly, Ian Russell, que fundou a organização em homenagem à filha, continu cético quanto à eficácia da medida.

"Imagine ser pai de um adolescente e receber, no trabalho, uma mensagem dizendo que seu filho pode estar pensando em tirar a própria vida… não sei como reagiria", disse ele à BBC.

"Mesmo que a Meta diga que vai oferecer apoio para aquele pai, naquele momento de pânico que você recebe uma notícia assim sobre o próprio filho, não me parece uma forma muito sensata de lidar com a situação", acrescentou.

<><> 'Negligenciando o verdadeiro problema'

Diversas organizações, entre elas a Molly Rose Foundation, afirmam que o anúncio da Meta representa, na prática, um reconhecimento de que algo mais poderia ser feito para proteger crianças e adolescentes no Instagram.

Ged Flynn, diretor-executivo da organização Papyrus Prevention of Young Suicide, disse que, embora a entidade veja a iniciativa com bons olhos, a empresa estaria "negligenciando o verdadeiro problema, que é o fato de crianças e jovens continuarem sendo atraídos para um ambiente online sombrio e perigoso".

"Pais entram em contato conosco todos os dias para dizer o quanto estão preocupados com seus filhos na internet", afirmou ele à BBC.

"Eles não querem ser alertados depois que seus filhos já buscaram conteúdos prejudiciais; não querem que isso lhes seja oferecido de bandeja por algoritmos."

Já Leanda Barrington-Leach, diretora-executiva da organização de defesa dos direitos das crianças 5Rights, afirmou que, "se a Meta pretende levar a segurança infantil a sério, precisa repensar completamente seus sistemas e torná-los adequados à idade desde a concepção e por padrão".

Burrows também citou pesquisas anteriores feitas pela fundação que indicam que o Instagram ainda recomenda "ativamente" conteúdos prejudiciais sobre depressão, suicídio e automutilação para "jovens vulneráveis".

"O foco deveria estar em enfrentar esses riscos, e não em fazer mais um anúncio oportunista que transfere a responsabilidade para os pais", acrescentou.

A Meta contestou as conclusões do estudo publicado em setembro do ano passado, afirmando que ele "distorce nossos esforços para empoderar pais e proteger adolescentes".

<><> Maior escrutínio

Os novos alertas foram criados para informar os pais quando houver uma mudança repentina no comportamento e nos hábitos de busca de seus filhos dentro da plataforma.

Em uma publicação oficial, a Meta afirmou que a medida complementa as proteções já existentes no Instagram para adolescentes, que incluem ocultar conteúdos relacionados a suicídio e automutilação, e bloquear pesquisas por assuntos considerados perigosos.

As notificações serão enviadas aos pais por e-mail, mensagem de texto, WhatsApp ou no próprio aplicativo do Instagram, dependendo das informações de contato que a Meta possuir das famílias.

Segundo a Meta, os novos alertas do Instagram, baseados em padrões de busca dos usuários, podem ocasionalmente alertar os pais sem que haja um motivo real para preocupação, pois "priorizarão a cautela"

O pesquisador Sameer Hinduja, codiretor do Cyberbullying Research Center, disse que receber esse tipo de alerta "obviamente" assusta qualquer responsável.

Mas ele disse à BBC que "o que importa não é apenas o alerta em si, mas a qualidade das informações e recursos que os pais vão receber para orientá-los sobre o que fazer em seguida."

"Você não pode simplesmente enviar uma notificação dessa para um dos pais e deixá-lo se virar sozinho, e parece que a Meta entende isso", acrescentou Hinduja.

O Instagram também disse que planeja, para os próximos meses, ter alertas semelhantes caso adolescentes discutam automutilação e suicídio com seu chatbot de IA, já que as crianças "recorrem cada vez mais à IA em busca de apoio".

As plataformas de redes sociais têm enfrentado uma pressão crescente de governos em todo o mundo para tornar suas plataformas mais seguras para crianças.

No início do ano, a Austrália proibiu redes sociais para menores de 16 anos, e Espanha, França e o Reino Unido estudam medidas semelhantes.

Enquanto isso, órgãos reguladores e legisladores estão analisando de perto as práticas comerciais das grandes empresas de tecnologia em relação aos jovens usuários.

Executivos da empresa, incluindo Mark Zuckerberg e Adam Mosseri, compareceram recentemente a tribunal nos Estados Unidos para responder a acusações de que a empresa teria direcionado seus produtos a usuários mais jovens.

 

Fonte: BBC News

 

Como 'engenharia de sonhos' poderia nos deixar mais felizes — ou nos fazer comprar mais

Há séculos, a humanidade tenta entender de onde vêm os sonhos e qual a sua função. Agora, alguns pesquisadores do sono afirmam que poderemos em breve não apenas interpretar os sonhos, como também moldá-los.

Cientistas que atuam no emergente campo da dream engineering (engenharia de sonhos, em tradução livre) dizem que, ao introduzir ideias na mente no momento em que adormecemos, pode ser possível orientar o que vivenciamos durante o sono.

Pesquisas iniciais indicam que a prática pode ajudar a melhorar a aprendizagem, estimular a criatividade e até aliviar traumas.

<><> Um sonho dirigido por design

O escritor e artista Will Dowd, de Braintree, Massachusetts (EUA), afirma que sente ter se tornado um "quase sonhador profissional".

Incapaz de ler devido a uma condição degenerativa que afetou sua visão e mobilidade, ele começou a experimentar uma técnica conhecida como dream incubation (incubação de sonhos, em tradução livre). O método consiste em expor a mente a breves estímulos em áudio no momento em que a pessoa adormece.

"Fiquei me perguntando se poderia programar meus sonhos com literatura", diz. Ao usar gravações de poemas reproduzidas enquanto adormecia, Dowd relata que suas noites passaram a se encher de imagens vívidas: atravessar uma cidade misteriosa devastada por uma enchente gigantesca ou correr com raposas sobre ondas iluminadas pela lua.

"Eu quase compararia a sonhos de superação, que encorajam a motivação", afirma. Os sonhos se tornaram a base de um livro (ainda não lançado) e, talvez o mais importante para ele, ofereceram uma sensação de escapada. "Eu senti como se tivesse saído para um mundo e voltado."

<><> A ciência

A "incubação de sonhos" não é novidade. Culturas da Grécia Antiga e da Tailândia utilizavam templos para buscar orientação por meio dos sonhos. O interesse moderno em influenciar o conteúdo dos sonhos ganhou força no início dos anos 2000, quando o professor Robert Stickgold, da Universidade de Harvard (EUA), constatou que pessoas que haviam jogado o videogame Tetris frequentemente viam formas caindo ao adormecer, fenômeno que ficou conhecido como efeito Tetris.

"Ficamos simplesmente extasiados. Demonstramos, pela primeira vez, que é possível influenciar o conteúdo dos sonhos", diz Stickgold.

Hoje, pesquisadores como Adam Haar Horowitz, cientista cognitivo que trabalha com a Universidade de Harvard e com o MIT (EUA), desenvolvem tecnologias capazes de orientar os sonhos de forma mais deliberada.

Um dispositivo que ele ajudou a criar, o Dormio, monitora sinais fisiológicos enquanto a pessoa adormece e emite um comando verbal, por exemplo, "lembre-se de sonhar com água", no momento exato em que ela entra em um estado conhecido como hipnagógico. É a fase em que experimentamos fluxos de imagens visuais vívidas ao adormecer. Um estudo constatou que mais de 70% dos participantes relataram ter sonhado com um tema específico após receberem um comando para sonhar com ele por meio do Dormio.

O interesse de Haar Horowitz tem origem em experiência pessoal: após um trauma na infância, sua mãe sussurrava frases tranquilizadoras enquanto ele dormia, o que alterou os pesadelos recorrentes que enfrentava. "Começou a mudar meus sonhos, superei aqueles pesadelos e deixei de ter tanto medo", afirma.

Ele acredita que a "engenharia de sonhos" abre uma fronteira científica inteiramente nova. Segundo ele, uma vez que seja possível orientar sonhos com sucesso, fica viável criar grupos que possam ser monitorados e comparados cientificamente.

<><> Curando o trauma

Para algumas pessoas, os sonhos desempenharam um papel inesperado na forma como elas lidavam com luto. Mare Lucas, da Califórnia (EUA), sofreu anos de pesadelos após a morte de seu filho adolescente, Zane. Mas depois de passar por uma cirurgia para tratar um câncer de mama, ela acordou da anestesia com uma sequência de sonhos vívidos, afetuosos e reconfortantes com o filho, o que pareceu interromper os pesadelos que vinha tendo.

"Não tive um único pesadelo em dois anos e meio", diz. "Isso mudou a minha vida."

A experiência dela reflete uma linha de pesquisa atualmente aprofundada por uma equipe da Universidade Stanford (EUA). A pesquisadora Pilleriin Sikka afirma que, embora a anestesia não seja o mesmo que o sono "normal", muitos pacientes relatam sonhos surpreendentemente positivos sob anestesia, que parecem ter efeitos terapêuticos significativos quando o despertar ocorre de forma mais gradual do que o habitual após uma cirurgia.

A expectativa é que, no futuro, isso possa ajudar pessoas a lidar com condições como transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade generalizada e depressão.

"Isso poderia ser uma terapia independente para indivíduos fora do contexto cirúrgico; talvez, um dia, existam clínicas de sonhos", afirma.

<><> A ética

À medida que o interesse científico pela "engenharia de sonhos" cresceu, aumentou também o debate sobre o seu uso ético.

Em 2021, a marca de cerveja Coors, dos EUA, produziu um anúncio baseado em "incubação de sonhos", incentivando as pessoas a adormecer depois de assistir a imagens surreais com vales montanhosos, cachoeiras e um peixe falante de cartola segurando uma lata de cerveja.

Na prática, a marca estimulava o público a assistir ao vídeo antes de dormir, o que, segundo a empresa, incentivaria sonhos com o produto.

A campanha gerou reação de alguns cientistas da área, entre eles Robert Stickgold e Adam Haar Horowitz, que assinaram uma carta aberta criticando o uso da técnica para fins publicitários.

"A indústria da publicidade deveria deixar nosso sono em paz", diz Stickgold. "É nosso último reduto de privacidade."

Outros especialistas, como a pesquisadora de sonhos Deirdre Barrett, da Universidade de Harvard (EUA), consideram esses temores exagerados e afirmam que a influência sobre os sonhos continua sutil quando comparada à publicidade convencional.

Barrett, que foi consultada pela Coors durante a concepção do anúncio, afirma que o projeto foi uma oportunidade de apresentar a ideia de "incubação de sonhos" a um novo público.

A BBC apresentou as críticas à campanha da Coors à empresa controladora da marca, Molson Coors, mas a companhia não respondeu.

<><> Por que sonhar, afinal?

Para Haar Horowitz, a "engenharia de sonhos" não se resume à ciência ou à tecnologia, mas à recuperação de uma parcela significativa de nossas vidas.

"Um terço de cada dia soma um terço de um ano, que soma um terço de uma vida", afirma. "Os sonhos são um espaço em que você pode fazer mais, pensar mais, construir mais. Então, vejo isso como uma forma de dizer: 'Não vou mais perder um terço da minha experiência psicológica.'"

À medida que as pesquisas avançam, o mundo dos sonhos deixa de ser apenas uma fronteira passiva da mente. Ele se tornou um campo de disputa entre aqueles que o veem como um espaço que pode ser explorado ativamente e utilizado para fortalecer a saúde mental, e aqueles que o encaram como mais uma plataforma para vender produtos.

 

Fonte: BBC World Service

 

Alternativa aos agrotóxicos, ‘pesticidas naturais’ são ligados à morte precoce de abelhas em estudo

FABRICADOS a partir de organismos vivos e substâncias naturais para o controle de pragas nas lavouras, os biopesticidas prometem causar menos danos à saúde e ao meio ambiente do que os agrotóxicos. No entanto, pesquisadores brasileiros estão descobrindo que não é bem assim.

Um estudo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) identificou que abelhas polinizadoras — necessárias para produção de alimentos, reprodução de plantas e equilíbrio de ecossistemas —, morrem mais cedo por conta de alguns dos biopesticidas mais comercializados no país. O cenário se agrava pois esses produtos — também conhecidos como “pesticidas biológicos” ou “agentes de controle biológico” — estão batendo recordes de venda.

O problema é que, diferentemente dos agrotóxicos, os biopesticidas não passam por estudos rigorosos para avaliação de risco durante o processo de registro no Brasil. Isso significa que há efeitos adversos ignorados por produtores, pesquisadores e órgãos de regulação.

A constatação é do artigo “A pertinência da avaliação dos efeitos adversos potenciais dos biopesticidas sobre as abelhas”, recém publicado na Revista Brasileira de Agroecologia. Por meio de revisão de literatura científica, a análise identificou que 7 dos 12 agentes biológicos mais usados no país provocam danos às abelhas. Cada biopesticida corresponde a um ingrediente ativo, que pode ser comercializado por dezenas de fabricantes. No caso das 12 substâncias analisadas pela UFSC, há 571 diferentes marcas disponíveis no mercado.

Um exemplo de impacto às abelhas citado no estudo é a interação de dois biopesticidas à base de bactérias (um com Bacillus   thuringiensis aizawai e outro com B. amyloliquefaciens), que provocou a redução de 4,5 dias da vida útil dos insetos. Em testes nos quais as abelhas foram expostas a cada produto individualmente, a redução da vida útil subiu para 8 dias.

Na espécie apis mellifera (abelha com ferrão comum na apicultura), as operárias vivem de 32 a 45 dias, o zangão, 80, e a rainha, de dois a cinco anos. Na espécie de meliponíneos (abelha sem ferrão, também polinizadora), a operária vive em torno de 45 dias e a rainha reprodutora pode chegar a dois anos.

Abelha em floração de batatas. Os insetos polinizadores são fundamentais para segurança alimentar e equilíbrio dos ecossistemas (Foto: Pixabay)

A pesquisa destaca que a dispensa de análise de risco para o registro dos bioinsumos impede prevenir os possíveis danos às abelhas. “O fato de [a legislação brasileira] não exigir estudos impede saber quais desses produtos causam danos às abelhas. Isso só será descoberto tarde demais”, afirma Rubens Nodari, professor do Departamento de Fitotecnia do Programa de Pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais da UFSC e coautor do estudo.

A falta de análise de risco no registro desses produtos pode mascarar as reais causas de mortandades de abelhas, avalia o biólogo José Maria Gusman Ferraz, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e ex-integrante da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, que atua na regulamentação de organismos geneticamente modificados).

“Muita mortalidade de abelha pode estar indo para a conta dos agrotóxicos e, na verdade, pode ser efeito sinérgico ou efeito desses bioinsumos que a gente não está medindo”, diz Ferraz. Efeito sinérgico é quando os impactos são provocados pela interação de dois produtos.

Nodari, da UFSC, enfatiza que o uso de caldas à base de organismos vivos para controle de pragas na agricultura é secular, resistem ao tempo e muitas delas têm baixíssimo risco. “O problema não é o uso desses produtos pelo agricultor no campo, o problema é acreditar no conceito de que, já que o produto é natural, não oferece risco”, detalha.

Outro exemplo de biopesticida danoso às abelhas é o popular Neem, cujo ingrediente ativo é a Azadiractina, extraída de uma árvore de origem asiática e comumente usada na fabricação de repelentes naturais e inseticidas orgânicos. “Se a substância for aplicada em culturas como alface e repolho, não causará danos. Mas se usada em plantas com néctar e flores, certamente vai causar danos às abelhas”, afirma Nodari.

<><> Uso de biopesticidas cresce 674% em 4 anos

A falta de informações sobre os efeitos dos biopesticidas chama atenção porque o consumo desses produtos é crescente. Entre 2014 e 2019, a comercialização registrou variações, mas se manteve sempre abaixo das 500 toneladas anuais. Nos últimos anos, contudo, as vendas explodiram e chegaram a 3.817 toneladas em 2023 — alta de 674% em relação a 2019 —, segundo dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente).

Um dos motivos por trás disso é a comercialização de alimentos orgânicos, cada vez mais presentes na mesa dos brasileiros. Esse modelo de produção adota diferentes práticas para o controle de pragas, incluindo a aplicação de biopesticidas. O número de produtores orgânicos cresceu 448% de 2012 a 2021, embora a área dedicada ainda seja pequena, de apenas 1 milhão de hectares, segundo a Embrapa — ou 0,4% da área agrícola do país.

O interesse em alimentos orgânicos tem levado produtores a cultivar extensas áreas com apenas uma cultura, explica José Ferraz, o que acaba exigindo maior quantidade de biopesticidas para o controle de pragas, que adquirem maior poder de destruição neste cenário de monocultura.

“O modelo de monocultivo em larga escala irá demandar soluções também em massa, pela grande extensão da lavoura e pela falta de diversidade vegetal. Já os policultivos exigem menos controle, pois se assemelham ao ecossistema natural”, diz o biólogo.

O estudo da UFSC alerta ser necessária “cautela no uso dos biopesticidas, em particular na produção orgânica e agroecológica, enquanto os danos destes produtos aos organismos não-alvos não estiverem adequadamente avaliados”. Organismos não-alvos são aqueles que não se pretende exterminar com o uso do biopesticida, mas que podem ser atingidos colateralmente.

A adoção de estudos abrangentes na fase de registro, como ocorre no caso dos agrotóxicos sintéticos, permitiria criar estratégias para reduzir os efeitos dos biopesticidas, defende Nodari. “É importantíssimo que se faça estudos de impacto desses produtos em organismos não-alvo, principalmente as espécies polinizadoras, como as abelhas.”

Segundo os pesquisadores, isso é importante até por conta da segurança alimentar. “Das 114 principais plantas utilizadas para produção de alimentos, 87 necessitam da polinização animal. Para um terço delas, a dependência por polinizadores é grande ou essencial. Em uma eventual crise de polinizadores, a produção no Brasil seria comprometida em 40 a 100%, evidenciando a vulnerabilidade da economia brasileira, que é baseada na agricultura dependente de polinização”, diz o artigo da UFSC, assinado também pelas pesquisadoras Marcia Regina Faita e Sonia Corina Hess.

<><> Biopesticidas exigem estudos menos abrangentes do que agrotóxicos

O registro de biopesticidas está previsto na Lei de Bioinsumos (Lei 15.070/2024), sancionada em dezembro de 2024 para criar regras de uso e comercialização de produtos biológicos no Brasil. Contudo, mais de um ano após entrar em vigor, a lei ainda não foi regulamentada. Por isso, a aprovação dos biopesticidas continua seguindo as regras da norma anterior, o Decreto nº 4.074/2002.

O Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e a Croplife (associação que representa a indústria de agrotóxicos e de biopesticidas) disseram em nota à Repórter Brasil que as regras atuais exigem estudos de impacto à saúde e ao meio ambiente. Contudo, segundo os especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, o decreto de 2002 não exige avaliação dos efeitos adversos em organismos não-alvo.

No caso dos agrotóxicos, por exemplo, o Ibama estabeleceu em 2017 uma norma específica para avaliação de risco dessas substâncias para insetos polinizadores. A regra, contudo, não se aplica aos produtos biológicos.

A Lei de Bioinsumos de 2024 prevê que “os órgãos governamentais de saúde e de meio ambiente deverão manifestar-se nos processos de registro de produtos novos destinados ao controle fitossanitário”, mas não considera os eventuais efeitos danosos dos produtos nem estabelece obrigação para avaliação de riscos.

“A palavra risco só é mencionada uma vez na referida Lei, no Art. 9º, que estabelece que o órgão federal de defesa agropecuária poderá estabelecer isenções para produtos de baixo risco em ato normativo próprio. Contudo, se não há obrigação para realizar a avaliação de risco, como classificar um produto como ‘baixo risco’?”, questiona o artigo da UFSC.

“Na Europa, por exemplo, os agentes de controle biológico são enquadrados como os outros pesticidas. Ou seja, lá eles são obrigados a fazer a avaliação [de risco]. Nós até entendemos que esses produtos na maioria das vezes poderão ser, de fato, muito menos tóxicos do que os químicos, mas o fato de você dispensar a priori ou não exigir estudos, jamais vamos saber quais poderão causar danos”, afirma Nodari.

As diferenças para desenvolvimento e registro de um agrotóxico e de um biopesticida se refletem também no tempo e no investimento necessários para levar um novo produto ao mercado.

Segundo a Croplife, o ciclo de inovação de um produto biológico leva, em média, de 5 a 8 anos, enquanto o dos agrotóxicos químicos pode chegar a 12 anos.

Em relação aos investimentos, os produtos biológicos demandam entre US$ 6 milhões e US$ 10 milhões. “Já no caso dos ingredientes ativos químicos, o processo de descoberta, desenvolvimento e registro regulatório é complexo e prolongado, com investimentos que ultrapassam US$ 300 milhões”, diz a nota enviada à reportagem.

Para garantir segurança no uso dos biopesticidas, Nodari diz que não seriam necessários os mesmos estudos exigidos no registro de um pesticida sintético. “Poderiam organizar estudos básicos mínimos de toxicidade, especialmente em organismos não-alvos, e as abelhas deveriam estar nessa lista”, defende.

 

Fonte: Repórter Brasil

 

Para enxergar o Irã sem os filtros da mídia

Início de 2026, o governo dos Estados Unidos está deslocando para o Oriente Médio uma frota de porta-aviões e outros armamentos em escala sem precedente fora de tempo de guerra. O presidente Trump repete a ameaça de que o plano é invadir o Irã, mas logo depois diz que prefere negociar. A imprensa do país imperial vem em seu auxílio promovendo o pânico ao anunciar que a invasão é iminente. O governo da república islâmica responde afirmando que pode causar danos irreparáveis aos interesses dos Estados Unidos na região. Apesar de toda a tensão atual há uma sensação de que já vimos esse filme. Os Estados Unidos ameaçam atacar o país persa desde 1979 quando se deu a Revolução Iraniana. Por que tanta hostilidade contra o Irâ?

A resposta não é simples. Em primeiro lugar é preciso ter em vista a política imperial, que sempre busca exercer influência sobre outros países e povos, promover governos submissos e se apropriar de suas riquezas. No caso concreto, os Estados Unidos se ofendem porque o povo do Irã derrubou uma dinastia serviçal ao império, do xá Rheza Pahlavi, invadiu sua embaixada e manteve seus diplomatas reféns por 444 dias. O poder foi assumido por clérigos radicais muçulmanos xiitas e esse governo se opõe aos aliados do governo dos Estados Unidos no Oriente Médio como a Arábia Saudita e Israel, apoia e arma os movimentos palestinos como o Hamas, a Jihad Islâmica e o Hezbollah, partido revolucionário do Líbano. Além do mais, o Irã em tese é uma presa extremamente atraente para os apetites imperiais. País estrategicamente posicionado na Ásia Ocidental, tem sete vizinhos, Afeganistão, Paquistão, Armênia, Azerbaijão, Turcomenistão, Iraque e Turquia. Está próximo da Índia e da China. Detém o litoral do Golfo Pérsico e domina o Estreito de Ormuz, por onde passam 20 por cento do petróleo mundial. Tem enormes reservas de petróleo e é um importante produtor. Presa atraente, mas não é fácil.

Os governos e políticos ocidentais padecem de grande ignorância sobre o Irã. Costumam confundi-lo com os povos árabes que vivem no Oriente Médio. Os iranianos não são árabes. Seus 90milhões de habitantes são persas, falam a língua persa, o farsi, e têm uma longa tradição que vem desde a Antiguidade. É mais antigo do que qualquer nação ocidental, tem 2.500 anos e foi um grande império, que se estendia por três continentes, Norte da África, os balcãs europeus e tinha sede em Persépolis, na Ásia Central. Seu auge se deu sob o governo de Ciro o Grande, generoso defensor dos direitos humanos, e se estendeu entre 550 a 350 A.C. (antes de Cristo). Sua influência cultural, arquitetura, arte, escrita, filosofia estendeu-se muito além de suas fronteiras, para Europa, África, China e Índia. Exaurido por guerras com o Império Bizantino sucumbiu à invasão árabe que se deu a partir de 633 D.C. (depois de Cristo). Com o tempo, a maioria dos iranianos se converteu ao islamismo, do ramo xiita, seguidores do Imã Ali, primo e genro do profeta Maomé, que é a religião predominante até nossos dias. Embora tenha sido islamizado, o Irã não foi arabizado. Os persas permaneceram persas.

Devido à localização estratégica o país foi alvo de inúmeras invasões ao longo dos séculos, começando pelos mongóis de Gengis Khan, no século 13. Mas sua cultura permaneceu forte e se faz presente em todo o mundo muçulmano. O Xá Abhas, o Grande, governou de 1588 a 1629. Construiu a sua capital, Isfahan, joia da coroa da arquitetura islâmica. Fez acordos com os ingleses. Auxiliado por eles retomou o Estreito de Ormuz, que havia sido ocupado por Portugal, e restabeleceu sua presença no Golfo Pérsico. O período registra também o crescimento do papel do clero xiita e perseguições aos sunitas, sufis, judeus, cristãos e outros. Sofreu invasões, como em 1722, por um exército afegão de Candaar. O chefe militar Nader conseguiu expulsar os invasores em 1729 e se tornou Xá. Tinha sede de conquista, formou um exército de 375 mil soldados, considerado o maior do mundo na época, conquistou territórios desde a Índia até o Iraque. Ditador brutal, foi assassinado em 1747. O país caiu em um período de anarquia, chefes militares formaram feudos, a população sofreu com a violência e a fome.

No fim do século XVIII o país foi reunificado pelo Xá Aga Maomé Cã Cajar e viveu um período de recuperação e paz. Mas teve que enfrentar novos desafios provocados por interferências e rivalidade entre britânicos, russos e franceses. Em 1800 a Grã-Bretanha enviou uma missão com 500 homens ao Irã e o Xá assinou um tratado comercial e um acordo de armas com os britânicos. A Rússia anexou a província iraniana da Georgia, o Xá pediu ajuda aos britânicos que recusam por estarem aliados à Rússia contra os franceses. O Xá se aproximou dos franceses com os quais assinou um tratado, a França tornando-se protetora e parceira comercial. Mas logo fez as pazes com a Rússia e o Irã ficou desprotegido. Em 1809 os britânicos enviaram nova missão para reconquistar o controle do Irã. Prometeram apoio contra intervenção de qualquer potência europeia, mas em 1812 quando os britânicos foram chamados para arbitrar um tratado do Irã com a Rússia sobre terras disputadas no Cáucaso, os britânicos favoreceram a Rússia. O Irã teve que entregar Baku, Tblisi, Darband e Ganja para a Rússia e a marinha iraniana foi excluída de entrar no Mar Cáspio. Os iranianos perderam a confiança nos ingleses e nas outras potências europeias. O Irã se percebeu como peão no que ficou conhecido como o “Grande Jogo”.

No início da década de 1870, endividado e sem alternativa, o Irã deu enormes concessões econômicas aos britânicos alienando estradas, telégrafos, moinhos, fábricas, extração de minerais, florestas e obras públicas. Esse acordo foi descartado um ano depois devido à indignação popular e pressão da Rússia. Em 1890, pela primeira vez os clérigos xiitas perceberam sua força na sociedade iraniana. Um empresário britânico recebeu o controle total sobre a produção, venda e exportação de tabaco por 50 anos. Os comerciantes e os clérigos xiitas somaram forças e resistiram ao acordo e o Xá foi obrigado a voltar atrás. A concessão mais lamentável se deu em 1901 com a concessão pelo Xá de direitos exclusivos de perfuração de petróleo a um empresário britânico. Foi o primeiro passo na tomada dos recursos petrolíferos do Irã pelo Reino Unido. Ao mesmo tempo, crescia na opinião pública iraniana a desconfiança sobre a credibilidade das atitudes dos governos estrangeiros e com a natureza exploradora de suas empresas. Nenhum deles seria confiável. E crescente frustração pública com os fracassos dos governantes em defender a soberania da Nação. Somada ao descontentamento pela elevada inflação resultou em 1906 na Revolução Constitucionalista que conquistou uma assembleia constituinte que produziu uma Constituição, fortaleceu o Parlamento tornando o governo mais representativo da sociedade e reduzindo os poderes do Xá. O islamismo xiita conseguiu mais espaços, tornando-se religião oficial.

As potências estrangeiras não estavam satisfeitas. Em 1907 Reino Unido e Rússia assinam acordo dividindo o Irã em duas partes, zona russa e zona britânica, desconsiderando a soberana do país. O Parlamento foi impotente para impedir isso. Em 1908 os britânicos iniciaram a exploração de petróleo sem nada pagar ao Irã que tinha a economia arruinada. Em 1908 o Xá e os ricos seus apoiadores, com incentivo da Rússia deram um golpe militar contra o Parlamento bombardeando o prédio e matando 250 pessoas. A reação popular promoveu uma guerra civil por dois anos e o Xá foi obrigado a abdicar. Em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial estourou a Inglaterra decidiu incorporar o Irã inteiro ao Império Britânico. Pagou 600 mil dólares ao primeiro-ministro para fazer passar a proposta no Parlamento. Mas o país inteiro se levantou contra e ele teve que renunciar. O país seguiu atribulado pela insatisfação popular e pelas intervenções das potências europeias. Em 1921começou a ascensão da dinastia Pahlavi. Reza Khan lidera tropa do Exército que toma o controle de Teerã. Passa a liderar o Exército, pressiona o Parlamento e se torna primeiro-ministro. Em 1926 o Parlamento o coroa como Xá. Ele adota o nome Pahlavi, nome de uma antiga escrita persa. Forma um Estado centralizado forte e usa o petróleo como receita importante com burocracia eficaz e grande exército permanente. Fez acordo com a Anglo Persian Oil recebendo apenas 16% dos royalties, essa era uma quantia considerável devido ao grande volume da produção. Sempre fardado comanda um regime militar repressivo com milhares de prisioneiros políticos e execução de adversários. Busca ocidentalizar o país até mesmo obrigando as pessoas a usarem roupas ocidentais, as mulheres eram obrigadas a remover o xador, vestido que cobre o corpo e o cabelo. Ultrajando os clérigos xiitas e aterrorizando as mulheres que, sem as roupas tradicionais se sentiam nuas. O projeto do Xá era quebrar o poder da hierarquia religiosa o que lhe rendeu a inimizade dos clérigos.

Na 2ª. Guerra Mundial o Xá resolveu apoiar a Alemanha nazista. Em agosto de 1941 país foi invadido por uma força conjunta de britânicos e soviéticos. Seu exército, tão poderoso para reprimir o povo, só resistiu por três dias. Foi obrigado a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi com condição de que britânicos e soviéticos pudessem ocupar o norte e o sul do país. O período entre 1941 e 1953 registra um breve período de governo constitucional renovado, o Parlamento voltou a funcionar e o Tudeh, um novo partido socialista vai conquistando a classe trabalhadora. O governo alegou que o Tudeh apoiava secessionistas incentivados pela URSS e lançou uma repressão generalizada. O partido foi proibido, seus jornais fechados muitos de seus líderes presos e outros fugiram para o exterior. Apesar disso, a população havia elevado seu nível de consciência política e clamava pela nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company.

No vácuo político deixado pelo extinto Tudeh surgiu Mohammad Mossadegh, defensor da Constituição e da soberania nacional e independência diante da dominação estrangeira. Eleito primeiro-ministro tentou encontrar equilíbrio entre as potências europeias. Denunciou antigas concessões de petróleo concedidas a britânicos e russos bem como negociações em curso com empresas dos Estados Unidos. Atendeu a pressão popular pela nacionalização da indústria do petróleo insistindo que era direito inalienável do país ter controle total sobre sua produção, venda e exportação.

Em 1951 Mossadegh uniu diferentes forças políticas para formar uma Frente Nacional. Teve o apoio do aiatolá Kashani, o membro mais ativo politicamente do clero. Foi autorizado pelo Parlamento a nacionalizar o petróleo. Seu governo criou a National Iranian Oil Company, NIOC. Quando a empresa inglesa recusou entregar suas instalações e operações ele ordenou que a NIOC assumisse seus poços, oleodutos, refinarias e escritórios. A Anglo Oil Company retirou seu pessoal técnico e congelou os ativos do Irã em Bancos ingleses. Mossadegh fechou a embaixada inglesa e rompeu relações diplomáticas com a Grã-Bretanha.Tratou de se fortalecer politicamente e enfraquecer o Xá. Em cadeia de Radio e TV e disse à Nação que precisava do controle dos militares para impedir que o Xá e os britânicos minassem seu plano de nacionalizar o petróleo. A população inundou as ruas por três dias em protestos contra o Xá, que foi obrigado a ceder. O primeiro-ministro, que os iranianos consideravam incorruptível, devolveu ao Estado terras ilegalmente apropriadas pelo Xá e o proibiu de se comunicar com embaixadas. Buscou o controle dos militares. Comprou apenas armas defensivas e expurgou 136 oficiais militares. Transferiu 15 mil militares para a polícia e cortou o orçamento militar em 15%.

Em julho de 1953, sob sua influência o Parlamento estava debatendo como substituir a monarquia por uma república democrática. Os britânicos tinham muito a perder com a nacionalização do petróleo iraniano, do qual a economia inglesa tinha grande dependência. Trataram de alarmar seus aliados dos Estados Unidos dizendo que se isso acontecesse, a Indonésia, a Venezuela e o Iraque, grandes produtores de petróleo, seguiriam o mesmo caminho com consequências terríveis para a economia dos dois países. Partiram para a propaganda de guerra aterrorizando a opinião pública chamando Mossadegh de “maluco, fanático, louco, desequilibrado, selvagem” e outros tantos nomes apelativos, A CIA e MI6 começaram a planejar o golpe em fim de 1952. Estavam amplamente infiltrados entre os militares iranianos. Em julho de 1953, Foster Dulles, secretário de Estado dos Estados Unidos apresentou o plano aos formuladores de políticas e anunciou: “É assim que nos livraremos de Mossadegh”.

Em 15 de agosto o Xá emitiu um decreto demitindo Mossadegh e nomeando primeiro-ministro o general Zahedi. Mossadegh se negou a renunciar e transmitiu uma mensagem de que o Xá, encorajado por “elementos estrangeiros” havia tentado um golpe. No dia seguinte aconteceram grandes manifestações em apoio a Mossadegh e à Frente Nacional. Provocadores da CIA na multidão atacaram clérigos e mesquitas forçando Mossadegh a condenar a violência. Em 19 de agosto, gangues e soldados pagos pela CIA, em trajes civis, encenaram uma contramanifestação agressiva pró Xá e anti-Mossadegh que levou a turbulência nas ruas ao clímax. A multidão que chegou a Teerã e foi decisiva na derrubada era uma multidão mercenária. Foi paga com dólares estadunidenses. Em meio ao caos 32 tanques Sherman entraram na cidade e cercaram prédios importantes, inclusive a casa de Mossadegh. Em seguida os líderes do golpe transmitiram uma proclamação do Xá nomeando o general Zahedi como novo primeiro-ministro. A luta continuou por mais seis horas. Ficando sem munição, as tropas leais a Mossadegh se renderam. Estima-se que houve 300 mortos.

O presidente Eisenhower disse ao povo estadunidense que o povo iraniano havia “salvado o dia” por causa de sua “repulsa ao comunismo e seu profundo amor por sua monarquia”. Na verdade, o Xá e os militares ficaram fortemente identificados com os interesses imperialistas. Em contraste, Mossadegh é considerado pelo povo um líder nacionalista como Ghandi, da Índia, Sukarno, da Indonésia e Nasser, do Egito. A repressão foi brutal. Mossadegh permaneceu preso por três anos e o resto da vida em prisão domiciliar. Até os dias de hoje, milhares de estudantes se reúnem no dia da sua morte para prestar homenagem. Todos os partidos e organizações seculares que se opuseram ao Xá foram desmantelados e banidos. A única instituição importante que manteve alguma independência e ainda falava com autoridade moral sobre os problemas do povo foi o clero xiita, preparando o cenário para a Revolução Islâmica de 1979.

O Xá Mohamaad Reza governou com punho de ferro. Estado forte, centralizado e militarizado, Tinha dinheiro. O Irã estava recebendo 50% da receita anual da cada vez maior produção de petróleo. Destinou grande parte dessa riqueza a sua prioridade, o exército. O Irã tornou-se o maior comprador de armas do mundo. Construiu a maior marinha do Golfo Pérsico, a maior força aérea da região e o quinto maior exército do mundo. Também construiu um serviço de segurança aterrorizante, 5 mil homens, além de recrutar um em cada 450 homens adultos como informantes. Torturou, matou e desapareceu com dissidentes políticos. Estima-se entre 25 a 100 mil prisioneiros políticos e a maior taxa de pena de morte do planeta. O Xá tornou-se megalomaníaco, dizia que recebia mensagens religiosas de Deus e do Iman Ali. Lançou ataques suicidas contra os comerciantes dos bazares e contra o clero xiita. Seus tribunais processaram 180 mil comerciantes, aplicaram 250 mil multas e 8 mil penas de prisão.

Seu apelo pelos direitos das mulheres, de votar, de iniciar o divórcio, de viajar sem permissão de um homem foi ferozmente contestado pelo clero. Declarou-se líder espiritual e político. Substituiu o calendário muçulmano por um antigo calendário persa. Assumiu o controle da Faculdade de Teologia da Universidade de Teerã e de outras instituições de ensino religioso. Pensava ser amado, mas era rejeitado pela intelectualidade, pela classe trabalhadora que apoiara Mossadegh e o via como um fantoche americano e britânico. A classe média conservadora de comerciantes, proprietários de terras e os clérigos haviam cortado seus laços com ele. A dinastia Pahlavi havia chegado ao fim. A Revolução islâmica de 1979 que levou ao poder uma teocracia fundamentalista foi uma combinação complexa de nacionalismo, populismo e radicalismo religioso. Enfraquecidas pela repressão do Xá as forças progressistas foram superadas pelo clero xiita, a única força política que fora tolerada pela ditadura. A tomada do poder teve um caráter popular. Imensas massas armadas foram as ruas e cercaram os quartéis tornando os militares impotentes apesar da repressão sangrenta. Mantido no exílio por 15 anos e sempre criticando o regime o aiatolá Khomeini havia se tornado muito popular. Assume o poder contrariando as forças progressistas e defende que não haja separação entre Igreja e Estado. Forma-se um governo provisório, mas em paralelo cria um Conselho Guardião formado por religiosos. As forças seculares acusam violação da soberania popular e de consagrar o clero como “classe dominante”. Os Estados Unidos dão asilo ao Xá e os iranianos se revoltam. 400 estudantes invadem a embaixada estadunidense em Teerã e fazem os diplomatas de reféns por 444 dias. Khomeini recusa intervir. O primeiro-ministro Barzaghan renuncia. Khomeini venceu. Uma Constituição islâmica foi aprovada em dezembro de 1979.

Em 1980 o Iraque de Saddam Hussein invade o Irã, que tem um exército forte herdado do Xá e reage duramente. Foi uma guerra brutal que iria durar por oito anos com cerca de 400 mil mortos somando os dois lados. Os Estados Unidos procuram se aproveitar jogando um contra o outro, vendendo armas aos dois beligerantes. Por iniciativa do governo dá-se uma islamização da sociedade enquanto acontece uma centralização da economia com empresas passando à posse do Estado (sem esquecer o petróleo, cuja produção e venda estavam nacionalizadas). Importantes benefícios foram dados à classe trabalhadora. Ao mesmo tempo ocorreu um aumento da repressão a outros credos religiosos e a qualquer manifestação de oposição ou descontentamento. Toda publicação tornou-se alvo de censura. Direitos das mulheres foram suprimidos. Em dois anos cerca de 500 oponentes foram executados. Os prisioneiros políticos contavam-se aos milhares.

Logo após o fim da guerra contra o Iraque, em 1988, o aiatolá Khomeini autorizou outra rodada de execuções em massa. Um expurgo político sem precedente, estimado em pelo menos duas mil execuções de prisioneiros políticos. A organização Human Rights Watch considerou um crime contra a humanidade. Com a morte de Khomeini em 1989, seu sucessor Ali Khamenei tentou enfrentar a crise econômica restabelecendo laços com o Ocidente. Um acordo com empresa estadunidense de petróleo, de 1 bilhão de dólares, foi barrado pelo governo de Bill Clinton. O programa de energia nuclear iraniano provoca sanções dos Estados Unidos e outros países ocidentais. Em 2002 o presidente Bush declarou o Irã como fazendo parte do “eixo do mal” junto com Coreia do Norte e Iraque.

Em 2005 o populista conservador Ahmadinejad vence as eleições e irá governar num clima repressivo e de agravamento das relações com os Estados Unidos, tendo sempre como motivo ou pretexto o programa de energia nuclear iraniano. Sua reeleição em 2009 é acusada de fraude. Surge o movimento “onde está meu voto?” Seu líder Mega Aghan Soltan foi morto a tiros. E o movimento cresce e enfrenta a repressão por vinte meses, culminando com a proposta de fim da República Islâmica.

Em 2013 assume um presidente reformista, Hassan Rouhan, que promoveu mais liberdade. Foi reeleito em 2017 com uma votação contra o domínio dos aiatolás. O poder secular e o poder religioso se confrontam num ambiente de abertura política. Mas o aiatolá continua a ser o líder supremo, controla os militares (cuja elite forma a Guarda Revolucionária) o judiciário, imprensa, rádio, TV, as agências policiais de repressão.

Numa demonstração de capacidade científica, técnica e habilidades pessoais o Irã desenvolve ainda mais seu programa de energia nuclear e enriquecimento de urânio. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais retaliam assassinando seus cientistas, aplicando pesadas sanções, produzindo crise na economia, inflação, escassez de alimentos e outros bens como gasolina refinada. O alvo principal é o programa de energia nuclear. São feitas exigências absurdas, como o fim do programa, consideradas inaceitáveis pelo Irã. As pressões têm resultado contrário, porque o Irã acelera ainda mais o programa e chega a três meses de poder produzir a bomba nuclear. Em 2015 o governo Obama recua e aceita que o Irã continue desenvolvendo o enriquecimento do urânio desde que não chegue ao ponto de poder produzir uma bomba e que seja rigorosamente fiscalizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, controlada pelas potências ocidentais. Esse acordo, chamado 5+1 porque firmado com os Estados Unidos e as potências europeias alivia as sanções que haviam provocado grandes sofrimentos à população, que manifestava fortemente sua insatisfação, mantendo o governo entre dois fogos.

100 bilhões de dólares congelados foram liberados, o país compra aviões da Boeing e Airbus. A francesa Total investe na exploração de um grande campo de gás, a Citroen volta a fabricar carros no Irã. Um dos mais interessantes resultados do isolamento do Irã promovido pelas potências ocidentais foi o crescimento de seu relacionamento com a China. Grande compradora de petróleo, ela tornou-se seu principal parceiro comercial, fornecendo equipamentos, bens de consumo e armas. A Índia também estreitou relações e é o segundo parceiro comercial. Com a Rússia foram restabelecidas relações estratégicas na área militar, envolvendo armas de última geração, transações no setor de petróleo e fornecimento de equipamentos. As sanções ocidentais acabaram por jogar o Irã nos braços de seus adversários estratégicos.  O foco da estratégia internacional do Irá é a defensiva ativa. Não ataca ninguém, mas se atacado se defenderá. Apoia com recursos e armas os seus aliados, como o xiita Hezbollah no Líbano, os palestinos Hamas e Jihad Islâmica, os houthis no Iêmen (como apoiava a Síria, enquanto Assad governava), que estão em confronto com os Estados Unidos e Israel. Por isso, o Irã é permanentemente ameaçado por Israel, e é hostilizado por Arábia Saudita e Emirados Árabes, todos armados até os dentes pelos Estados Unidos.

Em 2017 o presidente recém-eleito Donald Trump rompeu o acordo com o Irã sobre o seu programa nuclear, que chamou de “o pior acordo já negociado”. Em seu segundo governo, em 2025 Trump lançou um ataque militar contra o Irã bombardeando as instalações do programa nuclear. Chegou mesmo a declarar que havia destruído totalmente o programa, o que não era verdade. O Irã continuou desenvolvendo o processo de enriquecimento do urânio, sempre alegando que é para fins pacíficos. No início de 2026 o governo Trump mantém tensas negociações com o Irã, faz exigências de encerramento do programa nuclear e ultimamente também para paralisar a produção de mísseis de alcance continental e grande potência que o Irã desenvolveu — e do qual deu uma didática, mas moderada demonstração ao lançar contra Israel alguns desses misseis na ocasião que era bombardeado pelos Estados Unidos. As defesas de Israel foram impotentes para contê-los.

No momento atual o governo Trump deslocou formidável frota militar para o Oriente Médio, ameaça um iminente ataque ao Irã como instrumento de pressão para que a República Islâmica capitule e aceite os termos de um acordo humilhante. Em 22 de fevereiro de 2026 pode-se repetir: não vai ser fácil.

 

Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

 

Ataques de Israel e EUA ao Irã provocam pânico

Por volta de 9h40 deste sábado (28/02) no horário local (3h10 de Brasília), iranianos em várias cidades relataram ter ouvido fortes explosões. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas perto dos locais das explosões correndo em pânico, com gritos e choro ao fundo. Mas, segundo o serviço persa da BBC, ao mesmo tempo parece haver um senso de alívio — até de celebração — entre opositores que acreditam que a queda do regime só pode vir por meio de intervenção militar. Em um vídeo, uma mulher fala com tom de alívio inconfundível, dizendo que a residência do aiatolá Khamenei foi atingida. Outro clipe mostra adolescentes em uma escola dançando e cantando que os ataques aconteceram, acrescentando: "Eu amo o Trump." Muitas pessoas vinham antecipando um possível ataque dos EUA. Desde a noite de sexta-feira, formaram-se longas filas em postos de gasolina, e muitos moradores da capital, Teerã, começaram a deixar a cidade rumo ao norte, perto do mar Cáspio, que consideram mais seguro.

Com o Irã sob um quase total apagão de internet desde o início dos ataques, tem sido difícil contactar qualquer pessoa dentro do país. Algumas pessoas conseguiram acessar a internet brevemente usando métodos como a internet via satélite Starlink, da SpaceX, e redes privadas virtuais (VPNs), e podem conseguir fazê-lo novamente.

A BBC, no entanto, conseguiu contatar várias figuras pró-regime que falaram sobre a situação em Teerã. "Ouvimos muitas explosões. Moro no meio de Teerã", disse uma delas ao programa BBC Newshour. "Este era um dia normal até que os Estados Unidos e Israel começaram a atacar a cidade. Nossos filhos foram para a escola de manhã. Tivemos que ir buscar as crianças." Outra pessoa disse ao programa BBC Weekend que ouviu caças e duas explosões no início da manhã de seu escritório no norte da cidade. A atmosfera era tensa e havia uma sensação de guerra no ar. Ela disse que as pessoas estavam fazendo compras e estocando comida enlatada. Um morador disse ao serviço persa da BBC via Starlink que havia uma forte presença de segurança nas ruas que levam ao complexo onde está o gabinete do líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

<><> 'Cuidem de nossos filhos'

Antes do apagão, algumas pessoas publicaram mensagens nas redes sociais para o caso de serem mortas em ataques aéreos. "Se eu morrer, não se esqueçam que nós também existimos — aqueles de nós que se opõem a qualquer ataque militar, aqueles de nós que virarão apenas um número nos relatos de mortos", escreveu um iraniano nas redes. Outro escreveu: "Maldita a ditadura islâmica que causou esta guerra. Já suportamos três guerras."

Algumas postagens destacam a tensão na comunicação e o medo pelas crianças presas no conflito: "A internet está quase fora do ar... Se a rede cair totalmente, saibam que não somos soldados de nenhum líder, nem dano colateral", disse outro usuário. "Somos humanos e temos direito à vida. Tentem fazer nosso futuro democrático, não dependente de indivíduos." Outro usuário escreveu: "Prometam que, se algo nos acontecer, vocês cuidarão de nossos filhos e serão muito, muito gentis com eles. Digam a eles que fizemos tudo o que podíamos — participamos de marchas silenciosas, votamos, trabalhamos múltiplos turnos, suportamos grandes dificuldades."

Segundo o serviço persa da BBC , muitos iranianos que viveram o que foi descrito como uma das repressões mais sangrentas contra civis na história moderna dizem agora acolher a mudança de regime — mesmo que venha por meio de intervenção militar e da morte de altos funcionários. Outros, porém, temem que ataques aéreos por si só possam não derrubar o regime. Eles se preocupam que ele possa sobreviver e, em resposta, tornar-se ainda mais brutal com seu próprio povo.

Na época dos protestos de mais de um mês atrás, nos quais milhares foram mortos, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia incentivado os iranianos a continuarem protestando, prometendo que a ajuda estava a caminho. Agora, alguns iranianos relatam receber mensagens de texto dizendo "A ajuda chegou" — instando as pessoas a ficarem em casa e conclamando as forças do regime a depor as armas. Mas o sentimento público pode mudar drasticamente se civis forem mortos nos ataques, com muitos iranianos reagindo com indignação depois que a mídia estatal informou que um ataque israelense a uma escola de meninas matou dezenas de pessoas. Não há confirmação independente sobre o ataque e as mortes na escola.

Um iraniano vivendo no exterior, que se opõe à intervenção militar no Irã, comentou: "As primeiras vítimas desta guerra são 40 meninas em Minab, atingidas por um ataque de míssil. É essa a guerra que vocês aplaudem?"

A profunda desconfiança em relação ao regime iraniano, no entanto, torna os relatos oficiais difíceis de aceitar para muitos, e alguns iranianos culparam diretamente o regime pelo ataque. Um usuário escreveu: "Mesmo que o regime não tenha mirado diretamente em escolas, as mortes de crianças em Minab continuam sendo responsabilidade da República Islâmica. As pessoas não têm abrigos, a internet está cortada, as linhas telefônicas estão fora do ar e não houve aviso para manter as crianças fora da escola. Nessas condições, o mínimo deveria ser ficar em casa."

¨      Após morte de líder supremo Ali Khamenei, Israel e Irã trocam novos ataques

Estados Unidos e Israel lançaram uma série de ataques coordenados contra o Irã na manhã de sábado (28/2). Horas depois, o presidente do EUA, Donald Trump, afirmou que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, havia sido morto nos bombardeios. O governo iraniano também confirmou a morte de Khamenei. Segundo um comunicado do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Khamenei morreu na manhã de sábado do horário local, em seu escritório, "enquanto realizava tarefas". A BBC Verify confirmou, usando imagens de satélite, que partes do complexo da Casa da Liderança, escritório de Khamenei em Teerã, sofreram danos significativos durante os ataques conjuntos de EUA e Israel.

O anúncio oficial da morte do líder supremo no Irã foi feito por um apresentador da TV estatal que, em meio a soluços, disse que o país entraria em um período de luto de 40 dias. A Assembleia de Peritos, um conselho de clérigos do país islâmico, deverá nomear um sucessor para Khamenei o mais breve possível. Neste domingo (1/3), Alireza Arafi foi nomeado líder supremo interino. Trump, por sua vez, afirmou em uma mensagem que Ali Khamenei foi "uma das pessoas mais perversas da história".

O americano acrescentou ainda que esta seria "a maior oportunidade que o povo iraniano já teve para recuperar seu país", sugerindo uma janela para mudança de regime no país persa.

Neste domingo (1/3), após a confirmação da morte de seu líder supremo, o Irã comunicou que voltaria a atacar Israel e bases americanas no Oriente Médio, retomando os bombardeios de retaliação que começara no sábado. "A operação ofensiva mais devastadora da história das forças armadas da República Islâmica do Irã começará em instantes em direção aos territórios ocupados e às bases terroristas americanas", disse a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) em um comunicado.

Foram reportados bombardeios em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, em Doha, capital do Catar, no Bahrein e no Kuwait. Israel também confirmou que voltou a bombardear o Irã neste domingo. Segundo um comunicado das Forças de Defesa de Israel (IDF), o alvo seriam posições ligados ao governo iraniano "no coração de Teerã". "Ao longo do último dia, a Força Aérea Israelense realizou ataques em larga escala para estabelecer superioridade aérea e abrir caminho para Teerã", disseram as IDF. A mídia iraniana confirmou que explosões foram ouvidas na capital.

<><> Como o sucessor de Khamenei será escolhido?

Neste domingo, Alireza Arafi foi nomeado líder supremo interino. O clérigo é membro do Conselho dos Guardiães, órgão que era chefiado por Ali Khamenei e cuja função principal é garantir que as leis aprovadas pelo Parlamento estejam em concordância com a Constituição e com a lei islâmica. Segundo a agência de notícias iraniana ISNA, Arafi foi escolhido para o Conselho de Liderança do Irã, que ficará encarregado de desempenhar as funções do líder supremo até que um novo líder seja eleito. Arafi fará parte do conselho temporário ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do juiz-chefe Gholamhossein Mohseni Ejei.

A escolha formal de um novo líder supremo não ocorre por votação direta, mas sim por escolha de um órgão composto por 88 clérigos de alto escalão, conhecido como Assembleia de Peritos. Eles são eleitos por votação direta a cada 8 anos. De acordo com a Constituição iraniana, esses clérigos devem escolher o novo líder supremo o mais rápido possível, mas isso pode se mostrar difícil por razões de segurança, visto que o país está sob ataque.

<><> Como foi o primeiro dia de ataques?

Pouco após as 9h30 no horário local (3h10 em Brasília), a mídia iraniana relatou explosões na capital, Teerã. Imagens divulgadas mostravam fumaça sobre as praças Jomhouri e Hassan Abad. Explosões também foram relatadas em várias outras cidades no país, incluindo Karaj, perto de Teerã, Isfahan e Qom, no centro do país, e Kermanshah, no oeste. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas correndo em pânico nos locais das explosões. O som de gritos e choro pode ser ouvido ao fundo. Imagens de Teerã verificadas pela BBC mostram explosões a menos de 1 km do complexo onde reside o supremo líder do país, o aiatolá Ali Khamenei. Imagens de satélites também mostraram danos consideráveis no complexo, incluindo edifícios queimados, destroços e uma coluna de fumaça.

De acordo com o Crescente Vermelho do Irã (equivalente à Cruz Vermelha no país), mais de 200 pessoas morreram no primeiro dia de ataques em todo o país. Segundo a Agência de Notícias da República Islâmica, 108 pessoas morreram após bombardeios terem atingido uma escola primária feminina no condado de Minab, na província de Hormozgan, no sul do Irã. Outras 48 pessoas teriam se ferido, afirmou o governador Mohammad Radmehr. A BBC não conseguiu verificar essa informação de forma independente, pois veículos de imprensa internacionais frequentemente têm seus vistos negados para o Irã, o que limita a capacidade de coletar informações sobre o que está acontecendo no país, que ainda enfrenta um bloqueio de internet.

<><> Mísseis iranianos contra aliados dos EUA no Oriente Médio

Pela manhã, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu uma "resposta esmagadora", afirmando que os ataques ocorreram "mais uma vez durante negociações" com Washington. Teerã lançou mísseis contra o território israelense e aliados de Washington no Oriente Médio: Catar, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordania e Iraque foram alvos. Segundo as Forças de Defesa de Israel, ataques retaliatórios foram lançados contra o território israelense. Instalações da Marinha americana no Bahrein também foram atingidas por mísseis, e explosões foram registradas em Doha, no Catar. Os Emirados Árabes Unidos disseram que também foram atingidos pelo Irã e que os destroços, que caíram em uma área residencial em Abu Dhabi, teriam matado um civil de nacionalidade asiática cujo nome não foi divulgado. A Força Aérea dos Estados Unidos opera a partir de uma base em Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, juntamente com a Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos. Dubai, também parte dos Emirados Árabes Unidos, parece ter sido atingida. Uma explosão seguida de incêndio foi registrada em Palm Jumeirah, área de hotéis de luxo, deixando quatro pessoas feridas, segundo autoridades locais. A BBC verificou imagens confirmando que se deu em um hotel da zona.

Para o analista Jeremy Bowen, editor da BBC com ampla experiência na cobertura do Oriente Médio, Israel e Estados Unidos calcularam que o regime islâmico no Irã está vulnerável, lidando com uma grave crise econômica, as consequências da repressão brutal a manifestantes no início do ano e as defesas ainda enfraquecidas após os ataques sofridos em junho de 2025. Os presidentes americano e israelense concluíram que esta era uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada. A operação acontece após semanas de negociações entre Washington e Teerã na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear iraniano.

O Irã "tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior, e que em breve poderiam atingir o território americano", afirmou Trump. O presidente americano disse ainda que os Estados Unidos vão reduzir a indústria de mísseis do Irã a pó e "aniquilar" sua Marinha. O presidente instou os iranianos a usarem o momento para derrubar o regime clerical do país. "Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações", declarou.

O mandatário também disse aos membros das forças de segurança iranianas que receberiam "imunidade" se depusessem as armas. Caso contrário, "enfrentariam morte certa".

O presidente israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que "um regime terrorista assassino" não deve possuir armas nucleares "que lhe permitam ameaçar toda a humanidade". "Agradeço ao nosso grande amigo, o presidente Donald Trump, por sua liderança histórica", acrescentou. O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que, embora o Irã estivesse ciente das "intenções" dos EUA e de Israel de realizar ataques, participou das negociações com Washington e que os ataques ocorreram "enquanto o Irã e os Estados Unidos estavam em meio a um processo diplomático". A terceira rodada de negociações indiretas entre o Irã e os EUA foi realizada há dois dias, em 26 de fevereiro, em Genebra, sem avanços. O Irã e os EUA também realizaram cinco rodadas que não obtiveram resultado em maio de 2025. Uma sexta rodada, que era prevista para junho passado, acabou cancelada após Israel lançar ataques contra o Irã, desencadeando um conflito de 12 dias no qual os EUA atingiram três importantes instalações nucleares iranianas.

<><> Irã praticamente sem internet

Em nota, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o "inimigo" presumiu erroneamente que o povo iraniano "cederia às suas exigências mesquinhas por meio de ações tão covardes". Também confirmou que as forças armadas iranianas já iniciaram medidas retaliatórias e prometeu "manter o povo informado continuamente". O governo iraniano disse ainda que os ataques poderiam continuar em Teerã e outras cidades, instando os cidadãos a "manterem a calma" e se deslocarem para áreas mais seguras, sempre que possível, para evitar o perigo. Também afirmou que o governo "preparou todas as necessidades da sociedade com antecedência" e que "não há preocupação com o fornecimento de bens essenciais", aconselhando as pessoas a evitarem centros comerciais. Escolas e universidades permanecerão fechadas, os bancos continuarão prestando serviços e os órgãos governamentais vão operar com 50% da capacidade, informou o Conselho.

O Irã está agora sob um bloqueio de internet quase total, de acordo com a NetBlocks, uma agência de monitoramento da internet. Esta não é a primeira vez em que a internet do país é interrompida. No mês passado, os serviços de telecomunicação foram cortados durante protestos em todo o país, que foram brutalmente reprimidos pelo governo.

<><> Como o Brasil e o resto do mundo reagiram

O governo brasileiro, por meio de uma nota do Itamaraty, condenou a ação coordenada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, chamando atenção para o fato de os ataques terem acontecido "em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz, posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região". "O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil." Segundo o Itamaraty, as embaixadas na região estão acompanhando as comunidades brasileiras na tentativa de atender às necessidades dos brasileiros e garantir a sua segurança.

Em uma declaração conjunta, os governos do Reino Unido, Alemanha e França condenaram os ataques de retaliação do Irã contra países vizinhos após a ação conjunta dos Estados Unidos e de Israel deste sábado (28/2). "A França, a Alemanha e o Reino Unido têm instado consistentemente o regime iraniano a encerrar seu programa nuclear, restringir seu programa de mísseis balísticos, abster-se de suas atividades desestabilizadoras na região e em nossos territórios, e cessar a violência e a repressão terríveis contra seu próprio povo", diz a nota, assinada pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz.

Os líderes afirmaram que seus países não participaram dos ataques, mas disseram estar em contato com os Estados Unidos, Israel e parceiros na região. "Reiteramos nosso compromisso com a estabilidade regional e com a proteção da vida civil", disseram. "O Irã deve se abster de ataques militares indiscriminados. Instamos a liderança iraniana a buscar uma solução negociada. Em última análise, o povo iraniano deve ter a liberdade de determinar seu futuro." Já o Ministério das Relações Exteriores da China disse que o país está "profundamente preocupado com os ataques militares lançados pelos Estados Unidos e Israel" e que "a soberania, a segurança e a integridade territorial do Irã devem ser respeitadas. A China pede a imediata paralisação das ações militares, que não haja nova escalada das tensões, a retomada do diálogo e das negociações, e esforços para manter a paz e a estabilidade no Oriente Médio", diz o comunicado do governo.

Outros líderes também se pronunciaram:

  • A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, lembrou que o bloco europeu adotou "sanções abrangentes" em resposta ao "regime assassino" do Irã. "Apelamos a todas as partes para que exerçam a máxima contenção, protejam os civis e respeitem integralmente o direito internacional."
  • Ministério das Relações Exteriores da Rússia descreveu as ações dos EUA e de Israel como "imprudentes", afirmando que ambas violam o direito internacional. A Rússia apelou para o retorno a soluções políticas e diplomáticas.

<><> Como está o programa nuclear iraniano?

A situação do programa nuclear iraniano não é clara após o país ter visto suas instalações nucleares chaves serem atacadas durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho do ano passado. Os EUA entraram brevemente no conflito, atacando três instalações — o maior complexo de pesquisa nuclear do Irã, em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo usados para enriquecer urânio para uso como combustível nuclear. Trump disse que as instalações haviam sido "destruídas". Uma semana depois, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse que os ataques causaram danos graves, embora "não totais", sugerindo que alguma forma de enriquecimento poderia ser retomada dentro de alguns meses.

A agência estima que, quando Israel lançou ataques aéreos em 13 de junho, o Irã tinha um estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza — um pequeno passo técnico para atingir os 90% necessários para armas nucleares. Grossi disse em outubro à agência de notícias Associated Press que essa quantidade — se enriquecida ainda mais — seria suficiente para produzir dez bombas nucleares.

Em novembro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou à revista The Economist que o enriquecimento de urânio tinha sido paralisado.

No mês passado, ele causou controvérsia em outra entrevista, esta ao canal de notícias Fox News. "Sim, vocês destruíram as instalações, as máquinas, mas a tecnologia não pode ser bombardeada, e a determinação também não pode ser bombardeada." Grossi disse à Reuters em janeiro que conseguiu inspecionar 13 instalações nucleares no Irã que não foram bombardeadas, mas não as três principais que haviam sido. Ele afirmou que já tinham se passado sete meses desde a última verificação do estoque de urânio enriquecido do Irã. Persistem incertezas sobre questões-chave, particularmente a localização e o estado do estoque, além da condição das instalações de enriquecimento.

 

Fonte: BBC News