terça-feira, 9 de junho de 2026

Vistos de última hora e mudança de centro de treinamento: a trajetória do Irã rumo à Copa do Mundo

Quando o Irã se classificou para a Copa do Mundo em 25 de março de 2025, poucos poderiam imaginar os desafios que estavam por vir.

Mais de um ano depois, a participação do Irã se tornou uma das mais complexas do torneio. A seleção iraniana deve jogar em um país anfitrião — os Estados Unidos — cujos ataques militares conjuntos com Israel mataram o líder supremo do Irã e desencadearam um conflito que ainda está em curso.

Neste domingo (7/6), o Irã lançou ataques a mísseis contra o norte de Israel, após as Forças de Defesa israelenses atacarem o sul de Beirute, no Líbano. Depois dos ataques, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, afirmou em uma postagem nas redes sociais que Teerã "deve queimar".

Sob essa sombra de guerra, a seleção iraniana de futebol enfrentou inúmeros desafios, incluindo onde ficariam hospedados durante o torneio e se conseguiriam vistos para os EUA.

<><> A saga dos vistos

O Irã foi uma das primeiras seleções a se classificar para o torneio, e os vistos americanos para os jogadores só foram aprovados na sexta-feira (5/6).

No entanto, os vistos foram negados para vários membros da comissão técnica, incluindo o presidente da federação iraniana de futebol, Mehdi Taj.

O Departamento de Estado dos EUA informou à BBC que os vistos necessários para o Irã competir na Copa do Mundo, incluindo os dos jogadores e da equipe de apoio essencial, foram emitidos.

Contudo, acrescentou que não permitiria que a seleção iraniana "abusasse desse sistema para infiltrar terroristas nos Estados Unidos sob falsos pretextos".

O embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, afirma que a seleção nacional foi notificada de que, de acordo com as condições de seus vistos, os jogadores devem entrar e sair do território americano no mesmo dia de suas partidas.

O Irã transferiu seu centro de treinamento para a Copa do Mundo dos Estados Unidos para Tijuana, no México, em meio à guerra e após a Fifa aprovar a mudança. A equipe havia planejado originalmente ficar baseada em Tucson, no Arizona.

Os três jogos da fase de grupos do Irã serão disputados nos Estados Unidos: contra a Nova Zelândia e a Bélgica, em Los Angeles, e contra o Egito, em Seattle.

<><> Mais de 40 anos de tensão

As relações entre Irã e EUA têm sido hostis por mais de quatro décadas. Desde a tomada da embaixada americana em Teerã e a crise dos reféns que se seguiu em 1979, os dois países não mantêm relações diplomáticas formais.

O futebol tem sido, muitas vezes, uma das poucas oportunidades para um contato direto entre os dois países.

O encontro mais famoso ocorreu na Copa do Mundo de 1998, na França, quando o Irã derrotou os Estados Unidos por 2 a 1 em uma partida carregada de enorme simbolismo político. Apelidada por alguns de "Mãe de Todos os Jogos" devido ao contexto político, a partida atraiu atenção global e se tornou um dos jogos mais memoráveis ​​da história da Copa do Mundo.

Antes do início da partida, os jogadores iranianos presentearam seus colegas americanos com rosas brancas como um gesto de paz, em um momento amplamente visto como transcendente à política.

As duas equipes se encontraram novamente na Copa do Mundo de 2022, no Catar, onde os Estados Unidos venceram por 1 a 0 e avançaram para a fase eliminatória.

A possibilidade de um encontro entre Irã e EUA ainda durante o torneio de 2026 também aumenta o interesse. Com o formato expandido da Copa do Mundo, as duas seleções poderiam se enfrentar na fase eliminatória. Tal partida teria um significado muito além do futebol, dada a guerra entre os dois países.

<><> Futebol unia o Irã — agora, não mais

Em meio aos problemas logísticos, a relação entre a seleção nacional de futebol e setores da população iraniana parece mais complexa do que em torneios anteriores.

A seleção nacional tem sido tradicionalmente uma das poucas instituições capazes de gerar apoio que transcende as divisões políticas e sociais. Durante as Copas do Mundo de 2014 e 2018, a equipe atraiu amplo apoio de torcedores de todo o espectro político.

Isso mudou antes da Copa do Mundo de 2022 no Catar, que ocorreu em meio a protestos em todo o país após a morte sob custódia policial da jovem Mahsa Amini e a repressão das autoridades contra os manifestantes.

A equipe se viu no centro de um debate político, com alguns iranianos esperando que os jogadores demonstrassem solidariedade aos manifestantes e outros insistindo que o futebol deveria permanecer separado da política.

A Copa do Mundo de 2026 acontece apenas seis meses após uma grande repressão a protestos anti-regime no Irã, durante a qual grupos de direitos humanos afirmam que milhares de pessoas foram mortas.

Alguns torcedores continuam a ver a equipe como um símbolo de orgulho nacional, independentemente da política. Outros têm se tornado cada vez mais críticos, argumentando que a equipe está muito associada às instituições estatais e não deve ser vista separadamente do establishment político do país.

Isso não significa que o apoio à seleção Iraniana tenha desaparecido. O futebol continua sendo, de longe, o esporte mais popular do Irã e milhões de pessoas devem acompanhar o desempenho da equipe na América do Norte.

Mas, enquanto o Irã se prepara para mais uma Copa do Mundo, o nível de consenso nacional que antes acompanhava os grandes torneios parece menos certo do que no passado.

Em campo, o Irã espera alcançar algo que nunca conseguiu antes.

Apesar de ter se classificado para sete Copas do Mundo, nunca passou da fase de grupos. O formato expandido com 48 equipes oferece novas oportunidades, e o Irã acredita que chegar às oitavas de final é um objetivo alcançável.

Se o futebol continuará sendo o assunto principal é outra questão.

As Copas do Mundo muitas vezes refletiram as realidades políticas de sua época. No entanto, é difícil lembrar de outra seleção que tenha chegado a um torneio sob uma combinação tão grande de isolamento diplomático, tensões militares, incerteza quanto aos vistos e divisão política entre setores de sua própria torcida.

¨      Como a guerra com os Estados Unidos alterou a logística do Irã para a Copa do Mundo

Desde o início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro, com os ataques lançados por Israel e Estados Unidos contra a República Islâmica, foram meses em que o futebol foi pano de fundo para a disputa política.

Ameaça de boicote, uma novela para emissão de vistos, artilheiro fora da convocação e a mudança da base de treinos da seleção iraniana estão entre os impactos do conflito para a delegação do país.

— Bem, para ser honesto, não é fácil. Esta será minha terceira Copa do Mundo, então, pode ser um pouco mais fácil lidar com isso. Mas, no final das contas, vai ser difícil para todos porque, ao mesmo tempo, estamos acompanhando as notícias do nosso país e as questões políticas. Claro, podem afetar o psicológico dos jogadores e das pessoas — disse o meia Saeid Ezatolahi, à Associeted Press. Ele disputou as Copas de 2018 e 22 com sua seleção.

O Irã garantiu vaga na Copa do Mundo no dia 25 de março do ano passado. Foi a terceira seleção classificada, sem contar os anfitriões Estados Unidos, Canadá e México. Ainda assim o planejamento logístico da delegação precisou ser refeito de última hora em consequência da guerra.

É a sétima Copa do Mundo que o Irã vai participar. A equipe nunca passou da fase de grupos e tem três vitórias em 18 jogos. Os iranianos estão no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia.

<><> A mudança de base de treinos

A principal alteração de planos foi estabelecer uma base de treinos fora dos Estados Unidos. O plano original era se sediar em Tucson, no Arizona.

No dia 24 de maio, a Fifa confirmou a mudança para Tijuana, no México. O Centro Xoloitzcuintle, complexo do Club Tijuana, vai ser a casa do Irã durante a competição.

Em março, o Irã chegou a solicitar à Fifa que transferisse os jogos de sua seleção para o México, o que foi rejeitado. Todas as partidas do Irã na fase de grupos vão ter os Estados Unidos como palco.

— É verdade que estamos enfrentando circunstâncias especiais agora, mas somos jogadores de futebol e temos que jogar, treinar e nos preparar para as competições que temos pela frente. Sabemos que nosso povo tem passado por muitas dificuldades durante a guerra, e estamos lá por eles, para obter os melhores resultados para a alegria do nosso país — disse Mohammad Ghorbani, em sua primeira Copa do Mundo, aos 24 anos.

Ainda assim, a mudança para Tijuana deixou os iranianos mais próximos das cidades onde vão jogar: Los Angeles e Seattle. É que a cidade mexicana fica na fronteira com a Califórnia. Os iranianos vão viajar cerca de 2.500 km a menos na primeira fase da Copa do Mundo.

>>>> Veja a agenda de jogos do Irã:

  • 15/6 - 22h (de Brasília) - Irã x Nova Zelândia, em Los Angeles
  • 21/6 - 16h (de Brasília) - Bélgica x Irã, em Los Angeles
  • 27/6 - 0h (de Brasília) - Egito x Irã, em Seattle

— A melhor mensagem que posso transmitir agora é que a seleção iraniana está demonstrando o que significa ser uma equipe. Estamos mostrando que somos uma equipe sob bandeira, capaz de trazer alegria a todo o nosso país e mostrar ao mundo o poder dos jogadores e do povo iraniano — continuou Ghorbani.

<><> A preparação no Irã e na Turquia

Não há registros de que a guerra teve impacto direto na preparação da seleção iraniana. O time comandado pelo técnico Amir Ghalenoei treinou por cerca de um mês no Centro Nacional de Futebol, em Teerã.

No dia 18 de maio, a delegação viajou para Antalya, na Turquia, onde fez a última parte dos treinos, inclusive dois amistosos, um contra Gâmbia, outra com o Mali, de portões fechados. A Federação Iraniana não relacionou a medida de fechar o amistoso como consequência da guerra.

<><> Ameaças de boicote

A disputa política entre Irã e Estados Unidos começou a se refletir na participação iraniana na Copa do Mundo em março. O Ministério dos Esportes do país chegou a proibir que equipes esportivas nacionais e clubes viajassem para países considerados "hostis".

Dias antes, o presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), Mehdi Taj, já havia ameaçado boicotar os jogos nos Estados Unidos, embora ressaltasse o desejo de entrar em campo no México.

À época, a Fifa afirmou não resolver conflitos geopolíticos, mas destacou empenho para usar o poder do futebol para "construir pontes e promover a paz". O presidente americano Donald Trump, por sua vez, reforçava o discurso de considerar inapropriada a participação iraniana na Copa do Mundo por questão de segurança, chegando a pedir a substituição do Irã pela Itália.

A primeira ameaça de boicote, porém, foi ainda no ano passado.

Em dezembro, o Irã chegou a anunciar que não iria ao sorteio da Copa do Mundo por causa da restrição de vistos a membros da delegação do país – apenas quatro foram aprovados, e Taj teve sua entrada negada nos Estados Unidos. No fim, dois representantes viajaram a Washington.

<><> Visto negado e ausência em Congresso da Fifa

Em abril, membros da delegação do Irã faltaram ao Congresso da AFC (Confederação Asiática de Futebol) e ao 76º Congresso da Fifa, ambos realizados em Vancouver, no Canadá. Foi a única entidade ausente.

O presidente da Federação de Futebol do Irã, Mehdi Taj, chegou a desembarcar no Canadá, mas não teve permissão para ficar no país. De acordo com agências internacionais, Mehdi Taj teve sua entrada negada por ter atuado, no passado, na Guarda Revolucionária do Irã.

O caso motivou a Fifa a marcar uma reunião com Mehdi Taj em maio, em Zurique, na Suíça, sede da entidade máxima do futebol internacional. Havia o temor de que a medida adotada pelo governo do Canadá se repetisse nos EUA, que já havia indicado a possibilidade de negar vistos a dirigentes iranianos por suas relações com as forças do país.

Os preparativos para a participação do Irã foram discutidos, incluindo a mudança de base para Tijuana.

<><> Novela para emissão de vistos

Por causa da guerra no Oriente Médio, o processo de emissão de todos os vistos para a delegação iraniana embarcar para o México só foi concluído na quinta-feira, dois dias antes da viagem e 11 dias antes da estreia do Irã na Copa do Mundo, contra a Nova Zelândia, no dia 15 de junho, em Los Angeles.

Para conseguir os documentos necessários para a entrada no México, a delegação do Irã viveu semanas de incertezas. A Fifa teve de fazer um papel de intermediação nos bastidores junto às autoridades dos países-sede.

O principal ponto de entrave era a liberação para alguns dirigentes e membros da comissão técnica que tiveram ligação no passado com a Guarda Revolucionária do Irã, considerada uma organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

<><> Segurança e monitoramento

As condições do Irã para participar da Copa do Mundo incluem a concessão de vistos e respeito à comissão técnica da seleção, à bandeira do país e ao hino nacional durante o torneio, além de segurança reforçada em aeroportos, hotéis e nos trajetos até os estádios.

Por outro lado, o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que o país vai monitorar de perto a delegação iraniana. Rubio disse que a medida tem como objetivo evitar ligações com o terrorismo, especialmente com a Guarda Revolucionária do Irã.

<><> Jogador excluído por traição?

Um possível impacto da guerra dentro de campo para o Irã foi a não convocação de Sardar Azmoun. O terceiro maior artilheiro da história da seleção iraniana se envolveu em uma polêmica política.

Em março, no auge do conflito no Oriente Médio, ele compartilhou uma foto apertando a mão de Mohammed bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, país aliado dos Estados Unidos. Por outro lado, o xeque é presidente de honra do Shabab Al-Ahli, time em que o atacante joga.

O aperto de mão, porém, não é uma justificativa oficial para a ausência de Azmoun na lista de convocados do Irã. A imprensa local informou a versão de que o atacante teria descumprido prazos para a obtenção do visto. Ele ainda precisou operar o tornozelo esquerdo em outubro do ano passado e ficou quatro meses parado.

Azmoun jogou as duas últimas Copas do Mundo e tem 57 gols em 91 partidas pelo Irã. A importância dele foi óbvia no ciclo deste Mundial: desde 2023 ele teve 24 participações em gols em 23 jogos (16 marcados e oito assistências) e só perdeu uma vez com a seleção (aproveitamento de 81,1%).

¨      Irã chega para a Copa do Mundo

A seleção iraniana chegou ao México na madrugada deste domingo (7) para a disputa da Copa do Mundo. O torneio será realizado em três países simultaneamente: México, Estados Unidos e Canadá. Em meio à guerra entre Irã e Estados Unidos, iniciada em fevereiro, a delegação do país conseguiu mudar sua base durante a Copa.

Inicialmente os iranianos ficariam hospedados no Arizona, nos Estados Unidos. Nos últimos dias, ficou acertada a mudança para a cidade de Tijuana, no México. A seleção do Irã, no entanto, vai jogar as três partidas da primeira fase nos EUA.

Seus dois primeiros jogos serão perto de Los Angeles; contra a Nova Zelândia em 15 de junho e contra a Bélgica em 21 de junho. Depois, no dia 26 de junho, enfrentará o Egito em Seattle.

Esta é a primeira Copa do Mundo desde a sua criação, em 1930, na qual a nação anfitriã receberá um país com o qual está em guerra. A recepção, no entanto, não é calorosa nem amigável. Um funcionário do Departamento de Estado dos EUA confirmou a emissão de vistos à agência Reuters, destacando a concessão do documento “aos atletas e à equipe de apoio necessária”.

“Não permitiremos que a seleção iraniana abuse desse sistema para levar terroristas para os EUA sob falsos pretextos”, acrescentou o funcionário do governo estadunidense.

Vistos limitados

O embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, se queixou da obrigação da seleção de seu país precisar viajar para os Estados Unidos no mesmo dia de suas partidas na Copa do Mundo. Isso ocorreu em virtude da limitação imposta nos vistos concedidos a jogadores e comissão técnica do Irã.

Pasandideh entende que a obrigatoriedade imposta pelos EUA poderá trazer prejuízo físico à seleção iraniana.

“Viajar por tanto tempo, indo e voltando em voos, deixará os jogadores cansados. Os problemas de coordenação e perda de tempo poderão afetar a performance da nossa seleção”, disse ele em coletiva de imprensa.

Ele ressaltou que a própria presença da seleção de seu país na Copa, enquanto o Irã segue sob ataque militar estadunidense, mostra a intenção pacífica de seus compatriotas. “Levando em conta que nosso país está sob ataque, para mostrar que viemos pela paz, nós trouxemos nosso time.”

Nem toda a delegação, no entanto, tem sua presença garantida no mundial. Vários membros da seleção iraniana não receberam vistos, incluindo “membros importantes da gerência e da administração”, de acordo com a federação de futebol do Irã, que acusou os EUA de não cumprirem suas obrigações como anfitriões e de violarem as normas da Federação Internacional de Futebol (Fifa).

Pasandideh afirmou que 15 dos 70 membros do grupo que chegaram a Tijuana neste domingo não receberam vistos para entrar nos EUA.

 

Fonte: BBC News /Sputnik Brasil/Agencia Brasil

 

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