Saúde
mental no trabalho: como desatar os nós no SUS
Embora
a saúde mental relacionada ao trabalho esteja cada vez mais no centro do debate
público, o desenvolvimento de políticas e práticas para garantir o bem-estar do
trabalhador ainda é pouco discutido no Brasil. Essa lacuna se manifesta tanto
na dificuldade em identificar e confirmar o nexo entre as condições laborais e
os transtornos que afetam a vida das pessoas, quanto na forma como os usuários
do sistema de saúde e previdenciários são acolhidos.
A série
Diálogos sobre o SUS, organizada pelo Instituto Walter Leser (IWL) da Fundação
Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), abordou essa questão e
sua urgência no contexto atual. Renata Paparelli, especialista em Saúde do
Trabalhador pelo CEREST/SP e doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela
USP, falou sobre a transformação histórica da discussão sobre o adoecimento
relacionado ao trabalho. “O padrão de desgaste à saúde da classe trabalhadora
se transformou brutalmente. Hoje, observamos transtornos mentais relacionados
ao trabalho em todos os lugares”, apontou. Para ela, esse cenário coloca um
grande desafio que articula cuidado, fiscalização e vigilância, dimensões que
precisam dialogar diante de um sofrimento psíquico pelo qual o trabalho é fator
determinante.
Paparelli
destacou um ponto que, embora pareça óbvio, é frequentemente ignorado na
prática: que toda a população adulta é trabalhadora e já é atendida pelo SUS.
“A questão é como se faz”, advertiu, por conta das especificidades do
sofrimento psíquico. Um dos pontos centrais nesse campo é o estabelecimento da
relação causal entre o adoecimento e o trabalho, tanto no plano previdenciário
quanto na afirmação de direitos e, sobretudo, no campo terapêutico. “É
enlouquecedor para o indivíduo adoecer, perceber a relação com o trabalho e ter
essa conexão negada ou minimizada pelos profissionais de saúde”, pontuou.
A
pesquisadora da Fundacentro Maria Maeno, também integrante do IWL da FESPSP,
destacou que o SUS carrega no próprio DNA a relação entre saúde e trabalho. “O
SUS nasceu com essa premissa; contudo, percebe-se que a rede tem dificuldade em
incorporar a dimensão do trabalho como determinante do adoecimento”, avaliou.
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O trabalhador perdido na rede
Rose
Inamine, da Divisão de Vigilância em Saúde do Trabalhador do CEREST/SP,
apresentou dados sobre as notificações de transtornos mentais relacionados ao
trabalho no estado. “Especificamente sobre os transtornos mentais relacionados
ao trabalho, a responsabilidade também recai sobre os CERESTs. Contudo, a
cobertura de municípios notificantes é muito baixa: apenas 14% dos 645
municípios paulistas (90 municípios) realizaram notificações nesse período,
sendo a maioria sedes de CERESTs. Isso evidencia um longo caminho a percorrer.”
A
questão do acolhimento permeou todo o debate. “Como é que cada um de nós
gostaria de ser acolhido pelo SUS?”, questionou Maria Maeno. “A população
trabalhadora não precisa conhecer em detalhes a estrutura da rede. Quando tem
uma urgência, ela sabe que tem que ir no pronto-socorro, mas quando a pessoa
enfrenta um problema como depressão e suspeita de relação com o trabalho, quem
ela deve procurar?”, exemplificou. “Quem não possui convênio recorre ao SUS. E
mesmo quem tem convênio raramente encontra um profissional que estabeleça essa
relação entre o sofrimento e o trabalho. Portanto, a responsabilidade recai
sobre o SUS.”
A
pesquisadora da Fundacentro explicou que, para o atendimento funcionar, é
necessário que, em qualquer ponto da rede, a pessoa possa encontrar escuta e
orientação. “O que é prejudicial é o ‘zigue-zague’ de encaminhamentos sem
acolhimento efetivo. O trabalhador que busca o SUS não pode encontrar uma
negativa. Deve ser acolhido, ouvido e devidamente direcionado.”
A
professora Andréia de Conto Garbin, psicóloga e docente da FSP-USP, articulou o
tema da saúde mental do trabalhador na rede pública a um princípio estrutural
do sistema. “O princípio organizativo do SUS não pode ser priorizado em
detrimento do doutrinário. O princípio doutrinário é a universalidade, a
integralidade, a equidade. São esses os princípios”, frisou. A regionalização,
a organização municipal e toda a rede, por mais complexa e necessária que seja,
precisam se organizar a partir dos princípios doutrinários, e não o contrário,
defendeu.
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Formação, diagnóstico e o descompasso entre as redes
Segundo
as participantes do debate, existe outro nó crítico, a formação e a falta de
contato dos profissionais com o tema em seus cursos. “A gente não tem formação
específica nas universidades para isso, são raras as que abordam a saúde mental
relacionada ao trabalho”, contou Renata Paparelli, acrescentando que sua
experiência mais significativa veio do próprio CEREST.
Ela
descreve um descompasso: de um lado, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
construiu uma prática orientada pela luta antimanicomial, que desconstruiu a
centralidade do diagnóstico e do CID. De outro, o campo da saúde mental e
trabalho depende, em larga medida, do reconhecimento formal do adoecimento para
que o sofrimento do trabalhador não seja tratado como “frescura, falta de força
de vontade ou algo que vai passar com fé”. Quando a equipe de saúde do
trabalhador chega a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) com a necessidade
de notificar, instala-se o que ela chamou de “uma torre de Babel”, pois as
lógicas institucionais não dialogam.
A saída
proposta passa pela criação de espaços que promovam debates entre profissionais
das duas redes, permitindo dialogar sobre o nexo sem abrir mão da perspectiva
antimanicomial e afirmar o reconhecimento do sofrimento sem reproduzir a lógica
manicomial do diagnóstico como fim em si mesmo.
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SUS e produtivismo
O
produtivismo, lógica que impõe o viés quantitativo e o “empresariamento” da
administração pública, foi identificado no debate como um dos principais
obstáculos ao cuidado. Andreia Garbin relatou uma conversa com trabalhadores da
saúde de São Paulo sobre metas. “Já incorporamos metas, mas o que se discute é
como isso torna inviável o cuidado. Como quantificar o tempo necessário para um
atendimento a uma crise em saúde mental?”, questionou. Trata-se de uma pergunta
sem resposta numérica simples, pois a métrica adotada ignora a complexidade do
atendimento. “Nessa configuração que desconsidera a variabilidade, o cuidado em
sua dimensão integral torna-se inviável.”
A isso
soma-se o “trabalho impedido”, que também afeta a saúde mental dos
trabalhadores do SUS. “Aquilo que deveria fazer, para o qual me formei e que
motivou minha entrada no serviço público, não posso realizar”, ilustra a
professora. Essa impossibilidade é, por si só, uma grande causa de sofrimento.
“Qual o sentido dessa avaliação de desempenho, dessa avaliação de meta? O
quanto isso fere a dignidade? A pessoa dedicou-se integralmente, mas não
conseguiu satisfazer uma meta estipulada unilateralmente”, completou Maria
Maeno.
Renata
Paparelli ilustrou essa tensão com um exemplo concreto de supervisão em Unidade
Básica de Saúde (UBS). Um agente comunitário de saúde que desejava realizar seu
trabalho de forma adequada, entrando nas casas, criando vínculos, fazendo
visitas domiciliares com tempo e presença, era obrigado a atender demandas
alheias e preencher inúmeras planilhas. “Em vez de realizar seu trabalho, ele
se limita a perguntar ‘boa tarde, o senhor está tomando remédio? Estou’, e
preenche as planilhas. Ele sabe que não fez seu trabalho”, explicou. “Se
pensarmos em políticas de gestão de pessoas, há um ponto maravilhoso: as
pessoas querem trabalhar. O problema é que não conseguem.”
Assim,
o debate retorna ao seu ponto de partida, já que os trabalhadores da saúde
também adoecem e sentem o que sentem as pessoas que atendem. “Todos somos
gente, temos subjetividade e trabalhamos”, afirmou Paparelli. “Esse sentir pode
ser utilizado a favor da população atendida. Não há trabalhador da saúde que
não compreenda a saúde do trabalhador, pois todos somos trabalhadores. Basta
olhar para si e para o que dói no próprio trabalho para então olhar para o
outro e compreender sua dor.”
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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