terça-feira, 9 de junho de 2026

Postura polarizada e extremista de parte da juventude é desafio para a democracia

Entre memes, algoritmos e a lógica da “lacração”, muitos jovens têm hoje seus primeiros contatos com a política em um ambiente marcado por conflito, disputas acirradas e forte polarização. Esse cenário molda a forma como a política é percebida e também influencia como as novas gerações se posicionam diante da democracia.

Ao mesmo tempo, cresce o distanciamento de parte da juventude ibero-americana em relação às instituições democráticas. Dados recentes do Latinobarômetro apontam uma queda no apoio à democracia, especialmente entre jovens. Ela é acompanhada por níveis mais baixos de confiança em parlamentos, partidos políticos e outras instituições representativas, quando comparados à população acima dos 30 anos.

Esse cenário, no entanto, não deve ser interpretado como uma rejeição pura e simples à democracia. Uma das hipóteses é que estamos diante de uma crítica às formas concretas pelas quais ela tem operado. Afinal, embora 68% dos jovens ainda considerem a democracia o melhor sistema de governo, 65% demonstram insatisfação com seu funcionamento prático.

A desafeição democrática juvenil não é apenas como afastamento institucional. Faço parte de um grupo de pesquisadores sociais que analisa essa questão criticamente. Nós partimos da hipótese de que ela também expressa disputas relevantes. É preciso reimaginar a política e a democracia em contextos marcados por desigualdade, insegurança e transformações digitais aceleradas.

<><> Frustrações frente a demandas sociais

Esse descontentamento institucional não surge no vazio. Ele dialoga diretamente com os desafios concretos enfrentados por jovens na Ibero-América. As dificuldades de inserção no mercado de trabalho, por exemplo, seguem persistentes e desproporcionais em relação a outros grupos etários.

Além disso, o alto custo de vida, a precarização das condições habitacionais e a segregação socioespacial, limitam o acesso a oportunidades. Esse conjunto de fatores dificulta a construção de projetos de vida autônomos, prolonga a dependência familiar e torna mais instável e incerta a transição para a vida adulta.

A crise climática adiciona ainda mais complexidade a esse cenário. Para além de seus impactos materiais, ela afeta a forma como os jovens projetam o futuro. Muitas vezes, marcado por insegurança e desconfiança sobre a capacidade das instituições de responder a desafios de longo prazo.

Outro elemento importante é o agravamento dos problemas de saúde mental entre as juventudes. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de um em cada sete jovens vive com algum transtorno de saúde mental, sendo ansiedade e depressão as condições mais comuns.

Nesse contexto, a aparente desafeição democrática entre jovens pode ser melhor compreendida como expressão de frustrações diante de demandas sociais não atendidas. Em muitos casos, a desconfiança nas instituições se intensifica diante da percepção de que elas não conseguem oferecer respostas concretas a questões de inclusão, reconhecimento e justiça social.

<><> Juventude e extremismo

Esse ambiente de frustração cria condições favoráveis à circulação de discursos extremistas. Entre jovens, essas narrativas encontram particular ressonância no ambiente digital. Plataformas digitais ampliam a circulação de conteúdos simplificados, emocionalmente mobilizadores e frequentemente polarizadores. Ao mesmo tempo, oferecem formas de pertencimento, reconhecimento e identidade política que muitas vezes ocupam o espaço deixado pelo distanciamento das instituições democráticas tradicionais.

Nos últimos anos, pesquisas mostram que forças autoritárias têm mobilizado sentimentos de insegurança, ressentimento e ameaça cultural. Transformações sociais passam a ser interpretadas como sinais de perda de identidade nacional ou de decadência moral. Um dos principais riscos desse processo é a sua normalização. Ideias antes consideradas marginais passam a circular com mais frequência no debate público, influenciando diferentes campos políticos e ampliando os limites do que é considerado aceitável.

Os algoritmos intensificam esse fenômeno. Amplificam a escala e a velocidade de difusão de discursos radicais, inclusive em torno de temas como misoginia, racismo e intolerância. Assim, as novas gerações passam a construir suas identidades políticas em ambientes em que discursos extremistas estão cada vez mais presentes e, em alguns casos, legitimados.

Esse movimento também tem efeitos concretos nas políticas públicas voltadas para a juventude. Em diferentes países, vemos a deslegitimação de políticas sociais e o questionamento de direitos, frequentemente acompanhados por discursos moralizantes. Nesse cenário, jovens são muitas vezes enquadrados como problema social ou responsabilizados individualmente por trajetórias marcadas por desigualdades estruturais.

<><> Um observatório para compreender e enfrentar o problema

Diante desse cenário, foi criado o Observatório Multilateral de Juventudes Frente ao Extremismo, uma iniciativa do Organismo Internacional de Juventude para Ibero-América (OIJ), em parceria com equipes de pesquisadores da PUC-Rio e da UniRio.

Nos próximos dois anos, nosso objetivo é aprofundar a análise das condições que moldam a experiência democrática das juventudes na região. Buscaremos articular dados empíricos e interpretação analítica para compreender os fatores que sustentam o distanciamento em relação às instituições e que favorecem a disseminação de discursos extremistas.

O projeto abrange cinco países — Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha — e pretende gerar inteligência regional sobre tendências emergentes. Nosso foco está na interseção entre desigualdades estruturais e dinâmicas contemporâneas de participação política.

A princípio, identificamos quatro eixos estratégicos de análise: educação, disputas de memória, ambiente digital e desigualdades (de classe, raça, gênero, sexualidade e território). Eles nos ajudam a entender a atuação de forças extremistas e também a moldar as possibilidades de construção de respostas democráticas.

A pesquisa combinará diferentes estratégias metodológicas. O projeto prevê a realização de um survey comparativo nos cinco países participantes. As amostras serão estratificadas por gênero, faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico, raça/etnia e território.

Também serão realizados grupos focais com jovens de diferentes perfis sociais e posicionamentos políticos, além do monitoramento digital de narrativas extremistas, desinformação e discursos antidemocráticos em plataformas digitais.

Além disso, o Observatório fará o mapeamento de políticas públicas e práticas democráticas voltadas à juventude em diferentes países da região. Buscaremos identificar experiências capazes de fortalecer a participação democrática e enfrentar processos de radicalização.

Além de mapear e compreender melhor o problema, o Observatório buscará articular academia, governos, sociedade civil e organismos internacionais na construção de respostas democráticas capazes de enfrentar o extremismo de forma consistente. O foco dessa agenda será a ampliação de direitos, a redução das desigualdades e o fortalecimento da participação juvenil, entendendo que o enfrentamento ao extremismo também passa pela capacidade de reimaginar a política e a democracia a partir das experiências, demandas e expectativas das novas gerações.

•        O direito demora a reagir às grandes transformações, diz jurista português

Em meio aos debates do XIV Fórum de Lisboa sobre tecnologia e soberania, o jurista português Vitalino Canas analisa o avanço da inteligência artificial, os riscos de manipulação nas redes sociais e a necessidade de regulação das grandes plataformas.

Na entrevista, Canas, presidente do Fórum de Integração Brasil Europa e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, defende um modelo equilibrado de regulação, alerta para a importância da educação crítica diante da IA e avalia os impactos dessas transformações sobre o direito e as democracias contemporâneas.

•        Durante três dias, nos debates no XIV Fórum de Lisboa, muito se falou sobre manipulação e até lavagem cerebral dos usuários das redes sociais pelas grandes plataformas digitais. Como o senhor enxerga a evolução desse fenômeno?

Penso que uma das atuais dificuldades é que sabemos que essa situação existe, mas não conseguimos ainda diagnosticar exatamente as suas causas. Quando conseguirmos, estou seguro que as autoridades, os cidadãos e os próprios titulares das plataformas digitais conseguirão encontrar uma resposta.

•        O que o futuro nos reserva?

Acho, sinceramente, que, se fomos capazes de inventar a IA e se somos capazes de fazê-la progredir rapidamente, saberemos utilizá-la para encontrar os antídotos necessários.

•        Os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, referiram-se a uma necessidade urgente de regulamentação das big techs e das redes sociais. O senhor concorda com esse ponto de vista?

Sim, concordo. Como jurista, quando falo de antídotos tenho de colocar na primeira linha o próprio direito. Há vários modelos de regulação, um que coloca todo o peso no Estado e no controle do Estado; outro que tende a liberalizar, e um intermédio que procura fazer o equilíbrio entre a liberdade de expressão e de iniciativa econômica e todas as demais liberdades. Eu prefiro esse.

•        Como evitar que a humanidade se torne escrava e serva, termo usado pelo ministro Gilmar, da inteligência artificial?

Temos de garantir que, se recorrermos à IA (e já há uma corrente forte, como se viu pela Encíclica do papa Leão XIV, que preconiza a autorrestrição no seu desenvolvimento e uso), o fazemos mantendo sempre o controle. A nossa capacidade crítica tem de ser aperfeiçoada, e isso deve começar desde os primeiros momentos da escola.

•        O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, prometeu levar à votação o marco legal da IA. Que regras, na sua avaliação, precisam constar dessa legislação no Brasil?

Creio que o Brasil está, como a Europa, no bom caminho ao aderir a um modelo equilibrado que, por um lado, procura evitar a manipulação dos conteúdos e das mentes, mas que, por outro, permite que as plataformas digitais e a IA sejam um meio de explorar e magnificar o que a humanidade tem de melhor, facilitar as nossas vidas, aumentar o conhecimento e a participação política.

•        O ministro Alexandre de Moraes defendeu uma espécie de pacto dos países democráticos, como ocorreu no pós-guerra, para conter essa manipulação provocada pelos algoritmos. O senhor concorda com isso? Acha possível?

Acho importante, mas muito difícil. Acredito em pequenos passos, com iniciativas de Estados e regiões líderes. Acredito bastante, por exemplo, num entendimento entre o Brasil e a União Europeia, que, creio, pensam da mesma forma sobre essas matérias.

•        A revolução da inteligência artificial está transformando a economia, a política e a comunicação. O direito tem conseguido acompanhar a velocidade dessas mudanças?

Não tem conseguido, mas isso é natural. O direito normalmente reage tarde (e, às vezes, mal) aos novos fenômenos e às transformações sociais, tecnológicas e políticas. O direito é, por natureza, conservador. Mas acredito que começa a formar-se uma massa crítica de investigadores e pensadores que vão alterar isso.

•        O senhor acredita que as democracias sairão desse processo mais fortes ou mais vulneráveis?

É difícil dizer, por enquanto. Mas sairão certamente diferentes, com formas de funcionamento distantes do que conhecemos hoje.

•        Quem deve estabelecer os limites para o uso da inteligência artificial: os governos nacionais, organismos internacionais ou as próprias empresas de tecnologia?

É impossível encontrar uma solução sem governos e empresas de tecnologia. Nas condições atuais, são eles que devem assumir responsabilidade. Para preparar instituições internacionais que possam ter um papel determinante ou relevante, necessitamos de algum tempo, até porque o direito internacional e a governança global estão em relativa crise. Não podemos esperar por elas.

 

Fonte: Por Talita Tanscheit – The Conversation Brasil/Correio Braziliense

 

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