terça-feira, 9 de junho de 2026

Liszt Vieira: O general Pix contra os EUA

Ora, quem diria, o Pix é subversivo. Está prejudicando o sistema financeiro de pagamentos dos EUA. Só falta alguém chamar o Pix de comunista, mas não duvido de que isso venha a ocorrer. Vejamos porque Donald Trump quer acabar com o Pix.

Segundo dados do Banco Central, em 2025 foram movimentados R$ 35,36 trilhões por meio do Pix, distribuídos em aproximadamente 79,8 bilhões de transações. Esse valor é muito maior do que o PIB brasileiro anual, o que mostra a dimensão alcançada pelo sistema de pagamentos instantâneos. O valor movimentado pelo Pix em 2024 foi cerca de R$ 26,2 trilhões, e em 2025 alcançou cerca de 35,4 trilhões.

O crescimento de 2024 para 2025 foi de aproximadamente 34%  em valor movimentado. Mais de 170 milhões de brasileiros já utilizaram o Pix que já responde por mais da metade de todas as transações de pagamento realizadas no país. Em termos médios, os R$ 35,36 trilhões por ano correspondem a cerca de R$ 97 bilhões movimentados por dia.

Em relação à perda dos cartões de crédito pelo uso do Pix, que é gratuito, embora não exista um cálculo oficial e consensual, a melhor estimativa disponível sugere que o avanço do Pix retirou do setor de cartões algo entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões por ano em receitas de taxas. Nem por isso tiveram prejuízo.

“O bolo total de cartões no Brasil saltou de 1,75 trilhão de reais em 2019 para 4,27 trilhões em 2025 – um crescimento nominal de 144%. O cartão de crédito sozinho foi de 1,06 trilhão para 3 trilhões de reais. E os cartões pré-pagos das fintechs explodiram de 22,4 bilhões para 319,3 bilhões de reais” (José Roberto de Toledo, UOL, 6/6/2026).

Mas o Pix é público e gratuito, sufoca o potencial de crescimento dos cartões, reduz e no limite elimina a dependência ao mercado privado de cartões, prejudicando os interesses das empresas e do governo dos EUA. Donald Trump defende os interesses das empresas americanas de cartão de crédito, principalmente Visa e Master Card. E o intermediário de Donald Trump no Brasil, o candidato Flávio Bolsonaro, vai certamente obedecer às ordens de seu patrão.

Em 8 de cada 10 mensagens opinativas sobre o assunto trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o senador Flávio Bolsonaro é apontado como culpado por ameaças ao Pix e pelo novo tarifaço anunciado pelos EUA. Ele tentou amenizar dizendo que é contra o novo tarifaço e defende o Pix, mas seu irmão Eduardo, nos EUA, abriu o jogo e propôs abertamente acabar com o Pix e adotar o sistema americano Zelle.

Ocorre que o; Zelle pertence a um consórcio privado Early Warning Services, controlado por grandes bancos, entre os quais Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo. O Pix é público, gratuito e instantâneo. O Zelle é pago e pode demorar horas ou dias para completar uma transação. Além disso, o sistema americano não cobre todo território dos Estados Unidos nem funciona fora do ecossistema bancário aderente, ao contrário do Pix que se espalhou e cobre todo o Brasil.

Até agora, os maiores apoiadores de Lula foram, paradoxalmente, Donald Trump e Flávio Bolsonaro. A defesa da soberania nacional caiu no colo de Lula ao defender o Pix e a economia brasileira contra o tarifaço anunciado por Donald Trump e seu Secretário de Estado Marco Rubio. O candidato Flávio Bolsonaro se enfraquece no empresariado e no grande público pela extorsão de 61 milhões do dinheiro roubado por Daniel Vorcaro, do Banco Master, pela mentira ao alegar que esse dinheiro iria para o filme sobre seu pai, e pelo tarifaço anunciado em seguida à sua visita a Donald Trump e Marco Rubio.

Até agora Flávio Bolsonaro não explicou para onde foi esse dinheiro. Vai ser questionado durante toda a campanha, o que lhe obriga a ficar se defendendo. E, em campanha eleitoral, quem só se defende já perdeu. Ele perdeu o discurso contra a corrupção e a favor da economia. Daniel Vorcaro e Donald Trump cairão como espada de Dâmocles na sua cabeça. Vai ficar restrito praticamente ao discurso sobre segurança, denunciando o aumento real ou imaginário da criminalidade que assusta a população. E vai continuar alimentando o eleitorado de direita com fake news.

A última pesquisa eleitoral, realizada pela Vox Brasil e divulgada em 5 de junho de 2026, mostra Lula no segundo turno com 47,8% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 41,3%. Outros 6,5% votam branco ou nulo e 4,4% não souberam responder. Em outro cenário, Lula teria 46,3% contra 42,5% de Romeu Zema, e 46,5% contra 44,9% de Ronaldo Caiado. Por essa pesquisa, Caiado e Zema teriam mais votos que Flávio no segundo turno.

Ainda é cedo para conclusões, a mídia e o mercado ainda estão apoiando Flávio Bolsonaro, mas tudo indica que ele vai pagar o preço por andar nas más companhias de Daniel Vorcaro e Donald Trump. Se ele tivesse lido Max Weber, estaria mais atento aos resultados não intencionais das ações humanas que frequentemente produzem consequências diferentes daquelas pretendidas pelos indivíduos que as realizam.

Do lado de Lula, duas iniciativas louváveis causaram impacto positivo na opinião pública: o fim da escala 6×1 e o Desenrola, já que o aumento de renda estava sendo engolido pelo endividamento. Mas a repercussão eleitoral ainda não foi muito significativa. Será necessário apresentar propostas para criar esperança para o futuro, esperança de que a vida do eleitor vai melhorar, que o país vai se desenvolver. Ficar ressaltando os dados macroeconômicos positivos do passado não rende votos.

A candidatura de Flávio Bolsonaro pode continuar ou ser substituída por outro candidato de direita, Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. De qualquer maneira, a imprensa e o mercado apoiarão o candidato de direita contra Lula e tentarão ignorar ou amenizar o máximo possível o efeito negativo das más companhias de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, Marco Rubio e Donald Trump.

Muita gente já mostrou a necessidade de apresentar propostas de impacto como, por exemplo, taxar as grandes fortunas, tarifa zero no transporte público, acabar com as emendas parlamentares secretas que sequestram o orçamento, medidas efetivas de segurança contra o crime organizado, defesa da Amazônia, propostas que mobilizem a emoção, e não busquem apenas uma aprovação racional. O importante é a proposta de impacto, o como fazer fica para depois. O eleitorado flutuante, o eleitor indeciso e pendular, decide o voto mais pela emoção do que pela razão.

E, comandando o pelotão dessas utopias possíveis, o General Pix, uma verdadeira unanimidade nacional, pode dar uma contribuição decisiva não somente para a vitória de Lula na eleição de outubro, mas também para eleger mais parlamentares progressistas para o próximo Congresso.

•        Pix é ‘inegociável’, mas Brasil quer extensão de prazo para acordo com EUA. Por Jamil Chade

O governo brasileiro quer a extensão do prazo de 30 dias estabelecido entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump para que os dois países fechem um acordo tarifário. A data inicialmente definida vence neste domingo (7), mas não há qualquer chance de um pacto até o fim de semana. O cálculo do Brasil é de que as novas tarifas apenas entram em vigor a partir de 15 de julho e que, até lá, existem espaços para um processo negociador.

Com as duas tarifas anunciadas pelo governo dos EUA, o Brasil passaria a enfrentar taxas de 37,5% a partir de meados de julho.

Não se descarta uma reunião técnica entre os dois países, já na próxima semana. Para reverter o impacto, o governo Lula já sinalizou que está disposto a fazer concessões para que haja um acordo. A proposta, porém, se limita às questões de tarifas de importação.

Mas o que está fora de consideração é qualquer chance de que haja um processo negociador sobre o Pix, algo que foi sugerido pelo bolsonarismo. O governo já insistiu que o sistema de pagamentos não será oferecido como área a ser debatida.

Tampouco haverá uma oferta por parte do Brasil de abertura do mercado de terras raras. Para que esse assunto entre na agenda, o governo Lula vai exigir que haja um processamento no país e que parte da produção seja mantida para abastecer o mercado nacional.

Quando as tarifas foram anunciadas, Lula sinalizou que poderia enviar uma carta para Trump. A declaração servia para avisar às autoridades americanas de que o Brasil quer negociar.

Mas, dentro do governo, existe uma percepção de que há uma diferença entre a taxa de 12,5% e a barreira de 25%.

Brasília considera que a primeira barreira – anunciada a partir do argumento de trabalho escravo – seria uma base que Trump usará contra todo o mundo e que, portanto, não existem chances elevadas de uma revisão. O fato de aliados como Argentina, Catar ou Israel terem também sofrido tarifas revelaria que a taxa deve ser aplicada contra todos e que não seria uma barreira política.

O foco da negociação, portanto, seria a de reduzir as taxas de 25%, específica contra o Brasil. Uma opções é a de oferecer tarifas mais reduzidas para produtos americanos no país, como forma de chegar a um acordo. O governo admite que o processo será “difícil”, mas não impossível.

Um dos caminhos seria conseguir incluir novos produtos na lista de isenção por parte dos EUA. Não se descarta ainda rever a posição do Brasil de impedir um acordo na OMC que permita que haja uma isenção de tarifas contra serviços digitais, um dos pleitos do governo Trump e que vinha sofrendo uma recusa por parte do Itamaraty.

De acordo com fontes, um dos obstáculos é ainda o caráter maximalista do governo, que vem insistindo em fazer amplas demandas. Agora, a esperança do Brasil é de negociar de forma setorial.

Tanto Lula como Trump estarão na reunião do G7 na França, em 15 dias. Mas membros do governo consideram que um novo encontro bilateral entre os dois apenas teria sentido se houver um avanço nas negociações das próximas semanas.

O que Lula ainda deve levar à cúpula é um discurso forte de denúncia contra o protecionismo e o unilateralismo, tema que foi colocado na pauta pela presidência francesa.

•        Pix se transforma em símbolo político e domina debate eleitoral

O Pix consolidou-se como um dos temas mais relevantes do debate político brasileiro nos últimos anos, extrapolando sua função original como sistema de pagamentos instantâneos para se tornar peça estratégica em disputas eleitorais e narrativas sobre soberania nacional. O assunto voltou ao centro das atenções após os Estados Unidos questionarem o modelo brasileiro e recomendarem a aplicação de tarifas sobre produtos nacionais.

Segundo reportagem publicada por O Globo, a recente ofensiva do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) reacendeu uma disputa política interna envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes da família Bolsonaro. O órgão americano argumentou que o Brasil adota políticas consideradas favoráveis ao Pix em detrimento de empresas estrangeiras de serviços de pagamento eletrônico.

A reação do governo federal foi imediata. O Palácio do Planalto retomou o slogan “O Pix é nosso”, utilizado anteriormente durante as primeiras investigações americanas sobre o sistema. A estratégia buscou reforçar a defesa da ferramenta como patrimônio nacional e associá-la ao discurso de soberania econômica diante das pressões externas.

<><> Pix entra definitivamente no jogo eleitoral

A utilização política do Pix não é novidade. O tema já ocupava espaço relevante durante a campanha presidencial de 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro associou diretamente sua gestão à criação da ferramenta.

Em uma propaganda eleitoral exibida durante a disputa pela reeleição, Bolsonaro afirmou que seu governo havia criado o sistema de pagamentos em 2020. Na peça, o ex-presidente relembrou as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros para realizar transferências bancárias antes da implementação do mecanismo.

“É o nosso governo inovando”, declarou Bolsonaro na propaganda eleitoral.

Embora diferentes grupos políticos tentem reivindicar os méritos pela criação do Pix, especialistas avaliam que a população não atribui a ferramenta a uma liderança específica, mas reconhece amplamente sua importância para o cotidiano.

<><> Popularidade amplia impacto político

Para Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, o Pix já ultrapassou a discussão sobre autoria e passou a ser percebido como um serviço público consolidado.

“Não há uma identificação da população sobre um padrinho do Pix. Ele já foi incorporado como um serviço público que gerou um efeito muito importante ao aumentar a bancarização, no sentido de que é muito mais fácil utilizá-lo do que lidar com dinheiro em espécie. Isso facilitou, principalmente, as transações de empreendedores e trabalhadores informais”, afirmou.

Os números ajudam a explicar essa percepção. De acordo com o Banco Central, mais de 170 milhões de brasileiros utilizam o sistema, o equivalente a cerca de 80% da população. Apenas em janeiro deste ano, a ferramenta movimentou aproximadamente R$ 7 bilhões.

A elevada aprovação popular também aparece em pesquisas. Um levantamento Radar Febraban realizado pelo Ipespe em setembro de 2024 mostrou que o Pix alcançou aprovação de 95% dos brasileiros, superando cartões de débito, cartões de crédito, transferências TED e cheques bancários.

<><> Crises envolvendo o Pix afetam avaliação de governos

A popularidade do sistema faz com que qualquer debate sobre seu funcionamento produza efeitos políticos imediatos. Para Felipe Nunes, CEO da Quaest, a ferramenta passou a representar algo essencial para a rotina financeira dos brasileiros.

Segundo ele, situações que geram dúvidas ou insegurança sobre o Pix tendem a provocar reações rápidas da opinião pública.

Esse cenário ficou evidente no início de 2025, quando ganhou repercussão um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Na publicação, o parlamentar sugeria que o governo federal poderia taxar transações realizadas pelo sistema após mudanças relacionadas ao monitoramento de movimentações financeiras pela Receita Federal.

A repercussão da narrativa nas redes sociais foi significativa. Na avaliação de especialistas, o episódio contribuiu para o desgaste da imagem do governo e influenciou indicadores de popularidade do presidente Lula.

<><> O debate sobre taxação e soberania

Ainda durante a campanha eleitoral de 2022, Lula precisou responder a boatos segundo os quais acabaria com o Pix caso fosse eleito presidente. O petista classificou essas informações como falsas.

Para Felipe Nunes, a crise envolvendo a suposta taxação mostrou como questões relacionadas ao bolso dos brasileiros produzem efeitos políticos rápidos.

“Na crise do Pix do ano passado, o governo sofreu porque ficou no lugar de quem precisava se explicar. Mesmo quando a ideia de taxação não correspondia ao que estava sendo feito, a percepção de risco já tinha se espalhado. E, em política, percepção de ameaça ao bolso costuma andar muito mais rápido do que explicação técnica. Depois, quando Lula consegue deslocar o debate para a defesa da soberania, a chave muda”, afirmou.

A defesa do sistema diante das críticas dos Estados Unidos também permitiu ao governo associar o Pix a um símbolo de independência nacional, ampliando seu significado para além do setor financeiro.

<><> Ferramenta ganha dimensão simbólica

O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o Pix passou a ocupar um espaço semelhante ao de outros símbolos históricos construídos ao longo da trajetória política brasileira.

“O Pix caminha na mesma direção de outros elementos que, ao longo da história, foram construídos no Brasil como símbolos que ultrapassaram o campo econômico e se transformaram em elementos de identidade nacional. Foi assim com a campanha ‘O petróleo é nosso’, nos anos 1950, durante o governo Vargas”, disse.

Na disputa mais recente, o senador Flávio Bolsonaro buscou reforçar a associação da ferramenta ao legado do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em resposta ao slogan utilizado pelo governo federal, o parlamentar lançou a frase “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”.

Para Felipe Nunes, porém, existe um desafio nessa estratégia. Segundo ele, a ampla aceitação do sistema faz com que a população o enxergue como patrimônio coletivo, e não como conquista exclusiva de qualquer liderança política.

<><> Declaração de Eduardo Bolsonaro gera nova controvérsia

A discussão ganhou novos capítulos nos últimos dias após uma entrevista concedida pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atualmente reside nos Estados Unidos.

Durante conversa com a rádio TMC, ele afirmou que existem mecanismos semelhantes ao Pix em território americano e citou o sistema Zelle como exemplo de ferramenta que poderia integrar futuras negociações entre os dois países.

As declarações provocaram reações nas redes sociais. Críticos acusaram o ex-parlamentar de adotar uma postura excessivamente alinhada aos interesses do governo americano em um momento de tensão envolvendo o sistema brasileiro de pagamentos.

Enquanto isso, o Pix segue consolidado como uma das ferramentas mais populares do país e, cada vez mais, como um dos temas centrais das disputas políticas nacionais.

 

Fonte: A Terra é Redonda/ISL Notícias/Brasil 247

 

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