Gustavo
Guerreiro: Como notícias desconexas revelam uma estrutura permanente, um mais
do mesmo
O
noticiário brasileiro raramente se limita ao presente. O recente turbilhão de
notícias aleatórias foi uma autópsia de uma formação social que se modernizou
sem democratizar o poder. Os confrontos entre os filhos de Bolsonaro e o
presidente Lula, o julgamento de Cláudio Castro, o acordo judicial de Daniel
Vorcaro, o filme superfaturado “Dark Horse“, o aumento das tarifas de Trump, a
criminalização do aborto legal e a mobilização contra a escala 6×1 formam um
conjunto de temas. Embora pareçam aleatórios, compõem uma mesma imagem
histórica.
O país
repete seus erros como o vai e vem das ondas do mar. O que muda é a linguagem,
as siglas partidárias, a roupagem tecnológica. O conteúdo fundamental
(hierarquias raciais, concentração de renda, patrimonialismo, dependência
externa, um Estado que protege a propriedade melhor que as vidas) permanece
intacto como uma camada geológica da crosta terrestre.
A
rivalidade entre Lula e os filhos de Jair, ainda que carregue um conteúdo
simbólico poderoso, segue ocupando mais espaço no debate público do que debates
estruturais na ordem do dia, como trabalho, renda, soberania ou o corpo da
mulher.
Quando
a política se reduz ao duelo entre nomes próprios, o debate nacional vira
novela. Tudo é fulanizado. O país perde de vista seus substantivos materiais. A
disputa ideológica se transmuta em embate de personagens. E as classes sociais
desaparecem.
Sérgio
Buarque de Holanda chamou isto de cordialismo. Como sociólogo bem menos
conhecido, atrevo-me a dizer que falta ao diagnóstico dele uma precisão:
personalismo não é traço cultural, é tecnologia política. Despolitiza.
Transforma antagonismos de classe em rivalidades teatralizadas, em que o
conflito entre capital e trabalho se reduz a “quem manda” em cada ciclo.
Os
filhos de Bolsonaro expressam de forma concentrada uma prática que foi
patrimonializada e militarizada ao longo de séculos no Brasil. O bolsonarismo
radicalizou (sim) o culto à autoridade, o desprezo pelas mediações
democráticas, o moralismo seletivo e a caça a inimigos internos.
Mas sua
genealogia é antiga. Não foi uma invenção. A “Casa Grande digital” (as antigas
hierarquias autoritárias que operam por meio de plataformas, memes e máquinas
de engajamento) simplesmente amplificou o alcance de relações de poder que
nunca desapareceram.
O ódio
ao voto, à Constituição e à democracia é um legado antigo, não uma anomalia. Há
algo de novo no radicalismo contemporâneo? Sim.
Mas,
enquanto a elite não reconhecer que o bolsonarismo é o fruto legítimo de sua
lógica, continuará a incubar suas próximas encarnações com novos nomes, mas com
as mesmas características.
Em
outro assunto de recente destaque, Cláudio Castro, governador do Rio, aguarda
julgamento em um caso que exemplifica mais do que corrupção. Revela a
promiscuidade entre o poder público, as economias ilegais, as milícias privadas
e os interesses empresariais e expõe o verdadeiro funcionamento do Estado
brasileiro.
O Rio
não é uma exceção exótica, mas uma amostra do que acontece quando o Estado
social se afasta e o Estado penal começa a se aproximar da economia da morte.
A crise
política no Rio de Janeiro resulta da passagem histórica do escravismo
patriarcal rural ao controle armado das periferias. São os mesmos mecanismos
com nova roupagem. Grileiro virou miliciano e estrada de terra virou rua. A
estrutura de poder permanece intacta.
A
política de segurança pública brasileira funciona como gestão da pobreza. A
guerra às drogas criou uma economia política inteira. O orçamento, o controle
territorial e o extermínio são ferramentas. Produzem rentabilidade para a
indústria de segurança e para fornecedores de armas.
Eis a
contradição escancarada: o país que condena a política de segurança interna de
outro é o principal responsável pelo fornecimento de armas para o crime
organizado.
Nos
territórios pobres e marginalizados, onde cidadania é suspensa, helicópteros
sobrevoam, desaparecimentos são contabilizados como “resistência”. Não é
disfunção, mas método. A violência é a linguagem histórica que o Estado
controlado pelo grande capital usa com pobres e negros.
Continuando
nossa incursão, chegamos ao tarifaço de Trump, que evidencia o óbvio: a
fragilidade brasileira repousa na vulnerabilidade diante dos EUA, na posição
subordinada da divisão internacional do trabalho.
Exportador
de commodities e importador de tecnologia, o Brasil ainda é dependente dos
humores políticos de potências centrais. Celso Furtado e Rui Mauro Marini
descreveram isto com precisão. A novidade é que agora o gerente dessa ordem usa
redes sociais e frases de impacto.
Não é
Trump que inventa essa arquitetura. Ele a expõe com clareza brutal. O
liberalismo das potências costuma terminar exatamente onde começam seus
interesses nacionais. Livre mercado para os fracos, protecionismo blindado para
os fortes. O Brasil há séculos aprendeu sua lição nessa escola histórica da
subordinação.
A
vulnerabilidade externa não brota apenas de pressão imperialista. Decorre
também de uma burguesia interna historicamente confortável com a subordinação,
desde que seus privilégios permaneçam intocados. É cosmopolita no consumo,
colonial na estrutura produtiva e antinacional na prática política. Essa é a
burguesia compradora em sentido pleno, e o Brasil não conhece outra há séculos.
Não se
trata de invocar uma redenção nacionalista abstrata. A questão deve ser mais
objetiva: quem se beneficia dessa economia dependente?
A
resposta é óbvia: uma minoria que prefere lucros seguros, ainda que medíocres,
à aventura arriscada de construir um projeto industrial autônomo. Essa elite
escolheu seu conforto particular em prejuízo ao futuro coletivo de duzentos
milhões de brasileiros.
Um
outro ponto que aparece no noticiário é o projeto que criminaliza ou restringe
o aborto legal e que tem na senadora Damares Alves sua grande representante.
Esse não atinge todas as mulheres igualmente. Ricas acessam clínicas privadas,
viagens ao exterior, redes de proteção invisíveis.
Às
mulheres pobres, negras e periféricas cabe apenas enfrentar a polícia, a
humilhação, uma morte materna evitável e a prisão. A isso a direita chama
absurdamente de pauta moral. Decidir quem pode viver, gestar e morrer é uma das
formas mais eficientes de manipular a violência estrutural sob verniz de
“virtude cristã”.
O corpo
feminino passa a ser ilustrado como símbolo da dominação patriarcal, sobretudo
o corpo negro e periférico. Tal dominação sobre direitos reprodutivos não é,
nem de longe, arcaísmo folclórico. É biopolítica funcional ao sistema. Define
quem tem direito a construir o próprio futuro ou quem deve apenas reproduzir
força de trabalho precarizada.
Nesse
sentido, o fundamentalismo religioso no Congresso opera como tecnologia
política sofisticada. Mobiliza afetos legítimos, como fé, comunidade e o
sagrado transcendental. A teologia da punição opera como fé instrumentalizada
para administrar pobreza e disciplinar corpos dissidentes, avançando do campo
corporativo das igrejas para os espaços institucionais e distorcendo o debate
público.
Chegamos
à mobilização pelo fim da escala 6×1, que não organiza apenas a semana, mas
como se dá a expropriação cotidiana do futuro.
Não é
apenas disputa pela força de trabalho, mas pelo tempo de vida, no sentido
marxiano mais preciso possível. E aqui o capital brasileiro atua como se o
trabalhador devesse não apenas sua energia, mas sua existência integral. O
relógio de ponto é o herdeiro secular de práticas que vigoram desde a senzala.
A vida
se resume à reposição diária de energia para gerar lucro para os outros,
resultando em acúmulo de cansaço crônico, horas desperdiçadas em transportes,
falta de convivência familiar, cuidado doméstico inviável e enfermidade precoce
e duradoura.
E quem
dirá que isso também não reflete nos índices de violência doméstica, que muitas
vezes resultam em feminicídio?
Essa é
a realidade de milhões de trabalhadores. A mentalidade patronal que formalmente
aboliu a escravidão, mas manteve sua cultura, é evidenciada pela escala 6×1 e
seus cães de guarda. Essa mentalidade normaliza jornadas de trabalho
exaustivas, salários baixos, informalidade total, desvalorização do tempo livre
e desrespeito pela vida.
O
Brasil aboliu a escravidão formal, mas manteve suas estruturas por prática
cotidiana, em que hierarquias raciais são permanentemente reconfiguradas. A
concentração fundiária perpetuada, disfarçada de mercado, evidencia a natureza
da dependência econômica.
Embora
não se possa afirmar que o trabalho assalariado é idêntico à escravidão (seria
simplismo redutor), é inegável que este carrega marcas históricas profundas de
uma sociedade que nunca democratizou a propriedade, a renda ou a gestão do
tempo.
As
grandes “reformas” brasileiras não são nada além de fachadas institucionais que
preservam o núcleo duro do poder. A própria proclamação da República não
significou ruptura, dado que foi fruto de um golpe militar e não de uma
revolução popular. Mesmo a redemocratização, embora popular, também não tocou
na ferida.
Foram
revoluções passivas, no sentido gramsciano, em que processos históricos, embora
marcados por mudanças estruturais (como a modernização econômica ou transições
de poder), ocorrem pelo alto, conduzidos pelas elites dominantes, sem a
participação ativa ou a mobilização direta das massas.
O
liberalismo dirá que isto resulta de gestão inadequada, corrupção e atraso
cultural, provocados pelo próprio Estado. Mentira!
Corrupção,
violência, fundamentalismo e dependência não são desvios acidentais, mas método
de reprodução do poder em sociedades profundamente desiguais. A repetição
obsessiva desses fenômenos (como as rachadinhas e os milhões desviados de
fundos de previdência) não aponta para o caos, mas para a estrutura. A leitura
liberal chama de crise aquilo que, para a base da sociedade, sempre foi
normalidade administrada por elites competentes em perpetuar-se às custas da
miséria.
Apesar
da degradação institucional, a luta por democracia ainda pulsa fora dos espaços
de poder formais. Nas ruas, nas aldeias, nos sindicatos, nas periferias
mobilizadas e articuladas, em coletivos feministas, a formação política
continua e persiste e resiste.
A luta
contra a escala 6×1 exemplifica bem esse movimento: não é, nem de longe,
redenção automática. Vencer essa luta é apenas uma etapa de uma construção
árdua e necessária. Representa a esperança política sem ingenuidade. A classe
trabalhadora não é uma classificação abstrata em textos de sociologia, mas uma
experiência coletiva em constante construção.
O rito
eleitoral, embora tenha sua importância tática e estratégica, não representa a
democracia de forma integral. Não basta defender o voto se milícias controlam
territórios, se a fome de tempo expropria a vida, se o patriarcado governa os
corpos, se a dependência externa rouba a soberania e se o Estado penal executa
pobres.
A
democracia plena exige redistribuição material de poder, renda, território,
tempo e autonomia do corpo. Não virá dos escritórios das negociações privadas
entre elites. Virão das ruas, da organização coletiva, do conflito aberto e
necessário com essa ordem arcaica que se recusa obstinadamente a morrer.
A
semana que lemos nos jornais não passa. Enquanto essas estruturas profundas
permanecerem intocadas, a história brasileira seguirá sendo radiografia
obsessiva e repetitiva da mesma formação social. Ela será constantemente
renovada em linguagem e estética, mas fundamentalmente imutável em seu conteúdo
material e em seus efeitos devastadores sobre a vida dos trabalhadores.
• Manuel Domingos Neto: O campeão do
terror
O
terrorismo é mal definido porque consiste em expediente guerreiro e guerra não
pode ser percebida com objetividade certeira: desperta, de forma absoluta,
instintos, pulsões e tendências reprimidas; desencadeia violência cega, difícil
de ser contida.
Protagonizada
por alguns, a guerra envolve a todos, sendo vaga a distinção entre atividade
“civil” e atividade “militar”. Corriqueira, é sempre espetacular. Repugna e
fascina, alegra e entristece, bestifica e glorifica. Justificada em nome de
princípios supremos, ignora valores consagrados, constrói e destrói sociedades.
Oferece patrimônio simbólico sacrossanto, legitima o poder político e,
enganosamente, nutre esperança de futuro melhor.
Escapando
da complexidade do fenômeno, muitos repetem levianamente Clausewitz: a guerra
seria a “continuação da política por outros meios”.
A
distinção arbitrária entre guerra e política lhes permite o conforto de pensar
que o objetivo da guerra é a paz, não o exercício do domínio ou a conquista da
liberdade.
Clausewitz
não foi tão raso. Definiu a guerra como “ato de violência destinado a forçar o
adversário a executar nossa vontade”.
A
vontade dos que guerreiam transcende o que pode ser admitido como objetivo
político. A guerra antecede a política. Humanos sempre se mataram ao perceber
sua reprodução ameaçada.
Mas, a
matança em grande escala ocorre na construção e preservação de impérios. O
domínio sobre muitas comunidades é efetivado com terror intensivo,
transformando um instinto primal, o medo, em pavor coletivo. O terrorista visa
enfraquecer ou anular a reação de sua vítima. Essa prática é universal e
atemporal.
O
terror é usualmente combinado com a demonização do “inimigo”, a negação de
comida e água, pilhagens, saques, suplícios, execuções sumárias, estupros,
genocídios, humilhações, diásporas, profanações de símbolos sagrados,
escravização, servidão, enfim, com a brutalidade absoluta.
O
genocídio em Gaza e a destruição de uma escola de crianças em Teerã não foram
eventos extraordinários, mas a manutenção de rotina histórica que iguala
“primitivos” e “civilizados”.
Nenhum
império, regime ditatorial ou força libertária dispensa a prática do terror e
sua posterior glamourização, porque o exercício do mando demanda mais que
brutalidade física. Impérios requisitam os melhores talentos para exaltar
pretensas vantagens oferecidas aos dominados e obter o seu consentimento.
Houvesse
ranking dos maiores terroristas segundo a capacidade de disseminar pavor e
pânico, a Casa Branca seria imbatível, não porque detenha meios para extinguir
a humanidade, mas por ser capaz de impor padrões de beleza, justiça e bondade,
estabelecer leis extraterritoriais, decidir unilateralmente condições de
intercâmbios globais e deixar à míngua os que não se submetem aos seus
desígnios.
A
capacidade de abalar economias, assassinar, derrubar ou sequestrar governantes,
desencadear guerras por procuração, impor dependência em armas e equipamentos
militares, dominar a comunicação planetária, interferir na vontade de países
formalmente soberanos desconsertaria terroristas famosos como Ciro, Alexandre,
César, Gengis Khan, Napoleão, a rainha Vitória, Hitler…
A
modestíssima capacidade de autodeterminação do Brasil será testada nas eleições
de outubro.
Decidiremos
pela servidão ou pela honra nacional. Ao incluir organizações criminosas como
“terroristas”, a Casa Branca avisou que mandará bala em nosso espaço quando lhe
aprouver. Mostrando coerência, estabelece cerco ao nosso território por meio de
aliados sul-americanos.
Muitos
aplaudem a interferência da Casa Branca na Segurança Pública brasileira. Alguns
generais torcem a cara, mas não ao ponto de sugerir a quebra de laços longevos.
O
Senado aceita candidamente a permanência em seus quadros do sujeito que foi a
Washington oferecer o país de bandeja e incentivar seu terrorismo.
Grandes
empresários parecem ser unânimes em buscar acomodação com o campeão do terror.
Reformistas
sociais se contentam com defesas retóricas da soberania brasileira. Por
desaviso ou sei lá o quê, deixaram a bandidagem surrupiar as cores de nossa
bandeira.
O
quadro geral angustia, mas há esperança. A campanha eleitoral pode mobilizar o
sentimento coletivo mais poderoso conhecido na história, o amor à pátria. Para
efeito, esse sentimento arrebatador precisa ser tipificado objetivamente como
defesa de nosso patrimônio.
O grito
de dignidade do Brasil deve ser bem forte, ao ponto de desmascarar os traidores
da pátria e conter Trump, o vencedor do campeonato mundial do terror.
Fonte:
Viomundo

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