terça-feira, 9 de junho de 2026

Feridas que não cicatrizam: veja quando é hora de se preocupar

Feridas que não cicatrizam podem ser um sinal de alerta para problemas de saúde mais sérios. Embora cortes, machucados e pequenas lesões geralmente se recuperem em poucos dias ou semanas, quando a cicatrização demora ou até mesmo não acontece, é preciso procurar um médico para avaliar o problema.

Isso porque a cicatrização lenta pode acontecer por diversas causas. Entre as mais comuns estão doenças como o diabetes, que compromete a circulação sanguínea e reduz a capacidade de regeneração da pele; a má circulação, que dificulta o transporte de oxigênio e nutrientes para o local da lesão; e infecções, que impedem que o organismo conclua o processo de reparo do tecido.

Além disso, traumas repetitivos, como fricções constantes em um mesmo local, e doenças que afetam o sistema imunológico podem dificultar a recuperação da pele.

“Pessoas que têm problemas de circulação, principalmente nas pernas, isso pode causar úlceras por conta dessa má circulação. O diabetes pode gerar feridas grandes, também principalmente nos membros inferiores. E pessoas acamadas ou que ficam muito tempo sentadas na mesma posição também podem ter úlceras difíceis de cicatrizar”, explica Patrícia Mayumi Ogawa, dermatologista.

Fatores externos e comportamentais também podem interferir na cicatrização da pele. O uso de medicamentos, como corticoides ou imunossupressores, pode retardar a cicatrização de feridas.

O tabagismo é outro vilão, segundo as dermatologistas. Fumar prejudica a oxigenação dos tecidos e reduz a capacidade de regeneração da pele.

Deficiências nutricionais, como a falta de proteínas, vitaminas e minerais essenciais ao nosso organismo, também podem comprometer o processo de cicatrização.

“O uso prolongado de corticoides, quimioterápicos, anticoagulantes e imunossupressores pode prejudicar a reparação da pele. Além disso, tabagismo, consumo excessivo de álcool, má alimentação e falta de hidratação são fatores que afetam diretamente a cicatrização. Dormir mal e o estresse crônico também interferem, pois o corpo fica menos eficiente na regeneração celular”, detalha Isabela Pitta, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Alguns sinais podem indicar que uma ferida precisa de atenção médica. São eles: persistência por mais de duas semanas, aumento da vermelhidão ou do calor no local, presença de pus, dor, mau cheiro ou sangramentos frequentes.

“Também é importante procurar atendimento se a ferida não cicatrizar após 7 a 10 dias, se a área ao redor escurecer ou se houver febre”, acrescenta Pitta.

O tratamento depende da causa da dificuldade de cicatrização. Em alguns casos, pode ser necessário o uso de curativos especiais, antibióticos ou procedimentos médicos para estimular a regeneração da pele.

“Para cada tipo de ferida, existem tipos de curativos mais apropriados. E são inúmeras as possibilidades que a gente pode utilizar. Existem outros tipos de tratamentos, como, por exemplo, com laser e com câmera hiperbárica. Muitas vezes a gente precisa fazer um tratamento cirúrgico dessas feridas, com desbridamento da ferida e sempre um acompanhamento também multidisciplinar para avaliar a causa”, acrescenta Ogawa.

•        Problemas de pele afetam crianças que usam tecnologias para tratar diabetes

O uso contínuo de tecnologias como sensores de glicose e bombas de insulina tem tornado frequentes problemas de pele em crianças e adolescentes com diabetes, especialmente o do tipo 1. É o que aponta uma pesquisa publicada na revista Hormone Research in Paediatrics, que reuniu dados de 22 centros ao redor do mundo, entre eles a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo.

O trabalho acompanhou 1.719 crianças e adolescentes durante quatro semanas e identificou problemas de pele em 52% dos usuários de bomba de insulina e em 30% dos pacientes que utilizam sensores de glicose. A inflamação na pele, o chamado eczema, apareceu em 9% dos participantes, tanto nos locais de aplicação da bomba quanto dos sensores.

Cerca de 95% dos indivíduos avaliados tinham diabetes tipo 1, a forma mais comum da doença na infância e adolescência. Nesses casos, o organismo deixa de produzir insulina, hormônio essencial para controlar a glicose no sangue, exigindo monitoramento constante e tratamento contínuo com aplicações diárias de insulina. Embora os casos de diabetes tipo 2 estejam aumentando entre crianças por causa da obesidade e do sedentarismo, o tipo 1 ainda predomina nessa faixa etária.

"Os dispositivos tecnológicos, como sensores de glicose e bombas de insulina, são indicados principalmente para pacientes com diabetes tipo 1, porque permitem um controle glicêmico mais preciso, redução de hipoglicemias e melhora da qualidade de vida. Diretrizes internacionais já consideram essas tecnologias como padrão-ouro de cuidado", afirma a endocrinologista pediátrica Mariana Zorron, do Hospital de Clínicas da Unicamp e uma das autoras do artigo. "Mas a indicação deve ser sempre individualizada, considerando idade, perfil clínico, acesso à tecnologia e suporte familiar."

Esses métodos permitem alcançar uma hemoglobina glicada mais controlada, o que reduz o risco de complicações pela doença. "Melhoram muito a qualidade de vida dos pacientes, facilitam o controle da doença, evitam inúmeras picadas ao dia e aumentam bastante a adesão ao tratamento", afirma a endocrinologista pediátrica Lindiane Gomes Crisostomo, do Einstein Hospital Israelita.

O trabalho também chama atenção para as desigualdades de acesso no Brasil, já que essas tecnologias não são cobertas integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os sensores de glicose começaram a ser incorporados em alguns serviços públicos especializados, mas bombas de insulina ainda dependem, na maior parte dos casos, de judicialização ou programas específicos.

<><> Complicações na pele

Apesar de a tecnologia auxiliar no controle da doença, o possível surgimento de lesões é uma realidade. No estudo, pacientes usuários de bomba de insulina apresentaram mais cicatrizes, feridas e lipodistrofias, que são alterações no tecido gorduroso abaixo da pele. Além disso, crianças com xerose cutânea (pele excessivamente seca) e queratose pilar (condição que deixa a pele mais ressecada) apresentaram risco de duas a cinco vezes maior de desenvolver complicações dermatológicas.

“A gente tem que lembrar que a insulina é um medicamento que está sendo injetado naquele local, com um pH diferente da pele, e isso pode provocar inflamação. Além disso, a pele mais seca, com queratose pilar, já é mais sujeita a lesões”, observa Crisostomo. “Então, não é exatamente a tecnologia que causa o problema, mas o adesivo, a inserção repetida e a presença de um corpo estranho numa pele mais fragilizada.”

Embora a maioria das lesões seja reversível e não leve a complicações mais sérias, o problema não deve ser banalizado, porque pode atrapalhar o tratamento. “As lesões de pele podem comprometer a aderência do dispositivo e prejudicar tanto a administração de insulina quanto a leitura da glicose, que pode não ser adequada”, explica Zorron. As infecções são mais raras, mas também podem acontecer.

Em geral, as lesões não levam à interrupção do uso dos dispositivos, mas alguns pacientes precisam trocar temporariamente o local de aplicação até que a pele se recupere. “Normalmente, usamos estratégias como hidratação intensa, rodízio dos locais e barreiras protetoras”, relata a médica do Einstein. Os sinais de alerta são vermelhidão persistente, coceira intensa, feridas, secreção e endurecimento da pele. A recomendação é manter o local sempre limpo e bem hidratado antes da aplicação dos dispositivos, e procurar assistência médica se houver lesões.

 

Fonte: CNN Brasil/Agencia Einstein

 

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