DOS
PÚLPITOS AOS PALANQUES: Os 120 anos do pentecostalismo e sua ascensão política
no Brasil
O
movimento pentecostal alcançou em 2026 seus 120 anos de existência,
destacando-se como um dos principais fenômenos religiosos da modernidade; o
Centro de Estudos do Cristianismo Global (Center for the Study of Global
Christianity), em parceria com a Oral Roberts University, em Oklahoma (EUA),
publicou em 2020 um censo que buscou entender a dinâmica do crescimento dessa
vertente evangélica. A avaliação demográfica impressiona, apontando uma
estimativa de 644 milhões de pentecostais ao redor do mundo, com destaque para
os continentes América, África e Ásia. Em específico no Brasil, o Censo 2022
das religiões, para além de destacar a queda dos católicos (8,4 pontos
percentuais) e o crescimento dos evangélicos (5,2 pontos percentuais),
expressou que dos 47,4 milhões de evangélicos brasileiros, 30 milhões são
confessadamente pentecostais. No tocante à política nacional, sobretudo a
participação engajada dos crentes no parlamento, o crescimento segue a mesma
lógica, o milagre da multiplicação: se em 1987 a Câmara de Deputados contava
com 33 parlamentares evangélicos, hoje em dia o número subiu para quase 100 e,
destes, 25 são da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Missões (1911), a
maior denominação pentecostal da América Latina.
Um
adendo: evangélico é uma coisa, pentecostal é outra. Todo pentecostal é
evangélico, mas nem todo evangélico se confessará pentecostal, e foi o ano de
1906, nos Estados Unidos, na cidade de Los Angeles, que marcou a história das
religiões com essa distinção; não porque as experiências religiosas daquele
grupo fossem inéditas ao cristianismo, mas porque, em abril daquele ano, na Rua
Azusa, teve início um movimento que rapidamente assumiria uma dinâmica
internacional jamais vista. Poderia-se dizer, de maneira genérica, que o termo
“evangélico” se refere aos herdeiros da Reforma Protestante (século XVI) e dos
movimentos de renovação dela derivados, que têm por característica a defesa da
autoridade suprema da bíblia sagrada, da salvação pela fé, do sacerdócio
universal dos crentes (todo cristão passa a ter acesso direto a Deus por meio
de Cristo, sem depender de um sacerdote como mediador indispensável) e pela
rejeição da autoridade eclesiástica de Roma.
Já o
pentecostalismo tem outras raízes históricas que remontam ao século XIX: uma
relação com o movimento holiness (santidade) metodista norte-americano, que
sustentava que a experiência da conversão deveria ser seguida por uma “segunda
bênção”, entendida como intensa santificação pessoal; a busca por essa
qualidade cristã contribuiu para o surgimento de comunidades marcadas por forte
sensibilidade religiosa e abertura a experiências místicas. Nesse contexto, os
grupos holiness passaram a relatar manifestações de glossolalia (o falar em
línguas desconhecidas) e tornaram-se, nos Estados Unidos, os principais
predecessores do pentecostalismo moderno. Porém, foi na Rua Azusa que o
pregador afro-americano William J. Seymour, descendente de uma família de ex-escravizados,
começou por conduzir um movimento que tendia à internacionalização; Seymour
fora aluno do teólogo metodista Charles Fox Parham, com quem aprendeu os
principais pontos da vertente holiness, o que lhe gerou problemas de adaptação
nas igrejas tradicionalistas que frequentava. Todavia, as questões enfrentadas
por William J. Seymour não eram apenas teológicas: a segregação racial vigente
nos Estados Unidos e o racismo explícito de Charles Fox Parham também marcaram
sua experiência como aluno. Foi então, afastando-se daquele círculo e
promovendo reuniões de oração e estudos bíblicos na casa da família Asberry,
que Seymour conseguiu ajuntar num só lugar negros, brancos, pobres, mulheres e
imigrantes que participavam juntos daqueles cultos. Não demorou para circular
os relatos de louvores e pregações intensas, reuniões barulhentas que duravam
horas ininterruptas, manifestações da glossolalia, além de profecias, curas
milagrosas e visões sobrenaturais.
Dito
isso, se o termo evangélico aponta para o protestantismo surgido após a cisão
com a Igreja Católica, o termo pentecostal conceitua um movimento dentro desse
mesmo protestantismo, mas agora surgido nos Estados Unidos, e com uma ênfase
característica: uma forma de cristianismo que valoriza a experiência pessoal
com o Espírito Santo mediante a autoridade da escrituras sagrada, a prática dos
dons espirituais (como a glossolalia) e a crença de que tais capacitações
espirituais se demonstram na atividade missionária da igreja.
O
pentecostalismo chega ao Brasil no início do século XX por meio dos pastores
suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, que haviam tido contato com a
espiritualidade pentecostal nos Estados Unidos. São eles os fundadores da
Assembleia de Deus, em 1911, em Belém do Pará. A partir de então, outras
grandes instituições pentecostais expandiram-se rapidamente no país, como a
Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), O Brasil para Cristo (1955), a Igreja
Pentecostal Deus é Amor (1962) e a Igreja Casa da Bênção (1964). Paralelo ao
crescimento numérico, algo desperta atenção: o debate público instrumentalizado
por essas igrejas.
Se
houve um tempo em que era comum a frase “crente não se mete em política” e ela
contava como uma autoidentificação dos próprios evangélicos, isso já não é
verdade hoje: “Não podemos negar, quem elegeu o Collor foram os evangélicos”,
disse o pastor José Wellington, então presidente da Convenção Geral das
Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), em 1992, ao falar da vitória eleitoral
de Fernando Collor de Mello (PRN), o primeiro presidente da república escolhido
por voto direto após a ditadura militar. Já naquela época, a AEVB (Associação
Evangélica Brasileira) apontava que dos 34 milhões de evangélicos brasileiros,
25 milhões eram pentecostais. Aquele ano eleitoral de 1989 deu aos púlpitos uma
nova função: além da pregação, muitos tornaram-se eficientes palanques
eleitorais: a Assembleia de Deus recebeu as esperadas incursões dos candidatos
Ulysses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT), Paulo Maluf (PDS) e Collor.
Este último também esteve presente no 25º aniversário da Igreja Pentecostal
Casa da Bênção, em Brasília.
No
segundo turno de 1989, Lula e Collor disputaram o Executivo e o sociólogo
Antônio Pierucci que escreveu: “todos os dados de que dispomos mostram que o
fator que mais pesou na decisão de voto dos pentecostais no segundo turno foi
um desmedido e alastrado temor da implantação de um regime comunista por um
governo petista”. Não está em discussão neste artigo a validade dessa crença
mas sim a capacidade dos líderes pentecostais de mobilizar e instrumentalizar
esse medo no imaginário coletivo de suas igrejas. Contudo, algo chama a
atenção: além do anacrônico medo do comunismo, toda a caracterização de seu
malefício estava concentrada no cerceamento da liberdade religiosa: um medo
descomunal do fechamento das igrejas e da perseguição religiosa. Foi assim que,
com o iniciar do segundo turno da campanha, os espaços das igrejas – entre
sermões, testemunhos e conversas – tornaram-se palco de uma intensa mobilização
eleitoral pró-Collor no meio pentecostal. Os rumores de que Lula e o PT
restringiriam a liberdade religiosa, converteriam templos em espaços públicos e
promoveriam perseguições aos evangélicos foram deveras intensos.
O
envolvimento político de pentecostais foi de tal forma vigoroso que alguns
deles chegaram a ser importantes estrategistas de campanha. O então deputado
federal Salatiel Carvalho, pastor da Assembleia de Deus e filiado ao PRN, atuou
como coordenador nacional da campanha de Collor entre os evangélicos.
Em
retorno àquele trecho da entrevista com o pastor José Wellington, presidente da
CGADB na época, algo chama a atenção: “Não podemos negar, quem elegeu Collor
foram os evangélicos. A vitória dele veio da Assembleia de Deus. Se ele
reconhece ou deixa de reconhecer, eu nunca disse isto para ele, jamais vou
cobrar isto dele, porque eu fiz de livre e espontânea vontade. Quando nós vimos
que o Lula ia ganhar, e ia mesmo, então a Assembleia de Deus se movimentou no
Brasil inteiro. Onde eu não pude ir pessoalmente, fiz por telefone, liguei para
o Brasil inteiro, dizendo ‘A situação é essa, assim, assim’”. (Entrevista
concedida em 28.02.92).
O
pastor tem certeza que sua fala é eficiente, determinante, e o diz com a
segurança do “porque eu fiz de livre e espontânea vontade”, como quem sabe que
não basta mais que seu desejo para que os membros da igreja em todo o país o
cumpram. Suas recomendações chegam aonde seus pés não alcançam: um simples
telefonema para os presidentes das convenções assembleianas espalhadas em todos
os estados brasileiros basta. A Convenção Nacional das Assembleias de Deus,
ministério de Madureira, liderada pelo pastor Manoel Ferreira, também fez
questão de deixar clara a mobilização dos fiéis em apoio a Collor, com ênfase
para a unção do empresário Paulo Octávio, consagrado a coordenador da campanha
política.
Perceba-se
que me afastei de propósito do debate público contemporâneo acerca da estreita
aproximação entre as igrejas evangélicas pentecostais e o bolsonarismo, e isto
para deixar claro que em matéria de relacionamento político-partidário nada
parece inédito e, ao que tudo indica, tudo está em pleno desenvolvimento. No
tocante ao Estado, ele sabe muito bem o que ele é; a pergunta que permanece
para as igrejas é: elas sabem o que elas são? É muito nítido ao Estado a sua
laicidade, princípio segundo o qual o poder público não deve estar subordinado
a nenhuma religião específica, garantindo neutralidade religiosa nas
instituições estatais. Isso deixa explícito que, em tese, o Estado não tem nem
o direito e nem o dever de preservar qualquer religião como ligada a ele.
Agora, em matéria de governabilidade, é possível afirmar que existem interesses
legítimos em grupos que professam a fé, especialmente em razão de seu
expressivo peso eleitoral e capacidade de mobilização política. Fica evidente
que um Estado que queira um bom nível de governabilidade, além de agradar
gregos e troianos, deva favorecer uma certa maioria. Mas a que preço? Ora,
quando a política ultrapassa os limites da esfera pública e adentra o espaço
religioso como instrumento de mobilização, a própria igreja corre o risco de
diluir sua identidade espiritual em interesses partidários e disputas de poder.
O
púlpito, se um dia foi associado ao lugar exclusivo da propagação dos ensinos
de Jesus Cristo, passa agora a disputar espaço com discursos eleitorais,
estratégias de influência, alinhamentos ideológicos e epicentro de difusão da
vontade pastoral. O problema, logicamente, não mora na participação política
dos evangélicos, o que é algo legítimo em uma democracia, mas na transformação
da fé em capital político e da igreja em instituição herdeira e promotora de
projetos de poder estranhos aos ideais dos primeiros apóstolos cristãos. Em
casos mais extremos, a proximidade excessiva entre lideranças religiosas e
agentes políticos termina por enfraquecer o princípio moderno da separação
entre Igreja e Estado, produzindo relações marcadas mais pela conveniência e
pela barganha do que pela autonomia institucional de ambos. Estão a dar a César
o que é de Deus e, no final, curvam-se mesmo é a César. Fazem isso por
inocência ou ignorância? Talvez se possa fazer uma triste ironia com os 120
anos do pentecostalismo: ao menos no Brasil ocorre uma glossolalia aos aversos,
os homens se entendem muito bem na sua afiada linguagem política; foi Deus quem
parou de os compreender porque falam uma língua estranha.
Fonte:
Por Vinicius Santos Santana, no Le Monde

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