Desistorização
do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro
Enfrenta-se,
hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu
contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a
pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a
ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo
como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo
Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um
tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do
destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha
vida; e esse poder é inelutável.
Foram
os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos
transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é
história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo
como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus
Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus.
Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de
Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o
Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade
ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao
resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa,
recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.
Quando
se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida
ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão
à existência e, assim, nos faça felizes.
Para o
professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em
bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são
finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra
neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra
satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito
porque tem gula de Deus.
Os bens
da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem
valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos
vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder
oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto
de vida baseia-se no ter e não no ser.
Cessada
a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e,
portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento
único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal
é o ideal. O que resulta dessa
perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou
500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade,
porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações
científicas e tecnológicas.
Ora,
quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene
de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período
medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou
chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e
deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma
grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico.
O que
preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e
convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente
vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar,
devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua
plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de
ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de
fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas
familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água
fresca.
Nós
não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor
ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional,
uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos.
A perda
da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto
mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende
a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor
como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina
publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de
se estender isso à infância.
Vivemos,
pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não
histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O
sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar
essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único.
A
perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente
é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o
espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala…
Minha
geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e
sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos
ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de
academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo
compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a
mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo
advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro
como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na
esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da
Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do
Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…
A morte
da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais
publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze,
Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke,
Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança
nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro
do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma
sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em
São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da
razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções
totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria
dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.
Foram
Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em
pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição
da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não
prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud,
Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas
do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o
Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a
ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela
incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação,
a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe
sobrepuja a fundamentação.
Não há
doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da
impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é
racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no
Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e
Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados
estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se
manifesta.
O
pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de
evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria
circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e
causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a
lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover
mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos
ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos
os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro
muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de
uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.
Agora
predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar
fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso
processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela
descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao
esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em
progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio
ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.
Esse
momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é
imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se
não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de
perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela
falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação
artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à
Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública
— contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em
uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido,
corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?
Sem o
resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do
Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que
o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis
discricionárias.
Fonte:
Por Frei Betto, em Diálogos do Sul Global

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