terça-feira, 9 de junho de 2026

Daniel A. de Azevedo: Faltam quatro meses para as eleições. E aí?

Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.

Curiosamente, quando o debate se restringe à polarização ideológica ou partidária, estudiosos apontam que o Brasil não é um país de extremistas. As pesquisas indicam que a esmagadora maioria da população foge das pontas do espectro político, gravitando em torno de posições moderadas. Contudo, a cinco meses das eleições, fica claro que a polarização afetiva não recuou; pelo contrário, alargou-se de forma muito mais veloz e pronunciada do que a ideológica. Chegamos, assim, a um paradoxo perigoso: os partidos podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam muito mais.

A polarização afetiva é reforçada e reforça polarizações geográficas, nas quais perigosas fronteiras geográficas opõem áreas inteiras a partir de caricaturas. Cria-se um cenário irreal onde, de um lado, encontram-se eleitores rotulados como dependentes e desinformados e, de outro, como fascistas e reacionários. Nordeste versus Sul, urbano versus rural, metrópoles versus cidades pequenas. Diante desse quadro, a pergunta incontornável é: quem se beneficia desse fenômeno e quem sai perdendo?

Seguramente, quem lucra é uma elite política que utiliza a aversão ao outro como combustível eleitoral. Não conseguimos enxergar uma terceira via viável porque os conflitos são mobilizados em torno de duas visões de mundo inconciliáveis. Se são baseadas em fatos ou não, pouco importa para a eficácia do fenômeno. Ao manter o eleitorado em constante estado de alerta contra uma ameaça imaginária, esses líderes se blindam contra a cobrança por resultados práticos. A polarização afetiva funciona como uma cortina de fumaça: cega a população para governos que promovem farras eleitoreiras com os cofres públicos e anestesia o eleitor diante de candidatos envolvidos com pessoas investigadas por prejudicar milhões.

Assim, nessa polarização afetiva, a política é reduzida a um roteiro de cinema maniqueísta, com heróis e vilões predefinidos. Documentários, sejam eles alinhados à esquerda, como Democracia em vertigem, ou à direita, como Não vai ter golpe!, conversam com essa lógica do bem contra o mal. Um grupo não se sujeita a assistir ao filme "do outro", mesmo que seja para criticar.

Nas últimas semanas, acompanhamos também as polêmicas sobre mais uma peça audiovisual, desta vez produzida para posicionar o ex-presidente Jair Bolsonaro como um herói mítico. Para além das evidências e dos questionamentos legítimos sobre seu financiamento, o que importa observar aqui é o seu papel na engrenagem: o filme é, ao mesmo tempo, um produto gerado pela polarização afetiva e uma máquina de gerar ainda mais polarização.

Quem mais perde, no entanto, somos todos nós, na figura da coesão nacional. Famílias deixaram de se sentar à mesma mesa aos domingos. Amizades são desfeitas por mensagens de WhatsApp; o ambiente de trabalho e as rodas de conversa tornaram-se campos minados, onde a desconfiança mútua paralisa qualquer capacidade de diálogo. A energia que deveria ser gasta debatendo o futuro do país é desperdiçada na tentativa de aniquilar simbolicamente o vizinho.

A torcida para este ano é que o resultado das urnas não sirva apenas para referendar quem odiamos menos, mas que freie a produção em massa de inimigos íntimos. O sintoma desse esgarçamento está diante dos nossos olhos: estamos às vésperas de uma Copa do Mundo que ostenta a menor mobilização nacional que tenho na memória. A camisa amarela virou farda de trincheira. Enquanto continuarmos encarando a política e o outro como um roteiro barato de heróis e bandidos, o Brasil seguirá perdendo para si mesmo, preso em um filme no qual não há finais felizes para ninguém.

•        Ficha Limpa, democracia e o exemplo que a política deve à juventude. Por Fátima Sousa

Em matéria de 23 de maio, na página 4 do caderno de Política do Correio Braziliense, o jornalista Iago Mac Cord nos chama a atenção à coerência da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), juíza Cármen Lúcia, quanto ao retrocesso à Ficha Limpa, apontado por ela em seu voto no dia anterior, pela inconstitucionalidade das alterações que flexibilizam a Lei da Ficha Limpa. Relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade 7781, levada ao tribunal por meio de uma ação movida pela Rede Sustentabilidade, sob julgamento no plenário virtual, a ministra argumentou que as novas regras aprovadas pelo Congresso Nacional representam "patente retrocesso" institucional e esvaziam o instituto da inelegibilidade no país.

O resultado da votação pelo Supremo somente será conhecido por nós hoje, 29 de maio, quando encerra o plenário virtual da Corte, e pode ser acompanhado no portal oficial do STF.  Em seu posicionamento por nós já esperado, a ministra reitera a violação a princípios republicanos, devendo o STF se distanciar de "quaisquer comportamentos e atos que impeçam, dificultem ou embacem a probidade", reforçando que quem descumpre normas legais não pode ter caminho facilitado para participar da vida político eleitoral.

E mais: ela vai de encontro à alteração do marco inicial do prazo e ao teto de 12 anos para inelegibilidade cumulativa. No primeiro quesito, a ministra considerou a sistemática inconstitucional, pois permitiria que o período de punição política terminasse antes mesmo dos efeitos criminais da condenação. E no segundo, Cármen Lúcia nos alerta que tal medida funcionaria como uma espécie de "salvo-conduto" para a prática de atos ilícitos.

Recordemos que a luta contra a corrupção na política não é de hoje. Em 2002, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, rede da sociedade civil que integra mais de 70 entidades religiosas, sindicais e organizações sociais atua na mobilização cidadã, fiscalização de recursos de campanhas e promoção de uma legislação eleitoral mais ética e transparente, resultando, em uma de suas campanhas históricas em defesa da democracia e da lisura nos pleitos que gerou a Campanha Ficha Limpa, que, à época coletou cerca de 1,3 milhão de assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular. A pressão resultou na sanção da Lei Complementar nº 135/2010, que impede candidatos condenados em segunda instância por determinados crimes de disputarem eleições.

Quando falamos de corrupção política, não tratamos apenas da compra de votos. Falamos também de abuso de poder econômico e político, caixa dois, falsidade ideológica eleitoral, doações ilegais, uso indevido da máquina pública, desvio de recursos de campanha, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção ativa e passiva, concussão, captação ilícita de sufrágio, propaganda irregular, disseminação deliberada de desinformação e violência política, inclusive de gênero e raça. Essas são práticas que desequilibram a disputa, degradam a representação e transformam o processo eleitoral em instrumento de reprodução de privilégios e ilegalidades.

A corrupção política produz danos que ultrapassam o ato individual, pois corrói a democracia por dentro, substituindo o interesse público pela vantagem privada; enfraquece a cidadania, porque induz o eleitor a desconfiar da própria política; e compromete a igualdade democrática, porque quem viola regras passa a competir em vantagem sobre quem respeita a lei. Além disso, quando candidatos condenados por condutas graves retornam à cena eleitoral sem barreiras proporcionais, a mensagem pedagógica enviada à sociedade é devastadora. O que nos chega ao final é que a transgressão compensa e que a política é território onde a esperteza vale mais que a integridade.

Nesse sentido, as novas gerações precisam encontrar na vida pública exemplos capazes de renovar a confiança no Estado, nos representantes e na própria política. Se a juventude presencia a normalização da corrupção, da impunidade e do uso privado do poder, tende a afastar-se da participação democrática ou a aderir ao cinismo político. Uma democracia saudável precisa formar cidadãos críticos, mas também esperançosos; vigilantes, mas não descrentes; exigentes, mas não indiferentes.

Defender a Ficha Limpa, como tem feito nossa ministra, não significa negar direitos políticos de forma arbitrária, mas, sim, reconhecer que a elegibilidade, em uma República, deve caminhar junto com responsabilidade pública, compromisso ético e respeito às instituições. A política precisa de portas abertas à participação popular, mas não pode abrir atalhos para quem atentou contra a moralidade administrativa, a probidade e a confiança do eleitor. O voto reforça que a democracia deve ser exercida diariamente pela exemplaridade, e que não podemos protegê-la apenas no dia da eleição, mas também nas regras que impedem que a corrupção seja convertida em candidatura e mandato.

•        Para que serve a política?

A verdadeira política sobrevive ao proselitismo. Ela deve estar além de alinhamento partidário-ideológico e existir para o seu fim: trazer benefícios reais às pessoas. O acordo firmado, na última quinta-feira, entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a União, que permite ao BRB adquirir um empréstimo de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mostra mais do que costumamos ver na política: uma prova de que o governo federal existe também para socorrer os entes federativos, independentemente da relação entre o presidente da República e as forças que elegeram e sustentaram a chapa Ibaneis Rocha-Celina Leão.

A postura institucional do governo Lula, que contou com o empenho do Supremo Tribunal Federal para superar limitações jurídicas, será essencial para recompor a liquidez do banco e conter a fase mais aguda da crise do BRB, evitando o colapso do banco e sem comprometer ainda mais os recursos do contribuinte. Essa engenharia político-financeira-jurídica que tornou o acordo possível deve ser comemorada não só pelo efeito em si, mas pelo resgate do sentido real da política. Em situações extremas, não há adversários políticos. Deveria ser assim sempre, mas não é. Ponto para o presidente Lula, que sai do imbróglio BRB com postura de estadista.

Sabemos que o prejuízo do BRB supera em muito o valor do empréstimo. Sabemos, também, que o acordo não significa um referendo de proteção a qualquer custo. E o mais importante: não apaga o esquema criminoso que drenou o dinheiro do banco, do cliente e do contribuinte para uma operação fraudulenta que se tornou um dos maiores escândalos financeiros do país. As apurações estão em curso, e de nada adianta salvar um banco se não punir de forma exemplar quem praticou o crime. Isso caberá às autoridades policiais e à Justiça.

Mais do que nunca, precisamos dar nome às coisas e aos feitos. Batizar e reconhecer ações, propósitos e sentidos. Resgatar o real significado da política. Pensei muito nisso quando fizemos aqui no Correio, na semana passada, um evento sobre desinformação. Nada é mais necessário do que restabelecer a verdade, aquela que está além da interpretação, da análise e da opinião, ainda que tudo isso seja necessário para um jornalismo de qualidade e, sobretudo, para o fortalecimento da democracia.

Fazer política é, antes de tudo, um exercício de cidadania, não um atalho para enriquecer. Esse pensamento é bastante lógico, mas não sobrevive nos meandros do poder. O escândalo Master-BRB legou ao eleitor do Distrito Federal um novo baque, com graves indícios de corrupção e danos que afetam a todos os brasilienses. Afinal, o Banco de Brasília é um patrimônio da cidade; tem uma missão histórica anterior à chegada daqueles que praticaram gestão criminosa e rapinagem na instituição.

A tragédia que se abateu sobre o BRB traz lições relevantes. Ajuda a distinguir aqueles que estão comprometidos com o futuro do Distrito Federal daqueles que buscam o poder a qualquer custo. Na política como na vida, os maiores ensinamentos vêm nas mais graves crises. E não se pode negar que, no caso do BRB, ficou fácil identificar quem procura resolver o problema e quem prefere ver o circo pegar fogo. 

Esperamos que os candidatos ao próximo governo no DF se esforcem para oferecer propostas que sejam o melhor para o Distrito Federal. Brasília, sempre visada e muitas vezes injustiçada, é uma vitrine permanente para o país. Chega de provincianismo e machismo na nossa política.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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