Copa
do mundo: as vozes que viram nascer o país do futebol
Falar
de Copa do Mundo no Brasil é caminhar por uma linha do tempo em que a
identidade nacional se mistura com o som do apito inicial. Para além das
estatísticas frias nos livros de história, a verdadeira mitologia do nosso
futebol é guardada na memória de quem viu, passo a passo, cada uma das cinco
estrelas ser costurada no peito da Seleção. Cruzar as décadas por meio dos
relatos de testemunhas oculares dessas conquistas é compreender como um país
predominantemente rural e sem conexão direta se transformou na maior potência
futebolística do planeta. No entanto, para que a era de ouro existisse, o
Brasil precisou passar pelo seu próprio purgatório. O ano de 1950 ficou gravado
na alma brasileira como uma cicatriz incurável. Perder a final da Copa do Mundo
em casa, no recém-erguido Maracanã, para o Uruguai, por 2 x 1, foi muito mais
do que um revés esportivo. O episódio, eternizado como Maracanazo, operou como
um drama psicossocial coletivo, uma tragédia nacional de proporções idênticas
ao que as gerações atuais sentiram no fatídico 7 x 1 contra a Alemanha em 2014.
Naquela tarde de julho, o Brasil vestia branco, e o luto coletivo exigiu que o
país se reinventasse do uniforme à alma.
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O tremor de 1950
A dor
daquela perda histórica cruzou os céus e as terras do país, afetando a todos de
maneiras distintas. O ex-presidente da República José Sarney, hoje com 96 anos
e bastante ativo nas redes sociais compartilhando memórias sobre política,
cultura e esporte, relembra que sua percepção do desastre foi amortecida pelo
próprio medo de voar. Naquele ano, ele viajava de avião pela segunda vez na
vida, rumo à capital federal da época.
Sarney
contextualiza que, desde o seu nascimento, o mundo testemunhou 24 Copas do
Mundo. "Lembro-me de cinco, as que o Brasil ganhou a que assisti",
recorda o ex-presidente. Ele confessa nunca ter sido um torcedor engajado ou
fanático, mas, sim, um observador curioso que acompanhava o torneio sempre que
as condições permitiam. Essa ressalva se deve às dificuldades estruturais do
Brasil de meados do século passado, pois Sarney passou grande parte da vida em
cidades e casas que sequer tinham rádio. Mais tarde, com o advento da
televisão, dependia da hospitalidade alheia, já que seu pai não tinha condições
financeiras de comprar um aparelho. Apesar de ter testemunhado todas as glórias
posteriores, a lembrança mais nítida de Sarney evoca o fantasma do Maracanazo.
Ele estava cruzando as nuvens quando o veredicto final foi dado. "Quando
sobrevoávamos a cidade, o piloto anunciou o gol do Uruguai", recorda-se.
Entre o mal-estar físico da viagem e o temor da altitude, o jovem Sarney mal
conseguiu mensurar o tamanho do impacto que aquele anúncio causaria na fundação
do orgulho nacional: "Não pude avaliar por completo a tragédia. Estava
entre enjoo e medo".
Enquanto
Sarney recebia a notícia no ar, o mineiro Gilson Belém, hoje com 91 anos, viveu
o drama pulsando no chão de concreto do Maracanã. Ex-inspetor do Banco Nacional
e atualmente uma figura ilustre em São Lourenço (MG), Gilson tinha 14 anos em
1950 e uma rotina intensa ditada pelo fanatismo do pai. O patriarca era tão
doente por futebol que ia ao Rio de Janeiro todo mês e não perdia um treino do
Flamengo na Gávea. Gilson conta que viu o Maracanã nascer, visitando o canteiro
de obras com o pai. "Era um gigante, era uma obra toda de concreto, era um
negócio espetacular", descreve. Para garantir presença nos jogos, o garoto
enfrentava verdadeiras maratonas. À meia-noite, o pai o deixava em um bonde no
Catete rumo à lateral do Teatro Municipal, na Avenida 13 de Maio, onde os
ingressos eram vendidos. Gilson passava a madrugada na fila, enfrentando a
multidão para conseguir as entradas por volta das 8 ou 9 horas da manhã, sempre
pagando em dinheiro vivo. Ele comprava pacotes de até 12 ingressos para distribuir
entre os parentes. O esforço garantiu a Gilson o privilégio de assistir à quase
todas as partidas do Brasil no Rio, desde a estreia triunfal por 4 x 0 contra o
México até os massacres de 6 x 1 contra a Espanha e 7 x 1 contra a Suécia. Da
partida contra a Iugoslávia, ele lembra de um jogador gigante da defesa
europeia que, ao subir as escadas do vestiário para o gramado, colidiu a cabeça
contra uma lâmpada do túnel.
Mas
toda a euforia desmoronou no dia da final contra o Uruguai. O clima de "já
ganhou" tomou conta das 200 mil pessoas que se espremiam nas
arquibancadas, muitas sentadas de lado para otimizar o espaço. Quando Friaça
abriu o placar para o Brasil, a festa parecia consolidada. O gol da virada
uruguaia, contudo, transformou o maior estádio do mundo em um deserto de voz.
"Foi como um velório", lamenta Gilson. O silêncio que se seguiu ao
gol de Ghiggia deu início a uma choradeira geral. A saída do estádio foi lenta,
dolorosa e silenciosa. Sem metrô ou ônibus estruturados, a multidão seguiu a pé
por quilômetros, sob o peso de um luto que moldaria as décadas seguintes. A
quilômetros dali, em Porto Alegre, o advogado Celso Kaufman, de 85 anos,
experimentava aquele mesmo silêncio aos 10 anos de idade. Em uma capital gaúcha
que ainda não conhecia as transmissões de televisão, Celso colava o ouvido no
rádio para tentar desenhar mentalmente o que acontecia no Rio de Janeiro. A
derrota traumática também o marcou, mas serviu como o combustível perfeito para
a catarse que testemunharia oito anos mais tarde.
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O futebol como retrato do Brasil
Para o
sociólogo César Bergo, entender a paixão nacional pelas Copas do Mundo exige
uma viagem muito anterior aos títulos conquistados pela Seleção. Ele explica
que o futebol chegou ao país no início do século 10 como uma prática restrita
às elites, mas aos poucos rompeu barreiras sociais, raciais e econômicas até se
transformar em um dos maiores símbolos da identidade brasileira. Ao contrário
de outros elementos culturais, o futebol conseguiu criar uma linguagem comum
entre pessoas de diferentes regiões, classes sociais e gerações. A força desse
processo se consolidou especialmente em 1958, quando o Brasil conquistou seu
primeiro título Mundial. Para Bergo, aquela vitória teve um significado que
ultrapassou o campo esportivo: representou uma afirmação internacional do país
e provocou uma explosão de orgulho nacional. O contexto ajuda a explicar a
dimensão daquele feito. Durante toda a década de 1950, os brasileiros
conviveram com a lembrança dolorosa da derrota para o Uruguai na final da Copa
disputada em casa. O triunfo na Suécia, portanto, não foi apenas uma conquista
esportiva. Foi uma resposta simbólica a uma ferida coletiva que permanecia
aberta desde o Maracanazo.
A
partir dali, argumenta o sociólogo, o futebol passou a ocupar um lugar central
no imaginário nacional. As conquistas seguintes reforçaram a ideia de que a
Seleção representava algo maior do que um time: ela se tornou uma espécie de
espelho das aspirações e dos sonhos do país. Não por acaso, muitas pessoas
organizam suas próprias memórias a partir das Copas que viveram, associando
títulos, derrotas e jogos marcantes a momentos importantes de suas vidas. Mesmo
diante das transformações tecnológicas e da ascensão de outras modalidades
esportivas, Bergo acredita que o futebol mantém um papel singular na cultura
brasileira. As Copas continuam alterando a rotina nacional, mudando horários de
trabalho, escolas, comércio e reunindo famílias inteiras diante da televisão.
Mais do que um evento esportivo, elas funcionam como um raro momento de
experiência coletiva compartilhada. Para o sociólogo, essa capacidade de criar
pertencimento talvez explique por que o futebol segue tão presente no cotidiano
dos brasileiros. Afinal, quando a Seleção entra em campo, milhões de pessoas se
reconhecem como parte de uma mesma história. É uma paixão transmitida entre
pais, filhos e netos, capaz de atravessar gerações e permanecer viva mesmo em
tempos de mudanças profundas na sociedade.
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O nascimento da Canarinho e a supremacia de 1958
A
necessidade de sepultar a "camisa da maldição" de 1950 fez nascer o
maior símbolo visual do esporte mundial. Em 1953, um concurso promovido pelo
jornal Correio da Manhã exigiu a criação de um novo uniforme que trouxesse as
quatro cores da bandeira nacional. O vencedor foi Aldyr Garcia Schlee, um jovem
de apenas 19 anos nascido em Jaguarão (RS), na fronteira com o Uruguai. Seu
filho, Andrey Rosenthal Schlee, 63 anos, arquiteto e professor da Universidade
de Brasília (UnB), reconta a história do pai com uma mistura de orgulho e
ironia. Aldyr, que faleceu deixando outros dois filhos (Aldyr e Sylvia),
guardava uma relação desapegada com o próprio feito. Andrey só descobriu a
magnitude da criação do pai aos 10 anos, folheando uma revista antiga da década
de 1970 em que se via, ao fundo de uma foto de Aldyr, um calendário com a
imagem de Pelé dando uma bicicleta. "O pai nunca deu muita bola para essa
história", revela Andrey, pontuando que o concurso só era lembrado como
mera curiosidade às vésperas de cada Copa. Foi apenas no fim da vida que o
estilista da amarelinha recebeu o devido reconhecimento internacional. Hoje, os
filhos tratam os esboços originais encontrados em uma gaveta comum da casa como
um verdadeiro tesouro familiar. O traço definitivo, camisa amarela com gola
verde, calções azuis com frisos brancos e meias brancas, redesenhou a
autoconfiança do país. Ironicamente, Aldyr Schlee não torcia para o Brasil.
Criado na fronteira, seu coração futebolístico pertencia ao Uruguai. Para ele,
o esporte não se confundia com obrigação patriótica. Em 1950, o mesmo Aldyr
havia desenhado um álbum completo com os gols da Copa baseando-se apenas nas
transmissões de rádio, celebrando discretamente o título celeste.
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O triunfo
Com o
novo fardamento canarinho, o Brasil desembarcou na Suécia em 1958. O contexto
era de otimismo interno com a promessa de modernização e a construção de
Brasília promovida pelo presidente Juscelino Kubitschek. Foi nessa Copa que o
país parou para ouvir a consagração de Pelé e Garrincha. Para Celso Kaufman,
aquela foi a conquista mais emocionante de sua vida. Ainda dependendo do rádio,
mas agora cercado por um grupo de amigos, ele vivenciou a explosão de alegria
que varreu o fantasma de 1950. A vitória por 5 x 2 contra os donos da casa
provou que o complexo de vira-latas estava definitivamente enterrado.
Silvestre
Gorgulho, ex-secretário de Cultura nascido em São Lourenço em 1946, viveu a
Copa de 1958 sob uma perspectiva quase monástica. Aos 11 anos, ele era aluno do
Seminário dos Padres, um colégio interno em Caxambu (MG). A rigidez religiosa
proibia os jovens de ouvirem o rádio. O jeito era depender da frieza do padre
superior, que subia ao palanque após os jogos para anunciar, sem qualquer
alarde, os resultados aos 60 seminaristas reunidos. Silvestre recorda a noite
em que o clérigo avisou sobre uma vitória nas quartas de final: "Hoje o
Brasil ganhou do País de Gales de um a zero, gol do Pelé". A notícia
gerava uma euforia silenciosa; os meninos passavam os dias imaginando os gols
que não podiam ver ou ouvir. Anos mais tarde, como jornalista e pesquisador,
Silvestre colecionou bastidores preciosos daquela campanha diretamente com os
campeões. Ele reconta, por exemplo, o episódio em que Zagallo percebeu a
ausência da bandeira brasileira no jantar solene de abertura na Suécia. Ao
reclamar com o coordenador do evento, Bengt Agren, o sueco insistia, apontando
para o mastro, que a bandeira do Brasil estava lá. Como ninguém falava inglês,
Zagallo pediu uma enciclopédia por gestos e provou que os organizadores haviam
hasteado a bandeira de Portugal. Foi necessário correr à embaixada para
corrigir o erro.
Outro
fato pitoresco resgatado por Silvestre foi a definição da numeração das camisas
de 1958, que acabou dando a Pelé a mística camisa 10. Zagallo confirmou a ele
que a numeração coincidiu estritamente com o número das malas de viagem que
cada jogador recebeu no embarque. Silvestre resgata ainda a história dos
prêmios daquele título: os jogadores receberam da CBD uma TV Telefunken e um
terno Ducal. O presidente JK também prometeu a cada campeão um lote de mansão
na futura capital, Brasília. Contudo, como em junho de 1958, a cidade era
apenas um canteiro de poeira, nenhum atleta acreditou no valor daquelas terras
e ninguém viajou para registrar os imóveis. Décadas depois, em um encontro com
os veteranos, Silvestre calculou que cada um daqueles lotes esquecidos valia
cerca de R$ 7 milhões, provocando um arrependimento geral nos heróis do
passado. Foi também na Suécia que o Brasil inaugurou o uso da camisa azul. Como
os suecos jogavam de amarelo e a Seleção não tinha um segundo uniforme oficial,
os dirigentes da CBD precisaram improvisar na véspera da final. Compraram 13
camisas azuis no comércio de Estocolmo por 35 dólares, arrancaram os escudos
das amarelas e os costuraram no novo pano. No próximo mês, a peça azul usada
por Pelé naquele jogo será mais uma vez leiloada em Nova York por um por um
valor estimado em R$ 30 milhões, podendo ser ainda maior.
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Alegria indescritível
Quando
o militar veterano Berilo Cavalcanti, hoje com 83 anos, fala sobre a Seleção
Brasileira, ele não recorre apenas à memória esportiva. Sua história atravessa
praticamente toda a trajetória do Brasil nas Copas do Mundo. Poucos brasileiros
podem dizer que testemunharam, mesmo que ainda crianças, o trauma do Maracanazo
em 1950 e, oito anos depois, a explosão de alegria que transformou para sempre
a relação do país com o futebol.
A
primeira lembrança que guarda de uma Copa é justamente a derrota para o Uruguai
por 2 x 1 no Maracanã. Mas foi em 1958 que nasceu a recordação mais marcante de
sua vida como torcedor. Naquele ano, enquanto o Brasil buscava na Suécia seu
primeiro título Mundial, Berilo acompanhava a decisão de uma forma muito
diferente dos torcedores atuais: reunido no hall do Automóvel Clube de
Barbacena, em Minas Gerais, ouvindo a transmissão pelo rádio. A conquista
inédita permanece, mais de seis décadas depois, como sua maior emoção
futebolística. Para ele, aquele título representou o fim de um ciclo de
frustrações que parecia perseguir a Seleção desde 1950. Não por acaso, quando é
questionado sobre qual das cinco estrelas o emocionou mais, a resposta vem sem
hesitação: a de 1958. "Lembro do primeiro gol do Pelé, foi contra o País
de Gales, ele deu um chapéu no defensor e garantiu a vitória do Brasil."
As
mudanças tecnológicas também ajudam a contar sua própria trajetória. Berilo viu
o futebol migrar do rádio para a televisão em preto e branco, depois para as
transmissões coloridas e, por fim, para a era digital. Apesar da evolução dos
meios, ele acredita que a essência da emoção permanece a mesma. O que mudou, em
sua avaliação, foi a forma como os brasileiros celebram os momentos de glória.
Nas
décadas passadas, lembra ele, as ruas eram protagonistas da festa. Bandeirinhas
cruzavam os bairros, crianças pintavam o asfalto e a troca de figurinhas fazia
parte do ritual de cada Copa. Hoje, as comemorações parecem mais concentradas
em bares, restaurantes e clubes, refletindo mudanças nos hábitos sociais e
urbanos do país. Entre tantas lembranças acumuladas ao longo de mais de sete
décadas acompanhando a Seleção, Berilo guarda a convicção de que poucas
experiências se comparam à sensação de ver o Brasil campeão do mundo. Ao tentar
explicar esse sentimento para quem nunca o viveu, resume em poucas palavras
aquilo que milhões de brasileiros sentiram ao longo da história: uma alegria
simplesmente indescritível.
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Do bicampeonato ao penta
Em
1962, o Chile sediou a Copa do Mundo em meio ao auge da Guerra Fria e a uma
forte crise política no Brasil, que enfrentava o conturbado governo de João
Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. No aspecto tecnológico, o torneio
marcou uma transição fascinante para os torcedores brasileiros. Silvestre
Gorgulho, então com 14 anos, estudava agora em um seminário em Belo Horizonte,
onde as regras eram mais flexíveis e o rádio era permitido. A televisão já
existia no país, mas não havia tecnologia para transmissões diretas via
satélite. O fluxo de imagens dependia de uma operação logística aérea. Assim
que uma partida terminava em Santiago, um avião da Varig decolava carregando as
fitas magnéticas gravadas. Oito horas depois, o material desembarcava no Brasil
para ser exibido no videoteipe. "A gente vivia intensamente cada jogo duas
vezes", explica Silvestre. Primeiro, os torcedores sofriam com as ondas do
rádio; horas mais tarde, reviam as jogadas e os gols na tela da TV. A
intensidade daquela experiência inspirou o jovem Silvestre a escrever uma longa
crônica em versos logo após a vitória final por 3 x 1 sobre a Tchecoslováquia,
imortalizando a consagração de Garrincha, que jogou a final com 39°C de febre,
e de Amarildo, o substituto de Pelé, que estava lesionado. Em suas estrofes,
ele cantava o nervosismo do gol inicial de Masopust, a reação rápida do
"possesso" Amarildo e o gol decisivo de Zito.
"...O
'Diablo' em ação
Prepara
o canhão
Num
jogo bonito.
Aproveita
um vão
Estende
um passão
Na
cabeça de Zito.
Zito
pulando
O couro
alcançando,
Resolve
a questão.
A
pelota entrando
O
triunfo chegando...
É
'Bicampeão'..."
Essa
mesma dinâmica de dupla percepção foi vivida por Gilson Belém, que em 1962
trabalhava como contador na recém-inaugurada agência do Banco Ribeiro Junqueira
em Brasília. Ele recorda que o gerente de sua agência tinha um primo que
ocupava um alto cargo no governo e era um dos raros felizardos a possuir um
aparelho de televisão na nova capital. Nos dias de jogo, o grupo se reunia
naquela sala para assistir ao videoteipe que chegava com atraso do Chile.
Gilson também lembra que, em Copas anteriores, a experiência de torcer era
ainda mais rústica. Em 1954, ele acompanhava os lances por meio de
alto-falantes instalados nos postes da Rua José Bonifácio, em São Paulo, que
replicavam as narrações de Jorge Cury para a multidão que se aglomerava nas
calçadas.
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Fazendo história
De
todas as glórias que presenciou, José Sarney aponta a Copa de 1970, conquistada
quando ele tinha 40 anos, como a mais emocionante de sua vida. "Apesar da
tensão política, o povo vibrou com o título, como uma sobrevivência emocional
coletiva", lembra. O ex-presidente destaca a ousadia do técnico Zagallo ao
escalar cinco craques que jogavam na mesma posição em seus clubes: Pelé,
Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho, encantando o planeta com o puro
"futebol arte".
Se as
jogadas fascinantes e inigualáveis do "rei" marcaram a memória de
Sarney, o título dinástico de Pelé também o envolveu em uma gafe diplomática
memorável em Madri. Naqueles dias, o Brasil discutia em um plebiscito a adoção
do parlamentarismo e, de forma quase utópica, incluiu-se a opção da monarquia
nas discussões. Indagado pela imprensa estrangeira se a realeza teria alguma
chance de vencer por aqui, Sarney resolveu responder com uma piada: "O
Brasil já tem muitos reis, o maior de todos, rei Pelé. E temos o rei das
baterias, o rei do café...". O problema é que a fala foi disparada em
plena Espanha, um país monarquista e com o rei no trono. Ao perceber o deslize
diante das autoridades locais, o então presidente precisou acionar rapidamente
o jogo de cintura político para remendar o comentário, emendando logo em
seguida que "diversos países adotam a monarquia como um sistema funcional
e estável".
Foi
exatamente em1970, no México, que houve a consolidação dessa dinastia
brasileira nos gramados, quando o futebol-arte de Pelé, Tostão e Rivellino
encantou o planeta e garantiu ao país a posse permanente da Taça Jules Rimet —
a honraria máxima dada à primeira nação a se sagrar tricampeã mundial. Anos
mais tarde, o torcedor brasileiro aprenderia a testar o coração em novas e
eletrizantes frequências. Primeiro, em 1994, nos Estados Unidos, o país prendeu
a respiração no drama angustiante da primeira disputa por pênaltis em uma final
de Copa, que deu fim a um jejum de 24 anos com a conquista do tetra. Logo
depois, em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, veio a redenção incontestável sob
o comando do "Fenômeno" Ronaldo, carimbando o título que alçou definitivamente
o Brasil ao posto soberano de único país pentacampeão do mundo. Essa realização
do Brasíl também transformou o ato de torcer em um fenômeno social e econômico.
Com o passar dos anos e o avanço da internet, Celso Kaufman conta que testemunhou
a perda desse caráter comunitário. "Hoje, com a modernidade, passou a ser
apenas um jogo importante com uma torcida concentrada no jogo e com informações
de todos os lados pelos aparelhos atuais de internet", reflete o advogado.
Para ele, houve uma clara diminuição no fervor patriótico unânime que unia o
país no passado, embora ele próprio admita que continua incapaz de se desligar
da Seleção e segue apostando em novas vitórias. Essa mudança na relação com o
escrete nacional também se manifesta no desabafo bem-humorado de Gilson Belém.
Mesmo tendo sido testemunha de toda a era de ouro do futebol brasileiro, o
veterano de 91 anos adota uma postura de protesto e avisa que reduziu seu
envolvimento emocional com o time atual. O motivo? Critérios de convocação que
ele considera injustos, como a ausência do atacante Pedro, do Flamengo.
"Levaram quatro do Flamengo e não levaram o Pedro. Eu não vou torcer
contra, mas pra mim...", diz ele.
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Entre foguetes, balas e a saudade
Quando
o aposentado Edmo de Oliveira fala sobre as Copas do Mundo, as lembranças não
começam dentro de um estádio ou diante de uma televisão. Elas surgem ainda nos
tempos da fazenda, quando os jogos eram acompanhados pelo rádio e a imaginação
completava aquilo que os olhos não podiam ver. Foi assim que ele viveu os
primeiros mundiais da Seleção, ouvindo as transmissões que mobilizavam
comunidades inteiras e transformavam cada partida em um acontecimento coletivo.
A Copa
de 1962 ocupa um lugar especial em sua memória. Aos 17 anos, já trabalhando,
Edmo decidiu organizar a própria celebração. Comprou foguetes, sacos de balas e
reuniu crianças na praça em frente ao colégio da cidade. Ao fim dos jogos do
Brasil, distribuía doces para a garotada enquanto os rojões anunciavam a festa.
Uma dessas comemorações quase terminou em susto quando um foguete lançado por
ele atingiu o telhado de casa. Hoje, a história é contada entre risos, como uma
das muitas lembranças que a Copa deixou. Diferentemente de muitos torcedores,
Edmo nunca se interessou por colecionar álbuns de figurinhas ou enfeitar ruas.
A rotina de trabalho ocupava o tempo livre que tinha na juventude. Ainda assim,
acompanhava atentamente cada Mundial, e não só os jogos do Brasil. Para o
torcedor fiel do Botafogo, futebol sempre foi mais do que entretenimento: era
um compromisso que atravessava gerações e reunia familiares, amigos e vizinhos
em torno de uma mesma expectativa.
Entre
todas as Seleções que viu jogar, nenhuma o marcou tanto quanto a de 1970. Na
sua avaliação, aquele time representava um futebol diferente do atual. Ele
recorda uma equipe que venceu todos os jogos da campanha, encantou o mundo e
contava com jogadores que confiavam plenamente uns nos outros dentro de campo.
Pelé, Garrincha e, mais tarde, Ronaldinho Gaúcho aparecem em suas lembranças
como exemplos de atletas capazes de transformar uma partida com talento e
criatividade.
Ele
relembra com carinho, também, os bolões que aconteciam no trabalho durante
aquela época. "O primeiro que eu entrei foi na estreia do Brasil em 1970,
apostei alto, 4 x 1, e o povo dizendo que eu era doido. Ganhei o bolão
sozinho." Ao olhar para o futebol contemporâneo, Edmo não esconde a
nostalgia. Critica o excesso de interesses comerciais em torno da Seleção e
acredita que muitos jogadores de hoje atuam mais pelo dinheiro do que pela
camisa. Também lamenta a quantidade de publicidade e apostas esportivas que
cercam as transmissões atuais. Ainda assim, continua acompanhando os jogos e
mantém o mesmo entusiasmo de décadas atrás. "Futebol é futebol",
resume.
Dos
traumas de 1950 à consagração do manto amarelo de Aldyr Schlee, as histórias
cruzadas desses torcedores mostram que a Copa do Mundo foi o espelho no qual o
Brasil aprendeu a enxergar a si mesmo. O apito final de cada torneio deixa
claro que as táticas mudam e os ídolos passam, mas as memórias de quem viveu a
construção desse mito permanecem como o patrimônio mais sólido do país do
futebol.
Fonte:
Correio Braziliense

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