Como
a Copa do Mundo de futebol expõe a relação tensa entre seus três países-sede
É como
chegar para um jantar no exato momento em que os anfitriões estão em meio a uma
acalorada discussão.
Os
torcedores que viajarem para a América do Norte, para acompanhar a Copa do Mundo 2026, irão encontrar três
países-sede que passam por momentos de tensão.
O
torneio será disputado em 16 cidades espalhadas pelos Estados Unidos, México e Canadá, que enfrentam um
período turbulento em suas relações diplomáticas.
Os
problemas atuais pareciam distantes quando os líderes dos três países se
reuniram para o sorteio dos grupos da Copa do
Mundo na capital americana, Washington DC, em dezembro. Eles chegaram a posar
para uma selfie com o presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Mas
manter a mesma coesão ao longo de um torneio que irá durar 39 dias,
provavelmente, será bem diferente.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem destacando sem
rodeios que o seu país é a potência dominante no continente.
Isso
fez com que viessem à tona as tensões bastante concretas existentes entre as
três nações, em setores como o comércio, migração e tráfico de drogas, que
entraram em ebulição desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025.
Por
outro lado, se tudo der certo, a Copa poderá estabelecer laços mais fortes
entre os três países.
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Tensões relativas ao comércio, ao turismo — e a Trump
O
México e o Canadá são os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos.
Mas eles não se esqueceram de que estavam entre os primeiros países a serem
atingidos pelas tarifas de importação de Donald
Trump.
O
Canadá já havia se indignado com os repetidos comentários do presidente
americano sobre transformar o país no "51° Estado" americano e
respondeu com suas próprias medidas contrárias.
Províncias
canadenses retiraram bebidas americanas das prateleiras e seus cidadãos
reduziram consideravelmente suas viagens para o vizinho do sul, o que também acabou
irritando os Estados Unidos.
Os
problemas com os Estados Unidos também prejudicaram as relações entre o Canadá
e o México, indica o diretor de política internacional da Universidade de
Calgary, no Canadá, Carlo Dade.
O
Canadá foi acusado de "trair" os mexicanos ainda antes do segundo
mandato de Trump, quando autoridades americanas e canadenses acusaram o México
de servir de porta de entrada para os investimentos chineses na América do
Norte.
"Foi
um completo desrespeito", comenta Dade.
O
episódio levou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a também procurar
remediar a situação com o México, enquanto tenta diversificar o comércio do
país, se afastando dos Estados Unidos.
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Três é demais
Esta é
a primeira vez que a Copa do Mundo é realizada em três países. E, como o
torneio de 2026 envolve um continente inteiro, existe um enorme número de
autoridades envolvidas.
Com os
torcedores viajando entre as três nações para acompanhar as partidas, o reforço dos controles de imigração dos Estados
Unidos pode criar dificuldades logísticas e inflamar os nervos já fragilizados
das pessoas envolvidas.
E os
receios americanos com a segurança, amplificados pela guerra em andamento contra o Irã, poderão trazer
ainda mais frustrações e criar o potencial de que incidentes aparentemente
inócuos possam escalar de forma inesperada.
"Promover
conjuntamente eventos esportivos globais não é necessariamente uma receita para
um relacionamento agradável entre os países-sede", afirma Lindsay Sarah
Krasnoff, escritora e professora de esporte global da Universidade de Nova
York, nos Estados Unidos.
Krasnoff
relembra que a Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e na Nova
Zelândia, teve resultados positivos. Mas o torneio masculino de 2002, no Japão
e na Coreia do Sul, foi considerado um "saco de gatos" entre duas
nações com um histórico longo e irregular.
"O
evento não prejudicou as relações bilaterais, mas é considerado historicamente
como uma espécie de empate", explica a professora.
A
própria Fifa expressou grandes esperanças para este modelo.
"É
um momento em que três países e todo um continente afirmam em conjunto:
'Estamos unidos para receber o mundo e oferecer a maior, melhor e mais
inclusiva Copa do Mundo da Fifa já realizada", afirmou a organização
dirigente do futebol mundial.
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Tapando o sol com a peneira?
Os
líderes de cada uma das nações podem desejar fazer uso do torneio não só para
mostrar que eles conseguem se dar bem com seus vizinhos, mas para desmentir os
críticos sobre questões domésticas.
Este,
com certeza, é o caso do México, onde reina uma certa apreensão sobre a Copa do
Mundo.
Existem
dúvidas sistemáticas sobre a capacidade do principal aeroporto da capital
mexicana, seu saturado sistema de transporte público e o próprio Estádio
Azteca, na Cidade do México, agora renovado.
Isso
sem falar na presença de membros de cartéis nas ruas, poucos meses atrás,
em uma exibição de violência curta, mas generalizada.
Agora,
o principal sindicato dos professores promove uma greve nacional, reivindicando
melhores condições de trabalho e aumento das aposentadorias. Protestos em massa
ameaçam fechar as principais vias que levam aos jogos.
Seu
slogan é "sem solução [para suas exigências], a bola não rola".
Mas,
apesar de todas as dificuldades, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, permanece resoluta
e confiante.
"Este
é o momento de presenciar o melhor futebol do mundo e mostrar a todos quem
somos", declarou ela no ano passado, "não só um país com imenso patrimônio cultural, mas de pessoas
empoderadas."
Seria
errado tapar o sol com a peneira, encobrindo os problemas enfrentados pelo
México durante a preparação para a Copa, defende o jornalista esportivo
mexicano Rafael Puente.
"Espero,
realmente, que os torcedores mostrem paciência e bom comportamento, frente a
alguns desses problemas que não podemos esconder", destaca ele.
"Só
o que podemos esperar é a animação, ilusão e expectativa que o povo mexicano
demonstrou no passado, particularmente sobre a participação da seleção
nacional."
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Os objetivos do trio além do torneio
Analistas
indicam que os três vizinhos da América do Norte poderão atingir outras
conquistas, se conseguirem sucesso no esporte nas semanas que se aproximam.
O trio
está em meio a uma difícil revisão do histórico acordo norte-americano de livre
comércio, conhecido como USMCA, na sigla em inglês. Esta revisão trouxe
incertezas sobre a parceria comercial do continente, mantida, de alguma forma,
desde 1994.
O
México já iniciou negociações formais com os Estados Unidos, o que deverá ser
seguido pelo Canadá.
Os
canadenses buscam fortalecer seus laços comerciais com a China, enquanto o
México aumentou suas tarifas de importação sobre o país asiático.
Ambos
se movimentam em direções diferentes em relação ao "aumento da importância
da China como preocupação primária" no governo Trump, segundo Dade.
A Copa
do Mundo oferece uma oportunidade para a diplomacia, como pudemos observar
quando Trump, Carney e Sheinbaum se reuniram, sorrindo, durante o sorteio dos
grupos em dezembro.
"Quando
você reúne os líderes, geralmente sai algo bom", comenta Dade.
Trump
se vangloria frequentemente do seu país como o "mais atraente" do
mundo. Ele certamente considera a Copa do Mundo como uma oportunidade de
colocar os Estados Unidos sob os holofotes mundiais.
Seu
desejo de dominar os acontecimentos, seja comparecendo a eventos ou disparando
postagens na rede Truth Social, pode alimentar ressentimentos entre os dois
países vizinhos — e prejudicar as relações diplomáticas no continente a longo
prazo.
Por
outro lado, ele investiu pesadamente no sucesso do torneio e pode se esforçar
ainda mais para evitar os incidentes diplomáticos que poderiam prejudicar os
eventos.
O
futebol é uma caixinha de surpresas, diz o velho ditado. E tão imprevisíveis
quanto o próprio esporte são os possíveis resultados deste novo experimento, de
reunir três países para promover uma Copa do Mundo.
"Já
se sabia desde o princípio que seria muito complicado, desde a definição dos
países-sede", conclui Krarsnoff.
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Protestos ameaçam clima de Copa do Mundo no México
Uma
semana antes da partida de abertura da Copa do Mundo da Fifa na América do
Norte, em 11 de junho, no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México, manifestantes ocuparam a fan zone, a área
oficial destinada aos torcedores.
Já em
1º de junho, o poderoso sindicato dos professores do México, a Coordenadoria
Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), convocou uma greve nacional por tempo
indeterminado exigindo
aumento salarial de 100% para a categoria.
Milhares
de pessoas participaram de uma passeata pelo centro histórico da capital
mexicana esta semana como parte dos protestos organizados
pela CNTE, bloqueando ruas e promovendo tumultos. Confrontos violentos com as
forças de segurança ocorreram no distrito governamental. Segundo relatos da
imprensa, um grupo de manifestantes invadiu o Ministério da Educação, onde um
incêndio precisou ser controlado no hall de entrada. As forças de segurança
usaram gás lacrimogêneo.
Ao
longo do imponente Paseo de la Reforma, manifestantes derrubaram estátuas de
plástico de jogadores de futebol, com vários metros de altura, que haviam sido
erguidas para a Copa do Mundo. Eles rasgaram as camisas gigantes e as queimaram
em público. Nas esculturas derrubadas, os ativistas deixaram sua inconfundível
mensagem: "sem solução, a bola não rola".
Para
chamar atenção às suas reivindicações, os professores ocuparam a área oficial
de torcedores no Zócalo, a praça central da capital.
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As raízes do conflito
A
indignação dos professores é direcionada às políticas de educação e previdência
do governo da presidente Claudia Sheinbaum. O aumento salarial
de 10% prometido em maio de 2025, com previsão de entrar em vigor em setembro
de 2026, foi rejeitado pela direção do sindicato por ser considerado
insuficiente.
Professores
efetivos do ensino fundamental no México podem ganhar quase R$ 6 mil por mês.
Isso os coloca um pouco acima da média salarial nacional. O salário inicial
bruto para um cargo de professor em tempo integral em uma escola primária
pública no México varia atualmente entre aproximadamente R$ 2,4 mil e R$ 4,2
mil por mês, dependendo da região e da formação acadêmica.
Na
realidade, muitos professores ganham consideravelmente menos devido ao trabalho
em tempo parcial. Segundo o jornal El Heraldo, citando o Instituto
Nacional de Estatística do México, o salário inicial médio de um professor é de
apenas cerca de R$ 2 mil.
Outro
sindicato de professores, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação
(SNTE), impõe reivindicações salariais mais moderadas. Diante da alta da
inflação, especialmente nas áreas metropolitanas, a entidade exige um aumento
salarial de 13% para 2026.
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Copa do Mundo como alavanca estratégica
O fato
de a greve estar ocorrendo na semana que antecede a Copa do Mundo não é
coincidência. O SNTE explora deliberadamente a atenção internacional como forma
de pressão. O México espera cerca de cinco milhões de turistas internacionais
durante o torneio, que organiza juntamente com os Estados Unidos e o Canadá.
Segundo
o boletim informativo Sports Business Today, espera-se que até 100
mil pessoas compareçam ao evento público no Zócalo nos dias dos jogos da
seleção mexicana, No entanto, a festa está ameaçada pelo acampamento dos
professores grevistas instalado no local. A Fifa inclusive já cancelou um curso
de treinamento para voluntários que seria realizado na praça.
Em suas
coletivas de imprensa diárias, as chamadas mañaneras, Sheinbaum
acusou os grupos radicais de tentarem provocar o Estado sob os holofotes
internacionais. Ao mesmo tempo, ela rejeitou impor uma repressão severa,
dizendo que seu governo não "cairá na armadilha" de reprimir os
protestos diante do mundo inteiro.
Em vez
disso, negociações estão em andamento. O governo já rejeitou as reivindicações
máximas por considerá-las "incompatíveis com o orçamento federal". Um
acordo que inclua novos aumentos salariais e maiores benefícios previdenciários
é considerado provável.
Enquanto
isso, aumenta o descontentamento público. Empresários locais e empresas de
logística já sofreram perdas econômicas estimadas em R$ 119 milhões devido a
vandalismo, bloqueio de vias principais e fechamento de aeroportos. Reportagens
da imprensa local e relatos nas redes sociais indicam que cidadãos comuns
também se sentem cada vez mais reféns do sindicato. Alguns veículos de
comunicação, principalmente de regiões do país não diretamente afetadas,
relatam mais compreensão.
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"A pedagogia da violência"
O
governo considera os distúrbios como obra de alguns grupos radicais.
"Houve muitas provocações. Na verdade, não acredito que tenham sido os
professores", disse Sheinbaum. A imprensa mexicana concorda parcialmente
com essa interpretação e defende as manifestações como uma expressão legítima
de reivindicações sociais.
A
imprensa conservadora tende a ver as coisas de forma diferente. Em sua coluna
no jornal Milenio, o escritor e jornalista mexicano Héctor Aguilar
Camín critica a "pedagogia da violência", com a qual justamente os
professores do país dariam um exemplo vergonhoso. Ele também culpa o partido
governista Morena, que teria fortalecido deliberadamente a CNTE desde a
campanha eleitoral de 2018 para garantir o apoio eleitoral de seus membros.
¨ Federação do Irã: EUA
criam ambiente desigual na Copa ao negar vistos a membros da equipe iraniana
Os EUA
criaram um ambiente desigual e discriminatório na Copa do Mundo ao negar vistos
a membros da delegação da seleção iraniana. É o que afirmou
neste sábado (6) a Federação Iraniana de Futebol em protesto à medida
anunciada por Washington.
O veto
à concessão de vistos atinge parte da comissão técnica e membros da diretoria
da seleção iraniana.
"O
país anfitrião [EUA], por meio de seu comportamento discriminatório e
direcionado contra a seleção nacional iraniana, criou um ambiente
discriminatório e desigual, o que constitui interferência política no esporte
da pior maneira possível", disse a Federação em comunicado.
A
Federação Iraniana de Futebol também observou que a questão foi encaminhada à
FIFA, que, como ressalta o lado iraniano, é obrigada a solicitar vistos
para os demais membros da delegação iraniana.
A Copa
do Mundo de 2026 contará com 48 seleções pela primeira vez e será a primeira a
ser sediada por três
países:
EUA, Canadá e México. O torneio acontecerá de 11 de junho a 19 de julho.
De
acordo com o calendário do torneio, na fase de grupos da Copa do Mundo, os
iranianos têm jogos marcados em Inglewood, Califórnia, contra a Nova
Zelândia (15 de junho) e a Bélgica (21 de junho), e depois em Seattle contra o
Egito (26 de junho).
Fonte:
BBC News/DW Brasil

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