terça-feira, 9 de junho de 2026

Como a Copa do Mundo de futebol expõe a relação tensa entre seus três países-sede

É como chegar para um jantar no exato momento em que os anfitriões estão em meio a uma acalorada discussão.

Os torcedores que viajarem para a América do Norte, para acompanhar a Copa do Mundo 2026, irão encontrar três países-sede que passam por momentos de tensão.

O torneio será disputado em 16 cidades espalhadas pelos Estados Unidos, México e Canadá, que enfrentam um período turbulento em suas relações diplomáticas.

Os problemas atuais pareciam distantes quando os líderes dos três países se reuniram para o sorteio dos grupos da Copa do Mundo na capital americana, Washington DC, em dezembro. Eles chegaram a posar para uma selfie com o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Mas manter a mesma coesão ao longo de um torneio que irá durar 39 dias, provavelmente, será bem diferente.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem destacando sem rodeios que o seu país é a potência dominante no continente.

Isso fez com que viessem à tona as tensões bastante concretas existentes entre as três nações, em setores como o comércio, migração e tráfico de drogas, que entraram em ebulição desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025.

Por outro lado, se tudo der certo, a Copa poderá estabelecer laços mais fortes entre os três países.

<><> Tensões relativas ao comércio, ao turismo — e a Trump

O México e o Canadá são os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Mas eles não se esqueceram de que estavam entre os primeiros países a serem atingidos pelas tarifas de importação de Donald Trump.

O Canadá já havia se indignado com os repetidos comentários do presidente americano sobre transformar o país no "51° Estado" americano e respondeu com suas próprias medidas contrárias.

Províncias canadenses retiraram bebidas americanas das prateleiras e seus cidadãos reduziram consideravelmente suas viagens para o vizinho do sul, o que também acabou irritando os Estados Unidos.

Os problemas com os Estados Unidos também prejudicaram as relações entre o Canadá e o México, indica o diretor de política internacional da Universidade de Calgary, no Canadá, Carlo Dade.

O Canadá foi acusado de "trair" os mexicanos ainda antes do segundo mandato de Trump, quando autoridades americanas e canadenses acusaram o México de servir de porta de entrada para os investimentos chineses na América do Norte.

"Foi um completo desrespeito", comenta Dade.

O episódio levou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a também procurar remediar a situação com o México, enquanto tenta diversificar o comércio do país, se afastando dos Estados Unidos.

<><> Três é demais

Esta é a primeira vez que a Copa do Mundo é realizada em três países. E, como o torneio de 2026 envolve um continente inteiro, existe um enorme número de autoridades envolvidas.

Com os torcedores viajando entre as três nações para acompanhar as partidas, o reforço dos controles de imigração dos Estados Unidos pode criar dificuldades logísticas e inflamar os nervos já fragilizados das pessoas envolvidas.

E os receios americanos com a segurança, amplificados pela guerra em andamento contra o Irã, poderão trazer ainda mais frustrações e criar o potencial de que incidentes aparentemente inócuos possam escalar de forma inesperada.

"Promover conjuntamente eventos esportivos globais não é necessariamente uma receita para um relacionamento agradável entre os países-sede", afirma Lindsay Sarah Krasnoff, escritora e professora de esporte global da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

Krasnoff relembra que a Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e na Nova Zelândia, teve resultados positivos. Mas o torneio masculino de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, foi considerado um "saco de gatos" entre duas nações com um histórico longo e irregular.

"O evento não prejudicou as relações bilaterais, mas é considerado historicamente como uma espécie de empate", explica a professora.

A própria Fifa expressou grandes esperanças para este modelo.

"É um momento em que três países e todo um continente afirmam em conjunto: 'Estamos unidos para receber o mundo e oferecer a maior, melhor e mais inclusiva Copa do Mundo da Fifa já realizada", afirmou a organização dirigente do futebol mundial.

<><> Tapando o sol com a peneira?

Os líderes de cada uma das nações podem desejar fazer uso do torneio não só para mostrar que eles conseguem se dar bem com seus vizinhos, mas para desmentir os críticos sobre questões domésticas.

Este, com certeza, é o caso do México, onde reina uma certa apreensão sobre a Copa do Mundo.

Existem dúvidas sistemáticas sobre a capacidade do principal aeroporto da capital mexicana, seu saturado sistema de transporte público e o próprio Estádio Azteca, na Cidade do México, agora renovado.

Isso sem falar na presença de membros de cartéis nas ruas, poucos meses atrás, em uma exibição de violência curta, mas generalizada.

Agora, o principal sindicato dos professores promove uma greve nacional, reivindicando melhores condições de trabalho e aumento das aposentadorias. Protestos em massa ameaçam fechar as principais vias que levam aos jogos.

Seu slogan é "sem solução [para suas exigências], a bola não rola".

Mas, apesar de todas as dificuldades, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, permanece resoluta e confiante.

"Este é o momento de presenciar o melhor futebol do mundo e mostrar a todos quem somos", declarou ela no ano passado, "não só um país com imenso patrimônio cultural, mas de pessoas empoderadas."

Seria errado tapar o sol com a peneira, encobrindo os problemas enfrentados pelo México durante a preparação para a Copa, defende o jornalista esportivo mexicano Rafael Puente.

"Espero, realmente, que os torcedores mostrem paciência e bom comportamento, frente a alguns desses problemas que não podemos esconder", destaca ele.

"Só o que podemos esperar é a animação, ilusão e expectativa que o povo mexicano demonstrou no passado, particularmente sobre a participação da seleção nacional."

<><> Os objetivos do trio além do torneio

Analistas indicam que os três vizinhos da América do Norte poderão atingir outras conquistas, se conseguirem sucesso no esporte nas semanas que se aproximam.

O trio está em meio a uma difícil revisão do histórico acordo norte-americano de livre comércio, conhecido como USMCA, na sigla em inglês. Esta revisão trouxe incertezas sobre a parceria comercial do continente, mantida, de alguma forma, desde 1994.

O México já iniciou negociações formais com os Estados Unidos, o que deverá ser seguido pelo Canadá.

Os canadenses buscam fortalecer seus laços comerciais com a China, enquanto o México aumentou suas tarifas de importação sobre o país asiático.

Ambos se movimentam em direções diferentes em relação ao "aumento da importância da China como preocupação primária" no governo Trump, segundo Dade.

A Copa do Mundo oferece uma oportunidade para a diplomacia, como pudemos observar quando Trump, Carney e Sheinbaum se reuniram, sorrindo, durante o sorteio dos grupos em dezembro.

"Quando você reúne os líderes, geralmente sai algo bom", comenta Dade.

Trump se vangloria frequentemente do seu país como o "mais atraente" do mundo. Ele certamente considera a Copa do Mundo como uma oportunidade de colocar os Estados Unidos sob os holofotes mundiais.

Seu desejo de dominar os acontecimentos, seja comparecendo a eventos ou disparando postagens na rede Truth Social, pode alimentar ressentimentos entre os dois países vizinhos — e prejudicar as relações diplomáticas no continente a longo prazo.

Por outro lado, ele investiu pesadamente no sucesso do torneio e pode se esforçar ainda mais para evitar os incidentes diplomáticos que poderiam prejudicar os eventos.

O futebol é uma caixinha de surpresas, diz o velho ditado. E tão imprevisíveis quanto o próprio esporte são os possíveis resultados deste novo experimento, de reunir três países para promover uma Copa do Mundo.

"Já se sabia desde o princípio que seria muito complicado, desde a definição dos países-sede", conclui Krarsnoff.

¨      Protestos ameaçam clima de Copa do Mundo no México

Uma semana antes da partida de abertura da Copa do Mundo da Fifa na América do Norte, em 11 de junho, no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México, manifestantes ocuparam a fan zone, a área oficial destinada aos torcedores.

Já em 1º de junho, o poderoso sindicato dos professores do México, a Coordenadoria Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), convocou uma greve nacional por tempo indeterminado exigindo aumento salarial de 100% para a categoria.

Milhares de pessoas participaram de uma passeata pelo centro histórico da capital mexicana esta semana como parte dos protestos organizados pela CNTE, bloqueando ruas e promovendo tumultos. Confrontos violentos com as forças de segurança ocorreram no distrito governamental. Segundo relatos da imprensa, um grupo de manifestantes invadiu o Ministério da Educação, onde um incêndio precisou ser controlado no hall de entrada. As forças de segurança usaram gás lacrimogêneo.

Ao longo do imponente Paseo de la Reforma, manifestantes derrubaram estátuas de plástico de jogadores de futebol, com vários metros de altura, que haviam sido erguidas para a Copa do Mundo. Eles rasgaram as camisas gigantes e as queimaram em público. Nas esculturas derrubadas, os ativistas deixaram sua inconfundível mensagem: "sem solução, a bola não rola".

Para chamar atenção às suas reivindicações, os professores ocuparam a área oficial de torcedores no Zócalo, a praça central da capital.

<><> As raízes do conflito

A indignação dos professores é direcionada às políticas de educação e previdência do governo da presidente Claudia Sheinbaum. O aumento salarial de 10% prometido em maio de 2025, com previsão de entrar em vigor em setembro de 2026, foi rejeitado pela direção do sindicato por ser considerado insuficiente.

Professores efetivos do ensino fundamental no México podem ganhar quase R$ 6 mil por mês. Isso os coloca um pouco acima da média salarial nacional. O salário inicial bruto para um cargo de professor em tempo integral em uma escola primária pública no México varia atualmente entre aproximadamente R$ 2,4 mil e R$ 4,2 mil por mês, dependendo da região e da formação acadêmica.

Na realidade, muitos professores ganham consideravelmente menos devido ao trabalho em tempo parcial. Segundo o jornal El Heraldo, citando o Instituto Nacional de Estatística do México, o salário inicial médio de um professor é de apenas cerca de R$ 2 mil.

Outro sindicato de professores, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação (SNTE), impõe reivindicações salariais mais moderadas. Diante da alta da inflação, especialmente nas áreas metropolitanas, a entidade exige um aumento salarial de 13% para 2026.

<><> Copa do Mundo como alavanca estratégica

O fato de a greve estar ocorrendo na semana que antecede a Copa do Mundo não é coincidência. O SNTE explora deliberadamente a atenção internacional como forma de pressão. O México espera cerca de cinco milhões de turistas internacionais durante o torneio, que organiza juntamente com os Estados Unidos e o Canadá.

Segundo o boletim informativo Sports Business Today, espera-se que até 100 mil pessoas compareçam ao evento público no Zócalo nos dias dos jogos da seleção mexicana, No entanto, a festa está ameaçada pelo acampamento dos professores grevistas instalado no local. A Fifa inclusive já cancelou um curso de treinamento para voluntários que seria realizado na praça.

Em suas coletivas de imprensa diárias, as chamadas mañaneras, Sheinbaum acusou os grupos radicais de tentarem provocar o Estado sob os holofotes internacionais. Ao mesmo tempo, ela rejeitou impor uma repressão severa, dizendo que seu governo não "cairá na armadilha" de reprimir os protestos diante do mundo inteiro.

Em vez disso, negociações estão em andamento. O governo já rejeitou as reivindicações máximas por considerá-las "incompatíveis com o orçamento federal". Um acordo que inclua novos aumentos salariais e maiores benefícios previdenciários é considerado provável.

Enquanto isso, aumenta o descontentamento público. Empresários locais e empresas de logística já sofreram perdas econômicas estimadas em R$ 119 milhões devido a vandalismo, bloqueio de vias principais e fechamento de aeroportos. Reportagens da imprensa local e relatos nas redes sociais indicam que cidadãos comuns também se sentem cada vez mais reféns do sindicato. Alguns veículos de comunicação, principalmente de regiões do país não diretamente afetadas, relatam mais compreensão.

<><> "A pedagogia da violência"

O governo considera os distúrbios como obra de alguns grupos radicais. "Houve muitas provocações. Na verdade, não acredito que tenham sido os professores", disse Sheinbaum. A imprensa mexicana concorda parcialmente com essa interpretação e defende as manifestações como uma expressão legítima de reivindicações sociais.

A imprensa conservadora tende a ver as coisas de forma diferente. Em sua coluna no jornal Milenio, o escritor e jornalista mexicano Héctor Aguilar Camín critica a "pedagogia da violência", com a qual justamente os professores do país dariam um exemplo vergonhoso. Ele também culpa o partido governista Morena, que teria fortalecido deliberadamente a CNTE desde a campanha eleitoral de 2018 para garantir o apoio eleitoral de seus membros.

¨      Federação do Irã: EUA criam ambiente desigual na Copa ao negar vistos a membros da equipe iraniana

Os EUA criaram um ambiente desigual e discriminatório na Copa do Mundo ao negar vistos a membros da delegação da seleção iraniana. É o que afirmou neste sábado (6) a Federação Iraniana de Futebol em protesto à medida anunciada por Washington.

O veto à concessão de vistos atinge parte da comissão técnica e membros da diretoria da seleção iraniana.

"O país anfitrião [EUA], por meio de seu comportamento discriminatório e direcionado contra a seleção nacional iraniana, criou um ambiente discriminatório e desigual, o que constitui interferência política no esporte da pior maneira possível", disse a Federação em comunicado.

A Federação Iraniana de Futebol também observou que a questão foi encaminhada à FIFA, que, como ressalta o lado iraniano, é obrigada a solicitar vistos para os demais membros da delegação iraniana.

A Copa do Mundo de 2026 contará com 48 seleções pela primeira vez e será a primeira a ser sediada por três países: EUA, Canadá e México. O torneio acontecerá de 11 de junho a 19 de julho.

De acordo com o calendário do torneio, na fase de grupos da Copa do Mundo, os iranianos têm jogos marcados em Inglewood, Califórnia, contra a Nova Zelândia (15 de junho) e a Bélgica (21 de junho), e depois em Seattle contra o Egito (26 de junho).

 

Fonte: BBC News/DW Brasil

 

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