terça-feira, 9 de junho de 2026

Bets duplicam faturamento no país e devem ganhar impulso extra com Copa do Mundo

Desde que começou a operar de forma legal no país em janeiro de 2025, a indústria de bets e cassinos online cresce em faturamento, arrecadação de impostos, número de jogadores e de empresas — e deve ganhar um impulso extra com a Copa do Mundo

A expansão acontece em meio à discussão sobre endividamento da população, dependência e atuação das casas de apostas ilegais.

Dados da Receita Federal indicam que a receita das empresas de apostas online licenciadas dobrou nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025. Isso ocorreu apesar de restrições do governo e da Justiça a apostas feitas por beneficiários de programas sociais e endividados.

A arrecadação com impostos sobre apostas saltou de R$ 2,2 bilhões nos primeiros quatro meses do ano passado para R$ 4,5 bilhões em igual intervalo de 2026. O montante arrecadado neste ano já fica próximo às contribuições feitas pela indústria do tabaco e pela agricultura, que pagam cerca de R$ 1 bilhão por mês em impostos cada.

Levando em consideração que a contribuição das casas de apostas ao fisco representa 37% da receita delas, as bets tiveram uma receita de R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano.

Em 2025, o faturamento do setor foi de R$ 36,9 bilhões. O desempenho das bets está sujeito a variáveis sazonais, como finais de campeonato de futebol, e tende a avançar no meio e no fim do ano, por isso a expectativa é de forte expansão neste ano.

“É um setor que está se consolidando”, diz Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL, uma das associações de companhias de aposta.

Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas, o crescimento está relacionado à maior penetração das bets na sociedade por meio da publicidade.

A Copa do Mundo deve garantir uma fonte de receita adicional. A consultoria H2 Gambling Capital projeta aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões nos valores depositados para se fazer apostas esportivas durante o evento.

Como o faturamento do setor é calculado pelo saldo que sobra após o pagamento dos prêmios aos vencedores, o presidente da H2, Ed Birkin, diz que o ganho extra exato gerado pelo evento ainda é incerto porque dependerá diretamente dos resultados das partidas em campo.

No longo prazo, o modelo desse mercado é sustentado por cálculos estatísticos que definem o valor dos prêmios. O sistema é desenhado para garantir que, na média de milhares de palpites, o montante arrecadado com as apostas perdedoras supere o total pago aos palpites vencedores.

<><> Quem são os jogadores e as bets

Desde 2025, início do mercado regulamentado, o Ministério da Fazenda já emitiu 85 licenças para empresas de apostas — cada autorização libera a operação de três bets. São 187 sites autorizados no ar atualmente, segundo o governo.

No fim do ano passado, dez marcas concentravam 68,8% do mercado, segundo estimativas da H2 Gambling Capital. A líder é a grega Betano, com 23% da receita gerada com apostas no Brasil em 2025. As inglesas Bet365 e SportingBet, a pernambucana Esportes da Sorte, cujo dono é filho de um notório bicheiro, e a romena Superbet disputam o topo do ranking.

<><> Maiores bets do mercado brasileiro em 2025

Fonte: H2 Gambling Capital

•        Betano

23%

•        Bet365

15,1%

•        Superbet

7,3%

•        SportingBet

6,1%

•        Esportes da Sorte

•        4%

•        Blaze

3,3%

•        BetNacional

3,2%

•        EstrelaBet

2,5%

•        CassinoPix

2,3%

•        Bet7K

2%

Os maiores patrocínios do futebol nacional vêm do setor de apostas. A Betano, por exemplo, fechou um contrato com o Flamengo estimado em R$ 268,5 milhões por um período de três anos. Já a Esportes da Sorte desembolsa R$ 150 milhões, também por três temporadas, no acordo com o Corinthians.

O número total de apostadores cresceu no país no ano passado. Segundo a Fazenda, 25 milhões de CPFs fizeram apostas em 2025. No fim do primeiro semestre, eram 17 milhões.

<><> Superendividamento

Parte desses jogadores adoece e apresenta quadro de compulsão e risco de superendividamento. Um estudo epidemiológico independente sobre jogos mostra um cenário de dependência pior no Brasil do que no restante do mundo.

Publicado no ano passado com base em questionários de 2023, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) indicou que 4,4% dos apostadores vivem uma situação de “jogo problemático” — ou seja, enfrentam dependência e prejuízos significativos. A proporção, que considera toda forma de jogo, incluindo a Mega-Sena, está muito acima da média global, hoje na casa de 2%.

O governo divulgou que o gasto médio mensal por jogador em apostas online durante 2025 foi de R$ 123, valor que desconta do total depositado as premiações recebidas de volta.

<><> Para onde vai o negócio do jogo

O CEO da Ana Gaming, Marco Túlio Oliveira, que controla duas das marcas que aparecem entre as dez maiores bets (Bet7K e CassinoPix), avalia que o ritmo de crescimento dos sites de apostas deve desacelerar em relação ao que foi visto até agora. “Era um mercado que não existia e agora as empresas já se instalaram.”

Ele espera um crescimento entre 10% e 15% para este ano. “Depois, o mercado legal vai crescer como cresce a economia”, diz Oliveira.

Para continuar melhorando seus resultados, segundo o CEO da Ana Gaming, as empresas devem, além de disputar os apostadores, iniciar um processo de consolidação. A Fazenda diz que cada jogador tem, em média, conta em quatro bets.

Para Birkin, da H2 Gambling Capital, o mercado de apostas online está saturado de empresas de porte muito pequeno, que devem ir à falência ou ser compradas por uma bet maior. “Não é algo popular de se dizer, mas o fato é que existem operadores legalizados que simplesmente têm desempenho abaixo do esperado e não possuem uma estrutura boa o suficiente”, afirma o executivo.

Em meio à expansão da indústria, as bets estão no centro dos debates sobre o endividamento recorde da população, sendo alvo de críticas do próprio governo. A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) liga as dívidas das famílias a apostas. “Avaliamos que a atividade causa prejuízos a empresas e consumidores, especialmente os mais vulneráveis”, disse a entidade em nota.

O presidente do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), André Guelfi, diz que é “inveja”. “O varejo está com dificuldades porque o cobertor está curto para a família brasileira”, diz Guelfi. “Eles veem as bets fazendo publicidade e acham que estamos ganhando dinheiro, o dinheiro que eles perderam”, afirma ele, que também é executivo da multinacional Betsson.

Ele diz que o endividamento também pesa sobre as bets, já que reduz o poder de jogo. “O cobertor curto do varejo também é curto para a gente.”

<><> Clandestinidade e lobby

Apesar das cifras vultosas da indústria, a concorrência das bets clandestinas e dos mercados de previsão é o principal tópico de discussões do setor com o governo.

Segundo as bets, esses sites oferecem apostas sem pagar a licença de R$ 30 milhões e impostos, tampouco respeitam as normas de publicidade. A dispensa dos custos operacionais permite que os operadores ilícitos ofereçam prêmios mais atrativos, dizem elas.

O jogo ilegal tampouco tem mecanismo de autoexclusão, no qual o jogador tem a opção de não ter cadastros aceitos em bets, por meio de um sistema do Ministério da Fazenda.

Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo IBJR, estima que as bets clandestinas representaram algo em torno de 41% a 51% do mercado total. Nesse cenário, o naco da operação ilícita estaria entre R$ 26 bilhões e R$ 39 bilhões.

As bets também pressionaram o governo a incluir os mercados de previsão como Kalshi e Polymarket no rol das empresas ilegais. A Fazenda determinou a derrubada desses sites, no fim de abril.

Conforme o IBJR, a atividade desses sites no Brasil continua apesar das restrições. O instituto entregou uma notificação para o governo sobre o tema no dia 29.

Segundo os cálculos da H2 Gambling Capital, com base em informações do BC sobre remessas no exterior, movimentação de criptomoedas e tráfego nos sites ilícitos, o mercado clandestino movimentou R$ 16,3 bilhões em 2025. Birkin reconhece, porém, que não há número oficial para o tema.

No cenário encontrado pela consultoria, a receita das empresas com apostas, somando atividades lícitas e ilícitas, saltou de R$ 41 bilhões para R$ 51 bilhões entre 2024 e 2025, quando começou o mercado regular.

•        SUS tem teleatendimento de saúde para pessoas com vício em bets

 Pessoas que têm problemas com jogos de azar digitais, oferecidos em plataformas de apostas, as chamadas bets, já podem receber ajuda grátis por teleatendimento.

O Ministério da Saúde inaugurou o novo programa de apoio a pessoas com potencial vício em jogos. A ação é fruto de uma parceria com o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, anunciada em dezembro do ano passado.

Ela integra uma série de medidas adotadas pelo governo para conter os danos causados pela proliferação das bets desde 2019.

Segundo a pasta, a expectativa inicial é de atender 600 pacientes por mês. O acesso será regulado por meio do aplicativo Meu SUS Digital, disponível para aparelhos com Android ou iOS, ou pelo site.

Ao acessar o aplicativo, deve-se fazer login com a conta gov.br. Na página inicial, basta clicar na função “Miniapps” e selecionar a opção “Problemas com jogos de apostas?”.

O usuário passará por um autoteste com perguntas que ajudam a identificar sinais de risco. Se a classificação for moderada ou elevada, o encaminhamento é automático. Nos casos de menor risco, o aplicativo orienta a pessoa a procurar Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Unidades Básicas de Saúde (UBS).

A ação ocorre frente à alta de atendimentos por problemas com jogos. Em 2025, o SUS realizou 6.157 atendimentos presenciais relacionados às apostas, quase o dobre do número registrado em 2024, de 3.490 atendimentos.

No entendimento da pasta, esse número ainda é pequeno porque as pessoas escondem os problemas com jogos.

“Estamos introduzindo o teleatendimento, porque percebemos que, dificilmente, a pessoa com problemas relacionados a jogos de apostas procura um serviço de saúde presencialmente. Muitas vezes, há dificuldade de admitir o problema, vergonha e ainda muita estigmatização”, afirmou o ministro Alexandre Padilha durante o lançamento do programa.

Ele foi o primeiro a testar o atendimento, em uma simulação.

Segundo o órgão, o investimento é de R$ 2,5 milhões, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), programa que confere benefícios fiscais em troca de investimentos em saúde pública.

As consultas duram 45 minutos, diz a pasta. O atendimento é realizado por psicólogos, terapeutas ocupacionais e psiquiatras (quando necessário).

 

Fonte: FolhaPress

 

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