terça-feira, 9 de junho de 2026

Ana Dubeux: De novo, a nossa paixão em campo

 Eu carrego comigo uma máxima: não se mira o futuro sem olhar o passado. Não se trata de nostalgia nem de viver preso ao que já passou. Nem mesmo é de saudade que falo. É da consciência de que existe um caminho e dificilmente estaremos nele do início ao fim ou imersos da mesma maneira em todo percurso. Fiquei pensando nisso depois de assistir à série Brasil 70 — A saga do Tri, acerto da Netflix, com os excelentes Rodrigo Santoro, no papel de João Saldanha, e Bruno Mazzeo como Zagallo.

Foi como puxar um fio do novelo da infância. Lembrar das narrações pelo rádio e da transmissão em preto e branco na TV da casa da vizinha da vila que morávamos lá na Fosforita, em Peixinhos, bairro de Olinda. Entender como a ditadura pressionava dentro do campo. Viver a tensão de personagens complexos e que ainda fazem parte do imaginário coletivo brasileiro, como Pelé, Zagallo e o próprio João Saldanha, demitido às vésperas da Copa após uma declaração que repercutiu mal com os militares.

Ainda que tenham vários momentos de licença poética e recursos de dramaturgia, a série tem forte apelo na realidade, com uma cenografia de época bastante fiel e reconstituição de grandes momentos das personagens protagonistas daquele período, entre eles muitos lances dos jogos. Aproveitei o feriado de Corpus Christi para maratonar a série com minha filha Helena e minha irmã Rosa. Mais do que rever uma das maiores seleções da história, foi uma viagem afetiva entre gerações. Em 1970, Rosa tinha 17 anos e torcia por Clodoaldo, o elegante camisa 5 daquele time inesquecível. Histórias que ultrapassam o futebol e permanecem na memória das famílias.

Estamos muito mais perto do futuro agora do que estamos do passado, a apenas seis dias da estreia da Seleção Brasileira na maior Copa do Mundo de todos os tempos. Estamos com mais esperança agora do que com saudades daquela Copa de 1970, que nos rendeu o tricampeonato e da qual muitos guardam lembranças. Mas cada estrela de um campeonato mundial soma mais um pedaço à nossa história com o futebol. E é isso que alimenta essa paixão do brasileiro pela bola, passada de pais para filhos, entre gerações.

A Revista do Correio, em sua matéria de capa, hoje, traz personagens que presenciaram todas as vitórias do Brasil em Copas do Mundo, como o ex-presidente José Sarney, o empresário Celso Kaufman, o jornalista Silvestre Gorgulho e outros que ainda guardam detalhes na memória. A reportagem assinada por Giovana Kunz e Giovanna Rodrigues relembra o trágico Maracanazo, em 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai, e o sentimento que cresceu a partir daí — uma tristeza na mesma proporção que a alegria irrompida em 1958, o primeiro título. Desde então, somos essa paixão, que nos define e nos faz vibrar no coletivo, muito mais do que em qualquer outra causa.

Nas últimas cinco Copas do Mundo, o Brasil se retirou da competição — uma vez numa semifinal e as demais nas quartas de final, incluindo a traumática goleada da Alemanha em solo brasileiro. Temos aquele grito preso na garganta há 20 anos. É um ano complexo, sem ressaca de pandemia, mas com uma campanha eleitoral em curso, em que o até o Pix, um símbolo da eficiência nacional, é vítima de artifícios de negacionistas para ludibriar a verdade. Que Zelle que nada, minha gente!  Ariano Suassuna já dizia: eu não troco o meu oxente pelo ok de ninguém. Há coisas que são inegociáveis.

•        A Copa pune os convictos

Sabe aquela canção Samba de uma nota só do Tom Jobim? É uma lindíssima bossa, mas não pode servir de trilha sonora para a Seleção. A Copa costuma punir o apego a uma fórmula. Por mais que Carlo Ancelotti esteja convicto do sistema tático com quatro atacantes, o campo pede alternativas a uma semana da estreia contra Marrocos, no próximo dia 13, às 19h, no MetLife Stadium, e elas começarão a ser dadas hoje no duelo com o Egito.

O sistema predileto do Ancelotti exige recomposição do ponta Luiz Henrique e do falso 10 Matheus Cunha. Vinicius Junior e Raphinha não entregam 100% de transpiração e dão brecha às mudanças. Sobrou para Luiz Henrique.

Ancelotti experimentará um sistema com três homens no meio de campo: Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Poderia ser Danilo do Botafogo. Está jogando muito no clube e na Seleção!

A minha impressão na primeira semana de treinos aqui em Nova ersey, nos Estados Unidos, é de que o vestiário dialoga com Ancelotti. Jogadores marcados por eliminações, como Alisson, Marquinhos, Danilo, Alex Sandro e Casemiro, trocam ideias com ele entre a esbaforação de um charuto e outro. A falta de variação, o samba de uma nota só, tem sido vilão nas eliminações em série nas quartas de final.

Em 2006, Parreira era refém do quadrado mágico. Não desapegava de Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Havia clamor pela entrada de Juninho Pernambucano no meio de campo em troca de estabilidade tática. Parreira sacou o Imperador nas quartas de final, mas aquela formação não tinha entrosamento suficiente para enfrentar a França.

Quatro anos depois, Dunga pagou caro pela avareza. Não renunciava a Elano, Kaká, Luis Fabiano e Robinho. Pior: convocou um banco de reservas frágil. Bastou Elano sofrer lesão e Ramires cumprir suspensão nas quartas de final para o capitão do tetra se embaralhar contra a Holanda. Daniel Alves entrou improvisado no meio de campo na queda diante da Holanda.

Tite achou o time cedo em meio ao ciclo para a Copa de 2018. Ostentava um time que deu certo desde o primeiro dia de trabalho e o repetiu a exaustão. Quando a Copa chegou, Daniel Alves se machucou e ficou fora da convocação. Renato Augusto desembarcou na Rússia lesionado e mexeu no tabuleiro tático. Quem entrou não correspondeu e Tite viu a dependência de Daniel Alves e Renato Augusto exposta.

Quatro anos mais tarde, havia um apego pelo quarteto formado por Raphinha, Neymar, Vinicius Junior e Richarlison. Em vez de fortalecer o meio de campo contra uma Croácia liderada por Modric, manteve a postura ofensiva até quando vencia por 1 x 0 e sofreu gol de contra-ataque.

A necessidade ensina a mudar. Romário e Bebeto levaram o Brasil ao título da Copa América em 1989. Um ano depois, o ataque na Copa era Müller e Careca. Parreira tinha Raí como camisa 10 intocável. O meia perdeu a posição para Mazinho em 1994. Juninho Paulista iniciou o Mundial de 2002 titular e Kleberson ganhou a posição. O convicto Ancelotti ao menos está ouvindo...

Seleção Brasileira é refém da geração nascida em 1991/92

A convocação da Seleção para a Copa  é um convite ao desapego. O Almirante de Esquadra Carlo Ancelotti vive um dilema: continuar refém da geração nascida em 1991/1992; ou desatracar do Pier Mauá e singrar o mar bravio, rumo à América do Norte, com marinheiros de primeira viagem talentosos, com ambição de acumular milhas em 2026 e brilhar na edição centenária de 2030?

Explico. As últimas grandes conquistas do Brasil nos torneios de base da Fifa foram no Sub-20. Sob o comando de Ney Franco, talentos como Neymar, Danilo, Casemiro, Alex Sandro, Lucas Moura e Oscar ganharam o Sul-Americano de 2011 no Peru. No mesmo ano, brindaram o país com o Mundial na Colômbia. Detalhe: sem Neymar e Lucas. Santos e São Paulo não autorizaram.

Em contrapartida, o Vasco cedeu Philippe Coutinho. A prova de força daquela geração fez sonhar que o hexa estava semeado. A Copa de 2026 é a última chance.

Ícone daquela geração, Neymar levou o Brasil às semifinais em 2014. Não enfrentou a Alemanha no 7 x 1 por causa da contusão na costela contra a Colômbia. Caiu nas quartas em 2018 contra a Bélgica e nas semifinais no duelo com a Croácia em 2022.

Neymar é o maior enigma da lista de 2026. Cravo que será chamado! Se não for, a geração de 1991/1992 continuará representada no mínimo por outros três ou quatro símbolos: Casemiro, Danilo, Alex Sandro e Alisson. O goleiro não fez parte das conquistas de 2011 na base, mas é contemporâneo daquela geração. Jogou o Mundial Sub-17 da Nigéria com Neymar, Philippe Coutinho e Casemiro em 2009. A Seleção de Lucho Nizzo caiu na primeira fase.

Há quem defenda o desapego desde o início do ciclo em 2023, ou seja, uma troca de guarda entre a geração de 1991/1992 por outra que pede passagem, mas não é cascuda como a anterior, que tem o corpo marcado por três eliminações. Uma delas, o 7 x 1.

O brasiliense Endrick apostou no empréstimo ao Lyon para abandonar o banco do Real Madrid, jogar, ter sequência, fazer gols e convencer Carlo Ancelotti a convocá-lo para a Copa. Rayan desabrocha no Bournemouth da Inglaterra. Wesley supera as expectativas na Roma até como lateral-esquerdo. Danilo vive uma fase exuberante no Botafogo. Andrey Santos e João Gomes se valorizam. Matheus Cunha ajudou o Manchester United a se classificar para a Liga dos Campeões. João Pedro ouviu na chegada ao Chelsea que não entregaria 20 gols na temporada e responde ao crítico Enzo Maresca na bola. Soma 20 gols em 50 jogos em 2025/2026. Igor Thiago é vice-artilheiro da Premier League pelo Brentford com 22 gols, a quatro do fora de série Haaland (26). Luiz Henrique é um trator no Zenit São Petersburgo. Infelizmente, Estêvão, artilheiro da era Ancelotti com cinco gols, está lesionado. Fora da pré-lista.

A nova safra se uniria a fuzileiros navais amadurecidos como Vinicius Junior, Raphinha, Antony, Bruno Guimarães, Paquetá, Richarlison, Pedro, Rodrygo e Éder Militão. Os últimos dois foram operados e estão fora até da pré-lista de 55 nomes.

Carlo Ancelotti não romperá com a geração de 1991/92. É mais um refém dela e, possivelmente, de Thiago Silva (1984). O italiano pode se pautar por medalhistas de ouro nos Jogos do Rio-2016 (Marquinhos, Neymar e Gabriel Jesus) e de Tóquio-2020 (Bruno Guimarães, Martinelli, Richarlison, Antony, Matheus Cunha); e deverá ser seletíssimo na escolha dos marinheiros de primeira viagem. Aviso aos navegantes: muitos candidatos a calouros ficarão no porto, à espera da "Expedição 2030".

•        A Copa é o espelho do mundo

Antes de a bola rolar, todos os jogadores, titulares e reservas, formarão um círculo no centro do gramado na execução dos hinos nacionais em uma das inovações da Fifa. Por alguns minutos, não haverá ataque nem defesa, adversários nem fronteiras. Apenas um planeta reunido em torno da bola. A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. Desde 1930, funciona como espelho do tempo — e, em 2026, essa condição é mais evidente. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o título em um formato expandido, distribuído em três sedes: Estados Unidos, México e Canadá. Serão 1.248 jogadores, 104 partidas em 39 dias, em uma engrenagem logística e tecnológica sem precedentes.

Mas o futebol chega a esse cenário em um mundo tensionado. A Rússia segue sob sanção em razão da guerra contra a Ucrânia. O Irã entra em campo em meio a uma relação de hostilidade com os EUA, principal sede do torneio, cujo presidente, Donald Trump, recebeu da Fifa o Prêmio da Paz no sorteio dos grupos. Os anfitriões simbolizam as contradições: falam em integração continental enquanto enfrentam debates intensos sobre imigração na fronteira mexicano-americana e insinuações políticas sobre uma eventual anexação do Canadá, além das investidas expansionistas pela América do Sul e Caribe.

Se a política revela fraturas, o futebol expõe mudanças estruturais. A expansão do Mundial redesenha o mapa do evento. Nunca houve presença tão ampla dos países de maioria muçulmana. De Marrocos a Uzbequistão, de Senegal a Jordânia, de Argélia a Iraque, o torneio representa com mais fidelidade a diversidade cultural e religiosa. Nessa nova ordem, o contraste chama atenção: enquanto essa ampliação se consolida, Israel, por exemplo, segue deslocado: disputa as Eliminatórias pela Europa. Ausente de uma Copa desde 1970.

Novas histórias emergem nessa transformação. Ex-Zaire, a República Democrática do Congo volta à Copa após 52 anos em meio à crise causada pelo surto de ebola e desembarca em países que também enfrentam problemas sanitários, sobretudo em razão do aumento de casos de sarampo. Cabo Verde e Curaçao simbolizam a abertura de horizontes antes improváveis. O Mundial vira espaço de inclusão e de reconstrução no cenário global, caso do Haiti.

Nem mesmo as grandes potências passam imunes às mudanças. Tetracampeã, a Itália está fora da Copa pela terceira vez consecutiva, em uma decadência no Mundial sem precedentes. O pentacampeão Brasil, único país presente em todas as edições, e maior campeão do torneio, chega atravessado por divisões internas que ultrapassam o futebol. A polarização política entre bolsonaristas e lulistas impacta a Seleção. Neymar tornou-se, ao mesmo tempo, símbolo, debate e divergência em um país que raramente separa campo e contexto.

Há, ainda, um elemento inevitável de passagem do bastão. A Copa de 2026 marca as despedidas de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Manuel Neuer e Neymar. Encerramento simbólico de um período que viralizou ainda mais o futebol na era das redes sociais e marca a transição para a inteligência artificial.

Por isso, a Copa de 2026 vai além da disputa pelo título. Ela reúne conflitos e encontros, fronteiras e conexões, tecnologia e tradição, despedidas e começos. Expõe um mundo simultaneamente mais conectado e mais fragmentado.

O círculo dos hinos nacionais no novo protocolo da Fifa dura apenas alguns minutos. Mas, talvez, nenhuma imagem traduza melhor a Copa do Mundo de 2026: um planeta cheio de diferenças, conflitos e interesses divergentes que, por algumas semanas, aceita ocupar o mesmo espaço. E compartilhar o mesmo olhar.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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