A
questão urbana em 2026
O ano
de 2026 se desenha como um momento histórico desprovido de presente. O Brasil
caminha para um confronto eleitoral que é, ao mesmo tempo, repetição e promessa
de ruptura. Duas forças antagônicas – o lulismo e o bolsonarismo – medirão
forças em condições de virtual empate, restando uma fina película de
aproximadamente 5% do eleitorado ainda indeciso. Esse fragmento, aparentemente
residual, carrega o destino da nação. Sua oscilação, porém, não se explica
apenas por indecisão programática. O que está em jogo é um fenômeno mais
paradoxal e corrosivo: a metamorfose do progresso social em experiência de
fracasso.
As
camadas populares deveriam ser a base natural de um projeto que reconhecem como
seu. Os indicadores macroeconômicos recentes oferecem um cardápio que, no
passado, selaria o voto de esperança: pleno emprego, renda em lenta, mas
consistente ascensão, crescimento econômico ainda que modesto, políticas
redistributivas de impacto direto – como a isenção ampliada do Imposto de Renda
para quem ganha até cinco mil reais e a capilaridade de programas de renda
mínima.
Há um
Estado que, sob a liderança de Lula, sinaliza com concretude para os de baixo.
No entanto, esse mesmo eleitor vive uma experiência subjetiva que inviabiliza a
tradução automática da política em adesão eleitoral.
O
paradoxo reside na sensação de mobilidade social descendente que coexiste com a
melhora dos números. É a frustração que nasce do endividamento perene, dos
salários que, mesmo crescendo na média, são insuficientes para realizar as
expectativas de consumo que o mercado digital inculca. Mas o mal-estar popular
não se esgota na economia doméstica; ele transborda para a experiência brutal
do território.
A
geladeira cheia já não basta quando, para sair de casa, enfrenta-se o medo do
celular roubado, da bala perdida ou a extorsão silenciosa do crime organizado
infiltrado no cotidiano. O que dói não é apenas a parcela do carro ou da moto
que não se consegue pagar, mas a tarifa do ônibus que devora o orçamento, o
esgoto a céu aberto na porta de casa, a habitação precária que ameaça desabar
na primeira chuva forte.
A
repetição de desastres climáticos urbanos – enchentes, deslizamentos, calor
extremo – deixa de ser exceção para se tornar um calendário trágico,
consequência de um aquecimento global que atinge primeiro e com mais fúria quem
vive nas áreas urbanas precárias. O presente é vivido como uma corrida em que a
linha de chegada se afasta mais rápido do que as pernas podem correr, e onde o
próprio chão sob os pés se desfaz.
Essa
experiência configura um terreno fértil para a narrativa da antipolítica, para
o discurso que culpa o sistema sem jamais nomear os mecanismos reais que drenam
a vida. É precisamente aqui que a intervenção de instituições como o
Observatório das Metrópoles ganha sua razão de ser –, mas apenas se ousar ir
além do diagnóstico. Não basta mapear desigualdades urbanas se não politizarmos
a questão. O verdadeiro salto político consiste em difundir conhecimento que
permita às camadas populares nomearem o seu verdadeiro inimigo. Enquanto o
debate público permanecer capturado pela polarização entre personagens, o
eleitor indeciso oscilará entre um passado idealizado e um futuro ameaçador,
sem jamais enxergar a estrutura que o aprisiona.
Nomear
o inimigo é desvelar as forças do rentismo financeiro e sua capacidade de
exploração que sequestra tanto as finanças populares quanto o próprio Estado. É
mostrar que a drenagem de recursos via juros abusivos, a financeirização da
moradia, o endividamento como modo de vida e a canalização de fundos públicos
para a remuneração de ativos financeiros constituem a arquitetura real da
frustração. O trabalhador que vê seu salário evaporar no crédito rotativo, a
família que compromete décadas com uma prestação imobiliária inflada, o
microempreendedor sufocado por taxas: todos partilham um mesmo adversário que
opera com nome falso na cena política.
O
rentismo não é uma abstração econômica; é o síndico que superfatura, o banco
que multiplica o principal na renegociação da dívida, o fundo imobiliário que
expulsa o pobre das áreas valorizadas. É também o capital imobiliário que, por
meio de aluguéis de curta temporada via Airbnb, aspira a moradia permanente e
infla artificialmente os preços, convertendo bairros inteiros em territórios de
ostentação do seu poder. Sob a maquiagem do UrbanLuxo – os
condomínios-blindagem que privatizam a paisagem — ou do AgroLuxo – as vitrines
do agronegócio que transformam a terra em grife –, essas forças erguem
cidades-espetáculo para poucos, enquanto a maioria é empurrada para periferias
cada vez mais distantes e precárias.
A
fração indecisa do eleitorado, portanto, não está simplesmente entre Lula e o
bolsonarismo como figuras; está entre a esperança de que o bem-estar prometido
se realize e a revolta que a vida concreta gera. O bolsonarismo, com sua
gramática moralizante e sua promessa de ordem que pune os “de baixo” em nome
dos “de bem”, oferece um alvo fácil e falso. O lulismo oferece um projeto que,
para ser percebido como tal, precisa fazer sentido na vida cotidiana. E a vida
cotidiana, hoje, é mediada por um território urbano extrativo, onde o rentismo
opera sem rosto.
É
preciso, então, explicar às camadas populares que políticas como a isenção do
Imposto de Renda para parcela da classe trabalhadora, a renegociação de dívidas
com juros baixos, o Pé de Meia, o Gás do Povo, a volta do Minha Casa Minha Vida
e a ampliação do Farmácia Popular as beneficiam diretamente. Mas no cotidiano
das pessoas os assuntos mais preocupantes são os preços dos alimentos, a falta
de segurança e a corrupção – e, graças à despolitização, a culpa de tudo acaba
atribuída ao Governo Federal.
As
camadas populares não conseguem distinguir as atribuições de cada ente
federativo, nem compreendem a divisão de poderes entre judiciário, legislativo
e executivo. Cabe a nós, estudiosos da realidade urbana, fazer os devidos
esclarecimentos. O alto custo dos alimentos é consequência de uma lógica
rentista agroexportadora que prioriza o mercado externo em busca de lucros
maiores. A corrupção e os desvios do INSS começaram no governo de Michel Temer,
continuaram no governo de Jair Bolsonaro e vieram à tona com Lula, que
determinou as apurações.
Os
rombos do Banco Master nada têm a ver com o governo federal, mas podem ter
ligações com parlamentares e governos estaduais e municipais. A segurança
pública, constitucionalmente de responsabilidade dos governos estaduais, acaba,
de forma interessada, sendo atribuída ao governo federal, inclusive por alguns
governadores.
Entre
os dois projetos em disputa em 2026, um lado está no ataque, atribuindo ao
atual governo tudo de ruim que existe; o outro, o do governo, coloca-se na
defensiva e, mesmo composto por variadas forças políticas, tem enorme
dificuldade de se comunicar com a população.
As
forças democráticas e populares só conseguirão vencer esse impasse –
transformando este “momento sem presente” em um novo ciclo de esperança – se
forem capazes de conectar a política da redistribuição com uma política de
nomeação clara do adversário. O Observatório das Metrópoles e outros atores do
pensamento crítico têm diante de si a tarefa histórica de traduzir dados em
narrativa, conhecimento em politização, para formadores de opinião e para o
público em geral. Não se trata apenas de mostrar que a cidade é desigual, mas
de evidenciar quem promove e lucra com essa desigualdade.
Para
além de esclarecer o que está em disputa, é preciso fazer com que as camadas
populares entendam em qual faixa da sociedade se localizam. As forças rentistas
comunicam-se muito bem com as massas: penetram em seu universo particular,
transformam os objetos de desejo do cidadão mais humilde e o fazem sonhar com
uma grandeza que jamais alcançará.
Ao
assumir o pensamento de que quanto mais trabalhar, mais chance tem de crescer,
o trabalhador amplia, sem se dar conta, as rendas de quem está no comando do
processo. A exploração que ele sofre jamais o deixará sair dessa posição, mas
ele “caminha para a morte” sonhando em um dia fazer parte do agro, do luxo ou
do seleto grupo da Faria Lima. Desmontar essa armadilha ideológica é, em 2026,
a condição de qualquer projeto emancipatório.
Fonte:
Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Marcos Bittar Haddad, em A Terra é Redonda

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